O Paraíba nasce em São Paulo, a aproximadamente 1.800 metros de altitude na Serra da Bocaina. A sua formação hidrológica se dá pela confluência de dois outros rios — Paraitinga e Paraibuna — se constitui como o principal recurso hídrico de dezenas de cidades ao longo de seu curso, que contempla 1.137 km no sentido geral oeste-leste, até desembocar no oceano Atlântico no distrito de Atafona, município de São João da Barra, no Norte Fluminense.
Com uma área de drenagem de cerca de 62 mil km², a água do rio mais importante do Estado garante a vida através do abastecimento de residências, comércios e empresas e é essencial à produção industrial, contemplando o Vale do Paraíba (eixo socioeconômico industrial) e, na porção fluminense, servindo à Baixada Campista, extensa planície fluviomarinha próxima à foz.
Em condições naturais, o Paraíba do Sul apresentava vazão média de longo termo em torno de 1.100 m³/s, o que seria suficiente para que o caudal cumpra seu papel. Porém, esse regime foi alterado por diversas intervenções (reservatórios e desvios) e o uso intensivo do solo em alguns locais, deixando áreas antes cobertas por Mata Atlântica, hoje restrita a fragmentos. O Paraíba foi severamente afetado por represas e captações e pelas chamadas “pressões antrópicas” — impactos negativos das atividades humanas no meio ambiente.
O Rio Paraíba é como uma grande aorta, que drena e recebe sangue (água) de artérias menores, que no caso do rio são os “tributários” ou “afluentes”. Quando esses transbordam levam ao transbordamento do rio principal. A região Norte Fluminense conviveu com inundações significativas desde o início do século XX — por exemplo, cheias de grande porte foram registradas em 1925, 1943, 1961 e 1966, afetando várias cidades ribeirinhas.
Nas últimas décadas, eventos notáveis incluem as cheias de 1979 e 1985 (atingindo amplamente o noroeste fluminense), bem como as de 2007 e 2008, quando o rio superou cotas de inundação e desalojou milhares de pessoas em municípios do baixo Paraíba. Em janeiro de 1997 e janeiro de 2011, a cheia alcançou níveis críticos causando destruição em municípios do Norte e Noroeste Fluminense, com rompimento de diques na localidade de Três Vendas, em Campos, em 2011, por exemplo. Nessas ocasiões o Paraíba inundou de forma generalizada.
De maneira geral, as cheias catastróficas resultam da combinação de solo já encharcado por chuva contínua e episódios de precipitação extrema concentrada, potencializados pela drenagem rápida das encostas desmatadas e pela convergência de picos de vazão de múltiplos afluentes.
Para atenuar as cheias, os “reservatórios de regularização” atuam como o principal instrumento.
Ainda segundo o diretor, deveriam ser criados esses grandes reservatórios em Minas para controlar as cheias no Norte Fluminense e a água utilizada para amenizar os períodos de estiagem.
Em 2014 e 2015 foi registrado uma seca severa, que afetou diversos municípios da região e causou prejuízos significativos à milhares de produtores rurais. No período, com chuvas muito abaixo da média, desencadeou a pior crise hídrica já registrada na bacia. Eventos de bloqueios atmosféricos e alterações nos padrões meteorológicos (como oscilações do Atlântico Sul ou El Niño/Oscilação Sul) são citados por estudos climáticos como fatores que podem reduzir a chuva no Sudeste, contribuindo para essas secas extremas.
Historicamente, destacam-se outras secas severas: em 1955 foi um ano de vazões extremamente baixas (referência de pior situação hídrica até então), assim como o período de 2003, no qual o volume armazenado do sistema de reservatórios quase atingiu mínimos históricos. Em 2003, medidas emergenciais precisaram ser adotadas, como a redução temporária da vazão defluente controlada na represa de Santa Cecília de 190 m³/s para 160 m³/s, a fim de evitar colapso do armazenamento até a chegada das chuvas.
“Nós perdemos água desde 2015. Essa vazão de 190 m³/s inicialmente era de 250 m³/s, onde distribuía-se 160 m³ para a capital Rio de Janeiro e 90 m³ para o norte e noroeste fluminenses. Isso passou para 120 m³ para a capital e 70 m³ para o Baixo Paraíba, portanto nós perdemos água depois da crise de 2015”, afirma João Gomes.
A ANA negou o pedido do Comitê, e cerca de 45 dias depois dessa solicitação Campos dos Goytacazes teve a “crise da geosmina”, com o município afetado por uma substância associada a episódios de florações de microrganismos na água que levou à iminência da suspensão de abastecimento de água, contornado pela aplicação de carvão ativado nas águas do Paraíba.
“Dezembro de 2025 foi o pior mês da história. A curva de vazão mostra que ele ficou baixo não apenas de junho de novembro, mas não se recuperou em dezembro como nos anos anteriores. Então, podemos afirmar que dezembro de 2025 e este janeiro de 2026 são os piores da história do Paraíba do Sul. Os níveis de vazão aqui em Campos, na estação da ANA em Campos, estão com índices mais baixos do que em 2015, que foram os piores da série histórica até aqui, portanto estamos com uma seca histórica para o período”.
Até aqui há convergência nos estudos que indicam uma tendência de redução das vazões médias anuais do rio ao longo do século 21. Em simulações com modelos regionais (ETA/INPE) sugerem que já até 2040 deve ocorrer decréscimo nas vazões médias em comparação ao clima de períodos anteriores. Existem projeções que indicam possibilidade de até - 65% na vazão média anual em pontos da bacia (como na estação de Santa Cecília) no final do século (2071–2100), segundo um dos modelos analisados.
Embora haja incertezas e outros modelos indiquem quedas menos drásticas ou até estabilidade, o sinal de redução hídrica é preocupante, especialmente na região de Santa Cecília (baixo Paraíba). Em termos práticos, isso sugere maior risco de escassez: períodos secos poderão ser mais frequentes, duradouros e com vazões ainda mais baixas do que as já observadas, aumentando a probabilidade de crises de abastecimento como a de 2014-2015.
A crise hídrica do rio Paraíba do Sul no Norte Fluminense não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma combinação complexa de fatores naturais e antrópicos. Geograficamente, o baixo Paraíba é uma região vulnerável — uma planície costeira no final de um grande sistema fluvial, dependente das chuvas nas distantes cabeceiras e sensível à influência do mar. Historicamente, a região vivenciou tanto secas severas quanto cheias destrutivas, cujas causas residem em padrões climáticos variáveis e, por vezes, extremos.
Se o Paraíba do Sul é a aorta do Sudeste, o Norte Fluminense é a ponta do sistema: é onde a falta de água aparece primeiro — e onde a cheia também demora mais a ir embora. A cada ciclo, a região paga por duas fragilidades ao mesmo tempo. O futuro do Paraíba, portanto, não será resolvido por uma narrativa única — “a culpa é da chuva” ou “a culpa é do desvio” —, mas por decisões técnicas e políticas que promovam regras de operação transparentes, monitoramento fino, redução de perdas, proteção de mananciais e um pacto federativo que trate a água como o que ela é: não um favor, mas um limite físico.