O Encontro - O silêncio no caos
03/09/2019 | 07h29
Divulgação
Em conversas sobre cinema, é comum ouvir que, entre os filmes americanos e europeus, geralmente, há grande diferença de ritmo de narrativa. Os primeiros costumam ter mais diálogos e momentos de ação se comparados aos segundos, conhecidos pelo desenrolar mais vagaroso de seus enredos. Para confirmar que toda regra tem exceção, no entanto, o longa-metragem “O Encontro” (“Time out of mind”, 2014), marcado por uma fotografia acinzentada e ambientado em uma Nova York vista e compreendida pela ótica dos marginalizados, pode ser considerado um dos pontos de divergência da teoria colocada em prática. 
Protagonizado por Richard Gere e dirigido por Oren Moverman, o filme mostra a história de George, um homem que perdeu a família e os bens e se tornou um morador de rua que tem dificuldades para aceitar a nova condição. Em um quadro de depressão, ele vive em busca de um lugar para se abrigar e de uma possibilidade de um novo encontro com a filha Maggie, interpretada por Jena Malone. Após ser humilhado em diversas situações, ele é orientado a ir para um abrigo público.
Quando é aceito em uma unidade, George conhece Dixon, personagem de Ben Vereen, um homem que afirma ser músico e conta ter recusado uma oportunidade de emprego em outro país por não poder abandonar o seu cão de estimação. Apesar dos conflitos entre os dois, o companheiro de abrigo o encoraja a encarar a realidade e buscar seus direitos. Oposto a George, Dixon tem como principal característica a verborragia. Em um atrito causado por uma de suas tentativas de diálogo com o protagonista, ele é obrigado a deixar o lugar.
Não somente no abrigo, mas também durante o período em que vaga pelas ruas de Nova York, poucos são os momentos em que George dialoga com outros personagens. O espectador acompanha o protagonista em suas caminhadas e é envolvido por gritos, barulhos de carro, risadas, brigas e todos os outros sons possíveis de serem encontrados em uma cidade grande, tal como acontece com o leitor do escritor brasileiro Luiz Ruffato que, no livro “Eles eram muitos cavalos”, é levado a mergulhar na narrativa sobre um dia em São Paulo a partir das vozes da cidade. Somado ao silêncio do homem, que demonstra nos traços toda a sua aflição, inclusive a que é sentida quando ele percebe a partida de Dixon, o cenário de tons escuros de inverno ambienta ainda mais o público na realidade que cabe ao personagem.
Apesar da quietude de George, no entanto, o protagonista parece verbalizar todos os conflitos e sentimentos por meio da bela interpretação de Richard Gere. Não apenas a expressão facial, mas todo o corpo do ator dialoga com quem assiste e faz compreender o complexo universo que envolve o homem, tornando dispensável a comunicação verbal, que, na maior parte do tempo, é utilizada para o entendimento de momentos-chave da história. Esta característica, peculiar para uma produção norte-americana, pode fazer com que o filme seja considerado lento, conforme apontado por parte da crítica à época do lançamento, mas é necessário compreender que, tanto na arte quanto na vida, o silêncio pode falar mais sobre o ser humano do que palavras, verbos e ação.
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Sobre o autor

Paula Vigneron

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