Edmundo Siqueira
13/09/2026 12:41 - Atualizado em 13/09/2026 13:29
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto / Edmundo Siqueira
Era uma tarde fria na cidade. Ali pelas quinze horas ela arrastava o carrinho de metal com isopor por cima e rodas de borracha dura pela grande avenida. Tentava se entranhar pela multidão que ocupava todas as pistas, num falatório incessante misturado com o barulho estridente da microfonia vindo do carro de som mais à frente. Perto do meio-fio encontrou um lugar que podia parar. Tirou duas latinhas de alumínio da bolsa, amarradas por um fitilho cinza que servia para pendurar e chamar os fregueses. Não demorou para o primeiro aparecer, camisa por dentro da calça, cabelo engomado — e pediu-lhe água e cerveja.
— A senhora vai ficar aqui até o final do show? — Ela achou estranho o homem chamar o movimento político de “show”, mas não retrucou. — Vou sim, até ter gente. — Isso aí! Vamos trabalhar, né? Já vi que a senhora não é de esquerda! — Preferia estar em casa, moço. Tem um monte de coisa para fazer lá também. Mas sem trabalhar, não dá. Mercado tá caro. — Culpa do Lula! Tá vendo, a senhora não é de esquerda! — Vai querer qual cerveja, moço? — A mais cara, para ajudar a senhora. — Eu ganho o mesmo nas duas.
O homem não continuou a conversa, pagou as bebidas em dinheiro vivo e seguiu ao centro da multidão. Ela tinha posicionamento político e sabia, mesmo sem grandes teorias, o que significava ser de esquerda ou de direita. Não precisava recorrer à Revolução Francesa. Conhecia a própria vida o bastante para desconfiar de quem tentava explicá-la inteira com duas palavras.
Ela compreendia a importância do Estado. Não se tratava de pensar ideologicamente se ele deve ser maior ou menor. Se tiver um problema de saúde mais sério precisará do sistema único de saúde e seus filhos não estudariam se fosse preciso pagar mensalidade. Para ela, é uma questão de sobrevivência, não de ideologia. Quando havia acidente na rodovia perto de sua casa, via gente de carro caro e gente sem carro nenhum terminar no mesmo hospital. Achava natural. Naquela hora, havia vidas para salvar. As vendas de bebidas na rua eram a alternativa quando havia eventos grandes por perto. Cadastrou-se na prefeitura, e com alguma dificuldade conseguiu a licença para trabalhar. Nos dias de semana fazia faxina e vendia os doces que faz à noite. Já tem os pontos certos de entrega, todos a caminho das empresas e casas que presta o serviço de limpeza. Um de seus contratantes lhe ofereceu um serviço com carteira assinada, ganhando um salário mínimo mais benefícios. Fez as contas. Ganharia menos, ficaria mais tempo fora de casa com seus filhos e teria que pedir favor aos vizinhos para ficar com as crianças até chegar. Alguns direitos lhe seriam garantidos, mas não seria possível aceitar sem que abrisse mão de outras coisas mais importantes naquele momento.
Outro freguês chegou.
— Olá, boa tarde! Duas águas, por favor. — Boa tarde, está na mão. — Frio, né? A senhora sem um agasalho mais pesado! Sei que não tem. — Tenho sim, filha. Mas como vim andando até aqui arrastando o carrinho, era melhor não usar. — Ah, desculpe. Não quis te ofender, mas achei que seria caro para a senhora esse item. — Não me ofendeu, menina. Aqui está, duas águas. — A senhora trabalhando aqui e os donos do dinheiro ali, se divertindo nesse comício de merda. Bando de fascista. — Eu acho bom. Mais gente para a gente poder trabalhar. Eles concordam com o que eles estão dizendo em cima do carro de som. Os que não são donos do dinheiro concordam. — Ah minha senhora, todos ali são os donos do dinheiro! — Não são não, moça. Agora há pouco veio um aqui pedindo desconto em três latas de cerveja. São trabalhadores, também. — Que pena me deu agora da senhora. Eu sei que é difícil ter consciência de classe. O sistema todo é feito para a senhora pensar assim. — Você viveu pouco, minha filha. Os donos do dinheiro são poucos, bem poucos. E lá eles não pensam em ideologia, não. E tem total consciência de classe, sabe que a deles não passa de 1% da população. Aqui, não está esse 1%, pode até ter algum representante deles. — Eu sei, senhora. Alienação. Mas não é culpa da senhora.
A vendedora não respondeu. Entregou o troco, ajeitou o fitilho cinza das latinhas e ficou olhando a moça se afastar na direção do carro de som. Depois virou para o outro lado, onde já vinha chegando mais gente, e levantou as latas. Ficou calada. Não por concordar — é que já conhecia aquele jeito de escutar, o de quem não espera resposta, só confirmação. Deixou passar. Tinha comício até de noite e o carrinho ainda estava cheio.
Um homem se aproximou. Ela abriu a tampa do isopor.