Edmundo Siqueira
11/10/2026 09:52 - Atualizado em 11/10/2026 09:56
Lula e Flávio Bolsonaro: dias de um futuro esquecido
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Montagem feita pelo autor / Edmundo Siqueira
O segundo turno eleitoral é também uma batalha de rejeições. Não basta convencer o eleitor de que se é a melhor escolha, as campanhas precisam demonstrar que o adversário representa um risco maior. Lula e Flávio Bolsonaro possuem 46% e 43% de rejeição, respectivamente, de acordo com o último Datafolha. O empate técnico, porém, se dá entre duas visões de mundo muito diferentes para o Brasil, e ambas atrasadas.
Não é intelectualmente — ou democraticamente — justo fazer uma simetria entre as propostas e o modo de agir politicamente do lulismo e do bolsonarismo. Lula participa ativamente da vida política do país há décadas, passando por vitórias importantes e por derrotas, mesmo as maiores, sem questionar a legitimidade do sistema eleitoral. Bolsonaro, o Jair, tentou um golpe de Estado quando perdeu, após vencer a sua primeira eleição para presidente. Foi condenado por isso. Portanto, as representações postas nesta eleição são de dois grupos que jogam jogos diferentes perante a democracia.
Porém, Lula não é um homem de hoje. E não se trata de idade. O atual presidente do Brasil é o maior representante ainda na ativa de um modelo de sociedade consolidado a partir da Constituição de 1988, chamado de Nova República. E esse modelo, a despeito de inegáveis avanços sociais, está em profunda crise. O tipo de presidencialismo que se consolidou naquele período rachou. O Congresso assumiu uma parcela crescente do controle sobre o orçamento federal, especialmente por meio das emendas parlamentares, e o Judiciário passou a ocupar um espaço cada vez maior nas decisões políticas, nem sempre respeitando os limites que deveriam separar os Poderes.
O alicerce econômico e social que sustentou o modelo da Nova República também começou a mostrar rachaduras severas. A burocracia brasileira herdou estruturas antigas, muitas delas favoráveis à concentração econômica, à proteção de grandes empresas e à excessiva intervenção estatal. O mercado de trabalho continuou organizado em torno de uma relação regida pela CLT, que garante uma gama de direitos, mas não conseguiu impedir a persistência de baixos salários, jornadas extensas e pouca qualificação profissional. Os investimentos estatais em tecnologia de ponta, embora existentes, ainda não produziram a transformação necessária desse cenário. E setores altamente competitivos da iniciativa privada, como o agronegócio, apesar de sua importância na geração de empregos, não conseguem, sozinhos, absorver uma população que precisa de ocupações cada vez mais qualificadas e bem remuneradas.
A rachadura do modelo não tem apenas causas internas. A profunda transformação nas relações sociais e na economia trazida pelas redes, e agora pela inteligência artificial, acelerou o descontentamento com as promessas que não foram cumpridas pela democracia liberal, no mundo inteiro. A sociedade mudou suas formas de trabalhar, consumir, informar-se e até de compreender a realidade. As instituições políticas, entretanto, não acompanharam essas mudanças na mesma velocidade.
Voltando ao caráter “de ontem” de Lula, percebe-se claramente que boa parte das ações, ideias e falas de seu governo ainda está voltada ao mundo anterior a essa toda essa transformação. A ideia tradicional petista é que a formalização do trabalho, nos modelos da CLT, deve ser o principal caminho de proteção e ascensão social. A garantia de direitos seria o grande ganho para esses trabalhadores, o que é verdade, mas já não corresponde, necessariamente, ao que boa parte deles deseja. A própria discussão sobre o fim da escala 6x1 mostra que o modelo precisa ser revisto. Não basta garantir o emprego formal se a remuneração não permite uma vida digna e se o trabalhador deseja, além dos direitos, autonomia, tempo e oportunidades de crescimento.
Há ainda uma transformação que o petismo parece não ter compreendido inteiramente. O empreendedorismo passou a integrar as aspirações de uma parcela considerável dos brasileiros. Muitos empreendem por necessidade, é verdade, submetidos a uma precarização disfarçada de autonomia. Mas outros desejam ter o próprio negócio, trabalhar por conta própria e não depender de um patrão. E a classe C, principalmente aquela que toca pequenos negócios, carrega uma carga de impostos e obrigações burocráticas que muitas vezes compromete sua capacidade de crescer. É gente que emprega, produz riqueza e não se reconhece necessariamente no discurso político tradicional sobre a classe trabalhadora. O petismo não soube, basta olhar para os números do primeiro turno, propor soluções suficientemente convincentes para esses impasses.
Flávio e o retrocesso
Flávio, porém, é de anteontem. E não se trata, igualmente, de idade. O senador representa uma visão de sociedade que busca recuperar uma ordem supostamente perdida, um passado idealizado no qual a autoridade, a hierarquia e os valores tradicionais seriam capazes de organizar a vida nacional. O bolsonarismo é, em grande medida, um movimento de retrocesso. Não por acaso, o próprio plano de governo de Flávio apresenta a ideia de que o Brasil precisa voltar a ser um país sem os avanços de hoje. A promessa de futuro começa, curiosamente, pelo retorno ao passado.
O simbolismo não é desprezível. O lema “Deus, Pátria e Família”, utilizado pelo bolsonarismo e reproduzido no próprio site de campanha de Flávio, foi também a divisa da Ação Integralista Brasileira, fundada por Plínio Salgado em 1932. Isso não significa afirmar que Flávio seja integralista, nem que a defesa da religião (sem imposição, é claro), da família ou do patriotismo seja incompatível com a democracia. Mas revela a persistência de um repertório político que encontra no passado suas principais referências de organização social.
Existe, nesse ponto, uma contradição interessante. O bolsonarismo compreendeu como poucos movimentos políticos brasileiros a importância das redes sociais, da comunicação direta e da construção de identidades políticas no ambiente digital. Não se pode, portanto, dizer que desconheça as transformações tecnológicas. Mas dominar os instrumentos do presente não significa possuir uma concepção contemporânea de sociedade. É possível utilizar a tecnologia mais avançada para defender ideias muito antigas. E é justamente essa combinação que torna o movimento de massa em um país como o Brasil.
Também não seria correto afirmar que todo o conservadorismo é autoritário. Existem tradições conservadoras profundamente comprometidas com o Estado de Direito, a separação dos Poderes e a preservação das instituições democráticas. O bolsonarismo, na figura de seu principal líder, foi condenado por tentar impedir a alternância de poder. Flávio não pode ser responsabilizado pelos crimes do pai, mas é o herdeiro político declarado de seu movimento e pretende governar em nome desse legado.
A experiência histórica demonstra que o desejo de ordem pode produzir resultados bastante diferentes, conforme essa autoridade esteja submetida à Constituição ou pretenda se colocar acima dela. O Brasil já conheceu governos que justificaram a concentração de poder pela necessidade de combater a desordem, a corrupção e os inimigos da nação. Não foram experiências que deixaram boas lembranças à democracia.
Dias de um futuro esquecido
Lula tenta preservar um modelo que envelheceu. Flávio promete restaurar uma ordem que já deveria ter ficado para trás. E o Brasil continua à espera do futuro.
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Charge criada por IA, a partir do envio do texto / Edmundo Siqueira
Lula e Flávio, portanto, representam respostas distintas e não equiparáveis a um mesmo fenômeno: o esgotamento da capacidade de representação política das últimas décadas. Um procura preservar e reformar um modelo que ajudou a construir. O outro promete superá-lo, mas busca no passado parte importante de suas referências.
Nenhum dos dois parece oferecer, de maneira suficientemente convincente, uma resposta à sociedade que se forma sob novas relações de trabalho, novas tecnologias e novas expectativas individuais. Isso ajuda a explicar o descontentamento, embora não seja suficiente, sozinho, para compreender o resultado eleitoral.
Mas há uma diferença fundamental, que não pode desaparecer nessa crítica. Uma democracia pode sobreviver a governos incapazes de compreender inteiramente seu tempo. Pode reformar suas instituições, substituir seus representantes e corrigir suas escolhas. O que ela não pode é abrir mão das próprias regras de funcionamento. Uma eleição não serve apenas para escolher um projeto econômico ou uma determinada visão de sociedade. Serve também para decidir quem exercerá o poder e sob quais limites.
O Brasil chega, assim, ao segundo turno dividido entre dois passados. O de Lula, que ainda procura respostas no pacto político e social construído há quase quatro décadas, e o de Flávio, que se apresenta como renovação enquanto reivindica a restauração de uma ordem anterior. A escolha entre eles não é indiferente, especialmente para a democracia.
Mas qualquer que seja o resultado, permanecerá uma questão que a eleição não parece capaz de resolver: por que, diante de tantas transformações, os brasileiros continuam procurando no passado e no autoritarismo as respostas para o futuro?