Meio dia
- Atualizado em 04/08/2017 14:09
Paula Vigneron
Mãos e pernas balançam pelas ruas horas após o amanhecer. Os olhos acompanham ritmos distintos. Pessoas mergulhadas em pensamentos. Uma mulher passa na calçada, calada e séria. Caminha enquanto coça o rosto. Não se perturba com os carros correndo. Mais à frente, policiais em uma viatura se alternam entre distrações e patrulhamentos.
Minutos antes, na esquina, um homem, em sua cadeira de rodas, observava os transeuntes. Ao avistar outro, alto e forte, brinca: “você é grande, mas não é dois”. A seriedade é quebrada momentaneamente pela sagaz ousadia do rapaz. Risadas provêm dele e de quem ouve a brincadeira. A normalidade volta à cena em seguida.
Os assuntos são permeados pelas pautas jornalísticas. Política tem sido alvo de debates vãos. Ninguém se entende. Ninguém entende. Todos respiram apatia. Servidores públicos reunidos na sede de uma universidade estadual lamentam os descasos do governo. “O Estado, hoje, instituiu a escravidão”, afirmou uma trabalhadora. Há tempos, passa por dificuldade junto aos seus parceiros de profissão. Lutam para serem ouvidos enquanto se organizam para a distribuição de cestas básicas que auxiliam colegas desamparados pelo poder público.
A despeito deles, à beira de uma rodovia que corta o município, outros trabalhadores prosseguem em seus papéis. Varrem, cuidam de jardins e plantas e, vez ou outra, param para analisar veículos e rostos em movimento e enxugam as primeiras gotas de suor e traços de desânimo. Todos parecem cansados.
O trânsito conturbado. O rádio saudando os ouvintes. Pedestres atravessando as ruas, com seus cigarros, celulares e sono. Conversas paralelas. Um idoso, seguro com sua bengala, conta causos a um rapaz uniformizado. Um cachorro preto caminha, calmamente, entre pequenos e grandes veículos na descida de uma ponte. Velocidades reduzidas para aguardar o passante.
Entre cobranças e desgastes cotidianos, pouca ou nenhuma compreensão; entre casas, carros, motos, homens, mulheres e crianças, os semblantes perdidos; entre medos e dúvidas; nós. E nós? Pelos alto-falantes, ecoam as vozes de Milton e Elis, respostas e lembretes à consciência: “nem vá dormir como pedra e esquecer o que foi feito de nós”.

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