Para ti
20/03/2017 | 19h43
Todos os dias, cometo este mesmo ritual. Um crime contra mim. Sento-me à mesa e traço, em minha cabeça, as primeiras palavras. Para te contar um pouco sobre as histórias. Tantas. Os detalhes perdidos de uma vida. Há quantos anos? Já não me lembro. Não há mais exatidão em mim. É como cortar os pulsos. Foi Fernando Sabino quem disse que esse era o primeiro passo para a escrita? Não sei. Ficamos mais confusos com o passar do tempo.
Por falar nele, vou te perguntar, pela centésima (ou milésima) vez: que fizeste do seu? Ah, o tempo. Queria saber os seus jeitos. Os trejeitos. Se a sua língua presa ainda destoa da voz grossa. Se os cabelos permanecem bagunçados. Ou se apenas permanecem. O que foi feito daquele anel que te dei como lembrança? Memórias de mim. Por onde andas agora? E com quem?
Na noite em que nos despedimos, eu me lembrei de Drummond. Era ele que dizia que o presente é grande. “Não nos afastemos. Não nos afastemos muito. Vamos de mãos dadas.” Você sorriu e concordou. Afirmou que nenhum tempo, longo ou curto, nos afastaria. E aqui estamos. Aqui? Onde? É mais uma das questões diárias que corroem fígado e coração. Acho que o pulmão também. Dizem que é o órgão que somatiza a tristeza. Ou seriam os rins? Pouca diferença faz agora. Todos parecem derreter-se dentro de mim.
Não! Claro que não. Isso não faz parte do meu “tradicional drama mexicano usado para te convencer a ficar”. Foi o médico quem me revelou. Talvez por isso, eu esteja aqui, agora, em busca de ti. De mim. De nós. Por falar na frase, achei-a bastante cafona quando você falou pela primeira vez. “Deus, que homem é este que cria frases tão clichês?”, eu pensei. Era uma forma de parecer forte diante de minha fraqueza. Queria demonstrar um sentimento de pouco caso, que não existia. Meu desejo era que você ficasse. E, como todos os desejos, foi mais um frustrado.
Lembra-se da última noite? Rimos. Tomamos aquele vinho comprado em uma esquina estranha. Comemos queijo. Depois presunto. E, por fim, um sanduíche que me rendeu três dias de horríveis dores no estômago. Ou foi você quem as causou? Quando mordi o último pedaço, você anunciou que precisaria se afastar por uns tempos. Eu, que lia a vida nas entrelinhas, entendi o seu recado. Seria uma loucura continuar te esperando.
Mas, como sempre fui dada a loucuras, aqui estou. Persisto em uma ideia vã como uma forma de morrer lentamente. Dia a dia. Quanto tempo faz? Dez? Quinze? Vinte anos? Um dia? Eu te expliquei que perdi a noção do tempo. Mas ainda me lembro do seu perfume. Do seu sorriso por vezes cafajeste. Do carinho que me acompanha enquanto escrevo estas frases. Como outras tantas que já rabisquei em papéis perdidos. 
Daqui, longe ou perto, desejo que estejas bem. Saudável. Com todos os seus planos em andamento. Aquelas loucuras das quais você falava sempre, sem cessar. Em intermináveis quase monólogos. 
Agora, peço-te licença, meu caro. O tempo – ah, o tempo – passa mais rápido quando menos precisamos. Tenho que guardar esta carta, centésima ou milésima, à espera de um homem que, insistentemente, baterá à porta para levá-la a lugar algum.
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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