O primeiro emprego do Homem-Aranha
11/07/2017 | 09h42
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 11 de julho de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Homem-Aranha: de volta ao lar
O primeiro emprego do Homem-Aranha
Edgar Vianna de Andrade
 
Muito dinheiro, grande elenco, tecnologia altamente sofisticada. Estes os fatores exigidos por uma superprodução cinematográfica dos Estados Unidos. Entre arte e entretenimento, o poderoso país da América do Norte optou pelo segundo, o que não significa em absoluto que filmes de arte não sejam produzidos lá. Mas o entretenimento vence. Para tanto, não se exige diretor experiente e esteta. Imprescindíveis são um roteiro claro, alta tecnologia e grande equipe.
Em Campos, estão em cartaz duas superproduções cinematográficas: “Mulher Maravilha” e “Homem-Aranha: de volta ao lar”. O primeiro enfoca uma heroína da DC Comics, integrante da primeira geração de super-heróis. Seu estilo tende para o épico dramático. Já Homem-Aranha, membro da geração de heróis da Marvel, em sua nova versão, enquadra-se numa ação cômica. A direção coube a Jon Watts, que não conta com uma filmografia expressiva. O que conta é o roteiro, que exigiu o concurso de cinco redatores: o próprio diretor, Chris McKenna, Erik Sommers, Jonathan Goldstein e John Francis Daley. E efeitos especiais, muitos efeitos especiais. Eles quase acabam dispensando a direção e quarquer toque de arte.
O Homem-Aranha, nesta versão, é ainda um adolescente. Os roteiristas nos pouparam de mostrar a origem do herói pela terceira vez. Fica pressuposto que ele, representado por Tom Holland, foi picado por uma aranha e ganhou poderes superespeciais endógenos. Ou seja, ele não é como o Homem de Ferro, cujos poderes decorrem da poderosa armadura. E a trama não traz nada de novo: um herói aprendiz de um lado lutando contra um vilão veterano de outro. Michael Keaton desempenha cada vez melhor seus personagens, sejam eles dramáticos ou cômicos. Como vilão, ele é um homem simples, que começou pobre e enriqueceu com muito trabalho e com uma vida criminosa. Com essa carreira invejável, típica de um mafioso dos Estados Unidos ou de um empresário brasileiro, ele se transformou no poderoso Abutre. Ele domina o filme.
Em segundo lugar, está Robert Downey Jr. No papel do Homem de Ferro, ele contrasta com Abutre. É um cientista rico, vaidoso e empresário de muito sucesso. O adolescente Aranha faz estágio na empresa do Homem de Ferro. Ele quer mostrar aos adultos seus dotes. Nesse esforço, ele comete muitos erros. Desastrado, ele faz muitos estragos em suas boas ações. Vez por outra, ele precisa ser socorrido pelo Homem de Ferro. O ambiente frequentado pelo Aranha em seu estado normal está repleto de descendentes de polinésios, chineses, indianos e africanos. Pode ser uma advertência à direita do país, que vive numa saudosa procura de suas origens brancas. O amor de Peter Parker (verdadeira identidade do Aranha) é a mestiça Zendaya, no papel de Michelle.
Agora, Homem-Aranha adquire poderes novos, conferidos por seu novo macacão produzido nas empresas do Homem de Ferro. Mas o que confere caráter singular ao filme é a mensagem do Capitão América no final do filme, depois de quase 15 minutos de créditos. Com esta mensagem, o filme adquire o caráter de metalinguagem. O nerd do Capitão América reclama da incompetência do Homem Aranha e anuncia que outros filmes desastrados dele virão. Enfim, fica o não dito pelo dito: a mensagem nos diz que tudo não passa de ficção, que tudo foi inventado.
Compartilhe
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (IX)
09/07/2017 | 10h35
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 09 de julho de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (IX)
Arthur Soffiati
Viu-se, no artigo anterior desta série, como os jesuítas desempenharam fundamental papel de serviço público ao manterem limpos os canais naturais da baixada de Campos. Viu-se também como esse serviço ficou a cargo eventual de cada proprietário rural depois que a Ordem dos Jesuítas foi expulsa do império colonial português, em 1759. Vimos também os comentários do capitão cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis sobre a importância dos jesuítas na limpeza dos canais, muito embora ele não simpatizasse com os jesuítas. Couto Reis instava que as câmaras municipais exigissem dos proprietários tal desobstrução ou que elas próprias empreendessem esta limpeza. Couto Reis é um ilustrado, embora sem muita consciência disso.
Antes de ingressarmos no século XIX, detenhamo-nos um pouco mais nas considerações de Couto Reis. Ainda tratando da barra do córrego Furado, ele observa que, “se aquelas águas de tantos córregos e rios tivessem mais expedição, quero dizer, não corressem coadas ou não sofressem o embaraço dos preditos vegetais, parece natural que fosse mais acelerado o seu movimento e mais avultados os volumes expedidos: logo, também, teriam mais peso e consequentemente se multiplicariam suas forças e velocidades. Nestes termos, é fácil de persuadir que, aumentada a força da correnteza das águas na barra, não só se esgotariam mais depressa, como também resistiriam por mais dias os impulsos do mar agitado pelos ventos contrário para não se tapar.”
Continuando, ele registra com acerto: “Além desta barra do Furado, abrem outra no Iguaçu quando entendem ser necessário, o que conseguem com muita facilidade (...) a meu parecer julgo que discorre aquele rio (Iguaçu) por um plano inferior a todos os mais, tanto assim que, estando a barra do Furado tapada, todas as águas pendem para ele.” Algumas observações se impõem. Primeira: a barra do Furado ficaria mais tempo aberta se houvesse mais volume de água doce acumulada a escoar para o mar. Segunda: o grande volume de água doce enfrentaria o mar por mais tempo. Terceira: a barra do Açu, segundo ele, funcionava como escoadouro auxiliar ao Furado.
A informação de Couto Reis quanto à periodicidade da abertura da barra do Iguaçu é contraditada por vários autores. Tomarei apenas o testemunho de Alberto Ribeiro Lamego, talvez o maior conhecedor da região: “Parte dessas águas [da lagoa Feia] junta-se às do Paraíba nos velhos braços do primitivo delta que sulcam a planície da Boa Vista, formando os rios Carapebas, do Viegas, do Furado, Bragança, Quebra-Cangalhas e o córrego da Tapagem (...) Com exceção do Carapebas que se dirige para a barra do Furado, o caminho natural dessa rede labiríntica era o rio Açu (Iguaçu) que também recebe na margem esquerda o rio Novo e vai buscar uma saída para o mar, num tortuoso curso entre restingas (Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé. Boletim nº 154. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da Produção Mineral/Divisão de Geologia e Mineralogia, 1955). De acordo com este autor, a barra ficava permanentemente aberta. Couto Reis também não se refere à barra Velha, na lagoa do Lagamar, que abria para o mar naturalmente com a força de águas de cheias. Devemos desculpar o cartógrafo. Ele passou dois anos no Distrito de Campos dos Goytacazes, cuja área corresponde hoje ao que denominamos norte-noroeste fluminense. Para conhecer profundamente esta complexa região, é preciso mais tempo.
Dentre os defluentes que partiam do Paraíba do Sul em direção ao Iguaçu estava o córrego Grande ou do Cula. Relata Couto Reis que os jesuítas pretendiam adaptá-lo à navegação e ao escoamento de águas de cheia em direção ao Paraíba do Sul, mas que o povo se opôs ao projeto, temendo que uma abertura permanente dele junto ao Paraíba do Sul inundaria a vila de Campos durante as cheias. Couto Reis informa que sua ligação com o grande rio foi tapada pelos moradores. O cartógrafo pondera que os jesuítas devem ter feito estudos detalhados para tal proposição, e os apoia quanto à abertura para a navegação e para o escoamento de águas de cheia.
Couto Reis procurou o projeto dos jesuítas na Câmara Municipal, que o rejeitou, e não o encontrou. Ele pergunta por que os jesuítas executariam uma obra que, a acreditar no povo da vila, alagaria as terras da própria ordem religiosa. Além do mais, ele pergunta por que a Lagoa Feia não provoca tamanha inundação. Por experiência, o povo percebia que o terreno da margem direita do Paraíba do Sul é mais baixo que o nível de transbordamento deste rio e que, uma vez extravasadas, corriam para a interligada bacia do Iguaçu pelos defluentes. O próprio Couto Reis reconheceu que “discorre aquele rio (Paraíba do Sul) por um plano inferior a todos os mais...”
Enfim, o povo de Campos estava certo. Os jesuítas e Couto Reis estavam errados. Pesquisadores do futuro iriam dar razão aos primeiros e desacreditar os segundos e o terceiro.
Compartilhe
Sete décadas
02/07/2017 | 10h47
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 02 de julho de 2017
Sete décadas
Arthur Soffiati
Já vivi setenta anos dentro do atual processo de globalização, que estimo em 600 anos. Portanto, vivi mais de 10% desse tempo, embora não pareça. Nasci em 1947, dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Há setenta anos, atravesso a era nuclear e eletrônica da globalização. No ano do meu nascimento, Gandhi promoveu a independência da Índia, pretendendo para ela um retorno a um tempo pré-ocidental para o país. Perdeu. Com todos os problemas sociais que o país enfrenta, a Índia é um país nuclear em ascensão econômica. Em 1947 também, a Inglaterra dividiu a Palestina em duas áreas: 56% para os judeus e 44% para os palestinos. No ano seguinte, os judeus proclamariam unilateralmente a criação do Estado de Israel, originando a profunda injustiça que perdura ainda hoje na região. Foi também proclamada a Doutrina Truman, que inicia a guerra fria, e foi criado o Fundo Monetário Internacional. Ano rico em problemas futuros.
Dez anos depois, minha família estava de volta ao Rio de Janeiro. Depois de um ano morando no Cosme Velho, meu pai se transferiu para Padre Miguel, a fim de ficar mais perto da unidade militar em que servia. Com dez anos de idade, eu ainda não acompanhava o que acontecia no Brasil e no mundo. Mais tarde, aprendi que a União Europeia começou em 1957, com o Tratado de Roma. Lembro apenas que eu cursava, com muito atraso, o segundo ano primário, numa escola de cujo nome não lembro. Apenas lembro que ela ficava numa rua sem calçamento muito enlameada quando chovia. Lembro ainda de uma porca com uma ninhada de filhotes formando um semicírculo para enfrentar um cachorro, ao lado de um bambuzal.
Vinte anos mais tarde, meus pais foram morar em São Fidélis. Passei a residir com minha avó materna e um primo em Copacabana quase Ipanema. Rua Bulhões de Carvalho, edifício Santa Basilissa. Depois de duas tentativas frustradas, prestei serviço militar no 8° Grupo de Artilharia de Costa Motorizado, no Leblon. Hoje, ele não mais existe. Aos finais de semana, eu ia ao Arpoador. Num dia, ao voltar da praia e ensaiar um banho de chuveiro, meu primo pôs para rodar um disco recém-saído. Tratava-se de “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Às primeiras notas, deixei o banheiro e fui me deliciar com as músicas. De imediato, pressenti que aquele disco marcaria época. Em 1967, foi deflagrada também a Guerra dos Seis Dias, entre Israel e países árabes. A injustiça se agravou.
Trinta anos depois de nascer, eu estava já estava morando em Campos, de onde nunca mais saí. Eu já havia casado e tinha um filho. Minha mente estava confusa. Eu era um dentre muitos perturbados pela globalização. Por mais que eu lesse e me esforçasse para compreender o meu tempo, meus esforços eram baldados. Mas, nesse ano, comecei a me encontrar ao participar da fundação do Centro Norte Fluminense para Conservação da Natureza, ONG que marcou época na luta em defesa do ambiente e dos pescadores. Poucos entendiam o movimento, mas eu me descobria no ativismo e no estudo. Esse ano representou um divisor de águas na minha vida. Deixei de ser um mero professor que via o mundo de sua sala para sair às ruas e ao campo.
Aos quarenta anos, eu era professor da Universidade Federal Fluminense e continuava meu ativismo ecologista. As pressões internas para que eu cursasse pós-graduação aumentavam. Ingressei no mestrado da Universidade Federal do Rio de Janeiro com uma proposta muito estranha aos professores. Eu queria abordar o norte-noroeste fluminense pela ótica da história ambiental, eco-história como a denomino. Era uma proposta atrevida para pesquisadores que não viam nada além das sociedades humanas. Tive dificuldades, mas concluí o mestrado em 1996. Logo em seguida, ingressei no doutorado da mesma instituição com a mesma proposta. Agora, eu tinha mais confiança em mim, mas a dificuldades aumentaram. Concluí o doutorado com 54 anos.
De volta ao meu cotidiano em Campos, dividi meu tempo entre aulas, pesquisas e ativismo. Por mais que eu me dedicasse a estudar a história do mundo e da região em que vivo, confesso que minha compreensão era pequena. Sempre que eu entendia ter descoberto a chave de ambos os enigmas, eis que eles me atiravam ao chão novamente. Mas me ergui sempre e agradeci os tombos. Eles me ensinavam a penetrar nas frinchas da realidade. Assim, aos 60 anos, eu estava às voltas com a grande enchente de 2007, logo depois seguida pela enchente de 2008. Trabalhei ativamente junto ao Ministério Público, entendendo que ele era meu melhor aliado. De fato, em 2008, tive a oportunidade de participar ativamente da detonação dos diques de invasão da lagoa Feia.
Hoje, em 2017, aos 70 anos, começo a entender o mundo e a região melhor que antes. Sei que aprenderia muito mais se vivesse mais 50 anos com vigor físico e lucidez. Mas a natureza é ingrata. Estou mais perto da morte que do nascimento. Dos 17 aos 40 anos, tive medo de viver. Agora, tenho medo de morrer. Talvez mais pena do que medo.
Compartilhe
A modernidade e a pornografia
30/06/2017 | 09h46
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 30 de junho de 2017
A modernidade e a pornografia
Aparício Torres
 
Nudez não é sinônimo de pornografia. Nas sociedades paleolíticas, a nudez feminina e masculina era comum e cultuada como símbolo da fertilidade. Haja vista as Vênus do paleolítico superior europeu. As figuras femininas são representadas com excessivo realismo, sem poupar aquilo que as mulheres atuais abominam: celulite, culote, estrias, seios flácidos. As figuras masculinas, por sua vez, ostentam com tranquilidade pênis livres. Nas culturas neolíticas e nas civilizações pré-europeias também não se conhece o que denominamos de pornografia. Bem ao contrário, a vida sexual era tratada com normalidade e dela participavam todos: adultos, crianças e idosos. Não ativamente. Às crianças, porém, não havia mistérios sobre sexualidade e reprodução. Livros como “Kama Sutra” não tinham por fim ensinar posições pornográficas, mas buscar espiritualidade mediante a vida sexual.
Entre os egípcios, cretenses, chineses, japoneses, gregos, etruscos, romanos, andinos e astecas, nudez, seios, vaginas e pênis tanto quanto atos sexuais eram entendidos como parte natural do corpo humano e como atividades comuns. Quando e onde, afinal, criou-se a pornografia, ou seja, imagens e palavras com vistas à excitação sexual? Lynn Hunt, um especialista no assunto, sustenta que foi no século XVI, na Europa Ocidental. A conclusão está em “Obscenidade e as origens da modernidade”. (HUNT, Lynn (org.) “A invenção da pornografia”. São Paulo: Hedra, 1999).
O primeiro autor a escrever um livro claramente classificado como pornográfico teria sido Pietro Aretino (Itália, 1492-1556) com "Diálogo das prostitutas". Num contexto cristão, pornografia vincula-se à subversão política e religiosa. Melhor dizendo, ela assume um significado dúbio. Por um lado, ela contesta a cultura vigente, perseguida e jogada nos porões. Por outro lado, ela é vista por certos intelectuais como forma de libertação.
Ainda Hunt com a palavra: “Embora o desejo, a sensualidade, o erotismo e até a representação explícita dos órgãos sexuais possam ser encontrados em muitos, senão em todos os tempos e lugares, a pornografia como categoria legal e artística parece ser um conceito tipicamente ocidental, com cronologia e geografia particulares.” Ela está “Vinculada ao livre-pensamento e à heresia, à ciência, à filosofia natural e aos ataques à autoridade política absolutista, ressalta especialmente as diferenças de gênero que se desenvolviam na cultura da modernidade.”
A pornografia está associada a uma economia de mercado, sobretudo em sua forma impressa. Ela foi e ainda é um produto feito por homens para homens. Eles podem escrever obras de pornografia com pseudônimo até as atribuindo a mulheres. Até hoje, a mulher é representada na pornografia como tendo a lascívia e a luxúria masculinas. Ainda hoje, atribui-se à mulher uma sexualidade que lhe é estranha. Por exemplo, uma mulher se relacionando com vários homens ao mesmo tempo. De fato, tal imagem escrita, desenhada ou fotografada expressa o que os homens desejam das mulheres, não o que desejam as próprias mulheres. A pornografia é um campo em que o machismo ainda predomina.
Em toda a primeira fase da Modernidade, do século XV ao XVIII, “Os homens respeitáveis não mantinham em suas bibliotecas obras consideradas ‘muito lascivas’, embora frequentemente as procurassem para os seus prazeres privados.” (Hunt). Apenas autores declaradamente contestadores, como o Marquês de Sade, por exemplo, assumiam o prazer com a pornografia. Trata-se de um autor icônico. Ele associa Eros a Tanatos em seus escritos. No livro “Os 120 dias de Sodoma”, ele aproxima o prazer sexual, que depende do corpo, à extinção desse corpo. Pasolini associou esse impulso ao fascismo.
Os intelectuais progressistas costumam defender a pornografia, mas hesitam diante de certos excessos, como a urolagnia, a coprolagnia e a violência. O estupro está intimamente ligado à pornografia clássica, mas hoje é condenada. Normalidade ou anomalia? Aceitar ou repudiar? A sexualidade ainda anda sobre o fio de uma navalha no ocidente.
No final do século XIX e no século XX, proliferaram os livros de pornografia. Um bastante conhecido é “A vênus de quinze anos” (São Paulo: Hedra, 2014), de Charles Swinburne, narrando as aventuras sexuais de uma ninfeta. Embora redigido por um famoso escritor, o livro apela para sensações fáceis. Idem com “Tudo que eu pensei mas não falei na noite passada” (São Paulo: Hedra, 2014), de Anna P. A autora tanto pode ser uma homem como uma mulher. Pornografia vende.
No Brasil, Carlos Zéfiro, pseudônimo de Alcides Aguiar Caminha, modesto funcionário público morto em 1992, marcou época. Ele fez desenhos com fins nitidamente pornográficos entre as décadas de 1950 e 1970. Esses desenhos figuravam em revistinhas vendidas sigilosamente em bancas de jornal porque eram proibidas e podiam gerar prisão para os vendedores. Apenas pessoas da confiança dos donos de bancas podiam comprá-las. Essas pessoas repassavam as revistas aos amigos. Sua função era ajudar adolescentes a alcançar mais prazer nas masturbações. Não me consta que fossem lidas por moças. Os desenhos eram meio grotescos, mas funcionavam. Perto de morrer, a identidade de Zéfiro foi revelada. Hoje, suas histórias são objeto de estudo de antropólogos e artistas plásticos. Marisa Monte usou desenhos dele no encarte do cd “Barulinho bom – uma viagem musical”. Enfim, Zéfiro se tornou cult. Hoje, é livremente vendido em livrarias de alto nível.
Ainda no Brasil, autores como Glauco Mattoso (e seu fetiche por pés masculinos), Reinaldo Moraes e Hilda Hilst flertam ou assumem claramente um viés pornográfico em sua poesia e prosa. Da literatura, a pornografia saltou para as artes da imagem. No século XVIII europeu, proliferaram desenhos pornográficos. Desenhos sequenciados deram origem às histórias em quadrinho e às animações. Robert Crumb, Milo Manara e Giovanna Casotto retratam o erotismo em primorosos quadrinhos. Casotto é de grande explicitude em seus desenhos altamente estéticos.
Com a invenção da máquina fotográfica, a imagem captada da realidade permitiu fotos de pornografia. Colocadas em sequência, tais fotos deram origem à fotonovela e ao cinema. Já nos primórdios do cinema, as casas de prostituição eram animadas com filmes pornôs. Uma coletânea deles nos anos de 1920 pode ser vista no DVD “Vintage erotique” (Magnus Opus, 2010). Atualmente, produtos pornográficos não estão cercados da aura de proibição. Qualquer adolescente pode ter acesso a desenhos, fotos, quadrinhos, animações e filmes pornográficos na Internet.
Compartilhe
O Círculo
27/06/2017 | 09h55
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 27 de junho de 2017
(DOIS MATEUSINHOS)
O Círculo
Já existia, existe e existirá
Edgar Vianna de Andrade
 
Não li o livro de Dave Eggers que originou o filme “O círculo”, para verificar se ele apresenta as três incongruências que notei no roteiro de James Ponsoldt, também diretor do filme. A primeira é insular uma empresa de informação num oceano em que a rede de comunicação entre as pessoas parece virgem ou quase virgem. Elas usam celulares e computadores como se fossem simples aparelhos inofensivos. Então, a poderosa empresa “Círculo” aparece como um corpo estranho e pioneiro na extinção da privacidade entre as pessoas. Não há mais privacidade em todo o planeta. Todas as pessoas que se valem de aparelhos eletrônicos estão sujeitas à vigilância por meio de satélites artificiais e de drones. Nesse sentido, o filme “Snowden: herói ou traidor”, de Oliver Stone, é mais fiel à realidade atual. Não só empresas estão na vida de cada indivíduo do planeta, mas também os governos, sobretudo estes. E cada pessoa colabora com os espiões ao usar aparelhos eletrônicos.
A segunda incongruência fica por conta da carreira de Mae Holland (Emma Watson) no filme. Ela é uma simples estagiária de uma companhia pública que foi convidada por uma amiga a trabalhar no Círculo. O que está bem retratado é o caráter religioso da empresa, como acontece com muitas atualmente. Quem faz parte do Círculo é feliz. Seu mais importante gerente, Eamon Bailey (Tom Hanks) faz pregações aos funcionários com suas piadas infames. Seu assessor mais direto é Tom Stenton (Patton Oswalt), um verdadeiro missionário religioso. Nesse ambiente de espertalhões, semelhante ao mundo político brasileiro, a novata Mae ascende rapidamente a uma posição proeminente. Coisa dos Estados Unidos, que gosta de heróis individualistas, de pessoas que se fazem pelos seus talentos individuais.
A mesma Mae, que representa sangue novo na empresa, propondo que todos os habitantes da Terra sejam controlados pelo Círculo, descobre as falcatruas dos dois homens da cúpula e as expõe a todos. Ela salva o mundo, outra constante dos filmes de Hollywood. A humanidade, pois, deve ser eternamente grata àquela mocinha frágil, meio raquítica, que, quase sozinha, derrubou a mais poderosa empresa do mundo.
A realidade é que os métodos de espionagem empregados na Segunda Guerra Mundial e nos filmes do Agente 007 são primários perto daqueles desenvolvidos depois dos ataques às Torres Gêmeas de Nova Iorque. Bons tempos em que a espionagem era uma arte. Hoje, ela é exercida nos gabinetes governamentais por medíocres funcionários. Ela pode também ser terceirizada monotonamente e ser desenvolvida por empresas.
A semelhança do filme com a distopia “1984”, de George Orwell, é notória, com uma diferença. Orwell via um futuro dominado por um Estado totalitário que a todos vigiava. Era o Grande Irmão. Em “O círculo”, a empresa assuma, ou tenta assumir, o lugar do Estado e implantar uma democracia ditatorial, se esses dois conceitos não resultam numa contradição “in terminis”.
Do ponto de vista estético, “O círculo” é apenas mais um filme de ficção científica.
Compartilhe
Relações promíscuas
25/06/2017 | 10h23
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 25 de junho de 2017
Relações promíscuas
Arthur Soffiati
 
Não é de hoje que existe relação promíscua entre economia e política. Não tenho partido político nem ídolos de pés de barro. Além do mais, não costumo perder a floresta de vista por conta de uma árvore. Vejo o mundo de longe e no longo tempo. Quem vê a realidade de perto e no curto prazo fica chocado com as revelações de corrupção no Brasil. Parece algo inédito. Joesley Batista declara que Lula institucionalizou a corrupção no Brasil e que Temer é o chefe da quadrilha. Examinando a trajetória da economia de mercado nos últimos 600 anos, afianço que Batista também chefia uma quadrilha.
Numa economia de mercado, o empresário não vive sem o político e vice-versa. Estou na reta final da vida e não vejo luz no fim do túnel. A expansão da Europa no século XV foi impulsionada pelos Estados nascentes e pelos comerciantes. A relação entre ambos já era promíscua, não na intensidade de hoje porque Estado e empresários ainda estavam nos seus primórdios.
A escravidão africana e a servidão indígena foram um grande negócio para os Estados europeus e para comerciantes. O Estado criava condições para tanto e os comerciantes se valiam dela. Até Chica da Silva, uma negra alforriada, teve escravos. Quando o trabalho assalariado se generalizou, a escravidão deixou de ser lucrativa. Então, os Estados Europeus passaram a combatê-la. Os comerciantes não queriam concorrência e os Estados se colocaram a seu serviço. A política econômica do mercantilismo dava aos Estados o controle da economia. Os empresários eram beneficiados e estimulavam os governos a mover guerras contra outros Estados para dominar o mercado.
Depois da Revolução Industrial do século XVIII, o poder dos empresários aumentou. Sua influência sobre os Estados nacionais se ampliou. Políticos e empresários se completavam numa relação espúria. A abertura dos portos brasileiros às nações amigas resultou de pressões do governo britânico sobre a monarquia portuguesa para beneficiar comerciantes ingleses. O mesmo é válido para os tratados de comércio e navegação de 1810. A própria transferência da família real portuguesa foi determinada pelo governo e comerciantes ingleses.
No século XIX, comerciantes ingleses humilharam a China. Eles vendiam ópio aos chineses e criavam viciados. Quando o governo imperial da China proibiu esse comércio, o governo britânico declarou duas guerras ao grande império, atendendo a interesses comerciais. Foi assim também na Índia. Quando os soldados indianos (sipaios) que serviam no exército britânico se rebelaram pelos maus tratos, o tratamento dado a eles foi o massacre, aplaudido pelo próprio Marx.
Aliás, nem mesmo os países que romperam com o capitalismo mediante revoluções inspiradas no marxismo conseguiram erradicar as relações promíscuas entre política e economia. Elas desembocaram numa Rússia e numa China capitalistas. A experiência com burocratas nomeados para empresas estatais não deu certo.
Fico impressionado com declarações do tipo “esta é a maior crise política vivida pelo Brasil”, feitas até mesmo por historiadores que repercutem suas frívolas e parciais opiniões nos meios de comunicação. Trata-se de puro presentismo. Olhando para o passado, pode-se concluir que a mais longa crise vivida pelo Brasil estendeu-se por quase 20 anos. A independência, proclamada em 1822, não separou de forma convincente o Brasil de Portugal. D. Pedro I continuava muito interessado na vida política de Portugal. Ele acabou abdicando em nome do seu filho menor por pressão interna e partiu para sua pátria. De 1831 a 1840, o Brasil mergulhou em verdadeiro caos econômico e político. As forças rurais conservadoras e movimentos centrífugos de natureza liberal abriram fogo contra o governo interino que reinava o país durante a menoridade de D. Pedro II. Parecia que o Brasil ia se esfacelar em vários países, como a América espanhola. Mas a ferro e fogo, derramando muito sangue, o governo central triunfou.
Mas não foi só. A abolição da escravidão atendeu a produtores de café de São Paulo e descontentou cafeicultores fluminenses. Se houve algum sentido humanitário na abolição, ele ficou no nível do pessoal, não do coletivo. E o que dizer do Convênio de Taubaté, assinado em 1906 para salvar os produtores de café no Brasil?
Trata-se de balela acreditar na separação de economia e política, como preconiza o neoliberalismo atualmente. O político pode até favorecer empresários, criando regras que permitam lucros maiores. Mas política e economia vêm mantendo uma relação promíscua por pelo menos 600 anos. Ilustremos com o complexo industrial-militar dos EUA. Ele se mantém por força política. Qual a saída? Sugiro um pouco mais de estudo, educação universal de qualidade e controle, sempre consciente de que a corrupção continuará como uma doença crônica.
Compartilhe
Literatura estrangeira (I)
23/06/2017 | 10h27
 
Primeiramente, Portugal. Não tudo o que foi publicado, mas o que consegui ler. Valter Hugo Mãe lançou “Homens imprudentemente poéticos” (São Paulo: Biblioteca Azul, 2016). O livro nasceu de uma residência literária nos Estados Unidos. Tem sido bastante comum este tipo de literatura nascida de projeto. De forma claudicante, Laurentino Gomes classifica o livro como o melhor romance de língua portuguesa de 2016. Não sei se eu faria a mesma avaliação. Só não me arrisco por não ter lido o suficiente e por não ter formação adequada.
Junto a uma floresta de suicidas, no Japão, o artesão Itaro e o oleiro Saburo alimentam um ódio antigo. No Japão, o suicídio era muito comum e ainda não tem o mesmo caráter que o ocidente lhe empresta. Incomum é um português ambientar um romance no Japão. A floresta fica no sopé do Monte Fuji, símbolo do país. Além dos muitos vestígios dos suicidas, o bosque é rico em animais. Mãe chama todos os animais de bichos, distinguindo aqueles que são predadores. Todo animal preda algo da natureza. Falta de intimidade do autor com o mundo natural.
Ao longo da leitura, gostei apenas do capítulo “A lenda do poço”, no qual percebi um autêntico espírito zen: “Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo, sentindo-lhe carinho”. Trata-se do maior capítulo do livro. Daria um conto. O cruel artesão, que odiava e matava animais, é colocado por um monge no fundo de um poço por sete dias e noites. Ele teme a presença de um animal a seu lado. Seu medo se transforma num animal imaginário e perigoso.
Por sua vez, o angolano radicado em Lisboa, Gonçalo M. Tavares, publicou “Animalescos” (Porto Alegre: Dublinense, 2016). Trata-se de um conjunto de textos que se ligam por um tema: a relação dos humanos com os animais. Suponho que se trata de revisitar a questão por um prisma irônico: “... tudo o que veio de Deus é para comer, nada na natureza está fora deste ciclo de apetite e estômago (...) a manada antiga dos humanos vê a natureza como o banquete disponível: certas ervas são boas para comer outras não, todos os animais são no limite para o dente da manada humana e nada está no mundo colocado pelos deuses que não pertença a este banquete tão antigo... é isso que o jesus dos animais deseja: obrigar homens a andar de quatro patas, homens que avancem como gazelas ou mesmo que rastejem para o céu não seja um assunto de dar saltos, ou de olhar para cima, mas de olhar em frente como é natural.” Mas falta ao autor a força da boa literatura.
Essa força eu encontrei em Antonio Tabuchi. O autor é italiano, viveu em Portugal e casou-se com uma portuguesa. “Réquiem: uma alucinação” é livro de 1991, agora publicado no Brasil (São Paulo: Cosac Naify, 2015). É exemplo de alta literatura. Tem trama e escrita fina. Mistura tragédia, comédia, drama, realidade e envereda pelo fantástico. Num último domingo de julho, o personagem central perambula por Lisboa, mantendo vários contatos surreais, inclusive com um morto. No posfácio, escreve: “uma história pode chegar de repente, quando menos se espera, e nas mais variadas circunstâncias. E se não tivermos à mão instrumento para agarrar, a história pode desaparecer com a mesma facilidade que veio.” Pequeno livro, grande literatura.
Da África de língua portuguesa, li Mia Couto. “Poemas escolhidos” - seleção do autor (São Paulo: Companhia das Letras, 2016) reúne poemas distribuídos em três livros. Couto não se revela um bom poeta. Ele é mais ficcionista. Certamente, é o mais conhecido autor africano. Seus poemas geralmente são curtos, com poucos versos. Ele se insere numa das duas linhas de poesia que reconheço na atualidade: a da poesia discursiva, com versos sem métrica e sem rima, e que se cruza com essa: a do eu poético na terceira pessoa do singular. Raramente, Couto consegue sair de si mesmo. Sabe-se que, por mais escondido que esteja o autor, sempre há um eu poético, mas Couto exagera em se colocar nos seus poemas. O livro é precedido por apresentação de José Castello repleta de elogios e de muitas palavras que nada significam. Couto busca o caminho do telúrico em seus poemas, assim como faz na sua prosa. Mas não alcança jamais o nível de telurismo de Manoel de Barros.
Como é muito comum na atualidade, o eu poético está muito manifesto em Mia Couto. Os povos pré-ocidentais ou ainda não contaminados pelo ocidente criaram literatura na forma de mito e de lenda. Eles desconhecem o individualismo. Mia Couto é um ocidental mergulhado num mundo que se ocidentaliza e perde sua identidade. Ele se vale de temas de Moçambique ou procura traduzir seu mundo para o ocidente. A África está deixando de ser África. Soa estranho o individualismo num mundo mágico. Mia Couto usa frases de efeito na forma de versos, tipo: “Quando sonhei ser pano/fui agulha./E morri no sono do gesto/de enrolar o fio. Em “Avesso bíblico”, ele escreve: “No início/já havia tudo.//Meu Deus era cego/e, perante tanto tudo/o que ele viu foi o Nada.//Deus tocou a água/e acreditou ter criado o oceano.//Tocou o chão/e pensou que a terra nascia sob seus pés.//E quando a si mesmo se tocou/ele se achou o centro do Universo./E se julgou divino.//Estava criado o Homem.” O poema talvez seja a chave para compreender o mundo a partir do antropocentrismo ocidental num universo ainda não totalmente antropocêntrico.
Dele li ainda “Na berma de nenhuma estrada e outros contos” (São Paulo: Companhia das Letras, 2016). Mia Couto traduz bem o espírito dividido da África atual, talvez sem a consciência dessa divisão. Parece inegável a influência de João Guimarães Rosa e de Manoel de Barros em sua obra. Rosa recria um mundo maravilhoso que não mais existe. Manoel de Barros é tragado pelo universo úmido do Pantanal Mato-grossense. Mia Couto recorre a paradoxos, a expressões regionais e inventa expressões. É preciso cuidado com um autor a quem se atribui criatividade.
Os relatos de Mia Couto, em conto ou romance, são sempre tristes, sofridos. A realidade também tem alegria, mas ele escolhe a tristeza. “Ave e nave”, “O assalto” e “Ezequiela, a humanidade” são contos interessantes. Em “O assalto”, o assaltante quer roubar diálogo.
Dos autores de língua espanhola, li “Isso também passará”, de Milena Busquets (São Paulo: Companhia das Letras, 2016). Não só o Brasil conta com uma ádvena como Tati Bernardes. A Espanha também tem escritores meio estranhos à literatura que enganam com sua contemporaneidade. Busquets fala de si, de seus amores, de suas dores, de seus filhos, de seus amigos, de um mundo que gira em torno de seu umbigo. Ela não consegue sair dela e acredita produzir boa literatura. Ela engana.
Não é o caso da mexicana Valeria Luiselli Em “A história dos meus dentes” (Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016), ela dá fôlego ao realismo fantástico hispano-americano. Seu livro se insere num contexto europeu mestiço, ou seja, num mundo ocidental periférico, a exemplo do paquistanês Mohsin Hamid. Agrada-me bastante esta literatura que vem da periferia, mas que apresenta qualidade da literatura do centro. O livro narra a vida de Gustavo Sánchez Sánchez, conhecido como Estrada. Ele troca todos os seus dentes. Ele se considera o melhor leiloeiro do mundo. Estudou a arte de leiloar nos EUA com um mestre. Aperfeiçoa seu talento viajando pelo mundo. A autora efetua cortes na narrativa para explicações adicionais, finalizando-as com anúncios bem humorados. Exemplo na linha do realismo mágico: “Numa segunda-feira à tarde, enquanto David Miklis tirava um cochilo inoportuno na poltrona, Margo Glantz colou na testa dele uma fileira de selos, lambendo cada um com a ponta da língua, e o levou nos braços para a agência de correios. Depositou-o suavemente sobre o balcão e pediu à moça que o enviasse para Suriname.” Como em outros autores hispano-americanos, ela olha para países vizinhos de mesma língua, para os Estados Unidos e para a Europa. A literatura brasileira não aparece ou aparece raramente.
“Prosas apátridas”, de Julio Ramón Ribeyro (Rio de Janeiro: Rocco, 2016), encerra reflexões de um peruano que viveu durante muito tempo em Paris. Ele vive sua época, vendo a mulher como coadjuvante do homem. É um dos poucos autores que mostra conhecimento de música erudita.
Como o espaço escasseia, menciono ainda o chileno Juan Emar com o delirante “Um ano” (Rio de Janeiro: Rocco, 2015) e o consagrado, Julio Cortázar, com seu antológico “Bestiario” (Buenos Aires: Punto de Lectura, 2016).
Compartilhe
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VIII)
18/06/2017 | 10h02
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 18 de junho de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VIII)
Arthur Soffiati
Depois da expulsão dos Jesuítas do império colonial português pelo Marquês de Pombal, em 1859, os canais naturais da baixada campista ficaram sem limpeza periódica. Houve o entupimento deles. Pombal concebeu um projeto avançado para o império português. A monarquia não enfrentaria mais a rivalidade interna de nenhuma instituição. Todos os habitantes do império seriam considerados súditos, inclusive os índios. A escravidão foi abolida em Portugal, mas não nas colônias. Todos os pontos vulneráveis seriam defendidos com fortalezas.
O plano de Pombal de implantar um despotismo esclarecido fracassou. Os tempos eram outros. Rebeliões de cunho liberal varreram o império colonial, inclusive em Portugal, sua sede. Não foi possível substituir os Jesuítas, que se infiltravam nos poros da metrópole e das colônias. Na planície deltaica, o grande problema era o fluxo das águas e as cheias. Couto Reis lista os canais naturais sujeitos a entupimento: Castanheta, do Rodrigo, do Ingá, do Barro Vermelho, dos Canudos, Vala Grande, da Onça, do Marcelo, de Filipe, do Coqueiro, do Pensamento, da Mãe Teresa, Grande, da Passagem, do Mulaco, Madureira, da Capivara, dos Pauzinhos, do Tucum, Doce, Fundo e vários outros. Esclarece ele: “Todos estes brejos e outros muitos oferecem admiráveis pastos em tempo seco, porém, com as grandes chuvas se alteram de modo que em canoas se navegam desembaraçadamente, passando-se de uns para outros mais vizinhos.”
A rigor, não eram córregos como entendemos, mas defluentes que saíam da lagoa Feia e do rio Paraíba do Sul em direção ao rio Iguaçu. Eram defluentes de vários sistemas em direção a outros que ficavam tomados de aguapés e bofes, plantas que dificultavam o escoamento hídrico. No conjunto, eles formavam um verdadeiro caos, no sentido científico. A engenharia sanitária tentará impor uma ordem geométrica a este caos no século XX.
Embora não simpatizasse com os Jesuítas, Couto Reis escreve sobre as consequências da sua expulsão para a baixada: “Depois daquela extinção tentaram algumas fazendas grandes fazer os mesmos benefícios; esmoreceram por descuriosos e pouco zelosos do bem público, dizendo que como todo o povo juntamente não concorre para aquele necessário e importantíssimo serviço, e não veem para o seu interesse pessoal a menor precisão, não estão para sujeitar-se a um trabalho inútil; menos lembrados de que com estes descuidos ou negligência, virão a experimentar nos seus campos e gados gravíssimos danos; e a razão é porque as águas não tendo livre expedição ficam paradas; e quem duvidará que daqui se sigam as podridões e consequentemente epidemias?
O capitão cartógrafo já identificava nos proprietários rurais da baixada um traço típico da modernidade: o individualismo. Os missionários da Companhia de Jesus tinham espírito público e trabalhavam gratuitamente para a comunidade. Os proprietários pensavam unicamente em seus interesses pessoais, descuidando dos assuntos públicos. Diante desse quadro, o capitão propõe: “deveria haver uma ordem rigorosa nas Câmaras deste Distrito, para que anualmente obrigassem aos povos, debaixo de certas penas, a concorrerem para um benefício de tanta utilidade e importância, procedendo-se com as mais justas regras da equidade, a fim de que à proporção das forças de cada um se repartisse o trabalho que em menos de oito dias se concluía sendo bem dirigido.”
O voluntarismo dos proprietários rurais não aceitaria qualquer decisão das câmaras municipais para executar atividade de interesse público, como reconhece o próprio Couto Reis ao descrever o perfil do campista: “nada mais apetecem que a vida campestre; possuem bons cavalos para seu divertimento, nutrição para sua rebeldia e amparo de inobediência, como via mais pronta e segura para toda a sorte de libertinagem; nascendo desta má inclinação criarem-se tantos vadios para o flagelo dos pacíficos e mais virtuosos; cometendo roubos nos gados, sendo assassinos e deteriorando a boa harmonia da sociedade; e o mais é que a continuação de alguns gênios possuidores desta maldade não faz expectação e conhecendo-se nas praças, passeiam nelas sem o menor receio, logrando estimações, talvez por não causar novidade e estranheza, um uso inveterado.”
Diante de tal individualismo, “(...) seria melhor que a Câmara tomasse este benefício a seu cargo, dirigindo o trabalho, de modo que fazendo uma das fazendas por si só esse benefício, se obrigassem as que se seguissem – uma depois de outra – sucessivamente a fazerem o mesmo quando fosse o tempo próprio, sem jamais concorrerem juntas por conveniência particular a fazerem este precioso benefício no combro do mar, em o sítio chamado do Furado: com pás e enxadas afastam as areias, abrindo um rego ou vala até por que por ele se encaminham as águas facilmente, e correm para o mar com força prodigiosa formando uma barra de muito fundo e largura, que para vadear-se é necessário canoas. Logo que a Barra do Furado se conservava aberta, concorria o Mestre de Campo José Caetano Barcelos mandando uma canoa a gente para dar passagem aos viajantes (...) Assim se esgotam os campos, até que os ventos contrários arrastando areias com as violências do mar a vêm tapando.”
Compartilhe
Múmia rocambolesca (A múmia)
13/06/2017 | 09h27
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 13 de junho de 2017
(UM MATEUSINHO)
A múmia
Múmia rocambolesca
Edgar Vianna de Andrade
Uma grande broca perfura o solo de Londres para construir uma obra pública e encontra um cemitério dos Templários datado do século XII. Os arqueólogos assumem a área. Corta. No novo império do antigo Egito, a princesa Ahmanet (Sofia Boutella) mata o pai, sua nova esposa e seu filho recém-nascido, mas seu amado é assassinado e ela é mumificada viva. Trata-se de uma múmia amaldiçoada. Corta. No norte do Iraque, em meio à guerra, dois soldados corajosos, mas traficantes de antiguidades, envolvem-se com rebeldes e são salvos na hora H pela aviação. As bombas abrem um buraco no chão, mostrando, no meio da antiga Mesopotâmia, uma colossal tumba egípcia. Nick Morton (Tom Cruise), um dos soldados, reencontra a encantadora Jenny Halsey (Anabelle Wallis), arqueóloga que teve um envolvimento amoroso com Nick. Há muitos outros cortes profundos no filme, deixando cicatrizes epiteliais.
Se o eventual leitor acha que o roteiro rocambolesco de David Koepp e Christopher Mc Quarrie para por aí, prepare-se para mais surpresas. Ahmanet apronta muito para conseguir uma preciosidade que lhe foi roubada pelos cavaleiros templários. Ela ressuscita mortos para formar um exército de zumbis. Creio que estamos diante de um filme de terror (?) que, pela primeira vez, reúne múmia e zumbis. Como se dois roteiristas não bastassem para tamanha mistureba, eles pedem a colaboração de Jenny Lumet, Jon Spaihts e do próprio Alex Kurtzman, diretor do filme. Como diz o ditado popular, panela em que muitos mexem o pirão desanda. Mas pasmem. No meio de toda essa confusão, o arquivilão é Henry Jekyll. Sim, a equipe traz de volta o famoso livro “O médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson. Ele é um médico infectologista, advogado e arqueólogo. Se não se controlar com remédios, transforma-se no perigoso Mr.Hyde. E a surpresa aumenta quando percebemos que Jekyll é representado por ninguém mais, ninguém menos que Russel Crowe. Sintomático. Ele sustenta o filme como pode. Mas, quando astros famosos aceitam trabalhar em pastiches, é porque estão sendo superados pelos novos.
A direção é sofrível e perfeitamente dispensável. Um computador poderia assumir as câmaras. Misturando terror chocho com ação desnecessária, o filme não tem boa resolução em nenhum momento. A música de Brian Tyler apela para os ruídos bruscos a fim de causar susto no espectador, já que os seres sobrenaturais não têm este poder. Saí do cinema com a forte impressão de que o filme foi feito para mostrar a juventude e a agilidade de Tom Cruise, tanto quanto a beleza de Anabelle Wallis. Harold Lloyd, na década de 1920, convencia com seu vigor físico. Hoje, os efeitos especiais substituem tudo. Pode-se até pensar que Cruise é apenas uma imagem de computador.
Pra variar, o fim é uma reafirmação que o amor está acima de tudo. Ele vence o mal e salva o mundo e as pessoas. Mais ainda: se a bilheteria for boa (parece que não vai ser), deixa-se, no final, um gancho para continuação.
Ao assistir a esse filme tão desastrado, confesso que senti saudades de “Os olhos da múmia”, de 1918, dirigido pelo genial Ernst Lubitsch, com Pola Negri e Emil Jannings. Foi o primeiro filme do gênero. Tornou-se um clássico.
Compartilhe
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VII)
11/06/2017 | 10h28
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 11 de junho de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VII)
Arthur Soffiati
A Companhia de Jesus foi criada em 1534 por Inácio de Loiola e seis estudantes de teologia, no seio da reforma católica (ou contrarreforma), como reação à reforma protestante. Logo em seguida, ela se disseminou pelo mundo para exercer sua função catequista e educadora. A Companhia de Jesus foi um poderoso instrumento de ocidentalização do mundo. No império colonial português, ela estava presente no mais remoto e desconhecido rincão.
Os Jesuítas requereram terras a título de sesmarias na antiga capitania de São Tomé tanto quanto os Sete Capitães. Estes chegaram primeiro, em 1632, e voltaram em 1633 e 1634. Os fidalgos queriam criar gado para fornecer ao Rio de Janeiro. Os campos nativos do futuro norte fluminense pareciam excelentes para a criação de gado. Nem era necessário plantar pasto. Eles já eram recobertos de herbáceas nativas, das quais falaremos em breve. Os capitães, contudo, não contavam que enfrentariam tanta água na estação das chuvas. Mas eles deixaram as terras requeridas a seus descendentes. Deles, o que mais se sobressaiu foi o capitão José de Barcelos Machado, que instalou a sede da sua grande propriedade rural em local correspondente atualmente a Barra do Furado. Foi o morgado de Capivari.
Os Jesuítas chegaram logo depois dos Sete Capitães e construíram um imponente convento e uma capela, hoje nas proximidades das localidades de Goytacazes e de Tocos. O prédio ainda existe e abriga o arquivo público municipal de Campos. Os serviços públicos que eles exerceram para moldar a pantanosa região povoada pelos índios goitacás em terras agricultáveis foram notáveis.
Em 1785, o capitão cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis escrevia: “No tempo das grandes chuvas e com o concurso das muitas águas que naturalmente descem das muitas serras, se inundam todos estes rios, córregos e regatos, como também as lagoas, e logo saem fora do seu álveo, aquelas demasiadas sobras vão ocupar as baixadas dos campos, os vales, os brejos e muitas vezes as estradas, – já sucedeu em algumas navegar-se – e não restando mais para serem alagadas que algumas eminências diminutas, para onde se faz retirar o gado por não se afogar; então experimentam danos nas lavouras e tudo é perda irremediável (...) E por que estas águas não têm esgoto ou expedição natural, ensina a boa razão que se lhe faça uma barra naquela parte mais conveniente, para o que concorrem as quatro fazendas grandes. São as que foram dos Jesuítas, a dos Beneditinos, a dos Excelentíssimos Viscondes e a do Morgado de Capivari, em razão de livrarem das inundações os seus gados e lavouras.
Nos anos de 2007, 2008 e 2012, para apenas mencionar os mais próximos, chuvas e cheias copiosas afogaram lavouras, estradas e núcleos populacionais. As rodovias BR-356 e RJ-194 tiveram trechos arrastados por força das águas, que transformaram campos agropecuários em áreas pesqueiras novamente. As palavras de Couto Reis voltaram a ecoar em tais momentos.
Para o escoamento de águas pluviais acumuladas na baixada de Campos, o capitão José de Barcelos Machado abriu a vala do Furado em 1688. Contudo, dois problemas ainda eram enfrentados por plantadores e criadores naquele tempo. Nos cursos d’água e lagoas, a proliferação de plantas aquáticas dificultava o fluxo das águas. Em segundo lugar, a corrente marinha e os ventos fechavam rapidamente a barra do Furado quando era aberta. No trabalho de manutenção do fluxo hídrico, os Jesuítas se destacaram. Seus escravos (sim, religiosos tinham escravos até o fim da escravidão) removiam as plantas aquáticas para que as águas acumuladas fluíssem em direção à barra do Furado. Couto Reis não tinha simpatia pelos Jesuítas, mas reconhecia o papel público que eles desempenharam.
“... os Jesuítas com gênio e economia inimitável tinham a cautela de darem de tempos em tempos uma limpeza total nos córregos e rios desta qualidade, e por isso então ofereciam desembaraçada navegação e passagem fáceis de vadear-se.” E acrescenta o cartógrafo: “O modo de se fazer esta limpeza é facílimo; embarcam-se os trabalhadores em canoas, e entrando pelos córregos ou rios embaraçados, com uma ou mais roçadoras vão cortando em diferentes partes os aguapés. Que com a força ou pés das águas se desligam e caminham com a correnteza até saírem pela barra (do Furado), que já neste tempo deve estar aberta.”
No século XVIII, pontificou a figura do Marquês de Pombal. Influenciado pelo Iluminismo e na condição de ministro do rei português D. José I, ele formulou um projeto de centralização e modernização do império colonial. Os Jesuítas representavam um entrave a seus planos. Assim, em 1759, ele expulsou a Companhia de Jesus dos domínios lusos. A manutenção dos canais limpos e da barra da vala do Furado aberta, mesmo que por pouco tempo, serão comprometidos na ausência dos missionários da Companhia de Jesus. Couto Reis sugerirá soluções.
Compartilhe
Sobre o autor

Aristides Soffiati

as-netto@uol.com.br