A mulher por trás do capacete com orelhas de gatinho
Edmundo Siqueira 09/05/2026 20:45 - Atualizado em 09/05/2026 20:52
Reprodução Instagram
“Mais do que nunca, agora, tenho certeza de que a minha missão com o Instagram não é só postar conteúdo. É fazer pelo próximo”. Essa foi a frase final de uma entrevista por escrito com a influenciadora digital Kaliya, quando perguntei sobre uma ação recente na APOE, em Campos.


O Centro de Assistência Social e Terapêutico Diva Marina Goulart, a APOE, é uma instituição filantrópica campista, fundada em 1964, que atende “mais de 430 usuários ativos”, como informa o site da própria instituição, atendendo pessoas com deficiências intelectuais, auditivas e TEA em Campos e municípios vizinhos.

A ação na APOE, segundo Kaliya, surgiu a partir do grupo Armys — grupo local de fãs da banda sul-coreana BTS, ligado a uma cultura de mobilização solidária —, que buscou a influenciadora para ajudar na arrecadação de caixas de bombons. Ela, por sua vez, procurou outros parceiros e conseguiu 190 ovos de Páscoa — antes eram apenas três caixas de bombons — e uma palestra para mães dos alunos atípicos da APOE.

Kaliya tem pouco mais de 128 mil seguidores no Instagram, além de outros milhares em diferentes redes. Baseada em Campos, contraditoriamente, a personagem que ela desenvolveu escolheu o anonimato. A visibilidade de influencer ganha, nesse caso, um ar de mistério: uma jovem a bordo de uma moto superesportiva, a BMW S 1000 RR, sem entregar inteiramente o rosto à curiosidade pública.

A motocicleta, segundo a ficha técnica da própria BMW, tem 999 cilindradas, quatro cilindros em linha e 210 cavalos de potência que, segundo alguns motociclistas podem superar os 300 km/h de velocidade máxima (embora a BMW não confirme diretamente esse número). Aqui, importa menos como dado mecânico, mas sim como símbolo. Não se trata de uma moto discreta. 
A BMW s1000rr, superesportiva de configuração agressiva.
A BMW s1000rr, superesportiva de configuração agressiva. / Divulgação


“Quando eu passo de moto, eu sei que existem duas leituras acontecendo ao mesmo tempo. Tem gente que me vê simplesmente como uma mulher, e isso, por si só, já carrega um peso dentro do motociclismo. Mas também tem quem me enxergue como uma personagem, por causa da orelha de gatinho, da estética, da ‘mulher gata’ na moto”.

A cidade, as crianças e o capacete

A personagem Kaliya costuma atrair também os olhares curiosos das crianças. “As crianças acabam vendo de um jeito mais lúdico, quase como uma figura mesmo”. As “orelhas de gatinho” em um capacete preto estilizado ajudam na composição de uma persona. E, quando uma presença digital ampla se materializa na rua, a motociclista anônima, mas de fama local, fascina.

“Quando uma menina me vê passando e sorri, eu sempre penso que aquele momento pode significar mais do que parece. Talvez, num primeiro olhar, ela veja a moto, o barulho, a estética ali em cima de uma S 1000 RR, quase como uma personagem saindo do imaginário. E tudo bem, porque isso também encanta, principalmente as crianças”.

Mas nem todos os olhares são de admiração. A presença nas redes e o engajamento trazem visibilidade. E, com ela, vêm também as críticas. “A desconfiança é o que mais me incomoda, sem dúvida. Porque ela vem carregada de um julgamento automático. Muita gente simplesmente não acredita que eu seja capaz de andar numa mil cilindradas”.

Essa desconfiança reclamada por Kaliya não se limita à pilotagem. Quem tem muitos seguidores passa também a ser observado pelos possíveis interesses comerciais, pelos acordos que pode fazer, pela independência que preserva ou não, e pelo modo como lida com a própria imagem. No caso dela, soma-se ainda o assédio.

“O assédio também é algo presente, justamente por eu ser uma mulher numa moto grande, e muitas vezes vem junto com tentativas de me diminuir, de inferiorizar, como se eu estivesse ocupando um lugar que não é meu. No fim, eu tenho que lidar o tempo todo com gente tentando reduzir algo que construí com esforço e constância”.

A mulher no guidão

A presença feminina em espaços historicamente masculinizados ainda costuma ser questionada. Embora existam avanços significativos na sociedade sobre representação e liberdade de escolha da mulher, ainda há muito a ser feito para que uma igualdade real seja alcançada.

“Questionam se eu tenho carteira, se eu realmente sei pilotar, como se fosse improvável uma mulher estar ali com domínio”, disse Kaliya.

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No Brasil, as mulheres ainda representam cerca de um quarto dos habilitados para conduzir motocicletas. Em competições internacionais, nomes como o da espanhola Ana Carrasco ajudam a lembrar como a presença feminina no motociclismo de alto rendimento ainda é exceção — e, por isso mesmo, vira notícia.


Ao mesmo tempo, levantamento da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares, a Abraciclo, mostra que o público feminino cresce de forma consistente. Dados divulgados em 2025 apontavam mais de 10 milhões de mulheres habilitadas na categoria A, aumento de 65,8% em relação a 2015 (G1).

Kaliya reforça o entendimento de que a presença da mulher em qualquer atividade é um direito — e deve acontecer onde elas quiserem.

“No fundo, o que eu gostaria mesmo é que ela enxergasse possibilidade. Que ela entendesse que não existe um único jeito de ser mulher, nem um único caminho certo para seguir. Que ela pode ser delicada ou intensa, discreta ou chamativa, pode gostar de velocidade, de arte, de qualquer coisa, sem precisar da validação de ninguém”.

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Nem só ajuda, nem só atrapalha: molda


A motociclista que preserva o rosto, a bordo de uma mil cilindradas nas ruas de Campos, diz que os julgamentos e a sensação de que as pessoas estão sempre “esperando um erro” também fizeram parte do processo de construção da personagem.

“Campos tem esse lado de amplificar tudo. O que você faz vira assunto muito rápido. Isso pode pressionar, pode gerar julgamento, mas também constrói presença. No começo, pode assustar, porque parece que estão sempre esperando um erro. Depois, você entende que também é isso que faz as pessoas te reconhecerem. Então, no fim, eu diria que fez parte do processo. Nem só ajuda, nem só atrapalha: molda”.

A ação recente na APOE transformou a visão de Kaliya sobre o sentido da caridade e das boas ações, além de trazer outro significado para sua visibilidade, segundo ela mesma: "Foi muito especial, de um jeito que eu não esperava quando tudo começou. Olhar nos olhos das pessoas, sentir a troca, é algo que não dá pra explicar direito, só vivendo mesmo”.

Se os julgamentos moldam, a ação concreta parece ter mudado sua forma de enxergar a própria influência — e, aos poucos, também suas atitudes.

“Eu fui achando que estava indo fazer algo, mas, no fim, recebi muito mais do que entreguei. Saí de lá com a cabeça diferente, mais consciente do impacto que pequenas atitudes podem ter. Coisas simples, que às vezes a gente nem imagina, podem marcar o dia ou até a vida de alguém”.

O futuro mostrará se essa missão ligada à questão feminina e a ações sociais se tornará caminho permanente ou se ficará como um episódio bonito de uma trajetória digital interessante. A pergunta sobre a continuidade é legítima — e necessária — mas não invalida a Kaliya de hoje, pelo contrário.
Em tempos de algoritmo, influência só deixa de ser vitrine quando suporta continuidade. E uma coisa parece certa depois desta entrevista: por trás do ronco das mil cilindradas, há também uma tentativa de dar sentido ao olhar que a cidade lançou sobre ela.

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