Filme com roteiro inédito de Bergman será lançado em 2018
28/10/2016 | 20h28
[caption id="attachment_199" align="aligncenter" width="407"]Ingmar Bergman 1965 Regissör chef för Dramaten Stockholm Diretor sueco Ingmar Bergman nos anos 60[/caption] Após nove anos da morte do diretor Ingmar Bergman (“O sétimo selo”, “Gritos e sussurros”. “Persona”, “Sonata de Outono”), um roteiro inédito do sueco foi encontrado e será filmado pela cineasta Suzanne Osten, artista que se opunha às ideias do conterrâneo. A informação em primeira mão foi divulgada pelo jornal “Dagens Nyheter”. O script resultaria em um projeto, não realizado, de Bergman, do italiano Federico Fellini e do japonês Akira Kurosawa, diretores mortos na década de 90. “Sessenta e quatro minutos com Rebecka” foi escrito no final dos anos 60. O roteiro foi guardado no início dos anos 2000, quando Bergman doou sua coleção a uma fundação que cuida de sua obra. Inicialmente, a história estreará como peça de rádio, em novembro. A previsão de lançamento do filme é 2018, ano do centenário de Bergman.   Fonte: Folha de São Paulo
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As ruas da cidade
26/10/2016 | 13h48
Vozes ecoavam no Centro.
Naquele dia, havia acabado mais cedo as atividades no trabalho. Era um dia chuvoso, exatamente como gostava. Sentia prazer ao admirar o cenário acinzentado que dominava o ambiente. Resolvera caminhar pelas ruas. Há tempos, não olhava os rostos. Há tempos, não ouvia os tons. Eles dominavam o seu imaginário, mas pareciam cada vez mais afastados de sua realidade.
Andava vagarosamente pelas vias e vielas que se conectavam, tomadas por pés, pernas e passos estranhos e conhecidos.
Às vésperas do Natal, observava as lojas da área central. Roupas, bolsas, sapatos, sacolas de compras, pessoas felizes com suas aquisições. Crianças, adolescentes, adultos e idosos. Todos pareciam estar em perfeita harmonia. Típico clima festivo e fugaz. Entrava em diversos estabelecimentos comerciais. Parava em frente a livrarias. Adorava comprar e ganhar livros. Gostava, também, de DVDs e CDs. Anacrônica. Foi em busca de locais que pudessem vendê-los. Queria apenas ver. Pensava em aproveitar o tempo livre para isso.
Neste ano, tinha outras prioridades. Um ano de surpresas. Desejava presentear os que chegaram há pouco tempo e os que faziam parte da sua história desde o primeiro dia de sua vida. Com os dedos no bolso, movimentando-se à medida que andava, seguia pelas ruas da cidade. Histórias e memórias, suas e de outrem, faziam parte do trajeto. Via-se pequena, de mãos dadas com a mãe, passeando. Branquinha, gordinha e capaz de atrair olhares atentos e curiosos de pessoas que, geralmente, paravam para elogiar, “que lindinha”, e, em seguida, apertar a sua bochecha. A reação da então menina era de chateação. Dizia a todos que o gesto a incomodava. Doía.
Passos à frente. Uma lanchonete, conhecida por vender produtos naturais, era parte do percurso da infância. Comprava, junto à mãe, salgados. Um, ela comia no local. Os outros, distribuídos em pacotes, a garotinha levava para casa, onde se deliciaria nas tardes de chuva e sol; férias e aula; sob cobertores ou dentro da piscina. Caminhava pelas ruas, agora, com os dedos entrelaçados com suas vivências infantis e adolescentes. Por ali, onde fora feliz e triste, também havia se questionado sobre muitas coisas. Certas manhãs e tardes, ela abria mão de alguns minutos do seu dia para colocar o corpo em movimento e abafar os pensamentos incontroláveis.
Fones de ouvido. Músicas no volume máximo. Analisava expressões. Pensava no que carregavam aquelas pessoas. Que verdades seriam as destes homens e mulheres? Era uma tentativa de lançar suas dúvidas e medos para outro plano. Por breves minutos, alcançava o seu intento. Apesar das necessidades de manter-se afastada, o relógio controlava seu tempo. Logo, tinha que retomar a rotina.
Ainda pelas ruas, olhava para trás e se recordava do passado. Hoje, sentia-se alegre por não ser obrigada a se esquivar. Pela primeira vez, estava em paz consigo mesma. Na Praça São Salvador, coração de Campos, continuou a peregrinação por diferentes lojas. Era Natal, pensava, e queria agradar àqueles que amava. Pesquisou preços e presentes, enquanto as ideias se perdiam. Olhava. Procurava. Desejava localizar algo, mas não sabia exatamente o quê. E, agora, não havia importância.
Parou sob o céu acinzentado. Os primeiros sinais de chuva apareciam delicadamente. O coração parecia alentado à medida que as nuvens seguiam seu tradicional fluxo. Era uma das imagens de que mais gostava. Resolvera voltar ao ponto de partida. Mãos nos bolsos e sempre em movimento. Companheiras de devaneios. Retomou o caminho de origem. Ao passar pela praça central, escutou uma voz.
“Moça.”
Mesmo sem especificar a quem se referia, sabia que era ela a chamada.
“Moça.”
Persistente. Não queria olhar para trás, embora soubesse exatamente a localização do som.
Mas será que a voz se dirigia a ela?
“Moça com a blusa da Janis Joplin!”
Não teve mais dúvidas. Usava a camisa, uma das que mais gostava. Não havia outra ao redor. Neste momento, o grito era distante. Distantes, também, eram seus pensamentos. Parte dela ficara presa àquela voz desconhecida que a fez passear interiormente por caminhos alternativos, encontrando possíveis diálogos amigáveis. Ou desconexos. Ou troca de palavras educadas. Ou apenas um aceno.
“Desculpe, moço, pelo mau jeito. Um dia, a gente se esbarra.”
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Persona — o exercício do pecado
20/10/2016 | 19h53
[caption id="attachment_189" align="aligncenter" width="493"] Liv Ullmann e Bibi Andersson em cena de "Persona", do diretor sueco Ingmar Bergman[/caption]   Em uma ilha, duas mulheres, antes desconhecidas, convivem e revivem histórias e segredos. Vindas de um hospital, as estranhas abrem-se uma a outra. Cada qual a seu modo. Uma permanece em silêncio. A outra conduz o relacionamento unilateral com palavras nunca ditas antes. As personagens se conheceram durante a internação da atriz Elizabeth Vogler, interpretada por Liv Ullmann, que, durante três meses, ficou em absoluto silêncio. Após problemas na apresentação do espetáculo “Electra”, quando perdeu a voz no palco, Elizabeth isola-se do mundo em sua quietude. Internada, mas sem danos mentais ou físicos, ela recebe o conselho de uma psiquiatra, que compreende o seu novo modo de vida e os motivos que a levaram a segui-lo, e se muda, com a enfermeira Alma, personagem de Bibi Andersson, para a casa de praia de médica, em uma ilha. Em português, “Persona” foi batizado como “Quando duas mulheres pecam”. Nas primeiras cenas do filme, Alma, em uma tentativa de se aproximar de Elizabeth, discorre sobre sua vida, ideal à primeira vista: enfermeira formada há poucos anos, casada e apaixonada pelo marido. O convívio íntimo, já na ilha, no entanto, faz com que a perfeição de sua história seja desconstruída por meio de relatos mantidos, até o momento, em segredo. O pecado do título, então, refere-se às verdades contadas pela mulher, que afirma que o amor acontece somente uma vez e, por isso, ela deve ser fiel ao marido e ao suposto sentimento nutrido por ele. Com o passar dos dias, a relação se torna mais forte. Alma começa a se comunicar, à sua maneira, com Elizabeth, que responde com pequenas reações faciais e corporais. À medida que dividem as horas do dia, entre cigarros, bebidas e revelações, as identidades das mulheres parecem se fundir diante do espectador. Em uma sequência, à noite, Alma tenta dormir quando Elizabeth invade o seu quarto. Nela, com movimentos uniformes, roupas e expressões semelhantes, elas têm uma atípica troca, simbolizando a fusão entre ambas. As transferências das personagens – propositalmente confusas – são mais visíveis em cenas finais, principalmente durante a aparição do senhor Vogler (Gunnar Björnstrand). “É tudo mentira e imitação”, vocifera a então perturbada enfermeira. O ato de revelar o interior leva Alma a um estado de angústia que a diferencia da Alma do início da história, cuja aparência transparecia leveza. As mudanças de comportamento ficam mais intensas após a enfermeira ler, à revelia de Elizabeth, uma carta da atriz enviada à psiquiatra. Ela lhe conta os segredos revelados pela companheira e afirma que é ótimo poder analisá-la. A quietude da artista torna-se insuportável para a parceira. Somente quando ameaçada, Vogler diz uma das únicas frases proferidas por Liv Ullmann em “Persona”: “não faça isso”. Um susto. Um pedido desesperado. Um chamado à realidade. Certas passagens do filme mostram que Elizabeth e Alma se tornam o inferno da outra; o enfrentamento com os piores medos, verdades e fatos sobre suas respectivas vidas; a impossibilidade de negação, que era possível até o encontro das personagens. A transição violenta entre fatos e imaginação. Proposital, a opção por apenas observar a realidade e as pessoas que dela fazem parte provém da dificuldade de se encaixar no mundo em que vive. Em contato com a psiquiatra, Elizabeth ouve da mulher as verdades que geraram seu novo modo vida: o conflito entre se mostrar e se esconder; entre ser e parecer. Em resposta, por escrito, a concordância: “Eu viveria assim para sempre. Em silêncio, vivendo uma vida reclusa, com poucas necessidades, sentindo minha alma finalmente se acalmar”. Em seu primeiro filme com o diretor sueco Ingmar Bergman, ao lado da já consagrada Bibi Andersson (com mais uma atuação magistral), Liv Ullmann traduz toda a carga de emoção da personagem – uma das características do cinema produzido pelo homem, sempre relacionado aos mais complexos e profundos sentimentos. Em um monólogo, Liv, norueguesa de então 25 anos, escuta os segredos de Alma. Apenas escuta. Silencia em todos os momentos, fazendo com que a mulher tenha a oportunidade de, sozinha, conhecer a si mesma em um quase exercício socrático. O método é aplicado, também, à atriz, quando ela se depara com seus próprios demônios interiores.  
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As faces de Clarice Falcão
13/10/2016 | 19h33
[caption id="attachment_179" align="aligncenter" width="485"]Foto: reprodução/Facebook Foto: reprodução/Facebook[/caption]   Fortuitos encontros (e desencontros) diários, muitas vezes, servem como empurrão para que tenhamos a oportunidade de conhecer novas produções do mundo artístico, em suas mais diversas formas. Música, livros, teatro, cinema. Com as notícias divulgadas sobre a área de cultura, é possível ter acesso a inúmeros trabalhos que têm sido publicados, tanto nacional quanto internacionalmente. Mas, cá para nós, os brasileiros causam mais encanto quando comparados aos que vêm de fora. Olhar para si, para seu povo, sua arte e formação faz com que o indivíduo tenha maior sensibilidade para compreender e admirar (e também criticar, com base) o que é produzido no país em que nasceu. Entre algumas das boas novas surgidas há relativamente pouco tempo, uma das que mais aparece na mídia é Clarice Falcão, que, com suas peculiaridades, compõe canções que despertam a curiosidade dos consumidores mais jovens. E, apesar do lado irônico predominante, a artista tem o aspecto dramático, que é pouco explorado. Também atriz e humorista, Clarice, filha da escritora e roteirista Adriana Falcão e do diretor João Falcão, ganhou destaque após participar do canal Porta dos Fundos, no YouTube. Os vídeos, de curta-metragem, têm visibilidade devido à exploração de um tipo de humor que não se enquadra na televisão brasileira. Por isso, a opção pela plataforma alternativa. A artista fez parte do grupo por alguns anos, mas se desligou em 2015 para, segunda ela, cuidar da carreira musical. Recentemente, ela lançou “Problema Meu”, o segundo álbum de sua carreira. Ácido, doentio e cômico: três termos que definem as composições do CD. Entre as 14 músicas, o ouvinte encontrará lamentos e ameaças relacionadas a abandonos em um bar; confidências de uma mulher para a ex do namorado, com quem divide angústias e histórias; desejos de vingança transmitidos em uma composição feita pelo pai, João; e autocrítica irônica sobre sua própria produção. Embora sua carreira esteja mais vinculada ao lado humorístico-sarcástico, o primeiro produto artístico em que Clarice se destacou – e que lhe rendeu prêmios, inclusive no concurso Project: Direct, realizado pelo Google e promovido pelo YouTube – foi o curta-metragem “Laços”, com roteiro de Adriana, sua mãe, e direção de Flávia Lacerda. Lançado em 2007, o vídeo acompanha o trajeto de uma menina pelas ruas. Perdida após fugir do funeral do pai, ela encontra um rapaz desconhecido que tenta compreender o motivo do choro da garota e animá-la. Enquanto pede ajuda com a gravata, ele fala sobre a força de vínculos e sentimentos que unem os seres humanos, dando à personagem novas formas de encarar a vida, com surpresas diante de descobertas. Em cena, Clarice, ainda um rosto desconhecido, transmite emoções que se tornariam incomuns em sua futura carreira, abrindo mão da ironia característica e fortalecendo a ideia de que, apesar de optar por determinado estilo, o artista deve portar e saber usar suas múltiplas faces.   https://www.youtube.com/watch?v=gl74J-aAnfg  
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ONG Orquestrando a Vida pede apoio nas ruas
07/10/2016 | 16h38
[caption id="attachment_167" align="aligncenter" width="517"]Jony William Maestro Jony William busca apoio para a ONG (Foto: página do músico)[/caption]   Há cerca de um mês, alunos e professores da ONG Orquestrando a Vida trocam os palcos pelo asfalto. Nos sinais localizados em pontos estratégicos de Campos, os músicos alternam apresentações e vendas de DVD com concertos do grupo. Com 20 anos de história, o projeto passa por dificuldades financeiras devido à falta de apoio público e da iniciativa privada. Para manter aberta a ONG, os artistas contam com o apoio da população. O maestro Jony William, um dos fundadores da Orquestrando a Vida, conversou com a Folha da Manhã sobre o novo meio de sobrevivência e o projeto. Em um trecho da entrevista, ele afirmou que "as pessoas têm colaborado bastante. A indignação é grande. Todos ficam indignados por encontrarem um projeto como Orquestrando a Vida nas ruas". Outra questão apontada pelo maestro está relacionada com a época de campanha, que coincidiu com a ida dos músicos às ruas. "Atravessamos o período político nos sinais. Então, alguém sempre acha que estamos lá para atingir A ou B, mas estamos para sobreviver. Para fazer nosso dever. É uma exaustão. Saímos aos pedaços, até psicologicamente." A entrevista completa poderá ser conferida na edição deste sábado (8).
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Eleitor: o lado forte da disputa
04/10/2016 | 14h17
[caption id="attachment_154" align="aligncenter" width="425"]Rafael vitória Candidato eleito, Rafael Diniz comemora vitória (Foto: Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã)[/caption]   Na noite de domingo (2), a população campista acompanhou os momentos finais da eleição para os cargos de prefeito e vereador. A apuração trouxe um resultado não esperado para o momento: a vitória do candidato da oposição Rafael Diniz (PPS). De acordo com pesquisas divulgadas pela Folha da Manhã, a possibilidade era de segundo turno entre Rafael e Dr. Chicão (PR), que representava o governo. As urnas, no entanto, comprovaram que a população almeja caminhos novos. E, com a força do discurso de Rafael, os cidadãos de Campos renovaram o desejo de atuar e modificar a realidade política e as esperanças no agora prefeito eleito. A verdadeira mudança começou com a transformação do comportamento dos eleitores, e não com os políticos. Desde o fortalecimento da campanha do candidato do PPS, principalmente devido ao relacionamento travado com a população por meio da internet (conforme apontou o jornalista Aluysio Abreu Barbosa no artigo "Democracia irrefreável das redes sociais – Obama 2008 a Campos 2016"), os campistas passaram a observar, com maior proximidade, os passos de Rafael. A onda verde, então, ganhou força diante do interesse dos cidadãos pelos rumos da política. Nas últimas eleições, o desânimo dos votantes marcava a ida obrigatória às seções. A descrença em melhorias e nas promessas, misturada ao visível descaso com a comunidade, fazia com que as pessoas se sentissem alheias à realidade e não tivessem convicção para escolher os representantes. A permanência da família Garotinho no poder, por quase três décadas, também era outro fator que desiludia tantos os mais novos quanto os mais velhos. Mas as recentes transformações ocorridas em todo o cenário campista, principalmente o crescente interesse das pessoas por questões políticas e sociais e a pouca credibilidade dada ao discurso governista, fez com que a mudança fosse materializada. Outro ponto positivo é a conscientização quanto ao poder de escolha por meio do voto, que deixa de ser somente um momento obrigatório para se transformar em exercício de cidadania motivado pela necessidade de ver em cena outros rostos. A percepção é confirmada pelo posicionamento da adolescente Lorena Alves Ribeiro, de 16 anos, que foi entrevistada pela jornalista Daniela Abreu, da Folha da Manhã, na tarde de eleição em Campos. Ela afirmou que “o jovem também tem direitos e tem que ter voz. Por isso, acho importante a gente ter atitude e votar". A vitória em primeiro turno reflete não só a boa aceitação de ideias e projetos de Rafael, mas também o reengajamento dos eleitores, que, desta vez, acompanharam, ouviram, assistiram e escolheram, com mais convicção, o representante para os próximos quatro anos.
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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