Edmundo Siqueira
19/09/2026 21:00 - Atualizado em 19/09/2026 21:22
Foto: Fernando Santos/FolhaPress
Caro Doutor Ulysses,
Trago-lhe notícias de sua República. Mas receio que não sejam as melhores. Sucessivas crises se instalaram nos últimos anos, e muitas delas começaram pela ação dos “cupins”; o senhor estava certo. A Nova República, consolidada institucionalmente pela Constituição que o senhor promulgou, vem sendo corroída e estamos vendo na prática que uma república “suja pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos”. E que esses demagogos, como o senhor alertou, “a pretexto de salvá-la, a tiranizam”. Estava tudo lá, naquele discurso de 1988 que parece não termos ouvido.
O senhor também não foi apenas testemunha dessa construção, Doutor Ulysses. Fez concessões. Presidiu um partido que começou a se perder no fisiologismo. Aceitou uma transição negociada com homens que até pouco antes sustentavam o regime que o senhor combatia. E a Constituinte que comandou não foi a Assembleia exclusiva que parte da sociedade desejava. Talvez os cupins não tenham chegado depois. Talvez alguns já viajassem na madeira
Eu era muito jovem, não passava de cinco anos de idade quando o senhor ergueu aquele livro de capa verde no Congresso. Porém, lendo hoje seu discurso, quase quatro décadas depois, senti necessidade de lhe escrever. Eu vivo desde sempre nesta Nova República que o senhor fez nascer com a Constituição. Confesso que a democracia não foi uma questão para nós; crescemos com liberdade. Talvez retomar a democracia tenha sido uma das maiores vitórias de sua geração e o esquecimento dela, um dos grandes perigos da minha. Talvez tenhamos crescido achando que ela não precisaria de vigília, de participação e de conversa.
Sim, Doutor Ulysses, deixamos de conversar.
O senhor sumiu no mar, em 1992. No discurso da promulgação citou Rubens Paiva, preso no Rio em 1971, levado ao DOI-CODI e morto sob tortura. Nunca achamos o corpo do senhor depois da queda daquele helicóptero, e também nunca encontramos o de Paiva.
Mas ano passado, veja o senhor, um filme brasileiro, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, venceu o Oscar de melhor filme internacional contando justamente a história do homem que a ditadura matou e tentou fazer desaparecer. Quase quatro décadas depois, uma democracia pôde contar ao mundo aquilo que o Estado autoritário tentou apagar. Nesse caso, Doutor Ulysses, a memória venceu o esquecimento oficial.
E fizemos mais.
No analfabetismo — “a cidadania começa com o alfabeto”, o senhor disse no discurso —, saímos de 17% para 4,9%. Em 1988, aproximadamente um em cada seis brasileiros com 15 anos ou mais não sabia ler nem escrever. Hoje, é aproximadamente um em 20. Para cada mil crianças que nasciam naquele seu Brasil de 1988, aproximadamente 54 não chegavam ao primeiro aniversário; hoje, são cerca de 12. Ganhamos quase 11 anos de expectativa de vida. E saímos de 1,5 milhão de pessoas matriculadas em universidades para 10,2 milhões.
Foi muito, Doutor Ulysses. Mas não bastou. O desenho institucional que o senhor e os demais constituintes traçaram está, quase quatro décadas depois, bastante rabiscado. Os poderes não se entendem.
Não seria honesto dizer que a Nova República não construiu outro Brasil. Os números estão aí, trouxe alguns ao senhor nesta carta. Mas veja, as melhoras não bastaram para corrigir fragilidades estruturais antigas e não foram capazes de deixar o país imune ao maior medo que o senhor externou no discurso. O senhor disse, naquele dia, que tínhamos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Falava no plural, e ninguém no plenário o corrigiu, porque parecia óbvio. Doutor Ulysses, é a pior notícia que lhe trago: aquele plural se desfez. Não é que tenhamos esquecido. É que uma parte de nós passou a ter saudade — e diz isso em voz alta, com microfone e mandato.
Uma de nossas maiores tragédias é que continuamos tremendamente desiguais; cerca de um quarto da população ainda está sob a linha de pobreza, de acordo com a régua do Banco Mundial; a aprendizagem é muito baixa; e a taxa de homicídios chegou a praticamente o dobro daquela de 1988. Caiu bastante nos últimos anos, é verdade, mas ainda não retornou ao patamar do Brasil em que o senhor ergueu a Constituição. Ao mesmo tempo, passamos de cerca de 90 mil pessoas presas no início da Nova República para mais de 727 mil em celas hoje.
Construímos, portanto, uma sociedade que mata muito e encarcera muito — e que, depois de quase quatro décadas, ainda parece não saber muito bem o que fazer com nenhuma das duas coisas. Tornamo-nos uma sociedade violenta, punitivista, que não se entende.
Eu não sei até que ponto esse crepúsculo da Nova República — desculpe, Doutor Ulysses, mas às vezes tenho a impressão de estar lhe escrevendo já sob essa luz — tem relação com nossa incapacidade de organizar os poderes e reduzir uma desigualdade ainda pornográfica, ou se estamos apenas sofrendo, à nossa maneira, as mesmas pressões que hoje atingem democracias pelo mundo. Talvez seja cedo para decretar o fim. Mas já não me parece cedo para reconhecer os sinais de desgaste.
O senhor falou na crista de uma onda e não sabia. Naquele mesmo 5 de outubro, do outro lado da cordilheira, os chilenos derrubaram Pinochet nas urnas. Treze meses depois, o Muro de Berlim cairia. Ao promulgar a Constituição, o senhor era parte da maré democrática mais generosa de que se tem notícia. Mas essa maré recuou, Doutor Ulysses. Hoje há mais autocracias que democracias no planeta, e três de cada quatro seres humanos vivem sob uma delas. Para o cidadão médio do mundo, a democracia voltou ao patamar de 1978 — dez anos antes do seu discurso.
Não fomos nós sozinhos, portanto. Mas parece que a sua Constituição não nos imunizou contra essa doença que veio de fora e encontrou, aqui dentro, hospedeiros propícios e se alastrou. Até os Estados Unidos perderam o status de democracia liberal pela primeira vez em mais de cinquenta anos. Antes modelo do mundo, está governada por um autoritário com ambições de domínio global. Se eu lhe contasse que uma operação militar americana capturou, em seu próprio palácio, em Caracas, o chefe de Estado de um país vizinho — ato que a defesa chama de sequestro e o governo americano chama de aplicação da lei —, o senhor não acreditaria. Aliás, a Venezuela se transformou em uma ditadura por volta de 2009, fechando-se de vez em 2017, mostrando que não é apenas a direita que promoveu autocracias e que elas não precisam de tanques nas ruas. Morrem por dentro.
O senhor fez uma Constituição conversando. Foram mais de 61 mil emendas, 122 delas populares, e o senhor chegou a contar cerca de dez mil pessoas por dia entrando livremente no Congresso atrás de gabinetes, comissões e galerias. Hoje carregamos no bolso uma rede capaz de pôr milhões de brasileiros para conversar ao mesmo tempo. E conseguimos a proeza de nos ouvir menos. Essas redes são alimentadas pelo ódio, diariamente. Ódio que vem de nós, não é fabricado por máquinas, que o senhor não se engane, mas ele é o combustível.
Reli sua lista, Doutor Ulysses. O senhor chamou aquela Carta de Constituição coragem, cidadã, federativa, participativa, fiscalizadora — e de Constituição do governo síntese Executivo-Legislativo. Ao presidente do Supremo, Rafael Mayer, disse que não haveria “Muda Brasil” sem “Muda Justiça”. O Judiciário estava, portanto, no desenho. Mas não estava naquela sua conta de quem governa.
Talvez ninguém pudesse prever onde chegaria, quase quatro décadas depois, o poder entregue ao guardião da Constituição.
O senhor disse que a resposta viria pela boca do tempo. Pois é justamente de lá que lhe escrevo. Estamos em 2026, às vésperas de uma eleição que encontra a Nova República sob uma tensão que talvez o senhor reconhecesse, esta que saudosamente trato aqui como uma criação do senhor, como esse símbolo. E há uma instituição que entrou como poucas vezes antes no centro da disputa eleitoral. Pasme, Doutor Ulysses: é o Supremo Tribunal Federal. O senhor entregou ao Supremo o julgamento penal de boa parte da cúpula da República. Talvez ninguém tenha medido inteiramente o que isso significaria quando a Corte passasse a ocupar o centro da política. A Corte também tomou decisões acusadas de avançar sobre espaços tradicionalmente reservados ao Legislativo, e nos últimos anos ganhando protagonismo real. A população brasileira conhece cada um dos ministros, e os embates travados e transmitidos pela TV Justiça são acompanhados por muitos como Copa do Mundo.
Os modelos de indicação dos ministros do Supremo precisam ser revistos? Precisamos pensar em mandatos? E de alguma forma também limitar suas decisões monocráticas? O poder que o senhor não citou como “governo” hoje é um dos mais determinantes da República, e infelizmente com fortes suspeitas de também estar deteriorado pelos cupins da corrupção.
Logo no início do discurso o senhor disse: “A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria”. Precisamos dessas reformas, Doutor Ulysses, sob pena de um grupo numeroso passar a ter o direito de descumprir e afrontar as determinações constitucionais. Alguns já estão ultrapassando esses limites.
“A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia”. Vale ainda hoje, Ulysses Guimarães. Mas o mundo e o Brasil são outros. Para que a república que a Carta fundou sobreviva, precisaremos de uma persistência reformista.
No fim daquele discurso, o senhor ainda confiava que a sociedade acabaria vencendo o Estado quando este se tornasse inerte ou hostil.
Quero acreditar, Doutor Ulysses, que nisso o senhor estava certo.