Minutos
29/01/2017 | 10h30
A cama continuava bagunçada. O lençol branco, ainda quente e desarrumado, sinalizava a recente partida da mulher. As luzes fracas do ambiente iluminavam os rostos. Semblantes aflitos espalhados pelo quarto, sala e varanda. No portão, um carro com as portas traseiras abertas aguardava a saída de homens vestidos de branco. Eles carregariam os últimos momentos da vida enclausurada, que espiara entre grades e janelas, mas permanecera alheia ao mundo que transcorria fora de seu espaço.
Mais cedo, naquele mesmo dia, um sussurro antecipou a despedida. Quase inaudível. Ao redor, somente memórias preenchiam os seus dias vazios de sentido. As horas transcorriam sem que pudessem ser percebidas. O relógio mostrava o passar de minutos à medida que seu tempo era o retrocesso. Regresso a um passado de marcas e memórias. Elas dominavam o presente e serviam para alimentar o futuro.
Por muitos dias, a mulher se sentou em sua sala de visitas. A cadeira, posicionada entre móveis escuros que ditavam as cores da casa, permitia que ela visse as fotos. O passado em destaque. Marido, filhos, netos. Dali, contabilizava perdas. Ali, morria a cada dia. Enquanto se sentava para reverenciar os bons momentos, escondia o aperto em seu coração. Conduzia os outros, os poucos chegados, para que não tivessem muitas informações sobre o presente. Recebia-os. Enquanto conversava, observava os retratos. Sempre distante da realidade. Em sua cabeça, dialogava com todos os representados por fotografias. Para a idosa, eles eram sua verdadeira companhia.
A mão direita segurava o copo de café. Um prato de bolo estava posicionado sobre o seu colo. Usava um vestido preto. O barulho dos carros, que transitavam em alta velocidade pela rua onde morava, não era capaz de atingir seus ouvidos. Por eles, entravam apenas as músicas de bailes de Carnaval pelos quais passou com o marido. Com quem dançou e comemorou os anos, os filhos, a vida. Para quem se doou e por quem se tornou alheia as dores do mundo.
Concentrada, observava seu retrato. Sentia saudade. Tantos anos que partira, mas sempre parecia ontem. Há poucos minutos. Dizem que o tempo cura tudo. Mas, para ela, apenas exercera o poder de aquietar o coração para que aguardasse o fim de espaçados tic-tac-tic-tac-tic-tac.
Levou o copo à boca. O calor aqueceu seu corpo. Levantou-se, com certa dificuldade, e caminhou para a cama. Era uma tarde de sábado. Mais uma. Uma a mais. Só uma. O corpo cansado. Deitou-se. A cama não estava bagunçada. O lençol branco, frio e esticado, estava preparado para o momento do repouso. Fechou os olhos. Histórias em câmera lenta transmitidas em uma tela inalcançável. Seria capaz de reproduzir os diálogos se sua boca respeitasse a vontade. Tentou emitir sons. Precisava contar aos demais que sua vida ainda existia.
Seus dedos eram tocados por ele. Os sorrisos recíprocos. Ele retornara para ela. Agora, sem adiar mais um minuto, se levantaria para preparar o prato de alface e tomate com bife de que tanto gostava. Ou mingau.
As pernas bagunçavam a roupa de cama. Os movimentos não coordenados. Tentou se levantar. O peso sobre o peito. As mãos perto das dele. Os olhos pousados em seu corpo, que não se mexia em conformidade com os pensamentos.
As pernas agitadas.
Os pés frios.
O prato de salada.
O mingau.
Ele.
O peso no corpo.
Ele.
O sussurro.
Ele.
O suspiro.
Eles.
A cama bagunçada.
O lençol branco, quente e desarrumado.
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Monólogo do adeus
26/01/2017 | 15h16
Pixabay.com
/ Pixabay.com
“E aqui estou eu que, ao contrário do que esperavam, não fiz tudo por você. Eu que, de maneira egoísta, me tranquei em minha jaula isolada do mundo para esconder a fera que poderia surgir em uma noite densa. Eu que deveria ceder o lugar a outro eu esperado por você. Incapaz de mover a mão para estender em momentos de aflição.
E, agora, não posso me perdoar por tudo o que não fiz e não disse. Pelas coisas que deixei passar. Pelo que deveria ter mostrado e demonstrado. Fracassei e tenho consciência disso. Perdi tempo com ideias mirabolantes e esdrúxulas para chamar a atenção do mundo. Hoje, vejo que deveria ter te dado atenção. Eu, centrado em minhas coisas, meus medos, meu mundo. Inapto a enxergar que quem me acompanhou também tinha suas necessidades. Estou habituado a respeitar as necessidades físicas e fisiológicas, mas não as emocionais. Não soube, em um mísero minuto, me esquecer e lembrar de você. Agora, velho e sozinho, sinto que não cumpri os meus deveres. Ser humano fracassado. Marido desinteressado. Pai displicente. Amigo egocêntrico. O tempo passou, e não enxerguei o que fazia com a minha vida”.
“Lembra-se da vez em que te disse para seguir sozinha? Você rebateu. Chamou-me de ridículo e ficou. Eu, no seu lugar, teria ido. E, agora, você foi. E não há volta. Não há negociação. Não há o amanhã em que tudo possa ser resolvido. Não existem palavras para consertar todo o estrago. Definhavas ao meu lado, e eu não a olhava. Gemias. Balbuciavas meu nome, e eu fingia não escutar por não saber te abraçar e mentir, dizendo que tudo ficaria bem. Não. E não vai ficar. Respondia às suas queixas com o meu silêncio. Quantas vezes me chamou de egocêntrico? Eu ria de ti e não compreendia. Achava-a exagerada e carente. Chata, por vezes. E isso quando eu parava para te escutar.
Por trás do muro que construí entre nós, apenas sabia que falavas sem parar, mas não me convinha ouvir-te. Suas lamúrias eram vãs. Hoje, teu silêncio eterno domina a casa, a vida e atingiu o muro. Ele não mais existe. Agora, estou desprotegido e solto entre pessoas que não conheço. Entre seres que não me olham, não falam, não sorriem, não se preocupam. Tornei-me invisível como sempre sonhei. Paradoxalmente, queria ser visto, ouvido, abraçado. Punido, censurado e, quiçá, agredido. Sei que era o seu sonho viver a normalidade que não te proporcionei. Notei que sou humano e não sei exercer a minha humanidade. Você me ajudaria nessa descoberta. A única capaz de me abrir os olhos. Lamento por ter enxergado tarde demais. Sessenta anos e a solidão pela frente. A despedida é sempre dolorosa. A incerteza sobre o fim é angustiante."
Enquanto ela era colocada em sua última morada, uma rosa caiu sobre a madeira. A esposa, mulher de palavras certeiras e coração aflito, esperou um gesto de carinho que nunca veio. Sentimento transfigurado em dor. Todas as frases presas em uma mente conturbada. Uma gota molhou a flor. Olhos ardendo e fechados. Não sabia o que acontecia com eles. Não conseguia controlar as sensações involuntárias. Era insuportável o parto da primeira lágrima.
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Partes
20/01/2017 | 20h58
pixabay.com
"Um corpo que, outrora, aquecera o homem que o observava" / pixabay.com
O corpo estava pálido. Mais do que o normal. Atipicamente branco e frágil. A ausência de luz provinha de sua atual condição: morto. Parado. Duro. Frio. Um corpo que, outrora, aquecera o homem que o observava. Esperava movimentos. Reações. Mantinha a esperança. Permanecia a analisá-lo sem desviar o olhar. “Quem sabe ela possa respirar a qualquer momento? Ou mexer as mãos.”
As mãos.
Ainda com unhas ainda pintadas. Pretas e longas. Agora, estavam gélidas e inúteis. Há uns dias, os dedos passeavam pelos cabelos dele e acariciavam sua cabeça. Estava cansado. Dividiam a cama de solteiro de seu quarto. A proximidade dos corpos gerava um calor que, hoje, parecia impossível.
“Eu entendo, mas você precisa buscar novos caminhos. De que adianta insistir no que não te faz bem?”, questionava ela, atenciosa na escolha das palavras. Não queria magoá-lo. Se dissesse que via seus atos como perda de tempo, ele se chatearia. Era calmo, mas, por quaisquer motivos, abandonava a tranquilidade e se tornava agressivo. Não gostava de vê-lo assim.
Tocou a pele da mulher que jazia à sua frente. Pensou, durante muito tempo, em colocar um anel em seu dedo e fazer dela sua esposa. Casar. Viver histórias sob o mesmo teto. Acompanhar os dias bons e ruins. Desistiu após concordar que não foram feitos para o matrimônio.
“Terminaremos em apuros, querido. Prefiro permanecer a vida como está. Compartilhamos afagos descompromissados. Enquanto for bom, ficaremos ao lado do outro”, afirmou.
“E agora, querida, cadê a vida que você queria manter?” Ele continuava à espera de respostas. De que aquilo, em algum momento, seria revertido, e ela retornaria para dar-lhe o colo nos momentos de ansiedade.
O colo.
Quente. As pernas grossas se transformavam em travesseiro. “Largue suas angústias quando passar pela porta, menino”, ela dizia. Mas estava sempre pronta a ouvi-lo e afastar o que lhe fazia mal. Possuía o dom de escutar e enxergar o outro sem pré-julgamentos e pré-conceitos. Mesmo pouco à vontade, era suficientemente delicada para não dispensar os aflitos e atormentados que apareciam, a qualquer hora, e batiam à porta.
“Como você aguentava essas pessoas?”, perguntou, em voz alta. Deveria ter tirado suas dúvidas quando ainda havia tempo. Ela teria respondido cordialmente. Era uma mulher generosa, embora a paciência, por vezes, lhe faltasse. “É por amor. Amor às causas perdidas”, ouviu o homem a voz imaginária. Teriam sido essas as suas palavras? Quais expressões apareceriam em seu rosto enquanto ela interpretava as falas? A boca se esticaria em um sorriso depois do término?
A boca.
Rosada. Por vezes, quase vermelha. Quando sorria, parecia menina. Os traços dos lábios indicavam o humor do dia: quando apertados, apreensão; quando soltos, leveza; se estivessem mais esticados, alegria. Era visível e previsível.
“O que aconteceu?”
“Nada. Por que a pergunta?”
“Seus lábios mostram sua tensão. Você não tem talento para me enganar, minha menina. Tão querida.” E beijou a boca antes retesada. Sorriu em resposta ao ato. Gostava de ser surpreendida. Ele conhecia seus desejos, mesmo que afirmasse o contrário para agradá-la. Batia, de modo delicado, os nós dos dedos quando discordavam dela. Característica percebida por quem a conhecia verdadeiramente.
O corpo.
Tocou boca, mãos, pernas, dedos, colo. Tateava todas as partes desnudadas por ele. Sentia falta da reciprocidade. “Será que, desta vez, ficarei mesmo sozinho?” Uma gota escorria pelo rosto dela. Era dele a lágrima que percorria espaços por onde línguas e lábios e ternura se alternaram. Buscava sinais vitais que abandonaram a mulher há horas, mas ela permanecia na mesma posição.
Um homem, com a voz cordial, pediu licença. Precisava ajeitá-la para a cerimônia. “É a última desta noite. Temos hora para encerrar o expediente”.
Por sua mente, passaram as cenas das últimas noites e sonhos; coxas entrelaçadas, abraços, palavras soltas e planos. "Última desta noite para encerrar o expediente", sibilou. Despediu-se com beijo. O frio se apossou de seu corpo. Os dois, homem e mulher, mergulhados na apatia. Presente e futuro, agora, conjugados no passado.
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Marcas
11/01/2017 | 15h22
Não parece, mas tudo que estamos vivendo hoje se transformará em lembranças. Nostalgia. Memórias perdidas em gavetas. Em compartimentos bagunçados. Registros do ontem que formam o amanhã. Trechos de fases que trouxeram bons e maus momentos. Histórias nossas e nossas histórias dos outros. Em todas as partes, rostos, vozes, expressões. Faces. Abraços, sorrisos. Uma palavra que, talvez, ainda ecoe dentro de nós. Um toque. Os nossos traços perdidos por estradas.
Ali, à frente, o professor esbraveja com os alunos de não mais de 14 anos. Todos risonhos, enfadados com as palavras do homem. Estavam no espaço por obrigação. Consideravam-no tedioso. Mas ouviam. E riam das tentativas de ser engraçado. Ou das implicâncias com as meninas e os meninos. Encontravam diariamente novos aspectos ou expressões para risadas a mais.
Em uma manhã de aula, com todos dispersos, ele levantou os braços, estalou os dedos e chamou a atenção da garotada, que não se calava. Enfurecido, reclamou da desobediência e do descaso e bradou:
— Hello, 2007! — os dedos estalavam, e os alunos riam do repentino (quase) acesso de raiva do professor. A expressão virou um bordão entre os estudantes. Naquele momento, a menina, que se sentava constantemente na primeira cadeira, próxima ao quadro, também riu.
E aquela seria mais uma manhã de aula, em uma escola do centro da cidade, na qual permaneceu por quatro anos. Era mais um dia. Mais uma data imperceptível. Sem grandes marcas. Mas a vida assim se faz. Com dias supostamente irrelevantes.
Meses depois, ainda sentada nas cadeiras da frente das salas de aula, experimentou seu primeiro contato com a literatura. Um livro para ser o trabalho do bimestre. A professora de português teve a ideia, que a assustou inicialmente. “Quem vai querer ler o que eu escrevo? E o que vou escrever?” foram perguntas que passaram pela cabeça da adolescente perdida em falas e personagens. E se envergonhou ao entregar o resultado à professora.
Não imaginava, naquele período em que se dedicou ao trabalho, o que aquela memória significaria no futuro. O quanto um simples dia poderia determinar novos caminhos. Mas, na cabeça dela, eram somente mais uns dias. Mais datas imperceptíveis. Sem grandes marcas.
Sentada sob uma árvore, perto de um ponto de ônibus, ela observa o movimento de carros, motos e bicicletas. De diversas direções, é atingida: pelo asfalto, o calor; pelo céu, os raios de sol; pelas lembranças, as histórias que a levaram diretamente à pedra sob a árvore perto do ponto de ônibus. E a certeza de que este, por mais simples que pareça, será mais um momento na marca da memória.
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Feliz ano velho
05/01/2017 | 18h25
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Cinco de janeiro de dois mil e dezessete. Quinto dia de um ano novo para o qual pessoas reuniram esperanças de vivenciar experiências melhores e mais positivas. Vontade de mudar a realidade e encontrar caminhos que as afastassem dos últimos doze meses. Estes entraram para a lista de alguns dos piores da história do Brasil e do mundo. Mas o quinto dia do novo ano amanheceu com ares de um retrocesso que caracterizou 2016.
Os jornais e o Facebook estamparam a foto de um bebê de 16 meses, chamado Mohammed Shohayet, que não conseguiu sobreviver a um naufrágio durante a fuga de Myanmar (ou Birmânia) para Bangladesh. Ele e seus familiares tentavam escapar da perseguição étnica. O corpo da criança, da etnia Rohingya (considerada pelo governo birmanês como grupo de imigrantes ilegais), foi fotografado à margem do rio Naf. Também morreram sua mãe, seu irmão (de três anos) e um tio. Somente o pai sobreviveu.
A foto de Mohammed, tragicamente, traz à lembrança a imagem de Aylan Kurdi, um garoto de três anos encontrado morto em situação semelhante. O corpo da criança foi fotografado em uma praia da Turquia, também após um naufrágio. Na época, o jornal Independent fez um alerta, veiculado em periódicos brasileiros: “se estas imagens com poder extraordinário de uma criança síria levada a uma praia não mudarem as atitudes da Europa com relação aos refugiados, o que mudará?” Passados quase dois anos, a mudança esperada permanece em sonho.
E, no Brasil, com cinco dias de 2017, a população engole mortes individuais e coletivas e cenas diárias de violências enquanto vê o início do desaparecimento da esperança em dias mais calmos e positivos, que foram pedidos na passagem do ano.
A melhor definição sobre os sentimentos gerados pelos primeiros cinco dias de 2017 foi feita, por meio de rede social, pela professora e jornalista Jacqueline Deolindo: “Que época triste vivemos... As notícias, que quase nunca comento, são tristes, e a vida de tanta gente é uma tristeza só. Não dá nem pra dizer ‘oi, tudo ótimo’. Dizer ‘tudo ótimo’ é quase um desrespeito a essas dores. Reconheço, agradecida, tudo de bom, todo conforto, toda alegria e liberdade, todas as conquistas da minha família, mas, vendo pela janela o mar de lama que afoga nossos iguais, aqui perto, lá longe, o que circula no fundo da minha alma é compaixão, tristeza e dúvida. Não tem como não sofrer junto com os outros homens nem deixar de pensar na espantosa natureza humana.””
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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