Edmundo Siqueira
14/04/2026 19:01 - Atualizado em 14/04/2026 19:13
Imagem gerada por IA (Gemini) a partir do envio do texto
A primeira vez que li O Grande Gatsby — o romance clássico de F. Scott Fitzgerald sobre o sonho americano — ele não me impressionou imediatamente. Trata-se de uma narrativa curta, de aparente simplicidade, mas de grande potência literária, que expõe o brilho e o vazio da sociedade americana dos anos 1920. Aquilo me parecia distante da realidade brasileira.
Por aqui, nos anos 20, ainda se iniciava a modernização das capitais, enquanto o interior permanecia essencialmente agrário e atolado no analfabetismo. O poder e o dinheiro concentravam-se em oligarquias políticas e empresariais que, em regra, comportavam-se com discrição. Era o chamado old money, vindo de famílias que acumulavam uma considerável quantia de patrimônio que deixavam algumas gerações nascidas em berço de ouro.
Poster do filme inspirado no filme 'Gatsby'.
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O livro de Fitzgerald, portanto, parecia distante do Brasil. Parecia. Hoje, em 2026, já não faltam Gatsbys tropicais. Joesley e Eike Batista são alguns exemplos recentes. E a bola da vez, entre os bilionários envolvidos em negócios nebulosos, é o banqueiro Daniel Vorcaro.
Vorcaro expôs de forma violenta duas predileções que o brasileiro tenta negar em sua gênesis e em seu comportamento ao longo dos tempos: a valorização da esperteza ilícita e a complacência com a promiscuidade entre poder público e empresariado. Ainda nesta última semana, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) disse ter ouvido da Polícia Federal que deputados recebiam mesada do jogo do bicho. Para espanto de pouquíssimos brasileiros.
A questão é que o brasileiro se acostumou a ver a contravenção e a falcatrua como parte do jogo. “Todo mundo sabe que é assim”, e ponto. Se olharmos para o jogo do bicho, podemos perceber a essência desse modo brasileiro de encarar as coisas. O bicho está em cada esquina, todos sabem onde se joga, a polícia sabe onde são os pontos, os lucros da atividade financiam assassinatos e escolas de samba quase com a mesma intensidade e visibilidade, e se convive perfeitamente bem com isso. É ilegal, mas “todo mundo sabe que existe”.
O jogo do bicho e as bets— apostas esportivas eletrônicas — são o “divertimento” de grande parte dos brasileiros. As bets têm sua porção legal, normatizada por legislação federal, mas são a porta de entrada para uma jogatina desenfreada que gera diversos problemas. É a promessa de dinheiro fácil que passa a sensação que o esperto se dá bem enquanto um incauto perde. Mas é a “casa” que sempre ganha.
Em sua face mais especulativa, o mercado financeiro tampouco se distancia muito da lógica da jogatina. É dinheiro mudando de mãos e gerando lucros exorbitantes com a mera movimentação de papéis. Não se produz, há ganho com movimentação financeira e com aposta. Vorcaro sintetiza esse homem do mercado financeiro que fez fortuna especulando e apenas movimentando capital.
Vorcaro se assemelha a Gatsby, sobretudo, na extravagância de suas festas. Mas há uma diferença decisiva de motivação. Enquanto o personagem de Fitzgerald buscava impressionar a mulher amada, que antes o rejeitara por sua pobreza, o banqueiro brasileiro parecia ostentar por uma necessidade bem mais cafona: a de parecer rico para continuar poderoso, desejado e socialmente intocável.
Uma das festas de noivado de Daniel Vorcaro, dono do banco Master, com Martha Graeff, em novembro de 2024, na Villa Adriana, em Roma
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Vorcaro, ao menos pelo que veio à tona, parece pertencer ao mundo das relações convertidas em ativo, do luxo extravagante e da intimidade com o poder tratada como investimento. Nas conversas extraídas de seu WhatsApp, divulgadas nas investigações, o brasileiro viu com curiosidade quase mórbida um homem que mantinha belas amantes, torrava cifras obscenas em festas privadas e cultivava trânsito entre políticos, autoridades e figuras do topo da República.
Gatsby ainda sonhava com a luz verde (a casa de sua amada, vizinha a sua, emanava uma luz verde que servia de símbolo de conquista para ele). O seu primo tropical preferiu o neon.
Bets supremas
A declaração no Supremo sobre a mesada do bicho é vista com a mesma naturalidade trágica da disseminação das bets. O presidente Lula disse recentemente que “por ele”, as bets acabavam. A questão é que há um mercado já consolidado que se fortaleceu por omissão e é de difícil combate quando alcançou o tamanho atual.
O mesmo STF que, pela voz de Gilmar Mendes, condena a mesada do bicho, passa por forte desgaste insitucional, com ministro andando em jatinho de investigado e o escritório de advocacia da esposa de outro recebendo milhões do mesmo Vorcaro.
A mensagem que o país passa para seus próprios conterrâneos é que essa é uma terra onde tudo pode ao “esperto” e apostar alto, mesmo que de forma ilegal, pode garantir poder e uma vida de luxos. Em outros episódios de corrupção generalizada, sempre houve instituições que permaneceram como alternativas ilibadas para a contenção. Hoje, o Supremo atravessa talvez sua pior fase, e qualquer controle que tente exercer sobre ilegalidades será, inevitavelmente, questionado.
O problema do Brasil não são apenas as bets, nem apenas Vorcaro, nem apenas o bicho, nem apenas o Supremo em sua hora mais opaca. O problema é mais fundo: trata-se de uma cultura que há muito deixou de condenar a esperteza quando ela vem acompanhada de cifra alta, champanhe, autoridade por perto e aparência de sucesso.
Lula se insurge contra as bets quando elas já corroem famílias inteiras; o STF condena o jogo ilegal enquanto também sofre o desgaste de sua própria promiscuidade periférica; e o país assiste a tudo com a velha resignação de quem repete que “sempre foi assim”. Fitzgerald imaginou um homem perseguindo uma luz. Nós construímos uma sociedade fascinada pelo brilho. E, entre a luz verde de Gatsby e o neon brasileiro, talvez esteja a diferença entre um sonho trágico e um vício nacional.