O teatro da cultura campista
Edmundo Siqueira 01/10/2026 19:55 - Atualizado em 01/10/2026 20:07
Arte criada por IA após o envio do texto
Arte criada por IA após o envio do texto / Edmundo Siqueira

Há dois problemas fundamentais na cultura campista: o governo e a desunião. O primeiro passa por questões estruturais e de definição de prioridades e, principalmente, por uma profunda falta de visão de sucessivos governos municipais sobre o enorme ativo que a cultura pode ser para uma cidade como Campos. O segundo problema começa a dar sinais de melhora.
Os dois principais teatros públicos campistas estão fechados. Ambos são emblemáticos para entender o tamanho do desperdício e do abandono.
Um deles é o Trianon, que é hoje o maior teatro do Norte e Noroeste Fluminense, possui aproximadamente 900 lugares, é o único teatro do interior do estado com Selo Ouro de Acessibilidade e já recebeu diversas apresentações de renome nacional. O Trianon é público, atualmente administrado pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), e serve não apenas como um instrumento de política cultural, mas também é cedido, por aluguel, à iniciativa privada para realização de eventos.
A evidência de que o Trianon é um ativo valioso, tanto cultural quanto economicamente, nas mãos do poder público local, é contrariada pela forma como vem sendo administrado. O teatro se encontra fechado, “passando por adequações técnicas”, como informou a prefeitura, em nota, depois da Carta Aberta do diretor teatral Fernando Rossi e da manifestação conjunta pela reabertura dos teatros subscrita por Folha da Manhã, J3News, Descubra Campos e Revista Fever. A nota não indica prazo para a reabertura.
O manifesto pode ser o início de um setor mais unido. E essa união é necessária. A cultura campista reúne grupos, linguagens, interesses e visões diferentes, como é natural que seja, mas a fragmentação enfraquece a capacidade de transformar demandas individuais em uma agenda coletiva. Um setor desunido reivindica aos pedaços. Organizado, participa da definição das prioridades e cobra continuidade.
A questão dos teatros pode parecer pontual, mas é apenas mais um capítulo de uma novela que tem a falta de projeto como enredo.
Apenas com a estrutura e a capacidade do Trianon, Campos tem condições de integrar regularmente o calendário estadual e nacional de artes cênicas, atraindo espetáculos que movimentariam a economia local. Hotéis, restaurantes e serviços ganhariam com o movimento, e o município, com o aumento da arrecadação. Ganha a cidade toda, em última análise.
Em julho, a Câmara Técnica de Teatro já havia solicitado um cronograma público para reparo de climatização, manutenção permanente e maior transparência. Dois meses depois, porém, os dois teatros estão com as atividades suspensas. O fechamento do Trianon agora representa a permanência de um problema antigo, já percebido por quem vive do teatro, por quem respira cultura no município e pelo público.
Teatro Trianon
Teatro Trianon / PMCG
E o simbolismo do Trianon vem ainda da história. O nome é herdado de um cineteatro construído no início dos anos 1920 no centro de Campos, com 554 cadeiras, 156 frisas, 290 balcões, 38 camarotes e 610 lugares nas galerias. A casa, com capacidade para cerca de 1.800 espectadores, não raro, lotava. Considerada um dos mais importantes espaços culturais do estado, impressionava pelas dimensões e pela arquitetura luxuosa, até ser demolida em 1975 para dar lugar a uma agência bancária. Aquele Trianon, porém, era privado. O atual possui obrigações de caráter público.
Teatro de Bolso desocupado
O fechamento do segundo teatro público campista é justificado pela prefeitura por um “furto de fiação” que teria “comprometido o funcionamento dos aparelhos de ar-condicionado”. O Teatro de Bolso, no centro de Campos, é fundamental para a cena do teatro amador campista, portanto, indispensável para manter viva a expressão cultural.
Obras no Teatro de Bolso, em 2017.
Obras no Teatro de Bolso, em 2017. / Rodrigo Silveira/Folha1
Esse mesmo teatro foi ocupado em julho de 1983 por artistas ligados à Associação Regional de Teatro Amador (ARTA), durante o terceiro governo de Zezé Barbosa e ainda sob a ditadura militar. Entre os dirigentes da associação estava Anthony Garotinho, então vice-presidente da entidade. O episódio, que ficou conhecido como o ‘pé na porta’ do Teatro de Bolso, seria posteriormente associado ao início de sua trajetória política. Os artistas reivindicavam a reabertura do espaço e maior participação em sua administração.
Depois da ocupação, o governo Zezé Barbosa recuou parcialmente. A classe artística passou a participar da direção do Teatro de Bolso, mas a prefeitura manteve o controle administrativo do espaço. A convivência permaneceu conflituosa, até que a ARTA deixou o teatro em 1985.
Há nisso uma ironia histórica. O Trianon (projeto iniciado em 1991, pelo então prefeito Anthony Garotinho em parceria com artistas locais) e o Teatro de Bolso são fechados na gestão atual, que assumiu após a renúncia de Wladimir, filho de Garotinho. Os dois espaços, Trianon e Teatro de Bolso, se complementam, e podem funcionar de forma complementar em uma política cultural que contemple tanto o teatro amador quanto os espetáculos profissionais.
O Teatro de Bolso, inclusive, havia passado por revitalização em 2022, com reparos estruturais, pintura, novos aparelhos de ar-condicionado e modernização da caixa cênica. Quatro anos depois, está novamente fechado — desta vez, segundo a Prefeitura, porque um furto de fiação comprometeu justamente a climatização.
O fechamento das casas, contudo, representa algo menos simbólico e de ordem prática, no tempo presente. A programação de diversos profissionais da área cultural, bem como eventos privados, foi afetada diretamente. Em um município com poucos equipamentos culturais públicos em pleno funcionamento, a falta de previsibilidade e as deficiências de manutenção dos espaços afetam ainda mais a disponibilidade para o público.
Falta dinheiro, mas falta também planejamento
Equipamentos culturais devem ser, antes de tudo, instrumentos de formação, inclusão, geração de renda e fortalecimento da identidade coletiva. Cidades que compreendem isso investem em manutenção preventiva, estabelecem cronogramas claros de intervenção e constroem políticas culturais de longo prazo.
Por sua importância estratégica e social, a política cultural de Campos — incluindo a preservação de seu patrimônio histórico — precisa ser tratada como política de Estado, não de governo.
O fechamento simultâneo do Trianon e do Teatro de Bolso expõe a ausência de um projeto consistente nessa área. O problema não está apenas nas portas fechadas, mas na incapacidade do poder público de impedir que elas chegassem a esse ponto.
Reabrir os teatros é urgente. Mais urgente ainda é garantir que não voltem a fechar pelos mesmos motivos. O debate sobre a cultura campista não deveria se limitar à recuperação de prédios, mas avançar para a construção de uma política pública capaz de transformar equipamentos culturais em ativos permanentes para a população.
Enquanto isso não acontece, seguimos reféns do teatro da nota oficial: ora a climatização, ora a fiação furtada. Muda o cenário, o enredo é o mesmo.


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