Voltou segurando o fragmento com certo orgulho — não o orgulho vaidoso de quem exibe uma descoberta, mas o de quem sabe que uma ruína também é documento. A peça caiu de um prédio quase sempre subestimado pelos campistas. Construído entre os anos de 1909 e 1914, é sede da Sociedade Musical Lira de Apolo, uma das mais antigas instituições musicais da cidade, com origem em 1870.
O trabalho detalhado visto na fachada do prédio, como na peça que estava nas mãos de Humberto, forma um conjunto que os arquitetos chamam de “eclético”; uma maneira técnica e elegante de dizer que não há um estilo único, definido. O ecletismo da Lira é uma mistura de estilos históricos — como clássico, barroco e gótico — em uma única obra.
As bandas
Campos, como muitas cidades brasileiras, constituiu bandas civis, as chamadas sociedades de euterpe (deusa da música e da poesia lírica). Esses agrupamentos de músicos, que em geral tocam instrumentos de sopro e percussão, se constituíram como uma das únicas formas de acesso à música instrumental para as camadas mais populares.
A formação histórica dessas bandas sempre foi marcada por pessoas comuns da classe popular: “eram ex-escravos; trabalhadores livres e pobres das fazendas, usinas, olarias e do mundo do trabalho informal”, como cita a tese de doutorado de Karina Gomes, defendida na Uenf. A autora complementa: “no campo ou na cidade, esses músicos eram marginalizados, desprezados e sem voz na sociedade, em suas dimensões sociais e culturais”.
A formação dessas bandas populares vem do crescimento urbano. Com a corte portuguesa instalada no Rio de Janeiro e o dinheiro farto da cana-de-açúcar, a terra goytacá viu crescer a necessidade de uma vida social mais plena. Foi nesse cenário que começaram a ser erguidos os teatros em Campos, como o Theatro Campista, ainda em 1832, e o emblemático Cine Teatro Trianon, nos anos 1920.
Campos se consolidava como uma cidade de artes e cultura. Embora focada em uma visão eurocentrista, houve movimentos orgânicos na cidade, essencialmente ligados às classes populares. Os elegantes teatros campistas recebiam companhias musicais nacionais e estrangeiras para uma elite ávida em viver como se vivia na capital.
A Lira de Apolo
Ainda segundo Karina, a Lira de Apolo foi fundada por gente da classe trabalhadora que tinha participação na campanha abolicionista: eram lavradores, marceneiros, charuteiros, pedreiros, um oficleidista (Lourenço Soares), um consertador de pianos (Manoel Bento) e o funileiro Bernardo Bento Alves — “oficleidista” era o músico que executava o oficleide, instrumento da família dos metais.
O histórico da Lira de Apolo chama atenção para esse funileiro que deu força e adesão ao movimento antiescravagista, colaborando para que a cidade de Campos se tornasse o palco da luta abolicionista. A euterpe campista tocou inúmeras vezes para as conferências abolicionistas, onde Carlos de Lacerda e José do Patrocínio faziam apelos às senhoras da plateia para que fundassem um clube abolicionista feminino, que mais tarde ficou conhecido como “Clube Abolicionista José do Patrocínio”.
A Lira já esteve sob a batuta dos maestros Manoel Baptista de Castro, Lourenço Antônio Soares, José Ferraz, Joaquim Barboza Fiuza, Juca Chagas, Álvaro de Andrade Reis, Etienne Samary e Ricardo de Azevedo, este o atual regente.
O maestro Ricardo conta que começou na Lira de Apolo como estudante e aprendiz, limpando instrumentos e encerando o salão do prédio. Chegou a tocar trompa na banda do Corpo de Bombeiros de Niterói, então capital do estado do Rio de Janeiro, ficando no instrumento por “toda a vida”.
Após o incêndio, uma longa luta comunitária para recuperar, reconstruir e restaurar o prédio, os sonhos, as memórias, os instrumentos e a identidade da banda foi travada, e liderada pelo maestro Ricardo conseguiu avançar bastante.
Há nela um desejo de permanência. As liras no alto, os ornamentos em alvenaria, as janelas altas e os telhados pontiagudos parecem compor uma partitura imóvel. Vista com pressa, é apenas mais um prédio antigo. Olhada com atenção, é um prédio rico em história e promessa.
O reconhecimento e o simbolismo do prédio da Lira levaram ao seu tombamento pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (Inepac), em 1982.
Segundo a página oficial da PNAB RJ, o recurso é destinado à elaboração do projeto executivo de restauro da sede, prédio tombado e parcialmente restaurado, para que continue abrigando ações culturais e aulas gratuitas de música.
O edital Reviver Memórias foi desenhado justamente para esse tipo de etapa. No ciclo em que a Lira foi contemplada, a seleção reuniu projetos voltados à história e ao patrimônio cultural do Estado do Rio, em parceria com o Inepac, divididos em categorias que incluíam obras em bens imóveis tombados, projetos executivos e restauro de bens móveis tombados. A Lira entrou na Categoria B, destinada à realização de projetos executivos de restauro, revitalização ou intervenção em bens culturais edificados tombados pelo Inepac.
Quicila Stefen, restauradora de arte sacra, e Michelini Braga, técnica em conservação e restauro, também estavam na conversa, e observavam o prédio com a atenção de quem está treinado a lidar com camadas. Prédios como a Lira mostram que por trás de uma pintura há outra pintura e por trás de uma pretensa sujeira pode haver uma escolha estética.
Humberto, Quicila e Michelini não pareciam tratar o prédio como um cadáver ilustre. Tratavam-no como uma instituição e construção ainda possíveis. A Lira é uma sobrevivente. Mesmo com todas as dificuldades, o prédio ainda conversa com a praça, e a banda ainda existe. A história ainda respira, mesmo quando a cidade passa apressada demais para ouvi-la.
A fachada, vista de baixo, guarda essa contradição. Em cima, ornamentos, torres, liras, curvas, promessa de elevação. Embaixo, lojas, letreiros, comércio, o barulho comum do centro. As fiações dos postes demonstram um dos grandes problemas dos patrimônios históricos de Campos, principalmente os centrais: a falta de visibilidade.
Por isso, o projeto atual é mais do que uma etapa técnica. Tenta devolver ao prédio não apenas estabilidade, mas leitura e tentativa de deixar o prédio e a própria banda Lira de Apolo visíveis e acessíveis.
No fim da conversa, a peça que Humberto havia buscado continuava ali, sobre a mesa, como uma espécie de prova. Não era grande. Não tinha a imponência da fachada inteira. Mas, de perto, parecia conter o prédio todo. Talvez seja isso que reste às cidades quando elas esquecem seus próprios símbolos: alguém precisa recolher do chão os fragmentos e dizer, antes que virem entulho, que aquilo ainda é história.
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