Resquícios
04/04/2017 | 13h26
Pixabay
Montou em sua bicicleta e seguiu pelas ruas. Vias desertas. / Pixabay
Era pontual. Às sete da manhã, saía de casa. Traçava, em uma pequena caderneta, a rota pela qual passaria nas horas seguintes. Vestiu-se de forma meticulosa. Cueca. Meias. Calça. Blusa. Tênis. Analisou a imagem no espelho. Ajeitou os cabelos com os dedos. Nem se lembrava de onde havia deixado o pente que herdara de sua mãe.  
A bolsa estava jogada na cadeira da bagunça, perto de sua cama. Era onde ficavam os principais acessórios do dia. Sempre acomodava-os ali. Era mais fácil de encontrar todos os objetos dos quais precisaria. Pegou-a. Colocou-a sobre o ombro esquerdo. Estava vazia. Refez o trajeto. Encontrou a caneta. Traçou. Demoraria poucas horas para retornar à sua casa.
Abriu a porta da sala. Estava sol. Um dia mais quente do que esperava. Montou em sua bicicleta e seguiu pelas ruas. Vias desertas. Por trás dos muros, vidas vazias. Prosseguiu. A bolsa balançava enquanto ele andava sobre paralelepípedos. No chão, a característica sujeira de uma noite movimentada.
À medida que fazia o percurso, sentia um peso sobre o ombro esquerdo. Fora jovem e correra por aquele caminho. Mais adiante, havia beijado a primeira garota de sua vida. Aninha. Uma paixão adolescente que ainda acelerava o coração adulto. Agora, perto da esquina, em frente à escada que dava acesso ao hospital, revivia as despedidas. Pensou que poderia ter sido um homem melhor.
O peso sobre o ombro esquerdo aumentava.
Percorreu 100, 200, 300 metros. Um quilômetro entre recantos. Cantos outrora seus. A casa de Aninha. Continuava com as mesmas paredes brancas. Apertou os freios. Do outro lado da rua, via o quarto dela, no segundo andar. Estava fechado. Conseguia sentir, apesar da distância, o cheiro de mofo onde, antes, havia perfume, briga, amor, sabonete e sexo. As cortinas azuis combinavam com lençóis e fronhas de sua cama. Hoje, a janela conservava os vidros trincados.
Aumentava o peso sobre o ombro esquerdo.
Retomou o percurso. Sentiu o calor ao pedalar. Pensou no mar. Seria o final do trajeto. Antes, precisava redescobrir outros espaços. Ziguezagueou pelas tradicionais áreas. Supermercados. Bares. Uma casa onde havia funcionado um cinema alternativo. Os primeiros porres compartilhados com os amigos. Os segredos trocados. As juras de amor eterno. Tantas promessas sopradas ao vento. E, ainda ali, Aninha. O sorriso aberto ao saber das novidades. O cenho franzido denunciando a insatisfação.
Ajeitou a bolsa que pesava sobre o ombro esquerdo.
Poucos metros depois, lembrou-se do último encontro. A despedida dos amigos. Eles iriam para outras cidades. Uns foram aprovados em vestibulares. Outros conseguiram empregos. Um deles conheceu uma moça e queria se casar. Entre eles, Aninha. Havia sido classificada para uma vaga no curso de artes. “Não vá. Fique comigo”, pediu, como uma criança. “Não vou abandonar um sonho. Voltarei um dia. Me espere, querido. O tempo é um sopro.”
Doía, de forma contundente, o ombro esquerdo.
As lembranças gritavam. Ecoavam as vozes da memória. Eram agressivas com o homem que sobrevivia por meio delas. Encontrou o mar. As ondas tranquilizaram-no. O ombro pesado. Doído. Jogou a bolsa na areia. Livrou-se da calça. Blusa. Medos. Meias. Tristezas. Tênis. Culpas. Cueca. Diante do mar, despiu-se da saudade.
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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