O último socialista
Arthur Soffiati
Estado de Bem Estar? O que é isso? Nós, liberais, promovemos tudo o que vocês, socialistas remanescentes, pleitearam. Vocês não defendiam direito ao aborto, a descriminalização de drogas, o direito de orientação sexual, de igualdade entre homens e mulheres, entre brancos e outras raças? Pois é, hoje o aborto está legalizado. Existem clínicas e médicos especializados, os abortistas, assim como os cardiologistas. As drogas estão liberadas, da mais branda a mais pesada. Hoje, a pessoa pode ser o que quiser. Homo, hétero, trans, tudo. Gerando dinheiro, tudo é permitido.
O liberalismo finalmente triunfou. Aquele descendente de japa, qual era o nome dele? Isso. Francis Fukuyama. Ele devia proclamar o fim da história hoje. Tudo está privatizado. O Estado é apenas um simulacro. Atendemos também aos pós-modernos. Michel Foucault, se não me engano, também defendia o liberalismo anarquista no fim da vida. Gente boa. Forças armadas e polícias são empregados de empresas. Elas consomem armas fabricadas por empresas. Violência? Ordem pública? Tudo balela. As forças armadas e as polícias podem matar à vontade. Elas consomem armas, munições e treinamento. Bandido morto gera renda para funerárias e cemitérios, tudo da iniciativa privada. Bandidos que matam soldados e policiais também geram lucro.
Enfim, chegamos à sociedade perfeita. Enfim o admirável mundo novo. Presídios? Ora, acabamos com as crises do sistema prisional. Ele também não passa de um simulacro. Não temos mais superlotação dos presídios. A maioria dos bandidos está nos cemitérios. Os presídios foram privatizados. Hoje são verdadeiros hotéis. Todos geram lucro. O PIB vai de bom a melhor.
Leis? Sim, elas existem exatamente para serem transgredidas. O povo pensa que advogados, promotores e juízes estão aí para fazer justiça. Tudo farsa. Aliás, a farsa é antiga. Observe bem, hoje o Estado mínimo e mentiroso não tem mais deveres sociais. A saúde foi toda privatizada. Democratizamos o acesso ao serviço de saúde. Todos têm planos de saúde. Não funcionam? A finalidade é essa mesma. Não somos movidos por princípios éticos, mas por interesses econômicos. Hoje, a medicina prolonga a vida humana porque os velhos dão dinheiro. Eles tomam remédios, praticam exercícios físicos, frequentam clubes de terceira idade, são internados, fazem fisioterapia. Tudo pago. Se não podem pagar, morrem. Nesse estado – de mortos – também geram dinheiro.
O direito à casa própria também está garantido. Mas não é mais o governo que cuida disso. São as empreiteiras. Injustiça da sua parte dizer que promovemos a pobreza e a doença. O sistema de saúde privado está aí pra quem pode se beneficiar dele. Aqueles que não podem se dão mal. Deixemos de pieguice. No mundo sempre houve ricos e pobres. Nosso interesse é que as pessoas aumentem sua renda individual e familiar. Assim, é mais gente consumindo. Mas não dá pra ser perfeito. Mesmo assim, acho que vivemos no melhor dos mundos. Alguém já disse isso, não lembro quem. Um personagem de Voltaire? Obrigado pela informação, mas não importa. Esse cara faz parte da pré-história.
Nunca se produziu tanto alimento como hoje. Destruição da natureza? Alimentos contaminados? Vamos ver se você aprendeu matemática. Quanto é 10-10? Zero? Errou. Dá 20. Dez pra destruir e dez pra consertar. Mudamos o clima, poluímos os oceanos, as águas dos rios, o solo. Desmatamos, extinguimos espécies. Tudo isso gera riqueza. Depois despoluímos, reflorestamos e recriamos espécies extintas graças aos avanços da genética. Tudo isso também gera lucro. Saneamento básico? Tudo resolvido. Não por razões éticas, mas por geração de dinheiro. Veja as religiões. Elas defenderam princípios éticos num contexto que a ética podia existir verdadeiramente. Agora não pode. Elas se renderam ao lucro. Abraão, Buda, Jesus, Maomé propuseram caminhos éticos para a salvação da alma ou coisa que o valha. Hoje, não dá mais. Todas as religiões estão vendendo ilusões.
Enfim, rapaz, não quero convencê-lo de nada. Você é uma andorinha apenas. Você não faz verão. Então, vamos encerrar esse papo. Vai ao shopping hoje?
