Dias sem fim
21/01/2020 | 12h35
<div><tinymce class="clickTinyMCE" title="{'nm_midia_inter_thumb1':'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/01/21/170x96/1_dark_1852985_1920-1547831.jpg', 'id_midia_tipo':'2', 'id_tetag_galer':'', 'id_midia':'5e2719713e437', 'cd_midia':1547836, 'ds_midia_link': 'http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/01/21/487x377/1_dark_1852985_1920-1547831.jpg', 'ds_midia': '', 'ds_midia_credi': 'Pixabay', 'ds_midia_titlo': '', 'cd_tetag': '1', 'cd_midia_w': '487', 'cd_midia_h': '377', 'align': 'Left'}"><figure class="Left" style="width:487px;height:377px;"> <img src="http://www.folha1.com.br/_midias/jpg/2020/01/21/487x377/1_dark_1852985_1920-1547831.jpg" alt="" width="487" height="377"> <figcaption> Pixabay </figcaption> </figure></tinymce>O menino caminhava pela avenida quando percebeu a movimenta&ccedil;&atilde;o intensa em uma das esquinas. Magro e com os p&eacute;s no ch&atilde;o, queimados pelo excesso de sol que tocava o asfalto, ele desviou o percurso e se aproximou do grupo. No meio, uma mulher gritava e apontava na dire&ccedil;&atilde;o da qual vinha o garoto.</div> <div>&mdash; Ele! Foi aquele ali! &mdash; e sinalizou aos demais o pequeno, que se espantou ao perceber todos os olhares se voltando para ele. Olhou para tr&aacute;s, buscando ver para onde apontava a mulher, mas n&atilde;o tinha mais ningu&eacute;m ao seu redor. Assustado, com uma sacola na m&atilde;o, o menino come&ccedil;ou a recuar vagarosamente, como se andasse sobre um campo minado, at&eacute; que suas costas colidiram em algo. Ao se virar, deparou-se com um homem. Grande, forte e de cabelos claros, ele observava a crian&ccedil;a e tentava ver o que ela carregava.</div> <div>Enquanto os dois se encaravam, o menino percebeu o movimento inverso. Agora, todos os que estavam na roda, pouco antes de sua chegada, caminhavam em sua dire&ccedil;&atilde;o. Ele sentia o corpo tremer. As primeiras gotas de suor escorreram pela testa e atingiram o olho esquerdo. O garoto secou-o, tamb&eacute;m lentamente, com medo de se mexer diante dos olhares que perscrutavam atentamente todos os seus gestos.</div> <div>&mdash; O que tem a&iacute; nessa sacola, moleque? &mdash; perguntou o homem contra o qual o menino batera. O tom de voz parecia grosseiro para quem acabara de conhec&ecirc;-lo, pensou Miguel. Mas n&atilde;o podia ser diferente. Em todos esses anos vivendo nas ruas, acostumara-se &agrave; rudeza no trato. Poucas vezes, recebera palavras afetuosas ou um sorriso gratuito. Mesmo quando algu&eacute;m lhe oferecia ajuda, sentia o asco no olhar.</div> <div>&mdash; S&atilde;o coisas que eu como e outras que eu vendo, mo&ccedil;o. Tenho uns bombons, umas balas e uns chicletes. Os biscoitos s&atilde;o meus. Comprei com o dinheiro das vendas, mo&ccedil;o. O senhor que comprar algo? &mdash; questionou o menino, cujo corpo tremia ainda mais.</div> <div>&mdash; Compra e vende? Ou rouba, moleque? &mdash; gritou o homem, puxando a sacola da m&atilde;o do menino &mdash; A senhora quer conferir se a sua bolsa est&aacute; aqui? &mdash; o homem, agora, falava de modo sereno e simp&aacute;tico, olhando a mulher com delicadeza. Por que ele n&atilde;o era tratado assim?</div> <div>Miguel abriu a boca para explicar que nunca vira a senhora nem a bolsa que lhe pertencia, mas foi cortado antes que pudesse iniciar a fala.</div> <div>&mdash; N&atilde;o deve estar. Esse bandidinho j&aacute; deve ter jogado fora e escondido o dinheiro. N&atilde;o suporto mais esse pa&iacute;s sem regras, sem respeito, sem lei &mdash; disse a mulher, encarando-o com o raiva.</div> <div>&mdash; Mas eu n&atilde;o sou bandido, senhora. Eu nunca te vi. E nunca roubei ningu&eacute;m. Trabalho com os doces que est&atilde;o na minha sacola. Moro na rua, mas n&atilde;o sou ladr&atilde;o &mdash; e esticou a m&atilde;o para pegar o embrulho, mas o homem deu um tapa nos dedos da crian&ccedil;a. Todos riram. Outro homem, que vestia um terno meio amassado, empertigou-se. &ldquo;Eles s&atilde;o sempre inocentes, sempre sem culpa de nada. Coitados!&rdquo;, e gargalhou. Apesar das risadas, os olhos que observavam a crian&ccedil;a transmitiam outros sentimentos: &oacute;dio, repugn&acirc;ncia, ironia, descaso, nojo.</div> <div>Miguel analisava, sem entender, os que formaram uma roda em torno dele. Como poderiam pensar que ele tinha cometido o crime? Havia acabado de chegar ao local, pela primeira vez naquele dia, quando encontrou a multid&atilde;o reunida. Perto dali, havia a mercearia da dona Araci, com quem sempre comprava os materiais para revender durante a manh&atilde; e a tarde. Ela o recebia com um p&atilde;o quentinho, cheio de manteiga, e um caf&eacute; com bastante a&ccedil;&uacute;car. &ldquo;&Eacute; para dar energia, Miguelzinho, para mais um dia&rdquo;, falava ao menino, em tom maternal.</div> <div>Araci conhecia a hist&oacute;ria de Miguel e era uma das poucas pessoas que n&atilde;o duvidavam dele. J&aacute; havia expulsado de seu estabelecimento um sem-n&uacute;mero de homens e mulheres que desdenharam da crian&ccedil;a. &ldquo;Some daqui! Se voc&ecirc; acha que ele n&atilde;o serve para ficar por perto de voc&ecirc;, &eacute; voc&ecirc; que n&atilde;o serve para ficar perto da gente!&rdquo;, esbravejou a idosa, em uma manh&atilde; ensolarada, quando uma cliente da mercearia tentou insinuar coisas sobre o menino.</div> <div>&mdash; Onde est&aacute; o meu dinheiro, moleque? &mdash; A mulher se abaixou e encarou Miguel nos olhos. O menino se sentia amea&ccedil;ado como nunca antes. Eram pessoas grandes, bonitas, com caras que poderia ser simp&aacute;ticas ao mundo, menos a ele. O garoto n&atilde;o desviou o olhar, mas sentia que estava prestes a perder o controle e correr at&eacute; a mercearia de dona Araci para pedir socorro, mas temia o que poderiam fazer se ele sa&iacute;sse dali.</div> <div>&mdash; Eu n&atilde;o sei, senhora. Eu j&aacute; disse: n&atilde;o roubei a senhora nem ningu&eacute;m. Sou trabalhador &mdash; a frase foi seguida por mais risadas dos demais &mdash; Sou, sim! Eu vendo doces para sobreviver e estava indo comprar mais agora e tomar meu caf&eacute; da manh&atilde;. Sempre passo por esse caminho. Eu n&atilde;o roubei a senhora! &mdash; gritou Miguel, tentando ser ouvido. O desabafo foi seguido por outro tapa. Agora, na cabe&ccedil;a. As l&aacute;grimas pareciam querer sair &agrave; revelia do garoto.</div> <div>Ele se sentia engolido por aqueles homens e mulheres que fechavam todos os caminhos pelos quais poderia passar. Miguel olhava para os lados, buscando um ponto de escape, mas o cerco ficava cada vez mais apertado. Os que passavam na rua e n&atilde;o participavam da cena apenas analisavam o que acontecia, cada um com sua opini&atilde;o, alheios ao medo da crian&ccedil;a. &ldquo;Mas est&aacute; uma bagun&ccedil;a essa cidade. N&atilde;o se pode nem andar pela cal&ccedil;ada&rdquo;, reclamou uma senhora, de cabelos brancos, que virava o pesco&ccedil;o para entender quem estava no meio da roda.</div> <div>O garoto estava sentindo um pouco de dificuldade para respirar. O abafamento tornava-se cada vez pior. Ele tentara dizer que n&atilde;o havia feito nada, que nunca cometera nenhum crime em sua curta vida, mas parecia se comunicar em outro idioma. O calor aumentava &agrave; medida que o tempo passava. O espa&ccedil;o estava cada vez apertado. Seu corpo, agora tomado pelo suor, encolhia-se aos julgamentos dos outros. Os outros vociferavam e o humilhavam, mas as vozes foram cessando a tempo de o tr&ecirc;mulo menino ouvir a sirene anunciando a chegada da pol&iacute;cia.</div> <div>Sem conseguir se controlar, Miguel se sentou no ch&atilde;o, colocou as m&atilde;os sobre a cabe&ccedil;a e chorou baixinho. Se pudesse, rezaria, mas n&atilde;o conhecia ora&ccedil;&otilde;es. Abriu os olhos e viu que, &agrave; multid&atilde;o, juntavam-se homens de farda. Um deles foi at&eacute; o menino, tocou seu ombro e mandou que se levantasse. Ele acompanhou sem questionar. N&atilde;o sabia o que fazer.</div> <div>Entrou na viatura, ainda com l&aacute;grimas nos olhos. Percebeu que a sua sacola, antes na m&atilde;o do homem, havia sido jogada no ch&atilde;o. Os doces se espalharam pela rua. Alguns foram chutados para o asfalto e outros, pisoteados. O grupo se desfizera. Homens e mulheres sa&iacute;ram conversando e rindo e se recordando do menino. &ldquo;Um absurdo&rdquo;, dissera um senhor que acabara de ouvir a hist&oacute;ria sobre um garoto que roubou a bolsa de uma mulher. &ldquo;Falaram at&eacute; que estava armado&rdquo;, comentou com a esposa enquanto os dois olhavam para dentro da viatura.</div> <div>Seria s&oacute; mais um dia de caf&eacute; e de trabalho. O motor sinalizou que o ve&iacute;culo se preparava para sair. O menino p&ocirc;s as m&atilde;os no bolso e percebeu que havia um bilhete que dona Araci lera e dera para ele, em um desses dias de visita &agrave; mercearia. Miguel n&atilde;o sabia ler, mas se lembrava da voz da mulher: &ldquo;Venha sempre comer o seu p&atilde;o com manteiga, tomar o seu caf&eacute; e comprar os seus doces, menino querido&rdquo;.</div> <div>Do outro lado do vidro, &agrave; medida que o carro seguia, ele percebeu que n&atilde;o tivera tempo para se despedir de Araci e agradecer. Talvez ela se lembrasse de ir visit&aacute;-lo onde ele estivesse. A sirene foi novamente acionada e o carro partiu. Ou talvez ela acreditasse nas besteiras ditas por outros. A velocidade era tanta que ele n&atilde;o conseguia acreditar. Nunca havia andado de carro e temia.</div> <div>Talvez ela esteja o esperando l&aacute;, onde quer que seja, para um abra&ccedil;o, com um caf&eacute; e um p&atilde;o. Cabe&ccedil;as se viravam para a viatura que parecia alternar entre curvas arriscadas e risadas dos homens alheios ao garoto. Talvez dona Araci n&atilde;o saiba ainda, mas poder&aacute; chegar em breve. Uma freada brusca seguida por um vozerio e olhares atentos e esnobes sobre Miguel, que era levado, em sil&ecirc;ncio, para uma sala escura e fechada. Sentou-se e olhou o vazio ao redor. Talvez ele vire somente estat&iacute;stica no fim de um m&ecirc;s.</div>
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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