O Rio de Janeiro talvez seja o estado mais complexo da federação. Essa complexidade vem de sua história, como elemento vivo que é, mas expõe no presente os absurdos cotidianos vistos como normais. Há lugares em que crises se sucedem e impõem suas consequências. Mas, no Rio, uma crise sistêmica parece ser a única forma de convivência entre cidadãos e os poderes constituídos.
Cai governador, assume interino, afasta-se presidente da Assembleia, desembargador é chamado a ocupar o vazio, e ninguém chega propriamente a se espantar. A renúncia de Cláudio Castro, somada ao afastamento do presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, não é apenas mais um episódio exótico de instabilidade fluminense; acaba por ser uma imagem quase didática de um mal mais profundo.
O que se vê não é só a queda de homens; é a instabilidade das instituições, a fragilidade dos modelos de estado que o Rio adota, e a forma de fazer política. Quando nos deparamos com a quantidade de governadores fluminenses presos e afastados, a sequência de episódios de violência da capital e o abandono do interior, o problema já não é apenas moral. É estrutural.
Thomas Hobbes, lá no século XVII, escreveu Leviatã tomado pelo horror da guerra civil. Seu medo não era o mau governante apenas, mas a dissolução da autoridade comum. O Estado, em Hobbes, surge para impedir que a sociedade se despedace em facções, medos privados e violências. “O homem é o lobo do homem”, ele dizia, trazendo a ideia do dramaturgo romano Plauto (c. 254–184 a.C.).
O “soberano”, na visão hobbesiana, seria esse grande corpo artificial capaz de concentrar a força, impor regras e conter o conflito difuso. O Rio de Janeiro, porém, parece oferecer a caricatura tropical e trágica dessa ideia: ali o Leviatã existe, mas existe rachado.
Não se trata de ausência de Estado. O Rio não é um vazio. Há polícia, palácio, tribunal, Assembleia, arrecadação, decreto, operação, licitação, propaganda oficial, solenidade, farda, toga e diário oficial. O problema é outro: o Estado não consegue aparecer, de modo inteiro e estável, como a autoridade final e incontestável diante da qual todas as demais forças se submetem. Ele disputa espaço com facções, milícias, corporações, máquinas partidárias, igrejas, negócios clandestinos e interesses privados incrustados na carne da administração. O Rio não vive sem poder. Vive com excesso de poderes.
Em vez de uma ordem comum, uma superposição de ordens parciais. Em vez da velha e boa separação entre Estado, política, polícia e crime, uma zona turva em que essas esferas, embora não sejam iguais, frequentemente se tocam, se contaminam, se tangenciam ou se aproveitam umas das outras. O resultado é uma vida pública em que a legalidade formal convive, sem grande pudor, com práticas informais de mando, medo, favor e intimidação.
Talvez por isso o Rio seja tão difícil de definir e tão fácil de intuir. Ele é uma espécie de Babilônia fluminense: grandiosa, simbólica, armada, barroca, sedutora e arruinada ao mesmo tempo.
Mas seria raso demais reduzir tudo isso à esperteza dos atores contemporâneos. O Rio não começou ontem. Sua confusão é histórica. Foi capital do Império, capital da República, centro simbólico do país, cidade-corte, cidade-vitrine, cidade-comando. Depois virou Guanabara, uma singularidade federativa parida pela mudança da capital para Brasília. Mais tarde, pela caneta da ditadura, fundiu-se ao antigo estado do Rio em uma operação que resolveu problemas administrativos sem resolver identidades políticas.
O resultado foi um ente federativo com alma partida: de um lado, a metrópole que por muito tempo se pensou o próprio centro do Brasil; de outro, um interior fluminense frequentemente tratado como paisagem auxiliar — curral, em outros termos.
Essa fratura entre Guanabara e interior nunca desapareceu de todo. Foi apenas burocratizada. O estado do Rio, em certo sentido, nunca terminou de coincidir consigo mesmo. Herdou o narcisismo da antiga capital e as práticas oligárquicas do interior — estética de modernidade com entranhas coloniais.
O Rio carrega, de modo hipertrofiado, algumas das heranças mais persistentes do Brasil: colonização predatória, escravidão longa, patrimonialismo, confusão entre autoridade e propriedade, polícia historicamente voltada à contenção seletiva dos de baixo, elites acostumadas a viver muito perto do aparelho estatal. Em tal ambiente, o Estado não se consolida como esfera impessoal; tende a ser visto como extensão de redes pessoais, instrumento de facção ou plataforma de negócios.
É aí que entra a ideia de Leviatã rachado. O Rio não está sem soberano; está com soberania repartida, infiltrada, concorrente. Grande demais para desaparecer; falho demais para unificar.
Seria confortável atribuir tudo ao presente, como se a última safra de políticos tivesse inaugurado a degradação. Não inaugurou. A era dos grupos dominantes no Rio e em várias partes do estado, inclusive no interior, já vinha sendo marcada por personalismo, uso intensivo da máquina, redes de dependência, lealdades montadas menos sobre programas do que sobre influência, acesso, favor e intimidação simbólica.
Dizer que o Rio “é assim mesmo” seria repetir o pecado de boa parte de suas elites: estetizar a falência. O personalismo, a captura privada do público, a militarização do imaginário político, a desigualdade territorial da cidadania, a naturalização da violência, o uso seletivo da lei — tudo isso existe em outras partes do país. No Rio, apenas ganha forma mais nítida, mais veloz, mais dramática e mais armada. No fundo, a pergunta que o Rio faz ao Brasil é hobbesiana e atual: quem manda, afinal? A Constituição? O governo eleito? O tribunal? A corporação armada? O chefe local? O crime organizado? A milícia? O mercado? A resposta, quando vem embaralhada, já é por si um diagnóstico.
O drama fluminense não é a falta de instituições. É a sua contaminação recorrente. Não é a ausência de Estado. É a sua insuficiência moral e material para se impor como ordem comum. Não é a inexistência de poder. É a sua promiscuidade.
O Rio é um Leviatã rachado: ainda grande o bastante para cobrar, punir e prometer; já fraturado demais para pacificar, representar e mandar sozinho. Um gigante ferido, vestido de cerimônia, cercado de armas, afogado em símbolos, andando cambaleante sobre os escombros da própria soberania.