Dias de um futuro adiado
Edmundo Siqueira 22/09/2026 22:38 - Atualizado em 22/09/2026 23:16
Edmundo Siqueira


Faltam menos de duas semanas. Doze dias, para ser exato. Uma eleição estranhamente desmobilizada — não se fala exatamente em eleições e sim em instituições e acontecimentos que podem influenciá-las — confunde-se com a que talvez tenha maior importância na Nova República, justamente por representar seu crepúsculo ou sua manutenção.

A falta de estímulo é visível, mesmo na militância. O sentimento mais presente é o de evitar que o “outro lado” vença. Existem dois candidatos esponjas, que absorvem fidelidades, ressentimentos e identidades políticas previamente construídas, e que partem de pisos consolidados, representando projetos e ideologias conhecidos da maioria dos eleitores. Ambos carregam enormes rejeições, e são elas que estarão em jogo no provável segundo turno, daqui a 33 dias.

Não há um problema nisso, em princípio. Democracias podem acabar convergindo em duas visões de mundo, duas formas de governar, que podem ser dois partidos ou duas personalidades políticas. O problema aparece quando a divergência deixa de ser sobre futuros diferentes e passa a ser apenas sobre inimigos diferentes.

A questão brasileira, principalmente em 2026, é que a discussão binária não passa pelas propostas dessas visões de mundo. Há muito de futuro adiado numa eleição em que estão em jogo mais as personalidades dos candidatos do que suas ideias para o progresso da nação. Entram nessa disputa até seus costumes, religião e vida pessoal. O Brasil é um país central no mundo, detentor de importantes reservas naturais e uma de suas maiores economias. Qual papel o país deverá desempenhar neste novo desenho global que tem se construído? Quais setores estratégicos deverão receber investimento estatal? Quais linhas de pesquisa acadêmicas devem ser fomentadas? Como lidaremos com o mercado de trabalho interno com o avanço de inteligências artificiais? São todas perguntas absolutamente sem resposta a 12 dias das eleições.

Flávio Bolsonaro é um candidato por procuração. Representa o pai, condenado na trama golpista e atualmente em prisão domiciliar, e o movimento de massa construído a partir de sua figura. Bolsonaro, pai, foi construindo ao longo do tempo uma alternativa viável para uma direita e extrema-direita órfãs desde a redemocratização, que estavam adormecidas, envergonhadas, sem uma liderança popular. Consolidou-se como porta-voz de um eleitor conservador que viu muitos de seus ideais frontalmente atacados pelo progressismo. Bolsonaro, como todo político habilidoso, aproveitou as janelas de oportunidade que a história fornece, abraçando o forte antipetismo que se fortaleceu após a operação Lava Jato.

Não foi preciso uma construção partidária, os ideais se concentraram na pessoa de Bolsonaro, que ganhou em 2018 pelo PSL, tentou fundar um partido próprio, fracassou e acabou no PL, que ganhou novo protagonismo nacional pela chegada de Bolsonaro, não o contrário. Mas Bolsonaro se mostrou incapaz de aproveitar a sua maior oportunidade, que foi sentar-se na cadeira de presidente. Some-se a desastrosa condução da pandemia à tentativa de golpe de Estado, e ter-se-á o primeiro presidente, desde a instituição da reeleição consecutiva, a disputar e perder um segundo mandato.

Lula é a personificação da Nova República. Os “pais fundadores” deste regime, em sua maioria, já não estão entre nós; Fernando Henrique Cardoso está aposentado e o PSDB, como uma centro-direita histórica, foi engolido pelo bolsonarismo. Restou Lula, que disputa seu quarto mandato. Por essa personificação e pelo número de mandatos, carrega consigo os bônus e os ônus de tudo que o Brasil pós-Constituição de 1988 produziu. E isso traz a ele seu piso, inamovível, e também seu teto. Lula alcançou os maiores índices de popularidade já vistos por um presidente no Brasil, e foi um dos principais nomes na construção de uma das mais duradouras e capilarizadas organizações partidárias brasileiras.

Portanto, Lula é um “velho conhecido” do brasileiro, o que é um importante ativo, pois traz previsibilidade e simpatia de quem se beneficiou em seus governos, mas também traz um cansaço, um desalento do mais do mesmo. Somem-se os inúmeros casos de corrupção em seus governos à profunda crise econômica do governo Dilma e ter-se-á um empate técnico em pesquisas recentes com um candidato que disputa sua primeira eleição presidencial e atua por procuração.

A tragédia talvez esteja justamente aí. As duas opções mais viáveis eleitoralmente estão centradas nas personalidades políticas e não necessariamente na construção do país. E uma eleição tão ocupada pelo passado ocorre quando o futuro parece ter chegado antes do previsto, por uma nova disputa global por energia, tecnologia e recursos naturais. Os minerais críticos, por exemplo, tornaram-se ativos de interesse econômico, tecnológico e geopolítico, quando o Brasil possui reservas relevantes e precisa decidir se continuará apenas extraindo matéria-prima. Não é uma abstração para 2050. Já está acontecendo.

Dia 4, a eleição; dia 5, aniversário ou velório

No entanto, se Lula é a Nova República e o bolsonarismo nasceu como sua negação, esta é, sim, uma eleição de projetos — só que de um projeto já existente, o de 1988, contra a sua recusa. A Constituição completa 38 anos no dia 5 de outubro, o dia seguinte ao primeiro turno. Chega à maturidade sem saber se será celebrada ou velada.

O futuro não esperará a política brasileira terminar suas discussões sobre o passado. Um país não deixa de ter futuro porque não o discute. Apenas corre o risco de chegar a ele atrasado. No caso do Brasil, mais uma vez.

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