Edmundo Siqueira
08/03/2026 18:47 - Atualizado em 08/03/2026 18:58
Imagem gerada a partir do envio do texto, por plataforma de inteligência artificial.
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Grok
Clara Lemlich nasceu em março de 1886, em Horodok, então território do Império Russo, hoje situado na Ucrânia. Judia, cresceu sob a sombra dos pogroms (significa “devastação” em russo; é uma espécie de perseguição étnica violenta) e das condições de precariedade extrema impostas a sua família.
Segundo registros biográficos, interessou-se ainda jovem pela literatura revolucionária russa e comprava livros às escondidas, com o dinheiro de pequenos serviços, já que os pais desaprovavam aquele tipo de leitura. Em 1903, desembarcou em Nova York por Ellis Island, a “ilha da esperança” que, para milhões de imigrantes, parecia prometer liberdade, trabalho e futuro.
Mas a realidade que Clara Lemlich encontrou não foi exatamente de esperança. Empregada na indústria têxtil nova-iorquina, deparou-se com longas horas de trabalho, baixos salários, insegurança e humilhação cotidiana. Clara logo envolveu-se na luta sindical e se destaca como uma líder improvável e temida. Em 22 de novembro de 1909, discursou no salão da Cooper Union e interrompeu as formalidades cautelosas da instituição e chamou as pessoas para a ação.
Clara Lemlich
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Reprodução
O discurso de Clara feito em ídiche (dialeto alemão que incorpora elementos do hebraico) acabou por se concretizar em uma greve geral, a chamada “Revolta das 20.000”, a maior greve liderada por mulheres nos EUA na época, que resultou em melhores condições para trabalhadoras de confecção. Como acontece com muitas mulheres que ousam desobedecer ao lugar que lhe foi reservado, Clara pagou caro por sua coragem. Sofreu agressões, perseguições e prisões.
A luta liderada por Clara Lemlich não é, isoladamente, o que explica o 8 de março como dia internacional de luta feminina. Porém, traz os elementos que o constituem, a genealogia desse dia, um ambiente de sufrágio, socialismo e luta operária feminina. Como todos os movimentos que transformam a história, não possui uma origem única e simples.
Pouco mais de um ano depois, uma das fábricas da Triangle Waist Company sofreu um incêndio devastador, causando a morte de 146 trabalhadores do setor do vestuário — 123 mulheres e meninas e 23 homens —, a maioria imigrantes italianos ou judeus, com idades entre 14 e 23 anos. A fábrica já simbolizava o tipo de exploração que a greve de 1909 havia denunciado, e a tragédia expôs com brutalidade aquilo que o discurso elegante das elites preferia não ver. Embora impactante, o incêndio não criou o 8 de março, como tantas vezes se repete de forma errada, mas se incorporou à memória histórica das lutas femininas e operárias que cercam a data.
8 de março nasce da fuligem e não das rosas
Clara Lemlich, portanto, ajuda a contar uma parte decisiva dessa história, mas não a esgota. No ano seguinte à sua greve, em 1910, na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, realizada em Copenhague, uma outra Clara, a Zetkin, propôs a criação de um dia internacional de mobilização das mulheres.
As lutas das Claras e de tantas outras mulheres tratava-se de organizar politicamente a luta feminina em torno do sufrágio, do trabalho digno e da igualdade de direitos. O que estava em jogo não era a delicadeza da mulher, mas sua cidadania.
Clara Zetkin
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O 8 de março, como se vê, não nasceu da gentileza — nasceu do conflito. Não brotou de uma floricultura, mas da modificadora energia desprendida quando há o choque de injustiças com coragem.
A data ganharia seu marco definitivo alguns anos depois, em 1917, quando mulheres trabalhadoras de Petrogrado — então capital do mesmo Império Russo de Clara Lemlich — saíram às ruas contra a fome, a guerra e a miséria. O gesto, que muitos homens da política consideraram inoportuno, ajudou a precipitar a Revolução Russa.
A manifestação em Petrogrado ocorreu em 23 de fevereiro no calendário juliano usado na Rússia, o que corresponde a 8 de março no calendário gregoriano, usado na maioria dos países. Dias depois da mobilização feminina, o czar abdicou. Não é pouca coisa. Uma data hoje transformada em arranjo floral foi ajudada a nascer por mulheres que abalaram um império. Em 1921, o 8 de março foi oficializado como referência para a comemoração.
A história do 8 de março é áspera demais para caber nas homenagens floridas do presente, mesmo entre frases bem-intencionadas e declarações verdadeiras de amor. Até por estarem mantidas muitas das condições que levaram aos levantes femininos, como salário desigual, o assédio naturalizado, a sobrecarga invisível, a violência doméstica, o feminicídio, a desautorização cotidiana, a exaustão de existir sob permanente cobrança.
O Dia Internacional da Mulher não foi criado para enfeitar o mundo com rosas, mas para lembrar que muitas delas vieram com espinhos, que muitas vezes são o que restou a quem quase sempre precisou florescer em terreno hostil. Se hoje distribuem rosas no 8 de março, convém não esquecer as mãos que sangraram para que elas pudessem ser entregues.
O verdadeiro 8 de março não nasceu em vitrines. Nasceu na fuligem, na greve, na marcha, no panfleto, na fábrica, no sindicato e na rua. Nasceu quando mulheres decidiram que não aceitariam mais o lugar estreito que lhes haviam reservado. O dia das mulheres continua sendo o da luta. As flores podem ficar. Mas que ninguém ouse arrancar os espinhos da memória.