Lira de Apolo: das cinzas ao projeto executivo
Edmundo Siqueira 01/05/2026 15:32 - Atualizado em 01/05/2026 15:35
Foto: Edmundo Siqueira
Eram quase sete e meia da noite quando, depois de mais de uma hora de conversa, o arquiteto Humberto Chagas interrompeu a entrevista e foi buscar — com o cuidado de quem recolhe uma relíquia da própria cidade — uma peça arredondada, cheia de relevos em alvenaria, que havia despencado do alto da fachada da Lira de Apolo, no centro de Campos.

Voltou segurando o fragmento com certo orgulho — não o orgulho vaidoso de quem exibe uma descoberta, mas o de quem sabe que uma ruína também é documento. A peça caiu de um prédio quase sempre subestimado pelos campistas. Construído entre os anos de 1909 e 1914, é sede da Sociedade Musical Lira de Apolo, uma das mais antigas instituições musicais da cidade, com origem em 1870.

O trabalho detalhado visto na fachada do prédio, como na peça que estava nas mãos de Humberto, forma um conjunto que os arquitetos chamam de “eclético”; uma maneira técnica e elegante de dizer que não há um estilo único, definido. O ecletismo da Lira é uma mistura de estilos históricos — como clássico, barroco e gótico — em uma única obra.

Foto: Edmundo Siqueira


As bandas

A história da Lira é mais que um prédio, embora ambos se encontrem em simbiose.

Campos, como muitas cidades brasileiras, constituiu bandas civis, as chamadas sociedades de euterpe (deusa da música e da poesia lírica). Esses agrupamentos de músicos, que em geral tocam instrumentos de sopro e percussão, se constituíram como uma das únicas formas de acesso à música instrumental para as camadas mais populares.

A formação histórica dessas bandas sempre foi marcada por pessoas comuns da classe popular: “eram ex-escravos; trabalhadores livres e pobres das fazendas, usinas, olarias e do mundo do trabalho informal”, como cita a tese de doutorado de Karina Gomes, defendida na Uenf. A autora complementa: “no campo ou na cidade, esses músicos eram marginalizados, desprezados e sem voz na sociedade, em suas dimensões sociais e culturais”.

A formação dessas bandas populares vem do crescimento urbano. Com a corte portuguesa instalada no Rio de Janeiro e o dinheiro farto da cana-de-açúcar, a terra goytacá viu crescer a necessidade de uma vida social mais plena. Foi nesse cenário que começaram a ser erguidos os teatros em Campos, como o Theatro Campista, ainda em 1832, e o emblemático Cine Teatro Trianon, nos anos 1920.

Campos se consolidava como uma cidade de artes e cultura. Embora focada em uma visão eurocentrista, houve movimentos orgânicos na cidade, essencialmente ligados às classes populares. Os elegantes teatros campistas recebiam companhias musicais nacionais e estrangeiras para uma elite ávida em viver como se vivia na capital.
Restauro de fachada feita com doações e recursos da Lira de Apolo - poder público se omitiu para ajuda, mesmo o prédio sendo tombado pelo órgão estadual Inepac e reconhecido como patrimônio histórico municipal.
Restauro de fachada feita com doações e recursos da Lira de Apolo - poder público se omitiu para ajuda, mesmo o prédio sendo tombado pelo órgão estadual Inepac e reconhecido como patrimônio histórico municipal. / Antônio Filho - divulgação (Folha1)


O espelhamento do Rio e da Corte fez surgir orquestras locais, como a Sociedade Philarmônica de Campos, em 1855. Mas eram espaços elitizados, e sem espaço para músicos amadores, que passaram a compor as bandas civis, como a Lira de Apolo. A música era parte importante da vida cultural de Campos, e as bandas se apresentavam em saraus, bailes carnavalescos e também nas ruas, coretos e até em usinas de cana-de -açúcar.

A Lira de Apolo

Ainda segundo Karina, a Lira de Apolo foi fundada por gente da classe trabalhadora que tinha participação na campanha abolicionista: eram lavradores, marceneiros, charuteiros, pedreiros, um oficleidista (Lourenço Soares), um consertador de pianos (Manoel Bento) e o funileiro Bernardo Bento Alves — “oficleidista” era o músico que executava o oficleide, instrumento da família dos metais.

O histórico da Lira de Apolo chama atenção para esse funileiro que deu força e adesão ao movimento antiescravagista, colaborando para que a cidade de Campos se tornasse o palco da luta abolicionista. A euterpe campista tocou inúmeras vezes para as conferências abolicionistas, onde Carlos de Lacerda e José do Patrocínio faziam apelos às senhoras da plateia para que fundassem um clube abolicionista feminino, que mais tarde ficou conhecido como “Clube Abolicionista José do Patrocínio”.

A Lira já esteve sob a batuta dos maestros Manoel Baptista de Castro, Lourenço Antônio Soares, José Ferraz, Joaquim Barboza Fiuza, Juca Chagas, Álvaro de Andrade Reis, Etienne Samary e Ricardo de Azevedo, este o atual regente.

O maestro Ricardo conta que começou na Lira de Apolo como estudante e aprendiz, limpando instrumentos e encerando o salão do prédio. Chegou a tocar trompa na banda do Corpo de Bombeiros de Niterói, então capital do estado do Rio de Janeiro, ficando no instrumento por “toda a vida”.

O incêndio

Em 19 de novembro de 1990, a sede da Lira de Apolo sofreu um grande incêndio que destruiu instrumentos, uniformes, repertório e equipamentos, além de deixar seu prédio em estado quase irrecuperável.

Após o incêndio, uma longa luta comunitária para recuperar, reconstruir e restaurar o prédio, os sonhos, as memórias, os instrumentos e a identidade da banda foi travada, e liderada pelo maestro Ricardo conseguiu avançar bastante.
Maestro Ricardo de Azevedo
Maestro Ricardo de Azevedo / A.F. Divulgação (Folha1)
“A obra de restauro está quase completa, e fizemos tudo com recursos da banda e dos músicos, além da colaboração de amigos e admiradores. Mas, infelizmente, a luta pela reconstrução não tem nenhum apoio financeiro do poder público. Foi realizada a reestruturação do prédio, restauro do telhado, torres, assoalho em roxinho, escadaria, portas do segundo andar, banheiro e cozinha. Com todas as dificuldades seguimos resistindo e, com a certeza de que sabemos que a história da Lira de Apolo representa muito para o município”, disse Ricardo à Folha, em matéria de 2024.


O projeto atual

A fachada da Lira de Apolo é uma pequena peça de teatro arquitetônico no centro de Campos. Eclética, simétrica, ornamentada, com torres laterais e um frontão central de curvas quase musicais, ela pertence àquele momento em que as cidades brasileiras queriam se vestir de Europa, mas acabavam produzindo algo mais interessante: uma elegância própria, meio solene, meio provinciana, profundamente urbana.

Há nela um desejo de permanência. As liras no alto, os ornamentos em alvenaria, as janelas altas e os telhados pontiagudos parecem compor uma partitura imóvel. Vista com pressa, é apenas mais um prédio antigo. Olhada com atenção, é um prédio rico em história e promessa.

O reconhecimento e o simbolismo do prédio da Lira levaram ao seu tombamento pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (Inepac), em 1982.
Pilastra no interior da instituição. Forro precisou ser refeito após o incêndio, assim como muitas outras estruturas.
Pilastra no interior da instituição. Forro precisou ser refeito após o incêndio, assim como muitas outras estruturas. / Foto: Edmundo Siqueira


É nesse ponto que entra o projeto atual. A Lira foi contemplada no edital Reviver Memórias, da Política Nacional Aldir Blanc no Estado do Rio, com R$ 200 mil para o projeto “Das Cinzas ao Ouro: Construindo a Nova História da Lira de Apolo”. O nome, para o caso, não é apenas bonito. É quase literal. O prédio saiu das cinzas de 1990 e agora tenta chegar ao ouro mais difícil: não o ouro metálico, decorativo, de igreja barroca, mas o ouro miúdo da continuidade, da técnica, do cuidado, da paciência institucional.

Segundo a página oficial da PNAB RJ, o recurso é destinado à elaboração do projeto executivo de restauro da sede, prédio tombado e parcialmente restaurado, para que continue abrigando ações culturais e aulas gratuitas de música.

O edital Reviver Memórias foi desenhado justamente para esse tipo de etapa. No ciclo em que a Lira foi contemplada, a seleção reuniu projetos voltados à história e ao patrimônio cultural do Estado do Rio, em parceria com o Inepac, divididos em categorias que incluíam obras em bens imóveis tombados, projetos executivos e restauro de bens móveis tombados. A Lira entrou na Categoria B, destinada à realização de projetos executivos de restauro, revitalização ou intervenção em bens culturais edificados tombados pelo Inepac.

A noite na Lira

Naquela noite, Humberto Chagas parecia interessado justamente nisso: mostrar que o restauro não começa quando o pedreiro sobe no andaime, mas quando alguém aprende a escutar o prédio. A peça arredondada que ele segurava nas mãos não era só um ornamento caído. Era uma informação; e um alerta.

Quicila Stefen, restauradora de arte sacra, e Michelini Braga, técnica em conservação e restauro, também estavam na conversa, e observavam o prédio com a atenção de quem está treinado a lidar com camadas. Prédios como a Lira mostram que por trás de uma pintura há outra pintura e por trás de uma pretensa sujeira pode haver uma escolha estética.
Detalhes (liras) das pinturas em uma das paredes do interior da Lira de Apolo. Segundo a restauradora Quicila Stefen, o padrão se repete em outras paredes, sendo possível o restauro de parte da originalidade.
Detalhes (liras) das pinturas em uma das paredes do interior da Lira de Apolo. Segundo a restauradora Quicila Stefen, o padrão se repete em outras paredes, sendo possível o restauro de parte da originalidade. / Foto: Edmundo Siqueira


Humberto, Quicila e Michelini não pareciam tratar o prédio como um cadáver ilustre. Tratavam-no como uma instituição e construção ainda possíveis. A Lira é uma sobrevivente. Mesmo com todas as dificuldades, o prédio ainda conversa com a praça, e a banda ainda existe. A história ainda respira, mesmo quando a cidade passa apressada demais para ouvi-la.

A fachada, vista de baixo, guarda essa contradição. Em cima, ornamentos, torres, liras, curvas, promessa de elevação. Embaixo, lojas, letreiros, comércio, o barulho comum do centro. As fiações dos postes demonstram um dos grandes problemas dos patrimônios históricos de Campos, principalmente os centrais: a falta de visibilidade.

Por isso, o projeto atual é mais do que uma etapa técnica. Tenta devolver ao prédio não apenas estabilidade, mas leitura e tentativa de deixar o prédio e a própria banda Lira de Apolo visíveis e acessíveis.

No fim da conversa, a peça que Humberto havia buscado continuava ali, sobre a mesa, como uma espécie de prova. Não era grande. Não tinha a imponência da fachada inteira. Mas, de perto, parecia conter o prédio todo. Talvez seja isso que reste às cidades quando elas esquecem seus próprios símbolos: alguém precisa recolher do chão os fragmentos e dizer, antes que virem entulho, que aquilo ainda é história.
Foto: Edmundo Siqueira
 

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Edmundo Siqueira

    [email protected]