A sentença do Solar dos Airizes entre os escombros
Edmundo Siqueira 24/08/2026 19:14 - Atualizado em 24/08/2026 19:18
 
Solar dos Airizes com iníco das obras de escoramento pela Prefeitura de Campos, foto do início de 2026
Solar dos Airizes com iníco das obras de escoramento pela Prefeitura de Campos, foto do início de 2026 / Foto: Edmundo Siqueira
O descaso com o patrimônio histórico de Campos não é nenhuma novidade, aliás, é visível para qualquer campista ou turista um pouco mais atento ao andar pela cidade, especialmente no centro, mas também a caminho de São João da Barra.
Mas há duas construções que chamam a atenção pela falta de ações efetivas da prefeitura, uma vez que são de responsabilidade direta e legal da municipalidade: o Solar dos Airizes (BR-356) e o Museu Olavo Cardoso (Centro). Ambos, às vésperas da ruína completa.
As duas construções estão em situação dramática, e possuem relações jurídicas distintas. Começo pelo Airizes, e tratarei do Olavo em outro artigo.
O Solar
O Solar dos Airizes não pertence à prefeitura de Campos, mas encontrar meios e promover o restauro e impedir que ele caia é uma obrigação legal. A construção histórica é objeto de uma decisão judicial que transitou em julgado (quando não cabem mais recursos) em 2020, na qual foram definidas responsabilidades.
A família Lamego, proprietária do imóvel, e o Iphan, órgão federal que tombou o Solar em 1940, foram excluídos do processo, permanecendo a condenação em face do município, devendo a prefeitura adotar os meios necessários para restaurar o bem: elaborar projeto completo de restauro, submetê-lo ao Iphan e prever os recursos no PPA e em outras leis orçamentárias.
A propriedade do bem ainda pode ser discutida, por desapropriação e pelo direito de uso. Porém, a propriedade aqui não se confunde com o dever de restaurar. Não se trata de discutir a quem cabe, essa discussão acabou em 2020, a justiça já decidiu sobre isso.
Solar dos Airizes em processo avançado de ruína
Solar dos Airizes em processo avançado de ruína / Foto: Edmundo Siqueira
A conta é alta? Certamente. O principal interessado na preservação daquele bem deve ser o município? Também. É justo a prefeitura arcar com todos os custos? A resposta para essa pergunta não cabe agora, é preciso manter o prédio de pé, realizar um projeto para seu uso, de forma sustentável e apresentar um cronograma de restauro.
Há caminhos para a prefeitura não utilizar recursos próprios para restaurar o Solar dos Airizes — é razoável discutir se todo o custo deve recair sobre o município. Houve proposta de parceria com a empresa do Porto do Açu, Ferroport, que chegou a integrar um grupo de trabalho e assinou um protocolo de intenções, mas sem ações concretas.
Além disso, há na legislação (artigo 19, do Decreto-Lei 25/1937) previsão para que o Iphan (a União, em última análise) arque com os custos das obras de restauro de patrimônio tombado, quando o proprietário não dispõe de recursos. A prefeitura pode buscar esse caminho, uma vez que o processo foi decidido favoravelmente em relação à família na alegação de hipossuficiência. Articulações institucionais nesse sentido são bem-vindas, mas não são rotas de fuga ao cumprimento da decisão judicial.
O Iphan também pode decidir fazer o restauro de ofício em caso de urgência, o que independe da decisão judicial. A decisão sobre o Solar coloca a prefeitura na obrigação de fazer, não na condição facultativa do Iphan.
É preciso registrar que, na última semana, a prefeitura iniciou uma nova etapa de escoramento do prédio, com recursos municipais, e anunciou que o projeto de restauração está em elaboração. Mas também é preciso destacar o caráter tardio das ações, dado, ao menos, os seis anos do trânsito em julgado.
O Solar dos Airizes, assim como boa parte do patrimônio histórico campista, está em estado de abandono. A sua ruína é dada como certa por alguns, esperada por muitos e indiferente para outros tantos. Mas cabe um alerta: entre os escombros estarão também decisão judicial não cumprida e omissões de quem deveria se importar.
Interior do Solar dos Airizes, foto de 2025.
Interior do Solar dos Airizes, foto de 2025. / Foto: Edmundo Siqueira

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