Pedido contra casas populares
Arnado Neto - Atualizado em 11/05/2019 16:58
Divulgação
A Câmara de São João da Barra ganhou destaque no noticiário regional na última semana com uma indicação verbal do vereador Gersinho (SD) que soou, no mínimo, como atípica. Ele pediu para que não fossem construídas casas populares em Mato Escuro, 5º distrito de SJB. Apesar de estranho, visto que país afora os requerimentos são no sentido contrário, ele tem base em um pedido popular, que vai ser oficializado junto ao Legislativo nesta semana. Um abaixo-assinado de moradores da localidade solicita que a área, há muitos anos planejada para receber um conjunto habitacional, tenha outra finalidade.
Na última terça, Gersinho disse que os moradores de Mato Escuro preferem que sejam construídas uma área de lazer ou hortas comunitárias no local. “Eles têm pedido para que não seja feita, de forma alguma, as casas populares. Eles não aceitam por causa dos exemplos que a gente tem hoje das construções de casas populares. Você vai em Roças Velhas, a gente sabe o que acontece, no Açu, no município de Campos, as casas populares viraram favelas”, disse o vereador, que é da base do governo Carla Machado (PP).
Mas o pedido não pode ser encarado como de viés governista. Da bancada de oposição, Franquis Areas (PR) endossou: “Realmente as pessoas que nos procuram estão com medo de que com a construção das casas populares aconteça também o crescimento da criminalidade”.
Os dois parlamentares salientaram que o desejo é da própria população. E, ao que tudo indica, eles têm razão. Morador de Mato Escuro desde que nasceu, o técnico em edificações Gerson Santos, de 26 anos, afirmou que para a população vai formalizar o pedido na Câmara. “A gente fez um abaixo-assinado, um pedido da própria população. Estamos fechando ainda para entregarmos à Câmara na terça-feira (14). Como divulgamos em grupos de WhatsApp, vazou a informação e os vereadores adiantaram o assunto. Temos entre 250 e 300 assinaturas”, contou Gerson, acrescentando o desejo dos moradores para a área:
— A construção dessas casas populares não vai atender os moradores de Mato Escuro, porque não tem pessoas que precisam. O desejo da comunidade é que esta área - que já tem um campo de futebol, uma academia, que na verdade tem só o esqueleto e tiraram os aparelhos antes de inaugurar, tem uma creche, local para hospital - seja de lazer, voltada mais para a terceira idade, prédios de órgãos da Agricultura, já que a região tem muita ligação com este setor.
Alguns modelos que não deram certo
O receio do grupo de moradores de Mato Escuro é que a construção das casas populares traga pessoas de outras localidades ou, até mesmo, invasores antes da conclusão e aumente os casos de violência. A apreensão, para eles, tem como base os conjuntos habitacionais de Campos e também construções em SJB, como no caso do Açu e Barcelos.
— A gente sabe que empreendimentos como esse aumentaram a violência em muitas localidades. O mais próximo que temos aqui é o Açu. Foram só 30 casas, mas a experiência não é legal. Há relatos de boca de fumo, barricadas, você já tem que andar com farol baixo, já teve assassinato. As casas populares planejadas em Mato Escuro ficam atrás das ruas de acesso à localidade, a gente teme que no futuro possam inclusive impedir nossa passagem, até para chegar na creche, por exemplo — contou Gerson.
Além do caso do Açu, que foi concluído e entregue, outro conjunto habitacional em SJB, o de Barcelos, acabou sendo alvo de invasores antes da conclusão. Segundo moradores da localidade, troca de tiros já foram registradas e não há sinalização de medidas da Prefeitura para regularizar a situação. A Folha questionou a administração municipal, por e-mail, mas não teve resposta até o fechamento da edição.
Para o morador de Mato Escuro que faz parte do movimento contra as casas populares, existe também o receio de que aconteça lá o mesmo de Barcelos. “Nosso medo é que comece, não conclua e as pessoas, até mesmo de fora, acabem invadindo”, disse.
Promessa está no plano do atual governo
Eleita em 2016 para seu terceiro mandato e com ampla vantagem de votos, a prefeita Carla Machado chegou a prometer durante campanha, constando inclusive em seu plano de governo, a construção das casas populares previstas para o Mato Escuro. Na última semana, ela esteve cumprindo agenda com o governador Wilson Witzel (PSC), no Rio de Janeiro, e depois seguiu para Brasília.
Até mesmo por ter ficado boa parte da semana fora do município, Carla ainda não se manifestou sobre o pedido dos vereadores para a não construção do conjunto habitacional. Segundo Gerson, a área está preparada há muito tempo. “Essa obra já tem, digamos assim, a base pronta. As ruas, fez uma escola e a área destinada as casas. Este é um assunto que já se fala há sete, oito anos. Só que sempre ficou na promessa”, disse.
A Prefeitura de São João da Barra foi questionada, por e-mail, sobre o conjunto habitacional de Mato Escuro, o de Barcelos, a perspectiva de novas casas populares, como prometido em campanha pela prefeita, mas não houve resposta até o fechamento desta edição.

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