O último duelo e a disputa que não está na cédula
Edmundo Siqueira 23/08/2026 09:02 - Atualizado em 23/08/2026 09:17
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Não é difícil reconhecer a existência de um duelo à brasileira desde 2018, no qual figuram nos polos Lula e Bolsonaro. Convencionou-se chamar de polarização — estão em extremidades políticas opostas, então é justo nomear assim —, mas ela se dá mais em relação aos personagens do que às suas premissas ideológicas. Há extremismos visíveis em Bolsonaro, o que não é percebido em Lula. Apesar disso, polarizam, ainda que assimetricamente, mas como uma polarização afetiva e centrada nos candidatos.
Veja a última análise de pesquisas eleitorais para presidente aqui, do Blog Opiniões de Aluysio Abreu Barbosa. 

Por força dessa polarização afetiva, há em Lula e Bolsonaro um evidente protagonismo na esquerda e na direita, respectivamente, e partindo dessa premissa, a eleição de 2026 poderá, por inelegibilidade de Bolsonaro e por limite de mandatos consecutivos de Lula, representar o fim desse duelo, pelo menos como centro eleitoral, ainda que um deles tenha uma sobrevida de quatro anos.

Se olharmos com olhos estritamente legais, há possibilidade de esse duelo persistir — a inelegibilidade de Bolsonaro não é eterna e Lula pode concorrer novamente com 88 anos —, mas a realidade se impõe como um enorme dificultador para ambos. Então, o que restará quando os dois deixarem o centro da disputa eleitoral? Como se comportarão os campos ideológicos sem essas lideranças carismáticas protagonizando as urnas?

O exercício de futurologia é válido, mas qualquer projeção depende de variáveis que hoje não podem ser estimadas com segurança: não sabemos qual composição do Congresso sairá das urnas, nem quais acontecimentos reorganizarão o debate político até 2030. Portanto, consideremos, nesta análise, um recorte que vai de 2018 aos dias atuais.

Uma eleição em que o incumbente se coloca na disputa assume um caráter plebiscitário, mas na atual, de 2026, esta decisão de continuidade ou não do governo traz consigo outras camadas, como a de permitir que Lula, como personagem altamente conhecido da política nacional e do imaginário popular, finalize sua “carreira” presidencial.

Portanto, para o eleitor historicamente lulista o peso está na finitude, podendo ser esta a última eleição de Lula. Para o eleitor circunstancial, sobretudo o que faz essa escolha por rejeitar o outro polo, a decisão passa por ser a opção “que resta”, a única aparentemente possível para impedir o retorno do bolsonarismo ao poder.

Do outro lado, o filho do ex-presidente Bolsonaro tenta impor à sua campanha o ar de continuidade interrompida do governo do pai, prometendo ser não uma versão ou alguém com inspiração paterna e política, mas o procurador de um movimento político de massa comandado pela figura carismática de Bolsonaro que se encontra impedido de concorrer. O que pode parecer um trunfo a uma expressiva quantidade de eleitores mostra-se como uma desconfiança para outra, que vê a continuidade dada por fios de marionete como fraqueza e ausência de ideias e propostas próprias.

É uma eleição de continuidades. No caso de Lula, a continuidade é vista como um fim provável, como último governo, por não haver nenhum substituto viável eleitoralmente, não apenas no PT como em todo o campo progressista. No caso bolsonarista, a continuidade é vista como um sentimento dúbio, em que votar em Flávio significa salvar o pai e trazer o movimento de volta ao poder, mas o escolhido por procuração política não goza da confiança irrestrita de todos os eleitores do campo conservador.

Continuidades diferentes, sucessões problemáticas

Embora haja continuidades em disputa dos dois campos, elas se apresentam de formas diferentes. A de Lula mostra a fraqueza do fim do ciclo, e a de Flávio, a opacidade de agir por procuração. Além da dificuldade de continuísmo, o pós-2026 apresenta uma contradição interessante em relação à sucessão.

Lula não tem hoje um sucessor evidente, capaz de capitalizar votos como ele. A experiência de 2018 de Haddad por procuração — problema parecido para Flávio, hoje — mostrou os limites de transferência que tendem a piorar se Lula sair do cenário definitivamente como protagonista. Em 2018, mesmo preso, exercia essa posição.

Bolsonaro, ao contrário, tem seu espólio político disputado por diversas figuras, dentro e fora da família. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, era o nome natural para esta eleição, até que foi dada a bênção do pai a Flávio. Tarcísio era visto por parte da direita como alguém capaz não apenas de reter os votos de Bolsonaro, mas de ampliá-los, atingindo parcelas que rejeitam o bolsonarismo, mas concordam com muitos de seus ideais.

O paradoxo aparente dessa diferença decorre do fato de que o PT é um partido estruturado, histórico, de base social forte e vitorioso em diversas eleições, mas que não soube criar lideranças efetivas em volta da figura de Lula, enquanto o bolsonarismo, de frágil base partidária, conseguiu produzir nomes competitivos eleitoralmente.

Mas a sucessão não deixa de ser problemática para o bolsonarismo, pois há o receio de que uma vitória presidencial de alguém de fora da família possa mudar o protagonismo do campo conservador, adormecendo a figura de Bolsonaro como protagonista. Para muitos analistas, esse foi o principal motivo da escolha de Flávio: manter o bolsonarismo como está.


O pós-2026
Galeria de ex-presidentes no térreo do Palácio do Planalto.
Galeria de ex-presidentes no térreo do Palácio do Planalto. / Reprodução

A eleição deste ano representa ao mesmo tempo continuidade e finitude. Após ela, fecha-se inevitavelmente um ciclo da história política do país, assim como o ciclo Fernando Henrique Cardoso se encerrou mesmo tendo permanecido vivo. No caso de FHC, houve sucessores — Serra, Alckmin, Aécio —, todos competitivos, nenhum vitorioso. O PSDB só derreteu depois de 2014, quando perdeu não os quadros, mas o lugar próprio: espremido entre os dois polos, virou fornecedor de nomes para governos alheios.

Porém, mais que uma dificuldade partidária, o fechamento do ciclo atual representa um desafio para todo o campo progressista, que viu sua representatividade política ficar concentrada na figura de Lula. Caso o PT definhe como o PSDB, levará consigo uma profunda desestruturação da esquerda brasileira, que precisará de uma reconstrução orgânica.

A direita parece chegar ao pós-Bolsonaro com maior oferta de lideranças competitivas, mas com um problema inverso ao da esquerda: não a ausência de herdeiros, e sim o excesso deles. A disputa será para saber quem poderá reivindicar o eleitorado de Bolsonaro sem herdar integralmente sua rejeição.

Em 2026, Lula e Bolsonaro ainda organizam a eleição. A verdadeira disputa, porém, talvez seja sobre quem organizará a política quando eles não puderem mais fazê-lo.

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