A sentença do Solar dos Airizes entre os escombros
24/08/2026 | 19h14
 
Solar dos Airizes com iníco das obras de escoramento pela Prefeitura de Campos, foto do início de 2026
Solar dos Airizes com iníco das obras de escoramento pela Prefeitura de Campos, foto do início de 2026 / Foto: Edmundo Siqueira
O descaso com o patrimônio histórico de Campos não é nenhuma novidade, aliás, é visível para qualquer campista ou turista um pouco mais atento ao andar pela cidade, especialmente no centro, mas também a caminho de São João da Barra.
Mas há duas construções que chamam a atenção pela falta de ações efetivas da prefeitura, uma vez que são de responsabilidade direta e legal da municipalidade: o Solar dos Airizes (BR-356) e o Museu Olavo Cardoso (Centro). Ambos, às vésperas da ruína completa.
As duas construções estão em situação dramática, e possuem relações jurídicas distintas. Começo pelo Airizes, e tratarei do Olavo em outro artigo.
O Solar
O Solar dos Airizes não pertence à prefeitura de Campos, mas encontrar meios e promover o restauro e impedir que ele caia é uma obrigação legal. A construção histórica é objeto de uma decisão judicial que transitou em julgado (quando não cabem mais recursos) em 2020, na qual foram definidas responsabilidades.
A família Lamego, proprietária do imóvel, e o Iphan, órgão federal que tombou o Solar em 1940, foram excluídos do processo, permanecendo a condenação em face do município, devendo a prefeitura adotar os meios necessários para restaurar o bem: elaborar projeto completo de restauro, submetê-lo ao Iphan e prever os recursos no PPA e em outras leis orçamentárias.
A propriedade do bem ainda pode ser discutida, por desapropriação e pelo direito de uso. Porém, a propriedade aqui não se confunde com o dever de restaurar. Não se trata de discutir a quem cabe, essa discussão acabou em 2020, a justiça já decidiu sobre isso.
Solar dos Airizes em processo avançado de ruína
Solar dos Airizes em processo avançado de ruína / Foto: Edmundo Siqueira
A conta é alta? Certamente. O principal interessado na preservação daquele bem deve ser o município? Também. É justo a prefeitura arcar com todos os custos? A resposta para essa pergunta não cabe agora, é preciso manter o prédio de pé, realizar um projeto para seu uso, de forma sustentável e apresentar um cronograma de restauro.
Há caminhos para a prefeitura não utilizar recursos próprios para restaurar o Solar dos Airizes — é razoável discutir se todo o custo deve recair sobre o município. Houve proposta de parceria com a empresa do Porto do Açu, Ferroport, que chegou a integrar um grupo de trabalho e assinou um protocolo de intenções, mas sem ações concretas.
Além disso, há na legislação (artigo 19, do Decreto-Lei 25/1937) previsão para que o Iphan (a União, em última análise) arque com os custos das obras de restauro de patrimônio tombado, quando o proprietário não dispõe de recursos. A prefeitura pode buscar esse caminho, uma vez que o processo foi decidido favoravelmente em relação à família na alegação de hipossuficiência. Articulações institucionais nesse sentido são bem-vindas, mas não são rotas de fuga ao cumprimento da decisão judicial.
O Iphan também pode decidir fazer o restauro de ofício em caso de urgência, o que independe da decisão judicial. A decisão sobre o Solar coloca a prefeitura na obrigação de fazer, não na condição facultativa do Iphan.
É preciso registrar que, na última semana, a prefeitura iniciou uma nova etapa de escoramento do prédio, com recursos municipais, e anunciou que o projeto de restauração está em elaboração. Mas também é preciso destacar o caráter tardio das ações, dado, ao menos, os seis anos do trânsito em julgado.
O Solar dos Airizes, assim como boa parte do patrimônio histórico campista, está em estado de abandono. A sua ruína é dada como certa por alguns, esperada por muitos e indiferente para outros tantos. Mas cabe um alerta: entre os escombros estarão também decisão judicial não cumprida e omissões de quem deveria se importar.
Interior do Solar dos Airizes, foto de 2025.
Interior do Solar dos Airizes, foto de 2025. / Foto: Edmundo Siqueira
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O último duelo e a disputa que não está na cédula
23/08/2026 | 09h02
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Não é difícil reconhecer a existência de um duelo à brasileira desde 2018, no qual figuram nos polos Lula e Bolsonaro. Convencionou-se chamar de polarização — estão em extremidades políticas opostas, então é justo nomear assim —, mas ela se dá mais em relação aos personagens do que às suas premissas ideológicas. Há extremismos visíveis em Bolsonaro, o que não é percebido em Lula. Apesar disso, polarizam, ainda que assimetricamente, mas como uma polarização afetiva e centrada nos candidatos.
Veja a última análise de pesquisas eleitorais para presidente aqui, do Blog Opiniões de Aluysio Abreu Barbosa. 

Por força dessa polarização afetiva, há em Lula e Bolsonaro um evidente protagonismo na esquerda e na direita, respectivamente, e partindo dessa premissa, a eleição de 2026 poderá, por inelegibilidade de Bolsonaro e por limite de mandatos consecutivos de Lula, representar o fim desse duelo, pelo menos como centro eleitoral, ainda que um deles tenha uma sobrevida de quatro anos.

Se olharmos com olhos estritamente legais, há possibilidade de esse duelo persistir — a inelegibilidade de Bolsonaro não é eterna e Lula pode concorrer novamente com 88 anos —, mas a realidade se impõe como um enorme dificultador para ambos. Então, o que restará quando os dois deixarem o centro da disputa eleitoral? Como se comportarão os campos ideológicos sem essas lideranças carismáticas protagonizando as urnas?

O exercício de futurologia é válido, mas qualquer projeção depende de variáveis que hoje não podem ser estimadas com segurança: não sabemos qual composição do Congresso sairá das urnas, nem quais acontecimentos reorganizarão o debate político até 2030. Portanto, consideremos, nesta análise, um recorte que vai de 2018 aos dias atuais.

Uma eleição em que o incumbente se coloca na disputa assume um caráter plebiscitário, mas na atual, de 2026, esta decisão de continuidade ou não do governo traz consigo outras camadas, como a de permitir que Lula, como personagem altamente conhecido da política nacional e do imaginário popular, finalize sua “carreira” presidencial.

Portanto, para o eleitor historicamente lulista o peso está na finitude, podendo ser esta a última eleição de Lula. Para o eleitor circunstancial, sobretudo o que faz essa escolha por rejeitar o outro polo, a decisão passa por ser a opção “que resta”, a única aparentemente possível para impedir o retorno do bolsonarismo ao poder.

Do outro lado, o filho do ex-presidente Bolsonaro tenta impor à sua campanha o ar de continuidade interrompida do governo do pai, prometendo ser não uma versão ou alguém com inspiração paterna e política, mas o procurador de um movimento político de massa comandado pela figura carismática de Bolsonaro que se encontra impedido de concorrer. O que pode parecer um trunfo a uma expressiva quantidade de eleitores mostra-se como uma desconfiança para outra, que vê a continuidade dada por fios de marionete como fraqueza e ausência de ideias e propostas próprias.

É uma eleição de continuidades. No caso de Lula, a continuidade é vista como um fim provável, como último governo, por não haver nenhum substituto viável eleitoralmente, não apenas no PT como em todo o campo progressista. No caso bolsonarista, a continuidade é vista como um sentimento dúbio, em que votar em Flávio significa salvar o pai e trazer o movimento de volta ao poder, mas o escolhido por procuração política não goza da confiança irrestrita de todos os eleitores do campo conservador.

Continuidades diferentes, sucessões problemáticas

Embora haja continuidades em disputa dos dois campos, elas se apresentam de formas diferentes. A de Lula mostra a fraqueza do fim do ciclo, e a de Flávio, a opacidade de agir por procuração. Além da dificuldade de continuísmo, o pós-2026 apresenta uma contradição interessante em relação à sucessão.

Lula não tem hoje um sucessor evidente, capaz de capitalizar votos como ele. A experiência de 2018 de Haddad por procuração — problema parecido para Flávio, hoje — mostrou os limites de transferência que tendem a piorar se Lula sair do cenário definitivamente como protagonista. Em 2018, mesmo preso, exercia essa posição.

Bolsonaro, ao contrário, tem seu espólio político disputado por diversas figuras, dentro e fora da família. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, era o nome natural para esta eleição, até que foi dada a bênção do pai a Flávio. Tarcísio era visto por parte da direita como alguém capaz não apenas de reter os votos de Bolsonaro, mas de ampliá-los, atingindo parcelas que rejeitam o bolsonarismo, mas concordam com muitos de seus ideais.

O paradoxo aparente dessa diferença decorre do fato de que o PT é um partido estruturado, histórico, de base social forte e vitorioso em diversas eleições, mas que não soube criar lideranças efetivas em volta da figura de Lula, enquanto o bolsonarismo, de frágil base partidária, conseguiu produzir nomes competitivos eleitoralmente.

Mas a sucessão não deixa de ser problemática para o bolsonarismo, pois há o receio de que uma vitória presidencial de alguém de fora da família possa mudar o protagonismo do campo conservador, adormecendo a figura de Bolsonaro como protagonista. Para muitos analistas, esse foi o principal motivo da escolha de Flávio: manter o bolsonarismo como está.


O pós-2026
Galeria de ex-presidentes no térreo do Palácio do Planalto.
Galeria de ex-presidentes no térreo do Palácio do Planalto. / Reprodução

A eleição deste ano representa ao mesmo tempo continuidade e finitude. Após ela, fecha-se inevitavelmente um ciclo da história política do país, assim como o ciclo Fernando Henrique Cardoso se encerrou mesmo tendo permanecido vivo. No caso de FHC, houve sucessores — Serra, Alckmin, Aécio —, todos competitivos, nenhum vitorioso. O PSDB só derreteu depois de 2014, quando perdeu não os quadros, mas o lugar próprio: espremido entre os dois polos, virou fornecedor de nomes para governos alheios.

Porém, mais que uma dificuldade partidária, o fechamento do ciclo atual representa um desafio para todo o campo progressista, que viu sua representatividade política ficar concentrada na figura de Lula. Caso o PT definhe como o PSDB, levará consigo uma profunda desestruturação da esquerda brasileira, que precisará de uma reconstrução orgânica.

A direita parece chegar ao pós-Bolsonaro com maior oferta de lideranças competitivas, mas com um problema inverso ao da esquerda: não a ausência de herdeiros, e sim o excesso deles. A disputa será para saber quem poderá reivindicar o eleitorado de Bolsonaro sem herdar integralmente sua rejeição.

Em 2026, Lula e Bolsonaro ainda organizam a eleição. A verdadeira disputa, porém, talvez seja sobre quem organizará a política quando eles não puderem mais fazê-lo.
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A falsa paz dos cansados
26/07/2026 | 21h11
Foto: ernie114/Pixabay

Entramos de maneira efetiva nas eleições deste ano. A Copa se foi — rápida e dolorosa — e a maior parte das convenções aconteceu. Estamos a 70 dias de uma eleição estranha: importante demais para ser relegada a segundo plano e previsível o bastante para gerar um certo tédio e preguiça em discuti-la.

Mas é aí que a coisa complica — na preguiça. Estamos cansados de batalhas, eu sei. Estamos há anos discutindo em redes sociais, em reuniões de família, em grupos de WhatsApp, no trabalho e até no boteco (aquele ambiente sagrado de risadas e desavenças de times de futebol). Fomos expulsos de grupos e saímos de outros tantos, parentes não nos olham do mesmo jeito, evitamos lugares com “certas pessoas” e bloqueamos mais de uma dezena de perfis no Instagram.

Portanto, viemos de tempos de guerra. Conflitos constantes por termos construído um ambiente em que decisões políticas definem nossa identidade. A declaração de voto em um político ou partido é logo vista como definidora de características pessoais, de formas de pensar. Além disso, como em toda guerra, os lados radicalizados tendem a endurecer ainda mais quando pressionados. E aí cabe uma questão: devemos entender que não há solução e abandonar os “campos de luta” ou continuar em guerra?

Essa indagação admite duas respostas opostas, ambas defensáveis com argumentos igualmente genuínos. Mas a proximidade das eleições parece reacender a necessidade de respondê-la em tom de continuidade. A premissa dessa dualidade impõe uma guerra inevitável — que nos obriga a desertar ou entrar em novas batalhas —, mas há os que não percebem essas diferenças políticas como um embate, e sim como algo que deveria gerar concordâncias — paz, portanto.

A questão é que a democracia não é um ambiente distensionado. Para se manter funcional, a democracia exige tensões constantes, choques entre visões de mundo distintas que disputam qual delas será a regra do jogo vigente. O equilíbrio e alternância pacífica são o que se espera idealmente, mas a realidade ideal não é algo a ser conquistado, mas buscado.

A paz e o silêncio

Buscar a convivência pacífica não significa abrir mão de se posicionar, tampouco silenciar diante de injustiças. Conviver pacificamente diante das diferenças é o que o regime democrático espera e a convivência vinda do medo e da repressão é o que uma ditadura impõe. O resultado é o mesmo — o viver pacífico —, mas as formas de chegar até ele fazem toda a diferença.

Cabe uma ponderação sobre a “paz”: ela pode significar ausência de conflitos, mas a paz em uma sociedade democrática significa que há soluções pacíficas para os conflitos, que todos serão tratados igualmente nessas soluções.

A “preguiça” de discutir política nos meios sociais em que estamos inseridos vem de um esgotamento e da ideia de que não será possível mudar o outro, o que ele pensa politicamente e sua escolha de candidato. Em casos mais extremos, vem do medo da reação, de sofrer represálias e até atos violentos.

Excetuando-se os casos que envolvem crimes, não é saudável democraticamente aceitarmos o “não-argumento” e a omissão política em ambientes em que devemos ter voz ativa. E não apenas na política eleitoral e partidária, mas também devemos ter o direito de argumentar e de nos posicionarmos diante das situações cotidianas. Quando isso é suprimido pelo ambiente ou por alguém, e não por uma decisão pessoal, vira um problema. Em outras palavras: quando queremos nos manifestar diante de uma injustiça ou de um posicionamento que consideramos errado e não o fazemos por medo de como será a reação, não é paz e sim silenciamento.

Então, temos as eleições. E elas são justamente uma das principais formas de resolução pacífica de um conflito — como as democracias brigam e decidem sem destruir nem silenciar. O voto é o substituto civilizado da guerra, não sua continuação. Ou seja: aquilo de que você está cansado — a política, a disputa, o desgaste familiar — não é a doença; é justamente o remédio.

Mas, como toda boa ciência médica explica, a diferença entre um remédio e um veneno é a dosagem e a forma de aplicação. A disputa praticada como aniquilação — em que se espera a extinção do oponente depois da apuração — deixa de ser eleição e volta a ser guerra.

Daqui a pouco mais de dois meses, e depois deles e de um eventual segundo turno, as pessoas continuarão a pensar diferente. A pergunta certa a se fazer é: a voz dos derrotados será garantida independentemente do resultado?

Porque a democracia não se revela na festa dos vencedores, mas na liberdade que continua assegurada aos derrotados.



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A pátria de chuteiras - Uma ode à Copa do Mundo
21/06/2026 | 22h16
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Nelson Rodrigues foi, sem nenhuma dúvida razoável, um dos melhores escritores que tivemos. Dominava alguns gêneros jornalísticos e literários, mas era especialmente brilhante em crônica esportiva.
São rodriguianos os conceitos do viralatismo brasileiro e da realeza de Pelé. Ambos cunhados em crônicas esportivas, no final dos anos 1950.
Pode um brasileiro não gostar de futebol — eu mesmo não tenho a influência familiar necessária ou o gosto pessoal para apreciar o ludopédio —, mas não é possível negar a influência desse esporte na formação da identidade nacional.
O vira-latas de Nelson não é xingamento, é diagnóstico. Nelson cunhou o termo em 1958, às vésperas da Copa da Suécia, para nomear "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente" diante do mundo — repare no advérbio: não a inferioridade imposta, mas a assumida. Vinha do trauma de 1950, do Maracanã emudecido.
E aí vem a Copa do Mundo atual — um evento grandioso, que envolve não apenas a parte esportiva, mas também as nações que o disputam. Quando um time entra em campo, veste um uniforme. Ele tem as cores, os símbolos, os jogadores entoam o hino de suas nações, torcedores se emocionam. É o patriotismo não canalha, é a pátria sem ser refúgio. Todos estão ali imbuídos de um objetivo esportivo e também, inevitável, de uma disputa entre nações.
Dois episódios ganharam grande repercussão nesta Copa, e ambos aliaram a qualidade futebolística à camisa nacional que os jogadores envolvidos vestiam. O primeiro foi o veterano goleiro de Cabo Verde, Josimar José Évora Dias, o Vozinha. Quando acabou o histórico jogo, o rosto de Vozinha chorava de emoção. Estreante em Mundiais, Cabo Verde empatou em 0 a 0 com a atual campeã da Europa, a Espanha.
Assim como o Brasil, Cabo Verde foi colonizado pelos portugueses. Em 1951, foi reclassificado como província ultramarina de Portugal, mas os seus habitantes continuaram a campanha pela independência, o que foi conseguido 24 anos depois. Cabo Verde tem sido uma democracia e um dos países mais desenvolvidos da África.
Goleiro 'Vozinha'
Goleiro 'Vozinha'
O outro episódio foi protagonizado pelo técnico holandês Dick Advocaat, de 78 anos. Os expressivos olhos azuis de Advocaat encheram-se de lágrimas durante a execução do hino, na estreia de seu time, o Curaçao, diante da poderosa Alemanha. E também quando vibrou no primeiro gol marcado pelo time em Copas do Mundo. Curaçao acabou goleado por sete a um, mas o gol que os caribenhos marcaram representou uma vitória muito mais significativa para os curaçauenses.
Uma ode necessária à Copa
O que a Copa do Mundo ensina é que há algo mágico quando se mistura um esporte como o futebol com histórias. Quando há personagens improváveis, heróis nascidos mesmo da derrota. Quando colonizados estão de igual para igual com os colonizadores, e por vezes os superam.
Nelson Rodrigues percebeu que Pelé era um gênio em seu esporte, e o coroou. Alguns países da Copa atual são monarquias. Mas a realeza é uma medida de grandeza diferente quando relacionada ao futebol. Pelé foi coroado e não há quem queira destroná-lo. Maradona, Messi, Zidane, Beckenbauer ou Di Stéfano não são príncipes, são jogadores geniais de um esporte que, goste-se ou não, mobiliza nações.

Na Copa, as diferenças antes irreconciliáveis dão lugar a discussões sobre a escalação, e a teimosia do técnico é reclamada da mesma forma. Não nos enganemos, talvez as concordâncias resistam apenas até o final do torneio, ou a alguma derrota vexatória do Brasil. Mas, por agora, as ruas estão pintadas de verde e amarelo e ninguém ousa dizer que há ali objetivos políticos eleitorais. 
O Brasil da Copa não é o mesmo Brasil eleitoral. Por alguns dias retoma-se a ideia de um país que olha para suas diferenças com mais parcimônia, e que não acha necessário eliminar o oponente, e aceitava que em quatro anos poderá tentar novamente.
No fim, a pátria de chuteiras não é a maior, nem a mais rica, nem a mais antiga. É a que entra em campo sabendo que vai perder e ainda assim canta o hino até o fim. Cabo Verde e Curaçao não vencerão a Copa. Mas venceram até aqui o complexo de vira-latas — que, como sabia Nelson, é a única derrota autoimposta que ninguém se livra goleando.
 
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A mulher por trás do capacete com orelhas de gatinho
09/05/2026 | 20h45
Reprodução Instagram
“Mais do que nunca, agora, tenho certeza de que a minha missão com o Instagram não é só postar conteúdo. É fazer pelo próximo”. Essa foi a frase final de uma entrevista por escrito com a influenciadora digital Kaliya, quando perguntei sobre uma ação recente na APOE, em Campos.


O Centro de Assistência Social e Terapêutico Diva Marina Goulart, a APOE, é uma instituição filantrópica campista, fundada em 1964, que atende “mais de 430 usuários ativos”, como informa o site da própria instituição, atendendo pessoas com deficiências intelectuais, auditivas e TEA em Campos e municípios vizinhos.

A ação na APOE, segundo Kaliya, surgiu a partir do grupo Armys — grupo local de fãs da banda sul-coreana BTS, ligado a uma cultura de mobilização solidária —, que buscou a influenciadora para ajudar na arrecadação de caixas de bombons. Ela, por sua vez, procurou outros parceiros e conseguiu 190 ovos de Páscoa — antes eram apenas três caixas de bombons — e uma palestra para mães dos alunos atípicos da APOE.

Kaliya tem pouco mais de 128 mil seguidores no Instagram, além de outros milhares em diferentes redes. Baseada em Campos, contraditoriamente, a personagem que ela desenvolveu escolheu o anonimato. A visibilidade de influencer ganha, nesse caso, um ar de mistério: uma jovem a bordo de uma moto superesportiva, a BMW S 1000 RR, sem entregar inteiramente o rosto à curiosidade pública.

A motocicleta, segundo a ficha técnica da própria BMW, tem 999 cilindradas, quatro cilindros em linha e 210 cavalos de potência que, segundo alguns motociclistas podem superar os 300 km/h de velocidade máxima (embora a BMW não confirme diretamente esse número). Aqui, importa menos como dado mecânico, mas sim como símbolo. Não se trata de uma moto discreta. 
Reprodução


“Quando eu passo de moto, eu sei que existem duas leituras acontecendo ao mesmo tempo. Tem gente que me vê simplesmente como uma mulher, e isso, por si só, já carrega um peso dentro do motociclismo. Mas também tem quem me enxergue como uma personagem, por causa da orelha de gatinho, da estética, da ‘mulher gata’ na moto”.

A cidade, as crianças e o capacete

A personagem Kaliya costuma atrair também os olhares curiosos das crianças. “As crianças acabam vendo de um jeito mais lúdico, quase como uma figura mesmo”. As “orelhas de gatinho” em um capacete preto estilizado ajudam na composição de uma persona. E, quando uma presença digital ampla se materializa na rua, a motociclista anônima, mas de fama local, fascina.

“Quando uma menina me vê passando e sorri, eu sempre penso que aquele momento pode significar mais do que parece. Talvez, num primeiro olhar, ela veja a moto, o barulho, a estética ali em cima de uma S 1000 RR, quase como uma personagem saindo do imaginário. E tudo bem, porque isso também encanta, principalmente as crianças”.

Mas nem todos os olhares são de admiração. A presença nas redes e o engajamento trazem visibilidade. E, com ela, vêm também as críticas. “A desconfiança é o que mais me incomoda, sem dúvida. Porque ela vem carregada de um julgamento automático. Muita gente simplesmente não acredita que eu seja capaz de andar numa mil cilindradas”.

Essa desconfiança reclamada por Kaliya não se limita à pilotagem. Quem tem muitos seguidores passa também a ser observado pelos possíveis interesses comerciais, pelos acordos que pode fazer, pela independência que preserva ou não, e pelo modo como lida com a própria imagem. No caso dela, soma-se ainda o assédio.

“O assédio também é algo presente, justamente por eu ser uma mulher numa moto grande, e muitas vezes vem junto com tentativas de me diminuir, de inferiorizar, como se eu estivesse ocupando um lugar que não é meu. No fim, eu tenho que lidar o tempo todo com gente tentando reduzir algo que construí com esforço e constância”.

A mulher no guidão

A presença feminina em espaços historicamente masculinizados ainda costuma ser questionada. Embora existam avanços significativos na sociedade sobre representação e liberdade de escolha da mulher, ainda há muito a ser feito para que uma igualdade real seja alcançada.

“Questionam se eu tenho carteira, se eu realmente sei pilotar, como se fosse improvável uma mulher estar ali com domínio”, disse Kaliya.

Reprodução
No Brasil, as mulheres ainda representam cerca de um quarto dos habilitados para conduzir motocicletas. Em competições internacionais, nomes como o da espanhola Ana Carrasco ajudam a lembrar como a presença feminina no motociclismo de alto rendimento ainda é exceção — e, por isso mesmo, vira notícia.


Ao mesmo tempo, levantamento da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares, a Abraciclo, mostra que o público feminino cresce de forma consistente. Dados divulgados em 2025 apontavam mais de 10 milhões de mulheres habilitadas na categoria A, aumento de 65,8% em relação a 2015 (G1).

Kaliya reforça o entendimento de que a presença da mulher em qualquer atividade é um direito — e deve acontecer onde elas quiserem.

“No fundo, o que eu gostaria mesmo é que ela enxergasse possibilidade. Que ela entendesse que não existe um único jeito de ser mulher, nem um único caminho certo para seguir. Que ela pode ser delicada ou intensa, discreta ou chamativa, pode gostar de velocidade, de arte, de qualquer coisa, sem precisar da validação de ninguém”.

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Nem só ajuda, nem só atrapalha: molda


A motociclista que preserva o rosto, a bordo de uma mil cilindradas nas ruas de Campos, diz que os julgamentos e a sensação de que as pessoas estão sempre “esperando um erro” também fizeram parte do processo de construção da personagem.

“Campos tem esse lado de amplificar tudo. O que você faz vira assunto muito rápido. Isso pode pressionar, pode gerar julgamento, mas também constrói presença. No começo, pode assustar, porque parece que estão sempre esperando um erro. Depois, você entende que também é isso que faz as pessoas te reconhecerem. Então, no fim, eu diria que fez parte do processo. Nem só ajuda, nem só atrapalha: molda”.

A ação recente na APOE transformou a visão de Kaliya sobre o sentido da caridade e das boas ações, além de trazer outro significado para sua visibilidade, segundo ela mesma: "Foi muito especial, de um jeito que eu não esperava quando tudo começou. Olhar nos olhos das pessoas, sentir a troca, é algo que não dá pra explicar direito, só vivendo mesmo”.

Se os julgamentos moldam, a ação concreta parece ter mudado sua forma de enxergar a própria influência — e, aos poucos, também suas atitudes.

“Eu fui achando que estava indo fazer algo, mas, no fim, recebi muito mais do que entreguei. Saí de lá com a cabeça diferente, mais consciente do impacto que pequenas atitudes podem ter. Coisas simples, que às vezes a gente nem imagina, podem marcar o dia ou até a vida de alguém”.

O futuro mostrará se essa missão ligada à questão feminina e a ações sociais se tornará caminho permanente ou se ficará como um episódio bonito de uma trajetória digital interessante. A pergunta sobre a continuidade é legítima — e necessária — mas não invalida a Kaliya de hoje, pelo contrário.
Em tempos de algoritmo, influência só deixa de ser vitrine quando suporta continuidade. E uma coisa parece certa depois desta entrevista: por trás do ronco das mil cilindradas, há também uma tentativa de dar sentido ao olhar que a cidade lançou sobre ela.

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Lira de Apolo: das cinzas ao projeto executivo
01/05/2026 | 15h32
Foto: Edmundo Siqueira
Eram quase sete e meia da noite quando, depois de mais de uma hora de conversa, o arquiteto Humberto Chagas interrompeu a entrevista e foi buscar — com o cuidado de quem recolhe uma relíquia da própria cidade — uma peça arredondada, cheia de relevos em alvenaria, que havia despencado do alto da fachada da Lira de Apolo, no centro de Campos.

Voltou segurando o fragmento com certo orgulho — não o orgulho vaidoso de quem exibe uma descoberta, mas o de quem sabe que uma ruína também é documento. A peça caiu de um prédio quase sempre subestimado pelos campistas. Construído entre os anos de 1909 e 1914, é sede da Sociedade Musical Lira de Apolo, uma das mais antigas instituições musicais da cidade, com origem em 1870.

O trabalho detalhado visto na fachada do prédio, como na peça que estava nas mãos de Humberto, forma um conjunto que os arquitetos chamam de “eclético”; uma maneira técnica e elegante de dizer que não há um estilo único, definido. O ecletismo da Lira é uma mistura de estilos históricos — como clássico, barroco e gótico — em uma única obra.

Foto: Edmundo Siqueira


As bandas

A história da Lira é mais que um prédio, embora ambos se encontrem em simbiose.

Campos, como muitas cidades brasileiras, constituiu bandas civis, as chamadas sociedades de euterpe (deusa da música e da poesia lírica). Esses agrupamentos de músicos, que em geral tocam instrumentos de sopro e percussão, se constituíram como uma das únicas formas de acesso à música instrumental para as camadas mais populares.

A formação histórica dessas bandas sempre foi marcada por pessoas comuns da classe popular: “eram ex-escravos; trabalhadores livres e pobres das fazendas, usinas, olarias e do mundo do trabalho informal”, como cita a tese de doutorado de Karina Gomes, defendida na Uenf. A autora complementa: “no campo ou na cidade, esses músicos eram marginalizados, desprezados e sem voz na sociedade, em suas dimensões sociais e culturais”.

A formação dessas bandas populares vem do crescimento urbano. Com a corte portuguesa instalada no Rio de Janeiro e o dinheiro farto da cana-de-açúcar, a terra goytacá viu crescer a necessidade de uma vida social mais plena. Foi nesse cenário que começaram a ser erguidos os teatros em Campos, como o Theatro Campista, ainda em 1832, e o emblemático Cine Teatro Trianon, nos anos 1920.

Campos se consolidava como uma cidade de artes e cultura. Embora focada em uma visão eurocentrista, houve movimentos orgânicos na cidade, essencialmente ligados às classes populares. Os elegantes teatros campistas recebiam companhias musicais nacionais e estrangeiras para uma elite ávida em viver como se vivia na capital.
Restauro de fachada feita com doações e recursos da Lira de Apolo - poder público se omitiu para ajuda, mesmo o prédio sendo tombado pelo órgão estadual Inepac e reconhecido como patrimônio histórico municipal.
Restauro de fachada feita com doações e recursos da Lira de Apolo - poder público se omitiu para ajuda, mesmo o prédio sendo tombado pelo órgão estadual Inepac e reconhecido como patrimônio histórico municipal. / Antônio Filho - divulgação (Folha1)


O espelhamento do Rio e da Corte fez surgir orquestras locais, como a Sociedade Philarmônica de Campos, em 1855. Mas eram espaços elitizados, e sem espaço para músicos amadores, que passaram a compor as bandas civis, como a Lira de Apolo. A música era parte importante da vida cultural de Campos, e as bandas se apresentavam em saraus, bailes carnavalescos e também nas ruas, coretos e até em usinas de cana-de -açúcar.

A Lira de Apolo

Ainda segundo Karina, a Lira de Apolo foi fundada por gente da classe trabalhadora que tinha participação na campanha abolicionista: eram lavradores, marceneiros, charuteiros, pedreiros, um oficleidista (Lourenço Soares), um consertador de pianos (Manoel Bento) e o funileiro Bernardo Bento Alves — “oficleidista” era o músico que executava o oficleide, instrumento da família dos metais.

O histórico da Lira de Apolo chama atenção para esse funileiro que deu força e adesão ao movimento antiescravagista, colaborando para que a cidade de Campos se tornasse o palco da luta abolicionista. A euterpe campista tocou inúmeras vezes para as conferências abolicionistas, onde Carlos de Lacerda e José do Patrocínio faziam apelos às senhoras da plateia para que fundassem um clube abolicionista feminino, que mais tarde ficou conhecido como “Clube Abolicionista José do Patrocínio”.

A Lira já esteve sob a batuta dos maestros Manoel Baptista de Castro, Lourenço Antônio Soares, José Ferraz, Joaquim Barboza Fiuza, Juca Chagas, Álvaro de Andrade Reis, Etienne Samary e Ricardo de Azevedo, este o atual regente.

O maestro Ricardo conta que começou na Lira de Apolo como estudante e aprendiz, limpando instrumentos e encerando o salão do prédio. Chegou a tocar trompa na banda do Corpo de Bombeiros de Niterói, então capital do estado do Rio de Janeiro, ficando no instrumento por “toda a vida”.

O incêndio

Em 19 de novembro de 1990, a sede da Lira de Apolo sofreu um grande incêndio que destruiu instrumentos, uniformes, repertório e equipamentos, além de deixar seu prédio em estado quase irrecuperável.

Após o incêndio, uma longa luta comunitária para recuperar, reconstruir e restaurar o prédio, os sonhos, as memórias, os instrumentos e a identidade da banda foi travada, e liderada pelo maestro Ricardo conseguiu avançar bastante.
Maestro Ricardo de Azevedo
Maestro Ricardo de Azevedo / A.F. Divulgação (Folha1)
“A obra de restauro está quase completa, e fizemos tudo com recursos da banda e dos músicos, além da colaboração de amigos e admiradores. Mas, infelizmente, a luta pela reconstrução não tem nenhum apoio financeiro do poder público. Foi realizada a reestruturação do prédio, restauro do telhado, torres, assoalho em roxinho, escadaria, portas do segundo andar, banheiro e cozinha. Com todas as dificuldades seguimos resistindo e, com a certeza de que sabemos que a história da Lira de Apolo representa muito para o município”, disse Ricardo à Folha, em matéria de 2024.


O projeto atual

A fachada da Lira de Apolo é uma pequena peça de teatro arquitetônico no centro de Campos. Eclética, simétrica, ornamentada, com torres laterais e um frontão central de curvas quase musicais, ela pertence àquele momento em que as cidades brasileiras queriam se vestir de Europa, mas acabavam produzindo algo mais interessante: uma elegância própria, meio solene, meio provinciana, profundamente urbana.

Há nela um desejo de permanência. As liras no alto, os ornamentos em alvenaria, as janelas altas e os telhados pontiagudos parecem compor uma partitura imóvel. Vista com pressa, é apenas mais um prédio antigo. Olhada com atenção, é um prédio rico em história e promessa.

O reconhecimento e o simbolismo do prédio da Lira levaram ao seu tombamento pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (Inepac), em 1982.
Pilastra no interior da instituição. Forro precisou ser refeito após o incêndio, assim como muitas outras estruturas.
Pilastra no interior da instituição. Forro precisou ser refeito após o incêndio, assim como muitas outras estruturas. / Foto: Edmundo Siqueira


É nesse ponto que entra o projeto atual. A Lira foi contemplada no edital Reviver Memórias, da Política Nacional Aldir Blanc no Estado do Rio, com R$ 200 mil para o projeto “Das Cinzas ao Ouro: Construindo a Nova História da Lira de Apolo”. O nome, para o caso, não é apenas bonito. É quase literal. O prédio saiu das cinzas de 1990 e agora tenta chegar ao ouro mais difícil: não o ouro metálico, decorativo, de igreja barroca, mas o ouro miúdo da continuidade, da técnica, do cuidado, da paciência institucional.

Segundo a página oficial da PNAB RJ, o recurso é destinado à elaboração do projeto executivo de restauro da sede, prédio tombado e parcialmente restaurado, para que continue abrigando ações culturais e aulas gratuitas de música.

O edital Reviver Memórias foi desenhado justamente para esse tipo de etapa. No ciclo em que a Lira foi contemplada, a seleção reuniu projetos voltados à história e ao patrimônio cultural do Estado do Rio, em parceria com o Inepac, divididos em categorias que incluíam obras em bens imóveis tombados, projetos executivos e restauro de bens móveis tombados. A Lira entrou na Categoria B, destinada à realização de projetos executivos de restauro, revitalização ou intervenção em bens culturais edificados tombados pelo Inepac.

A noite na Lira

Naquela noite, Humberto Chagas parecia interessado justamente nisso: mostrar que o restauro não começa quando o pedreiro sobe no andaime, mas quando alguém aprende a escutar o prédio. A peça arredondada que ele segurava nas mãos não era só um ornamento caído. Era uma informação; e um alerta.

Quicila Stefen, restauradora de arte sacra, e Michelini Braga, técnica em conservação e restauro, também estavam na conversa, e observavam o prédio com a atenção de quem está treinado a lidar com camadas. Prédios como a Lira mostram que por trás de uma pintura há outra pintura e por trás de uma pretensa sujeira pode haver uma escolha estética.
Detalhes (liras) das pinturas em uma das paredes do interior da Lira de Apolo. Segundo a restauradora Quicila Stefen, o padrão se repete em outras paredes, sendo possível o restauro de parte da originalidade.
Detalhes (liras) das pinturas em uma das paredes do interior da Lira de Apolo. Segundo a restauradora Quicila Stefen, o padrão se repete em outras paredes, sendo possível o restauro de parte da originalidade. / Foto: Edmundo Siqueira


Humberto, Quicila e Michelini não pareciam tratar o prédio como um cadáver ilustre. Tratavam-no como uma instituição e construção ainda possíveis. A Lira é uma sobrevivente. Mesmo com todas as dificuldades, o prédio ainda conversa com a praça, e a banda ainda existe. A história ainda respira, mesmo quando a cidade passa apressada demais para ouvi-la.

A fachada, vista de baixo, guarda essa contradição. Em cima, ornamentos, torres, liras, curvas, promessa de elevação. Embaixo, lojas, letreiros, comércio, o barulho comum do centro. As fiações dos postes demonstram um dos grandes problemas dos patrimônios históricos de Campos, principalmente os centrais: a falta de visibilidade.

Por isso, o projeto atual é mais do que uma etapa técnica. Tenta devolver ao prédio não apenas estabilidade, mas leitura e tentativa de deixar o prédio e a própria banda Lira de Apolo visíveis e acessíveis.

No fim da conversa, a peça que Humberto havia buscado continuava ali, sobre a mesa, como uma espécie de prova. Não era grande. Não tinha a imponência da fachada inteira. Mas, de perto, parecia conter o prédio todo. Talvez seja isso que reste às cidades quando elas esquecem seus próprios símbolos: alguém precisa recolher do chão os fragmentos e dizer, antes que virem entulho, que aquilo ainda é história.
Foto: Edmundo Siqueira
 
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Vorcaro, Bets e Gatsby: o sonho brasileiro de neon
14/04/2026 | 19h01
Imagem gerada por IA (Gemini) a partir do envio do texto



A primeira vez que li O Grande Gatsby — o romance clássico de F. Scott Fitzgerald sobre o sonho americano — ele não me impressionou imediatamente. Trata-se de uma narrativa curta, de aparente simplicidade, mas de grande potência literária, que expõe o brilho e o vazio da sociedade americana dos anos 1920. Aquilo me parecia distante da realidade brasileira.

Por aqui, nos anos 20, ainda se iniciava a modernização das capitais, enquanto o interior permanecia essencialmente agrário e atolado no analfabetismo. O poder e o dinheiro concentravam-se em oligarquias políticas e empresariais que, em regra, comportavam-se com discrição. Era o chamado old money, vindo de famílias que acumulavam uma considerável quantia de patrimônio que deixavam algumas gerações nascidas em berço de ouro.

Poster do filme inspirado no filme 'Gatsby'.
Poster do filme inspirado no filme 'Gatsby'. / Reprodução
O livro de Fitzgerald, portanto, parecia distante do Brasil. Parecia. Hoje, em 2026, já não faltam Gatsbys tropicais. Joesley e Eike Batista são alguns exemplos recentes. E a bola da vez, entre os bilionários envolvidos em negócios nebulosos, é o banqueiro Daniel Vorcaro.


Vorcaro expôs de forma violenta duas predileções que o brasileiro tenta negar em sua gênesis e em seu comportamento ao longo dos tempos: a valorização da esperteza ilícita e a complacência com a promiscuidade entre poder público e empresariado. Ainda nesta última semana, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) disse ter ouvido da Polícia Federal que deputados recebiam mesada do jogo do bicho. Para espanto de pouquíssimos brasileiros.

A questão é que o brasileiro se acostumou a ver a contravenção e a falcatrua como parte do jogo. “Todo mundo sabe que é assim”, e ponto. Se olharmos para o jogo do bicho, podemos perceber a essência desse modo brasileiro de encarar as coisas. O bicho está em cada esquina, todos sabem onde se joga, a polícia sabe onde são os pontos, os lucros da atividade financiam assassinatos e escolas de samba quase com a mesma intensidade e visibilidade, e se convive perfeitamente bem com isso. É ilegal, mas “todo mundo sabe que existe”.

O jogo do bicho e as bets — apostas esportivas eletrônicas — são o “divertimento” de grande parte dos brasileiros. As bets têm sua porção legal, normatizada por legislação federal, mas são a porta de entrada para uma jogatina desenfreada que gera diversos problemas. É a promessa de dinheiro fácil que passa a sensação que o esperto se dá bem enquanto um incauto perde. Mas é a “casa” que sempre ganha.

Em sua face mais especulativa, o mercado financeiro tampouco se distancia muito da lógica da jogatina. É dinheiro mudando de mãos e gerando lucros exorbitantes com a mera movimentação de papéis. Não se produz, há ganho com movimentação financeira e com aposta. Vorcaro sintetiza esse homem do mercado financeiro que fez fortuna especulando e apenas movimentando capital.

Vorcaro se assemelha a Gatsby, sobretudo, na extravagância de suas festas. Mas há uma diferença decisiva de motivação. Enquanto o personagem de Fitzgerald buscava impressionar a mulher amada, que antes o rejeitara por sua pobreza, o banqueiro brasileiro parecia ostentar por uma necessidade bem mais cafona: a de parecer rico para continuar poderoso, desejado e socialmente intocável.
Uma das festas de noivado de Daniel Vorcaro, dono do banco Master, com Martha Graeff, em novembro de 2024, na Villa Adriana, em Roma
Uma das festas de noivado de Daniel Vorcaro, dono do banco Master, com Martha Graeff, em novembro de 2024, na Villa Adriana, em Roma / Reprodução


Vorcaro, ao menos pelo que veio à tona, parece pertencer ao mundo das relações convertidas em ativo, do luxo extravagante e da intimidade com o poder tratada como investimento. Nas conversas extraídas de seu WhatsApp, divulgadas nas investigações, o brasileiro viu com curiosidade quase mórbida um homem que mantinha belas amantes, torrava cifras obscenas em festas privadas e cultivava trânsito entre políticos, autoridades e figuras do topo da República.
Gatsby ainda sonhava com a luz verde (a casa de sua amada, vizinha a sua, emanava uma luz verde que servia de símbolo de conquista para ele). O seu primo tropical preferiu o neon.

Bets supremas

A declaração no Supremo sobre a mesada do bicho é vista com a mesma naturalidade trágica da disseminação das bets. O presidente Lula disse recentemente que “por ele”, as bets acabavam. A questão é que há um mercado já consolidado que se fortaleceu por omissão e é de difícil combate quando alcançou o tamanho atual.

O mesmo STF que, pela voz de Gilmar Mendes, condena a mesada do bicho, passa por forte desgaste insitucional, com ministro andando em jatinho de investigado e o escritório de advocacia da esposa de outro recebendo milhões do mesmo Vorcaro.

A mensagem que o país passa para seus próprios conterrâneos é que essa é uma terra onde tudo pode ao “esperto” e apostar alto, mesmo que de forma ilegal, pode garantir poder e uma vida de luxos. Em outros episódios de corrupção generalizada, sempre houve instituições que permaneceram como alternativas ilibadas para a contenção. Hoje, o Supremo atravessa talvez sua pior fase, e qualquer controle que tente exercer sobre ilegalidades será, inevitavelmente, questionado.

O problema do Brasil não são apenas as bets, nem apenas Vorcaro, nem apenas o bicho, nem apenas o Supremo em sua hora mais opaca. O problema é mais fundo: trata-se de uma cultura que há muito deixou de condenar a esperteza quando ela vem acompanhada de cifra alta, champanhe, autoridade por perto e aparência de sucesso.

Lula se insurge contra as bets quando elas já corroem famílias inteiras; o STF condena o jogo ilegal enquanto também sofre o desgaste de sua própria promiscuidade periférica; e o país assiste a tudo com a velha resignação de quem repete que “sempre foi assim”. Fitzgerald imaginou um homem perseguindo uma luz. Nós construímos uma sociedade fascinada pelo brilho. E, entre a luz verde de Gatsby e o neon brasileiro, talvez esteja a diferença entre um sonho trágico e um vício nacional.
 
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Do grito contra os usineiros ao acordo com o açúcar
06/04/2026 | 20h45
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes / Foto: César Ferreira


O ano era 1988. O Brasil finalizava as extensas — e propositalmente graduais — negociações para um novo período democrático, com a promulgação de nova Constituição e a realização de eleições diretas em todo o país. Em Campos dos Goytacazes, iniciava-se um processo que iria determinar a história local, definindo não apenas um novo rumo político, mas também redesenhando as relações sociais da cidade.

Havia naquele período um movimento denominado “Frente Campos”. A mobilização tinha claras ambições políticas, e nascia de um sentimento quase palpável de insatisfação popular com os governos municipais ligados às elites campistas de então, principalmente ao setor sucroalcooleiro.

A tal “frente” era composta por pessoas ligadas ao setor cultural, especialmente do teatro e poesia. Parte da intelectualidade e da imprensa também se organizavam ali. E havia os partidos de esquerda — PDT, PCB, PV e mais tarde o PT. A insatisfação estava nas camadas mais populares, mas também na classe média — composta por comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais —, fazendo o movimento tomar corpo e vislumbrou-se uma candidatura ao executivo municipal.

Entre os personagens, um jovem despontava: Anthony Garotinho. Oratória sofisticada, ambição e ligação partidária efetiva no PDT, avalizada por Leonel Brizola. Em 1986, Garotinho elegeu-se deputado estadual, já sendo uma figura conhecida do rádio na cidade, onde, na emissora Cultura, disputava com outro nome conhecido dos dials, Barbosa Lemos.

O movimento Frente Campos passou a se denominar “Muda Campos”, em março de 1988. Naquele ano, Garotinho conseguiu, pelo PDT, homologar sua candidatura a prefeito de Campos, tendo o médico Adilson Sarmet como vice. Estava formada uma confluência de fatores e forças políticas que possibilitaria romper com velhas oligarquias.

Apesar dos inúmeros candidatos que concorreram às eleições municipais naquele ano, a polarização estava bem delimitada: Garotinho, como representante da classe média, de grupos emergentes na política local, como os jovens e intelectuais, e como já apontado, os “homens e mulheres de cultura”.

Garotinho conseguiu discursar em nome do “povo” e se aliar a setores de mando local, com poder financeiro. O outro lado era composto pelo poder político de Zezé Barbosa, que apoiou Jorge Pereira Pinto. A narrativa eleitoral criou o “inimigo” popular, associando o atraso da cidade com o “poder de usina” e as antigas oligarquias rurais campistas.

O início do garotismo
Anthony Garotinho, então deputado estadual pelo PDT.
Anthony Garotinho, então deputado estadual pelo PDT. / Arquivo
Anthony Garotinho foi eleito prefeito de Campos em 3 de outubro de 1988, com pouco mais de 30% dos votos válidos. Boa parte desses votos foi dada pela imagem construída do “novo” e pela cultura como plataforma política.


Um dos eventos mais traumáticos de Campos — a demolição do cine-teatro Trianon — foi atribuído ao prefeito anterior, derrotado no pleito. O teatro-cinema foi a principal diversão de várias gerações de campistas e a demolição do símbolo Trianon estava engasgada, precisando achar culpados. Zezé Barbosa foi acusado de complacência, e Garotinho conseguiu centralizar nele a ideia de uma “política cultural mais democrática”, tendo como uma das primeiras medidas reativar o Teatro Trianon.

A luta pelo renascimento do Trianon e as críticas à sua demolição já estavam na sociedade campista, mas Garotinho conseguiu capitalizar a pauta, e sua origem no teatro amador e no rádio o ajudou bastante nessa empreitada. E mais: a cultura era vendida como forma de aproximação popular e democratização de acesso.

Neste sentido, junto com uma pluralidade de personagens ligados ao teatro amador, à intelectualidade e à cultura de modo geral, deu-se o significado histórico sociológico da eleição de Garotinho, que ajudou sobremaneira a legitimar seu poder e dar representatividade ao “povo” e à classe média.

E não se limitava ao Trianon. Em conjunto com a ideia brizolista de fortalecimento da educação e da cultura, entre os planos locais estavam reativar o carnaval campista,
promover “grandes bailes para o povo”, democratizar a festa de São Salvador como atração turística, entre outras iniciativas.
Poder, Campos como a anti-capital e os royalties
A cidade que ajudou a eleger Garotinho em 1988 queria romper com a velha Campos. Ou, ao menos, com a imagem dela: a Campos dos usineiros, do mando tradicional, da política envelhecida e dos círculos fechados de poder. Havia ali um bafejo de redemocratização, um impulso de participação e uma crença — talvez sincera, talvez ingênua — de que seria possível reorganizar a cidade a partir de novas energias sociais.

Não por acaso, já no primeiro governo, em 1991, seria instituído o Plano Diretor do município, no contexto mais amplo da redemocratização brasileira e da nova centralidade adquirida pelos municípios após a Constituição de 1988. Uma nova urbanidade também se construía.

A Campos que começava a se redescobrir, com um importante ciclo econômico em decadência — do açúcar — sofre um baque nos anos 1980: o dinheiro fácil. No início do século XXI, Campos entrava em outro ciclo econômico, agora sob o signo do petróleo. E a promessa, desta vez, era maior, pois não se tratava apenas de riqueza agrícola ou comercial, mas de uma renda extraordinária, potencialmente capaz de promover mudanças estruturais e institucionais na cidade e na região. Campos liderou por anos o ranking dos maiores recebedores de royalties do país. Em 2005, sozinha, recebeu R$ 670,1 milhões, o equivalente a 24,19% de todas as rendas petrolíferas municipais distribuídas no Brasil naquele ano.
 
Usina do Limão
Usina do Limão / Arquivo


Entretanto, o poder local optou por sequestrar as rendas petrolíferas, sem se preocupar com projetos consistentes de desenvolvimento regional nem justiça intergeracional. O populismo foi a tônica escolhida, com alguns hiatos na gestão de Arnaldo Vianna e no segundo governo Rosinha Garotinho, onde algumas obras estruturais urbanas foram entregues.

Politicamente os movimentos foram direcionados ao Estado. Constituída como a principal cidade do Norte e Noroeste Fluminense, Campos sempre foi uma vitrine importante e serviu para que os políticos locais buscassem o poder estadual. O próprio Garotinho foi governador do Rio, elegeu sua esposa, Rosinha, e foi candidato à presidência da República, ficando em terceiro lugar.

Campos, por essas características, funcionou como uma espécie de “anti-capital”. Não tinha a importância e contingente populacional para ser capital do Estado, mas buscava sempre aproximação com esse lugar simbólico. Por sua vez, a capital sempre viu o interior com preconceito e distanciamento — sentimento que, em larga medida, se concentrava na maior cidade do interior: Campos.
O açúcar histórico
A prosperidade econômica de Campos não se constituiu historicamente apenas num centro municipal-regional, mas sim em um polo econômico importante ainda no Império, que se desenvolveu continuamente com a concentração das usinas, exercendo, por esse potencial do setor açucareiro, a função de capital.

Com o advento do Instituto do Açúcar e do Álcool, o IAA, criado em 1933, essa centralidade foi reforçada, fazendo de Campos um dos principais centros produtores de açúcar do país. A Usina São José, por exemplo, ocupava o quarto lugar dentre as maiores usinas do Brasil.
Comitiva presidencial na Usina Santa Cruz
Comitiva presidencial na Usina Santa Cruz / Arquivo


Mas o mesmo sistema que deu sustentação ao açúcar campista também ajudou a criar dependências. A proteção estatal — as cotas e a regulação do IAA — permitiram a sobrevivência por algum tempo de estruturas que, em muitos casos, envelheceram sem modernização compatível. Quando o setor passou pela desregulamentação e o IAA foi extinto em 1990, o choque foi profundo. O decreto de Collor transferiu as atribuições do instituto e marcou a passagem de um ambiente subvencionado para outro, mais exposto à lógica de mercado.

A literatura acadêmica sobre o Norte Fluminense é relativamente convergente nesse ponto. O declínio das usinas campistas não decorreu de uma causa única, mas de um acúmulo de fragilidades: baixa produtividade agrícola, parque industrial envelhecido, alto endividamento, dificuldade de modernização tecnológica, perda de competitividade diante do Centro-Sul, competição por matéria-prima, capacidade ociosa crescente e desorganização após a desregulamentação dos anos 1990. Enquanto outras regiões ganharam escala, tecnologia e integração logística, boa parte do parque sucroalcooleiro campista perdeu mercado e fechou unidades.
A situação ficou ainda mais contraditória porque a decadência do açúcar coincidiu, em larga medida, com a ascensão das receitas petrolíferas. Porém, em vez de a crise do primeiro ciclo servir como alerta para a necessidade de diversificação econômica e planejamento de longo prazo, a abundância dos royalties acabou amortecendo a urgência da reinvenção.

Isso também aparece em estudos locais: a renda do petróleo não foi convertida, de forma estrutural, em uma nova base econômica capaz de substituir com consistência a velha centralidade sucroalcooleira.
Royalties e a volta do usineiro

Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes, o então vice-prefeito beija a mão de Rosinha Garotinho sob o olhar do agora ex-prefeito, Wladimir Garotinho.
Cerimônia de posse de Frederico Paes como prefeito de Campos dos Goytacazes, o então vice-prefeito beija a mão de Rosinha Garotinho sob o olhar do agora ex-prefeito, Wladimir Garotinho. / Foto: César Ferreira

Na última quinta-feira (2), Campos dos Goytacazes tem um novo prefeito. Após a renuncia do atual, Wladimir Garotinho, para concorrer nas eleições deste ano, quem assume é o vice, Frederico Paes. Ele é engenheiro agrônomo, presidente da Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro (Coagro) e figura diretamente vinculada ao setor canavieiro da região e ex-diretor do Hospital dos Plantadores de Cana. Sua posse devolve ao centro do poder municipal um nome associado, de modo explícito, ao universo do açúcar.

O garotismo nasceu, em 1988, como linguagem de ruptura contra a cidade do mando tradicional, das oligarquias locais e do “poder de usina”. Décadas depois, entrega a Prefeitura a um homem do açúcar. Não se trata de dizer que Campos voltou intacta ao passado; a história não é tão simples. Mas a imagem é eloquente, e talvez represente uma ruptura que envelheceu.

Por isso a ascensão de Frederico Paes pode ser lida menos como retorno puro e simples do passado e mais como um evento que mostre uma cidade que um dia gritou contra os usineiros, e ainda não conseguiu produzir, em plenitude, uma alternativa duradoura às suas velhas formas de conciliação entre riqueza, poder e sobrenome, e que precisa aprender a se reconciliar.

Talvez este seja o momento para isso, sobretudo diante do julgamento que o STF pautou para 6 de maio sobre duas ações que discutem as regras de distribuição dos royalties do petróleo no país. A depender do resultado, Campos poderá ser chamada, mais uma vez, a repensar sua história, seu presente e, principalmente, seu futuro.
 
MATIAS, Glauber Rabelo. Os donos da cultura: uma análise sociológica sobre o campo das políticas culturais em Campos dos Goytacazes/RJ (1989-2013). Trabalho apresentado no XVII Congresso Brasileiro de Sociologia, Porto Alegre, 2015.
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A melhor forma de destruir a democracia: relativizá-la em tempos de defendê-la
04/04/2026 | 09h08
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto.
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto. / Gemini


A democracia é um conceito abstrato. E não apenas isso, trata-se de um acordo, um pacto feito na sociedade que decide adotá-la como modelo, que mesmo depois de pactuado, exige ser constantemente lembrado. Mas a democracia não se sustenta sozinha. Precisa ser constantemente lembrada, reafirmada e defendida. Seria justamente sua abstração um motivo para desistir dela?

A justiça é, do mesmo modo, um conceito abstrato. Não se pode “tocar” a justiça, ela não se materializa no cotidiano e tampouco está no imaginário da sociedade enquanto conceito filosófico. Porém, ela é fundamental para a vida coletiva e muitas vezes suprime liberdades individuais em nome do bem comum. Deve ser entendido como justo alimentar quem tem fome, custear a saúde pública e oferecer educação a todos, assim como punir severamente quem mata ou atua no tráfico de drogas.

A própria Constituição de um país é um compêndio de ideias abstratas. “Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”; “ninguém será submetido a tortura”; ou “é livre a manifestação do pensamento”, são conceitos que garantem as materialidades envolvidas nas abstrações legais.

Em termos simples: governo, dinheiro, tribunal, mandato, propriedade e fronteira não são “ilusões”; são fatos institucionais, sustentados por regras constitutivas e aceitação social. Eles não existem como uma pedra existe, mas existem socialmente de modo objetivo o bastante para prender, taxar, casar, condenar, legitimar e governar.

No livro dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, Como as Democracias Morrem, é explicado que a derrocada democrática na era moderna ocorre de forma gradual, lenta e legal. Portanto, é uma forma de destruir o ordenamento usando as próprias previsões legais. Promove-se a erosão gradual das regras escritas da sociedade —e das não escritas.

Democracia jamais será um valor absoluto — nem pretende ser

Há conceitos que possuem universalidade e partem de uma premissa que devem ser respeitados sob quaisquer circunstâncias. Como o direito à vida, por exemplo. Entretanto, mesmo um direito tão fundamental pode ser relativizado, por exemplo, em tempos de guerra ou em situações de legítima defesa.

A reflexão sobre absolutismos e dogmas sempre será perpassada pelas religiões. Hegel (1770-1831) —filósofo germânico, autor de “Fenomenologia do Espírito” — ensina que a verdade religiosa não é algo separado da razão ou da filosofia, mas sim uma etapa essencial no desenvolvimento do que ele chama de “geist” (espírito). A compreensão de Deus e da realidade se dá através de "representações" (imagens, símbolos e histórias) que buscam uma verdade absoluta, um dogma.
A Ágora Romana foi construída no século I a.C., com doações de Júlio César e Augusto, para abrigar as atividades comerciais de Atenas. A ágora é delimitada pela imponente Porta de Atena Arquegétis, enquanto o Relógio de Kyrrestos, com figuras em relevo representando os oito ventos, e a Mesquita Fethiye se erguem em seus cantos.
A Ágora Romana foi construída no século I a.C., com doações de Júlio César e Augusto, para abrigar as atividades comerciais de Atenas. A ágora é delimitada pela imponente Porta de Atena Arquegétis, enquanto o Relógio de Kyrrestos, com figuras em relevo representando os oito ventos, e a Mesquita Fethiye se erguem em seus cantos. / Fonte: Hellenic Organization of Cultural Resources Development


Outros pensadores entendem que há uma distinção clara entre a verdade religiosa e a verdade filosófica, sendo a primeira no campo da fé e da revelação, e a segunda no campo do trabalho da razão. A filosofia se dá em um processo de descoberta e questionamento, enquanto a religião se baseia na aceitação de dogmas.

Portanto, a democracia — que não se pretende absolutista tampouco religiosa — não deve trabalhar com verdades imutáveis; mesmo porque, essa forma de pactuação social é recente no tempo histórico e ainda pouco testada em comparação a modelos anteriores. Ao contrário: a democracia se sustenta em um ordenamento social e legal que deve se adaptar com o tempo, observar os valores éticos e culturais de seu tempo e propor soluções para os conflitos que são contemporâneos a ela.

A democracia deve ser defendida — não por ser absoluta, mas necessária

As relativizações e fraquezas da democracia não podem servir de desculpa para seu abandono. A fragilidade do modelo não se mostra como um atalho para apoiar sua morte gradual, mas, ao contrário, deve ser entendida como uma característica que a difere de modelos absolutistas.

É justamente por isso que a abstração não enfraquece a democracia; ela revela sua natureza civilizatória. Democracia não é um objeto, mas um arranjo normativo exigente. A tradição contemporânea a descreve menos como simples vontade da maioria e mais como um método de decisão coletiva que pressupõe alguma forma de igualdade política entre os participantes. Em outras palavras, democracia não é apenas contar votos; é reconhecer que o poder precisa passar por regras, freios, justificação pública e aceitação do dissenso.

A melhor forma de destruir a democracia, portanto, não é necessariamente negá-la em praça pública. É algo mais sofisticado e mais covarde: relativizá-la enquanto se diz defendê-la. É conservar sua casca retórica e demolir, por dentro, os princípios que lhe dão sentido. Porque a democracia raramente morre apenas quando lhe arrancam o nome. Muitas vezes, ela começa a morrer quando já não se acredita que certas abstrações mereçam ser levadas a sério.
 
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Quem manda no Rio? O Estado e os escombros da soberania
24/03/2026 | 21h10
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Imagem gerado por IA a partir do envio do texto. / Google Gemini

O Rio de Janeiro talvez seja o estado mais complexo da federação. Essa complexidade vem de sua história, como elemento vivo que é, mas expõe no presente os absurdos cotidianos vistos como normais. Há lugares em que crises se sucedem e impõem suas consequências. Mas, no Rio, uma crise sistêmica parece ser a única forma de convivência entre cidadãos e os poderes constituídos.

Cai governador, assume interino, afasta-se presidente da Assembleia, desembargador é chamado a ocupar o vazio, e ninguém chega propriamente a se espantar. A renúncia de Cláudio Castro, somada ao afastamento do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, não é apenas mais um episódio exótico de instabilidade fluminense; acaba por ser uma imagem quase didática de um mal mais profundo.

O que se vê não é só a queda de homens; é a instabilidade das instituições, a fragilidade dos modelos de estado que o Rio adota, e a forma de fazer política. Quando nos deparamos com a quantidade de governadores fluminenses presos e afastados, a sequência de episódios de violência da capital e o abandono do interior, o problema já não é apenas moral. É estrutural.

Thomas Hobbes, lá no século XVII, escreveu Leviatã tomado pelo horror da guerra civil. Seu medo não era o mau governante apenas, mas a dissolução da autoridade comum. O Estado, em Hobbes, surge para impedir que a sociedade se despedace em facções, medos privados e violências. “O homem é o lobo do homem”, ele dizia, trazendo a ideia do dramaturgo romano Plauto (c. 254–184 a.C.).

O “soberano”, na visão hobbesiana, seria esse grande corpo artificial capaz de concentrar a força, impor regras e conter o conflito difuso. O Rio de Janeiro, porém, parece oferecer a caricatura tropical e trágica dessa ideia: ali o Leviatã existe, mas existe rachado.

Não se trata de ausência de Estado. O Rio não é um vazio. Há polícia, palácio, tribunal, Assembleia, arrecadação, decreto, operação, licitação, propaganda oficial, solenidade, farda, toga e diário oficial. O problema é outro: o Estado não consegue aparecer, de modo inteiro e estável, como a autoridade final e incontestável diante da qual todas as demais forças se submetem. Ele disputa espaço com facções, milícias, corporações, máquinas partidárias, igrejas, negócios clandestinos e interesses privados incrustados na carne da administração. O Rio não vive sem poder. Vive com excesso de poderes.


Em vez de uma ordem comum, uma superposição de ordens parciais. Em vez da velha e boa separação entre Estado, política, polícia e crime, uma zona turva em que essas esferas, embora não sejam iguais, frequentemente se tocam, se contaminam, se tangenciam ou se aproveitam umas das outras. O resultado é uma vida pública em que a legalidade formal convive, sem grande pudor, com práticas informais de mando, medo, favor e intimidação.

Talvez por isso o Rio seja tão difícil de definir e tão fácil de intuir. Ele é uma espécie de Babilônia fluminense: grandiosa, simbólica, armada, barroca, sedutora e arruinada ao mesmo tempo.

Mas seria raso demais reduzir tudo isso à esperteza dos atores contemporâneos. O Rio não começou ontem. Sua confusão é histórica. Foi capital do Império, capital da República, centro simbólico do país, cidade-corte, cidade-vitrine, cidade-comando. Depois virou Guanabara, uma singularidade federativa parida pela mudança da capital para Brasília. Mais tarde, pela caneta da ditadura, fundiu-se ao antigo estado do Rio em uma operação que resolveu problemas administrativos sem resolver identidades políticas.

O resultado foi um ente federativo com alma partida: de um lado, a metrópole que por muito tempo se pensou o próprio centro do Brasil; de outro, um interior fluminense frequentemente tratado como paisagem auxiliar — curral, em outros termos.

Essa fratura entre Guanabara e interior nunca desapareceu de todo. Foi apenas burocratizada. O estado do Rio, em certo sentido, nunca terminou de coincidir consigo mesmo. Herdou o narcisismo da antiga capital e as práticas oligárquicas do interior — estética de modernidade com entranhas coloniais.

O Rio carrega, de modo hipertrofiado, algumas das heranças mais persistentes do Brasil: colonização predatória, escravidão longa, patrimonialismo, confusão entre autoridade e propriedade, polícia historicamente voltada à contenção seletiva dos de baixo, elites acostumadas a viver muito perto do aparelho estatal. Em tal ambiente, o Estado não se consolida como esfera impessoal; tende a ser visto como extensão de redes pessoais, instrumento de facção ou plataforma de negócios.

Thomas Hobbes
Hobbes ajuda a entender um pedaço disso. Sem uma autoridade comum reconhecida, os homens vivem sob o signo da desconfiança. Não é preciso imaginar monstros metafísicos; bastam instituições frágeis para que homens ordinários ajam como predadores preventivos.


É aí que entra a ideia de Leviatã rachado. O Rio não está sem soberano; está com soberania repartida, infiltrada, concorrente. Grande demais para desaparecer; falho demais para unificar.

Seria confortável atribuir tudo ao presente, como se a última safra de políticos tivesse inaugurado a degradação. Não inaugurou. A era dos grupos dominantes no Rio e em várias partes do estado, inclusive no interior, já vinha sendo marcada por personalismo, uso intensivo da máquina, redes de dependência, lealdades montadas menos sobre programas do que sobre influência, acesso, favor e intimidação simbólica.

Dizer que o Rio “é assim mesmo” seria repetir o pecado de boa parte de suas elites: estetizar a falência. O personalismo, a captura privada do público, a militarização do imaginário político, a desigualdade territorial da cidadania, a naturalização da violência, o uso seletivo da lei — tudo isso existe em outras partes do país. No Rio, apenas ganha forma mais nítida, mais veloz, mais dramática e mais armada. No fundo, a pergunta que o Rio faz ao Brasil é hobbesiana e atual: quem manda, afinal? A Constituição? O governo eleito? O tribunal? A corporação armada? O chefe local? O crime organizado? A milícia? O mercado? A resposta, quando vem embaralhada, já é por si um diagnóstico.

O drama fluminense não é a falta de instituições. É a sua contaminação recorrente. Não é a ausência de Estado. É a sua insuficiência moral e material para se impor como ordem comum. Não é a inexistência de poder. É a sua promiscuidade.

O Rio é um Leviatã rachado: ainda grande o bastante para cobrar, punir e prometer; já fraturado demais para pacificar, representar e mandar sozinho. Um gigante ferido, vestido de cerimônia, cercado de armas, afogado em símbolos, andando cambaleante sobre os escombros da própria soberania.
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Sobre o autor

Edmundo Siqueira

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