Relações promíscuas
25/06/2017 | 10h23
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 25 de junho de 2017
Relações promíscuas
Arthur Soffiati
 
Não é de hoje que existe relação promíscua entre economia e política. Não tenho partido político nem ídolos de pés de barro. Além do mais, não costumo perder a floresta de vista por conta de uma árvore. Vejo o mundo de longe e no longo tempo. Quem vê a realidade de perto e no curto prazo fica chocado com as revelações de corrupção no Brasil. Parece algo inédito. Joesley Batista declara que Lula institucionalizou a corrupção no Brasil e que Temer é o chefe da quadrilha. Examinando a trajetória da economia de mercado nos últimos 600 anos, afianço que Batista também chefia uma quadrilha.
Numa economia de mercado, o empresário não vive sem o político e vice-versa. Estou na reta final da vida e não vejo luz no fim do túnel. A expansão da Europa no século XV foi impulsionada pelos Estados nascentes e pelos comerciantes. A relação entre ambos já era promíscua, não na intensidade de hoje porque Estado e empresários ainda estavam nos seus primórdios.
A escravidão africana e a servidão indígena foram um grande negócio para os Estados europeus e para comerciantes. O Estado criava condições para tanto e os comerciantes se valiam dela. Até Chica da Silva, uma negra alforriada, teve escravos. Quando o trabalho assalariado se generalizou, a escravidão deixou de ser lucrativa. Então, os Estados Europeus passaram a combatê-la. Os comerciantes não queriam concorrência e os Estados se colocaram a seu serviço. A política econômica do mercantilismo dava aos Estados o controle da economia. Os empresários eram beneficiados e estimulavam os governos a mover guerras contra outros Estados para dominar o mercado.
Depois da Revolução Industrial do século XVIII, o poder dos empresários aumentou. Sua influência sobre os Estados nacionais se ampliou. Políticos e empresários se completavam numa relação espúria. A abertura dos portos brasileiros às nações amigas resultou de pressões do governo britânico sobre a monarquia portuguesa para beneficiar comerciantes ingleses. O mesmo é válido para os tratados de comércio e navegação de 1810. A própria transferência da família real portuguesa foi determinada pelo governo e comerciantes ingleses.
No século XIX, comerciantes ingleses humilharam a China. Eles vendiam ópio aos chineses e criavam viciados. Quando o governo imperial da China proibiu esse comércio, o governo britânico declarou duas guerras ao grande império, atendendo a interesses comerciais. Foi assim também na Índia. Quando os soldados indianos (sipaios) que serviam no exército britânico se rebelaram pelos maus tratos, o tratamento dado a eles foi o massacre, aplaudido pelo próprio Marx.
Aliás, nem mesmo os países que romperam com o capitalismo mediante revoluções inspiradas no marxismo conseguiram erradicar as relações promíscuas entre política e economia. Elas desembocaram numa Rússia e numa China capitalistas. A experiência com burocratas nomeados para empresas estatais não deu certo.
Fico impressionado com declarações do tipo “esta é a maior crise política vivida pelo Brasil”, feitas até mesmo por historiadores que repercutem suas frívolas e parciais opiniões nos meios de comunicação. Trata-se de puro presentismo. Olhando para o passado, pode-se concluir que a mais longa crise vivida pelo Brasil estendeu-se por quase 20 anos. A independência, proclamada em 1822, não separou de forma convincente o Brasil de Portugal. D. Pedro I continuava muito interessado na vida política de Portugal. Ele acabou abdicando em nome do seu filho menor por pressão interna e partiu para sua pátria. De 1831 a 1840, o Brasil mergulhou em verdadeiro caos econômico e político. As forças rurais conservadoras e movimentos centrífugos de natureza liberal abriram fogo contra o governo interino que reinava o país durante a menoridade de D. Pedro II. Parecia que o Brasil ia se esfacelar em vários países, como a América espanhola. Mas a ferro e fogo, derramando muito sangue, o governo central triunfou.
Mas não foi só. A abolição da escravidão atendeu a produtores de café de São Paulo e descontentou cafeicultores fluminenses. Se houve algum sentido humanitário na abolição, ele ficou no nível do pessoal, não do coletivo. E o que dizer do Convênio de Taubaté, assinado em 1906 para salvar os produtores de café no Brasil?
Trata-se de balela acreditar na separação de economia e política, como preconiza o neoliberalismo atualmente. O político pode até favorecer empresários, criando regras que permitam lucros maiores. Mas política e economia vêm mantendo uma relação promíscua por pelo menos 600 anos. Ilustremos com o complexo industrial-militar dos EUA. Ele se mantém por força política. Qual a saída? Sugiro um pouco mais de estudo, educação universal de qualidade e controle, sempre consciente de que a corrupção continuará como uma doença crônica.
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Literatura estrangeira (I)
23/06/2017 | 10h27
 
Primeiramente, Portugal. Não tudo o que foi publicado, mas o que consegui ler. Valter Hugo Mãe lançou “Homens imprudentemente poéticos” (São Paulo: Biblioteca Azul, 2016). O livro nasceu de uma residência literária nos Estados Unidos. Tem sido bastante comum este tipo de literatura nascida de projeto. De forma claudicante, Laurentino Gomes classifica o livro como o melhor romance de língua portuguesa de 2016. Não sei se eu faria a mesma avaliação. Só não me arrisco por não ter lido o suficiente e por não ter formação adequada.
Junto a uma floresta de suicidas, no Japão, o artesão Itaro e o oleiro Saburo alimentam um ódio antigo. No Japão, o suicídio era muito comum e ainda não tem o mesmo caráter que o ocidente lhe empresta. Incomum é um português ambientar um romance no Japão. A floresta fica no sopé do Monte Fuji, símbolo do país. Além dos muitos vestígios dos suicidas, o bosque é rico em animais. Mãe chama todos os animais de bichos, distinguindo aqueles que são predadores. Todo animal preda algo da natureza. Falta de intimidade do autor com o mundo natural.
Ao longo da leitura, gostei apenas do capítulo “A lenda do poço”, no qual percebi um autêntico espírito zen: “Contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo, sentindo-lhe carinho”. Trata-se do maior capítulo do livro. Daria um conto. O cruel artesão, que odiava e matava animais, é colocado por um monge no fundo de um poço por sete dias e noites. Ele teme a presença de um animal a seu lado. Seu medo se transforma num animal imaginário e perigoso.
Por sua vez, o angolano radicado em Lisboa, Gonçalo M. Tavares, publicou “Animalescos” (Porto Alegre: Dublinense, 2016). Trata-se de um conjunto de textos que se ligam por um tema: a relação dos humanos com os animais. Suponho que se trata de revisitar a questão por um prisma irônico: “... tudo o que veio de Deus é para comer, nada na natureza está fora deste ciclo de apetite e estômago (...) a manada antiga dos humanos vê a natureza como o banquete disponível: certas ervas são boas para comer outras não, todos os animais são no limite para o dente da manada humana e nada está no mundo colocado pelos deuses que não pertença a este banquete tão antigo... é isso que o jesus dos animais deseja: obrigar homens a andar de quatro patas, homens que avancem como gazelas ou mesmo que rastejem para o céu não seja um assunto de dar saltos, ou de olhar para cima, mas de olhar em frente como é natural.” Mas falta ao autor a força da boa literatura.
Essa força eu encontrei em Antonio Tabuchi. O autor é italiano, viveu em Portugal e casou-se com uma portuguesa. “Réquiem: uma alucinação” é livro de 1991, agora publicado no Brasil (São Paulo: Cosac Naify, 2015). É exemplo de alta literatura. Tem trama e escrita fina. Mistura tragédia, comédia, drama, realidade e envereda pelo fantástico. Num último domingo de julho, o personagem central perambula por Lisboa, mantendo vários contatos surreais, inclusive com um morto. No posfácio, escreve: “uma história pode chegar de repente, quando menos se espera, e nas mais variadas circunstâncias. E se não tivermos à mão instrumento para agarrar, a história pode desaparecer com a mesma facilidade que veio.” Pequeno livro, grande literatura.
Da África de língua portuguesa, li Mia Couto. “Poemas escolhidos” - seleção do autor (São Paulo: Companhia das Letras, 2016) reúne poemas distribuídos em três livros. Couto não se revela um bom poeta. Ele é mais ficcionista. Certamente, é o mais conhecido autor africano. Seus poemas geralmente são curtos, com poucos versos. Ele se insere numa das duas linhas de poesia que reconheço na atualidade: a da poesia discursiva, com versos sem métrica e sem rima, e que se cruza com essa: a do eu poético na terceira pessoa do singular. Raramente, Couto consegue sair de si mesmo. Sabe-se que, por mais escondido que esteja o autor, sempre há um eu poético, mas Couto exagera em se colocar nos seus poemas. O livro é precedido por apresentação de José Castello repleta de elogios e de muitas palavras que nada significam. Couto busca o caminho do telúrico em seus poemas, assim como faz na sua prosa. Mas não alcança jamais o nível de telurismo de Manoel de Barros.
Como é muito comum na atualidade, o eu poético está muito manifesto em Mia Couto. Os povos pré-ocidentais ou ainda não contaminados pelo ocidente criaram literatura na forma de mito e de lenda. Eles desconhecem o individualismo. Mia Couto é um ocidental mergulhado num mundo que se ocidentaliza e perde sua identidade. Ele se vale de temas de Moçambique ou procura traduzir seu mundo para o ocidente. A África está deixando de ser África. Soa estranho o individualismo num mundo mágico. Mia Couto usa frases de efeito na forma de versos, tipo: “Quando sonhei ser pano/fui agulha./E morri no sono do gesto/de enrolar o fio. Em “Avesso bíblico”, ele escreve: “No início/já havia tudo.//Meu Deus era cego/e, perante tanto tudo/o que ele viu foi o Nada.//Deus tocou a água/e acreditou ter criado o oceano.//Tocou o chão/e pensou que a terra nascia sob seus pés.//E quando a si mesmo se tocou/ele se achou o centro do Universo./E se julgou divino.//Estava criado o Homem.” O poema talvez seja a chave para compreender o mundo a partir do antropocentrismo ocidental num universo ainda não totalmente antropocêntrico.
Dele li ainda “Na berma de nenhuma estrada e outros contos” (São Paulo: Companhia das Letras, 2016). Mia Couto traduz bem o espírito dividido da África atual, talvez sem a consciência dessa divisão. Parece inegável a influência de João Guimarães Rosa e de Manoel de Barros em sua obra. Rosa recria um mundo maravilhoso que não mais existe. Manoel de Barros é tragado pelo universo úmido do Pantanal Mato-grossense. Mia Couto recorre a paradoxos, a expressões regionais e inventa expressões. É preciso cuidado com um autor a quem se atribui criatividade.
Os relatos de Mia Couto, em conto ou romance, são sempre tristes, sofridos. A realidade também tem alegria, mas ele escolhe a tristeza. “Ave e nave”, “O assalto” e “Ezequiela, a humanidade” são contos interessantes. Em “O assalto”, o assaltante quer roubar diálogo.
Dos autores de língua espanhola, li “Isso também passará”, de Milena Busquets (São Paulo: Companhia das Letras, 2016). Não só o Brasil conta com uma ádvena como Tati Bernardes. A Espanha também tem escritores meio estranhos à literatura que enganam com sua contemporaneidade. Busquets fala de si, de seus amores, de suas dores, de seus filhos, de seus amigos, de um mundo que gira em torno de seu umbigo. Ela não consegue sair dela e acredita produzir boa literatura. Ela engana.
Não é o caso da mexicana Valeria Luiselli Em “A história dos meus dentes” (Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016), ela dá fôlego ao realismo fantástico hispano-americano. Seu livro se insere num contexto europeu mestiço, ou seja, num mundo ocidental periférico, a exemplo do paquistanês Mohsin Hamid. Agrada-me bastante esta literatura que vem da periferia, mas que apresenta qualidade da literatura do centro. O livro narra a vida de Gustavo Sánchez Sánchez, conhecido como Estrada. Ele troca todos os seus dentes. Ele se considera o melhor leiloeiro do mundo. Estudou a arte de leiloar nos EUA com um mestre. Aperfeiçoa seu talento viajando pelo mundo. A autora efetua cortes na narrativa para explicações adicionais, finalizando-as com anúncios bem humorados. Exemplo na linha do realismo mágico: “Numa segunda-feira à tarde, enquanto David Miklis tirava um cochilo inoportuno na poltrona, Margo Glantz colou na testa dele uma fileira de selos, lambendo cada um com a ponta da língua, e o levou nos braços para a agência de correios. Depositou-o suavemente sobre o balcão e pediu à moça que o enviasse para Suriname.” Como em outros autores hispano-americanos, ela olha para países vizinhos de mesma língua, para os Estados Unidos e para a Europa. A literatura brasileira não aparece ou aparece raramente.
“Prosas apátridas”, de Julio Ramón Ribeyro (Rio de Janeiro: Rocco, 2016), encerra reflexões de um peruano que viveu durante muito tempo em Paris. Ele vive sua época, vendo a mulher como coadjuvante do homem. É um dos poucos autores que mostra conhecimento de música erudita.
Como o espaço escasseia, menciono ainda o chileno Juan Emar com o delirante “Um ano” (Rio de Janeiro: Rocco, 2015) e o consagrado, Julio Cortázar, com seu antológico “Bestiario” (Buenos Aires: Punto de Lectura, 2016).
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VIII)
18/06/2017 | 10h02
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 18 de junho de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VIII)
Arthur Soffiati
Depois da expulsão dos Jesuítas do império colonial português pelo Marquês de Pombal, em 1859, os canais naturais da baixada campista ficaram sem limpeza periódica. Houve o entupimento deles. Pombal concebeu um projeto avançado para o império português. A monarquia não enfrentaria mais a rivalidade interna de nenhuma instituição. Todos os habitantes do império seriam considerados súditos, inclusive os índios. A escravidão foi abolida em Portugal, mas não nas colônias. Todos os pontos vulneráveis seriam defendidos com fortalezas.
O plano de Pombal de implantar um despotismo esclarecido fracassou. Os tempos eram outros. Rebeliões de cunho liberal varreram o império colonial, inclusive em Portugal, sua sede. Não foi possível substituir os Jesuítas, que se infiltravam nos poros da metrópole e das colônias. Na planície deltaica, o grande problema era o fluxo das águas e as cheias. Couto Reis lista os canais naturais sujeitos a entupimento: Castanheta, do Rodrigo, do Ingá, do Barro Vermelho, dos Canudos, Vala Grande, da Onça, do Marcelo, de Filipe, do Coqueiro, do Pensamento, da Mãe Teresa, Grande, da Passagem, do Mulaco, Madureira, da Capivara, dos Pauzinhos, do Tucum, Doce, Fundo e vários outros. Esclarece ele: “Todos estes brejos e outros muitos oferecem admiráveis pastos em tempo seco, porém, com as grandes chuvas se alteram de modo que em canoas se navegam desembaraçadamente, passando-se de uns para outros mais vizinhos.”
A rigor, não eram córregos como entendemos, mas defluentes que saíam da lagoa Feia e do rio Paraíba do Sul em direção ao rio Iguaçu. Eram defluentes de vários sistemas em direção a outros que ficavam tomados de aguapés e bofes, plantas que dificultavam o escoamento hídrico. No conjunto, eles formavam um verdadeiro caos, no sentido científico. A engenharia sanitária tentará impor uma ordem geométrica a este caos no século XX.
Embora não simpatizasse com os Jesuítas, Couto Reis escreve sobre as consequências da sua expulsão para a baixada: “Depois daquela extinção tentaram algumas fazendas grandes fazer os mesmos benefícios; esmoreceram por descuriosos e pouco zelosos do bem público, dizendo que como todo o povo juntamente não concorre para aquele necessário e importantíssimo serviço, e não veem para o seu interesse pessoal a menor precisão, não estão para sujeitar-se a um trabalho inútil; menos lembrados de que com estes descuidos ou negligência, virão a experimentar nos seus campos e gados gravíssimos danos; e a razão é porque as águas não tendo livre expedição ficam paradas; e quem duvidará que daqui se sigam as podridões e consequentemente epidemias?
O capitão cartógrafo já identificava nos proprietários rurais da baixada um traço típico da modernidade: o individualismo. Os missionários da Companhia de Jesus tinham espírito público e trabalhavam gratuitamente para a comunidade. Os proprietários pensavam unicamente em seus interesses pessoais, descuidando dos assuntos públicos. Diante desse quadro, o capitão propõe: “deveria haver uma ordem rigorosa nas Câmaras deste Distrito, para que anualmente obrigassem aos povos, debaixo de certas penas, a concorrerem para um benefício de tanta utilidade e importância, procedendo-se com as mais justas regras da equidade, a fim de que à proporção das forças de cada um se repartisse o trabalho que em menos de oito dias se concluía sendo bem dirigido.”
O voluntarismo dos proprietários rurais não aceitaria qualquer decisão das câmaras municipais para executar atividade de interesse público, como reconhece o próprio Couto Reis ao descrever o perfil do campista: “nada mais apetecem que a vida campestre; possuem bons cavalos para seu divertimento, nutrição para sua rebeldia e amparo de inobediência, como via mais pronta e segura para toda a sorte de libertinagem; nascendo desta má inclinação criarem-se tantos vadios para o flagelo dos pacíficos e mais virtuosos; cometendo roubos nos gados, sendo assassinos e deteriorando a boa harmonia da sociedade; e o mais é que a continuação de alguns gênios possuidores desta maldade não faz expectação e conhecendo-se nas praças, passeiam nelas sem o menor receio, logrando estimações, talvez por não causar novidade e estranheza, um uso inveterado.”
Diante de tal individualismo, “(...) seria melhor que a Câmara tomasse este benefício a seu cargo, dirigindo o trabalho, de modo que fazendo uma das fazendas por si só esse benefício, se obrigassem as que se seguissem – uma depois de outra – sucessivamente a fazerem o mesmo quando fosse o tempo próprio, sem jamais concorrerem juntas por conveniência particular a fazerem este precioso benefício no combro do mar, em o sítio chamado do Furado: com pás e enxadas afastam as areias, abrindo um rego ou vala até por que por ele se encaminham as águas facilmente, e correm para o mar com força prodigiosa formando uma barra de muito fundo e largura, que para vadear-se é necessário canoas. Logo que a Barra do Furado se conservava aberta, concorria o Mestre de Campo José Caetano Barcelos mandando uma canoa a gente para dar passagem aos viajantes (...) Assim se esgotam os campos, até que os ventos contrários arrastando areias com as violências do mar a vêm tapando.”
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Múmia rocambolesca (A múmia)
13/06/2017 | 09h27
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 13 de junho de 2017
(UM MATEUSINHO)
A múmia
Múmia rocambolesca
Edgar Vianna de Andrade
Uma grande broca perfura o solo de Londres para construir uma obra pública e encontra um cemitério dos Templários datado do século XII. Os arqueólogos assumem a área. Corta. No novo império do antigo Egito, a princesa Ahmanet (Sofia Boutella) mata o pai, sua nova esposa e seu filho recém-nascido, mas seu amado é assassinado e ela é mumificada viva. Trata-se de uma múmia amaldiçoada. Corta. No norte do Iraque, em meio à guerra, dois soldados corajosos, mas traficantes de antiguidades, envolvem-se com rebeldes e são salvos na hora H pela aviação. As bombas abrem um buraco no chão, mostrando, no meio da antiga Mesopotâmia, uma colossal tumba egípcia. Nick Morton (Tom Cruise), um dos soldados, reencontra a encantadora Jenny Halsey (Anabelle Wallis), arqueóloga que teve um envolvimento amoroso com Nick. Há muitos outros cortes profundos no filme, deixando cicatrizes epiteliais.
Se o eventual leitor acha que o roteiro rocambolesco de David Koepp e Christopher Mc Quarrie para por aí, prepare-se para mais surpresas. Ahmanet apronta muito para conseguir uma preciosidade que lhe foi roubada pelos cavaleiros templários. Ela ressuscita mortos para formar um exército de zumbis. Creio que estamos diante de um filme de terror (?) que, pela primeira vez, reúne múmia e zumbis. Como se dois roteiristas não bastassem para tamanha mistureba, eles pedem a colaboração de Jenny Lumet, Jon Spaihts e do próprio Alex Kurtzman, diretor do filme. Como diz o ditado popular, panela em que muitos mexem o pirão desanda. Mas pasmem. No meio de toda essa confusão, o arquivilão é Henry Jekyll. Sim, a equipe traz de volta o famoso livro “O médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson. Ele é um médico infectologista, advogado e arqueólogo. Se não se controlar com remédios, transforma-se no perigoso Mr.Hyde. E a surpresa aumenta quando percebemos que Jekyll é representado por ninguém mais, ninguém menos que Russel Crowe. Sintomático. Ele sustenta o filme como pode. Mas, quando astros famosos aceitam trabalhar em pastiches, é porque estão sendo superados pelos novos.
A direção é sofrível e perfeitamente dispensável. Um computador poderia assumir as câmaras. Misturando terror chocho com ação desnecessária, o filme não tem boa resolução em nenhum momento. A música de Brian Tyler apela para os ruídos bruscos a fim de causar susto no espectador, já que os seres sobrenaturais não têm este poder. Saí do cinema com a forte impressão de que o filme foi feito para mostrar a juventude e a agilidade de Tom Cruise, tanto quanto a beleza de Anabelle Wallis. Harold Lloyd, na década de 1920, convencia com seu vigor físico. Hoje, os efeitos especiais substituem tudo. Pode-se até pensar que Cruise é apenas uma imagem de computador.
Pra variar, o fim é uma reafirmação que o amor está acima de tudo. Ele vence o mal e salva o mundo e as pessoas. Mais ainda: se a bilheteria for boa (parece que não vai ser), deixa-se, no final, um gancho para continuação.
Ao assistir a esse filme tão desastrado, confesso que senti saudades de “Os olhos da múmia”, de 1918, dirigido pelo genial Ernst Lubitsch, com Pola Negri e Emil Jannings. Foi o primeiro filme do gênero. Tornou-se um clássico.
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Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VII)
11/06/2017 | 10h28
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 11 de junho de 2017
Incorporação da região norte fluminense à modernidade (VII)
Arthur Soffiati
A Companhia de Jesus foi criada em 1534 por Inácio de Loiola e seis estudantes de teologia, no seio da reforma católica (ou contrarreforma), como reação à reforma protestante. Logo em seguida, ela se disseminou pelo mundo para exercer sua função catequista e educadora. A Companhia de Jesus foi um poderoso instrumento de ocidentalização do mundo. No império colonial português, ela estava presente no mais remoto e desconhecido rincão.
Os Jesuítas requereram terras a título de sesmarias na antiga capitania de São Tomé tanto quanto os Sete Capitães. Estes chegaram primeiro, em 1632, e voltaram em 1633 e 1634. Os fidalgos queriam criar gado para fornecer ao Rio de Janeiro. Os campos nativos do futuro norte fluminense pareciam excelentes para a criação de gado. Nem era necessário plantar pasto. Eles já eram recobertos de herbáceas nativas, das quais falaremos em breve. Os capitães, contudo, não contavam que enfrentariam tanta água na estação das chuvas. Mas eles deixaram as terras requeridas a seus descendentes. Deles, o que mais se sobressaiu foi o capitão José de Barcelos Machado, que instalou a sede da sua grande propriedade rural em local correspondente atualmente a Barra do Furado. Foi o morgado de Capivari.
Os Jesuítas chegaram logo depois dos Sete Capitães e construíram um imponente convento e uma capela, hoje nas proximidades das localidades de Goytacazes e de Tocos. O prédio ainda existe e abriga o arquivo público municipal de Campos. Os serviços públicos que eles exerceram para moldar a pantanosa região povoada pelos índios goitacás em terras agricultáveis foram notáveis.
Em 1785, o capitão cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis escrevia: “No tempo das grandes chuvas e com o concurso das muitas águas que naturalmente descem das muitas serras, se inundam todos estes rios, córregos e regatos, como também as lagoas, e logo saem fora do seu álveo, aquelas demasiadas sobras vão ocupar as baixadas dos campos, os vales, os brejos e muitas vezes as estradas, – já sucedeu em algumas navegar-se – e não restando mais para serem alagadas que algumas eminências diminutas, para onde se faz retirar o gado por não se afogar; então experimentam danos nas lavouras e tudo é perda irremediável (...) E por que estas águas não têm esgoto ou expedição natural, ensina a boa razão que se lhe faça uma barra naquela parte mais conveniente, para o que concorrem as quatro fazendas grandes. São as que foram dos Jesuítas, a dos Beneditinos, a dos Excelentíssimos Viscondes e a do Morgado de Capivari, em razão de livrarem das inundações os seus gados e lavouras.
Nos anos de 2007, 2008 e 2012, para apenas mencionar os mais próximos, chuvas e cheias copiosas afogaram lavouras, estradas e núcleos populacionais. As rodovias BR-356 e RJ-194 tiveram trechos arrastados por força das águas, que transformaram campos agropecuários em áreas pesqueiras novamente. As palavras de Couto Reis voltaram a ecoar em tais momentos.
Para o escoamento de águas pluviais acumuladas na baixada de Campos, o capitão José de Barcelos Machado abriu a vala do Furado em 1688. Contudo, dois problemas ainda eram enfrentados por plantadores e criadores naquele tempo. Nos cursos d’água e lagoas, a proliferação de plantas aquáticas dificultava o fluxo das águas. Em segundo lugar, a corrente marinha e os ventos fechavam rapidamente a barra do Furado quando era aberta. No trabalho de manutenção do fluxo hídrico, os Jesuítas se destacaram. Seus escravos (sim, religiosos tinham escravos até o fim da escravidão) removiam as plantas aquáticas para que as águas acumuladas fluíssem em direção à barra do Furado. Couto Reis não tinha simpatia pelos Jesuítas, mas reconhecia o papel público que eles desempenharam.
“... os Jesuítas com gênio e economia inimitável tinham a cautela de darem de tempos em tempos uma limpeza total nos córregos e rios desta qualidade, e por isso então ofereciam desembaraçada navegação e passagem fáceis de vadear-se.” E acrescenta o cartógrafo: “O modo de se fazer esta limpeza é facílimo; embarcam-se os trabalhadores em canoas, e entrando pelos córregos ou rios embaraçados, com uma ou mais roçadoras vão cortando em diferentes partes os aguapés. Que com a força ou pés das águas se desligam e caminham com a correnteza até saírem pela barra (do Furado), que já neste tempo deve estar aberta.”
No século XVIII, pontificou a figura do Marquês de Pombal. Influenciado pelo Iluminismo e na condição de ministro do rei português D. José I, ele formulou um projeto de centralização e modernização do império colonial. Os Jesuítas representavam um entrave a seus planos. Assim, em 1759, ele expulsou a Companhia de Jesus dos domínios lusos. A manutenção dos canais limpos e da barra da vala do Furado aberta, mesmo que por pouco tempo, serão comprometidos na ausência dos missionários da Companhia de Jesus. Couto Reis sugerirá soluções.
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O sagrado e o profano
06/06/2017 | 09h38
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 06 de junho de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Mulher Maravilha
O sagrado e o profano
Edgar Vianna de Andrade
Mircea Eliade definiu que o processo de dessacralização do mundo começou com o judaísmo. Max Weber concluiu que o ocidente desencantou o mundo. Mas a partir de quando? A partir do século XV, quando o ocidente começou a se expandir pelos diversos continentes. O profano processou-se tanto dentro do ocidente quanto nas regiões por ele atingidas. Os mitos celestes, então, transformaram-se em mitos históricos. O lugar de Prometeu foi ocupado por Tiradentes e por tantos outros, dependendo do país. Mas a nostalgia do sagrado refugiou-se nas histórias em quadrinhos e no cinema.
Diana, a Mulher Maravilha, é uma amazona criada entre mulheres para ser uma grande guerreira. Um dia, descobre seus poderes em seus punhos literalmente de aço. Ela saiu de um mundo sagrado, onde a honra, a verdade, a coragem, a liberdade são valores supremos, e entrou no mundo dos humanos ao fim da Primeira Guerra Mundial para combater Ares, deus grego da guerra.
Mulher Maravilha, dirigido por Patty Jenkin, também uma mulher, e roteirizado por Allan Heinberg a partir da ideia original de Zack Snyder, Jason Fuchs e do próprio Heinberg, trabalha muito bem com a oposição entre sagrado e profano. Diana (a bela Gal Gadot, ex-miss Israel) salva o militar norte–americano Steve Trevor (Chris Pine), espião que foge dos alemães. Acolhido com desconfiança pelas amazonas depois de lutarem com bravura contra os soldados alemães, Trevor é surpreendido por Diana durante o banho. Ele não demonstra vergonha e se exibe de frente (seu pênis não aparece na tela) para Diana, que não se assusta. Há, então, um diálogo em que Trevor insinua suas qualidades masculinas. Diana não se vale de metáforas nem de subterfúgios na conversa. Ela desconhece segundas intenções.
Em Londres, ela não consegue se comportar de forma feminina, embora seja muito feminina. Mulher submissa a homem, no entender dela, é escrava. Sua presença é marcante. Afinal, é uma deusa entre mortais. As conversas que ela mantém com humanos profanos parecem diálogos entre surdos e mudos. Sua coragem a todos surpreende e sua atitude divina reduz a complexidade dos humanos. Ela não consegue ser opaca ou translucida. Ela é de uma transparência ingênua diante da dissimulação e das injustiças. A seu ver, a guerra é comandada por Ares, que se oculta ardiloso atrás de humanos. Ela se propõe matá-lo. Entre os homens, só um índio norte-americano aculturado consegue conversar com ela. O entendimento só é possível porque o índio veio de um passado sacralizado.
O filme tem também o mérito de retirar dos alemães o surrado estigma de maus e promotores de guerras injustas e cruéis. Diana mesma se engana ao matar com facilidade o general Ludendorf, que ela acredita ser Ares disfarçado. Ares está presente nas guerras, sejam quantos forem os lados em luta. No caso da Primeira Guerra, Ares é inglês. Diana aturde os homens com suas convicções simplistas, tanto quanto em “A grande muralha”, a nobreza e integridade da comandante chinesa Lin Mei impressiona o mercenário William Garin.
Mas Diana surpreende a todos, vencendo os inimigos com suas ingênuas crenças e sua força. Ela é uma heroína de um mundo que não existe mais. A DC Comics criou muitos heróis super-humanos que vivem entre humanos, fazendo concessões a nosso mundo profano. Já a Marvel cria humanos com superpoderes que levam para sua nova condição seus vícios. Homem de Aço é um exemplo de herói da Marvel. Super-Homem é exemplo da DC Comics. Os heróis da Marvel saem do seio dos humanos. Os da DC entram nele. Pena que este contraste não seja aprofundado nem nos quadrinhos nem no cinema.
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Descendo longa ladeira de skate
04/06/2017 | 11h02
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 04 de junho de 2017
Descendo longa ladeira de skate
Arthur Soffiati
 
Na minha avaliação, o processo de ocidentalização a que assistimos agora, começou em 1415, quando Portugal tomou a cidade muçulmana de Ceuta, no norte da África. Sei muito bem que, em história, uma tendência ou uma estrutura não muda da noite para o dia. Não é em um ano que se passa de um mundo fechado para um mundo aberto. Não se dorme numa Europa centrada em si mesma e se acorda na Europa disseminada pelo mundo. Estou adotando 1415 como data simbólica, assim como se faz com o sete de setembro de 1822 para a independência do Brasil.
Sugiro um exercício metafórico: transformar os 602 anos decorridos entre 1415 e 2017 em espaço. Em vez de um tempo de 602 anos uma rampa de 602 metros. No alto dela, um skatista incumbido de descer. Ele dá a partida. A velocidade aumenta à medida que ele avança. Logo no início, avisam-no de que existe um precipício no fim da rampa. Ele pode frear o skate por não ter desenvolvido ainda grande velocidade e ter muito espaço na rampa. No entanto, o buraco no fim da pista só é percebido pelos técnicos da corrida quando o skatista está no final dela. A velocidade é muito alta e não é mais possível frear o pequeno veículo.
Esta é uma metáfora que vale para a globalização ocidental. Estamos na ponta mais baixa da rampa, em alta velocidade, e só agora nos avisam do perigo. Os socialistas nos advertiram com ênfase sobre as contradições sociais ampliadas com o avanço do capitalismo. Primeiramente, entre o início da expansão marítima e a revolução industrial, que eles denominam período da acumulação primitiva. Depois da revolução industrial, as contradições se acentuam e caminham para uma revolução proletária. Ela foi deflagrada na Rússia há exatamente um século. Dizem que o socialismo representaria um rompimento com o capitalismo e início de uma nova era da humanidade. Alguns países mais acompanharam a Rússia: Mongólia, China, Europa Oriental, Cuba...
As relações sociais se transformaram, mas não tão profundamente. Prometeu-se uma sociedade sem classes, promessa não cumprida. O projeto socialista era romper com o capitalismo nos planos econômico e social, mas não no tecnológico. A tecnologia predatória que o ocidente desenvolveu seria colocada a serviço de uma sociedade sem classes. Não houve o projeto de uma nova tecnologia. Não houve uma discussão sobre as relações da sociedade com a natureza. Os países socialistas destruíram a natureza tanto quanto o capitalismo. E de forma triunfal. Eles deram significativa contribuição para agravar a crise ambiental da atualidade.
Depois da Segunda Guerra Mundial, começamos a perceber que as alterações nos sistemas naturais estavam nos causando problemas. Durante nove por cento da história da globalização, abusamos da atmosfera, dos mares, da água doce, das florestas, da biodiversidade, de toda a natureza. Não nos demos conta de que não podemos ficar sem respirar por mais de alguns minutos. Não percebemos a importância dos mares para o clima, da água doce para a nossa vida, da biodiversidade para garantir a qualidade da nossa vida.
Acreditamos substituir os sistemas naturais e até mesmo potencializá-los com fertilizantes químicos, agrotóxicos, produção de vegetais e animais em massa. Na perseguição dessa quimera, estamos causando um estrago muito grande no ambiente natural. Com toda a ciência e tecnologia humanas, ainda não conseguimos engenhos que consigam, em larga escala, sustentar uma população de oito bilhões de habitantes, a capacidade de troca catiônica do solo, a produção de fotossíntese, o desempenho dos equilíbrios naturais como a biodiversidade, que mantenham a composição adequada da atmosfera para a vida, que promovam o controle climático das florestas. Bem ao contrário, estamos destruindo essas tecnologias que a natureza construiu em milhões de anos sem pensar em nós, até porque o conjunto da natureza não pensa.
Por outro lado, ainda não inventamos naves espaciais ultra velozes que possam transportar um número considerável de humanos, animais e vegetais para os planetas habitáveis próximos do nosso sistema solar. Tenho atualmente a sensação de que alguém está transtornado: ou os otimistas ou uns poucos realistas entre os quais me incluo. A esmagadora maioria da humanidade não participa dessa discussão, mas também contribui significativamente para a destruição da Terra.
Pela ótica do meu melancólico realismo, examino os entusiastas do chamado progresso. Eles parecem presidiários que destroem o que lhes permite viver dentro de suas celas enquanto que, pelas grades, assestam poderosos telescópios para o espaço. Então, eles ficam eufóricos em delirar que sairão de suas celas e que se transferirão para outro planeta. Depois da destruição do novo lar, perambularão pelo espaço.
Se não temos como sair da prisão, o jeito é cuidar bem dela. Isso custará tempo. Temos o século XXI para frear o skate e mudar seu rumo.
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O quase adeus do pirata
30/05/2017 | 10h08
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 30 de maio de 2017
(QUATRO MATEUSINHOS)
Piratas do Caribe: A vingança de Salazar
O quase adeus do pirata
Edgar Vianna de Andrade
 
Se o critério para definir um gênero é a recorrência do tema ou o clima que envolve o filme, então existe o gênero “piratas”, assim como o gênero “western”. Talvez até exista o gênero “múmia”, que voltará às telas em 2017 e que foi recentemente frequentado. Pode-se pensar no gênero “zumbi”, bastante rico. No geral, o perfil do pirata é o de um homem que age por conta própria contra os países. Sua pátria é seu navio. Seu povo são seus comandados e sua bandeira é negra com uma caveira. O pirata chefe é indômito, mas também cruel. Sua tripulação lhe é fiel, mas, entre ela, há traidores.
O mais antigo filme do gênero que conheço é “O pirata negro”, com Douglas Fairbanks, de 1926. Depois, ele foi frequentado até por Polanski e Spielberg. De todos, Jack Sparrow foi o pirata que promoveu o retorno ao gênero e que mereceu uma série de cinco filmes até agora. Sparrow, encarnado por Johnny Depp, não se enquadra perfeitamente no perfil do pirata. Ele é meio afeminado. Sua relação com mulheres é obscura. Seu destemor e sua covardia se combinam. Ele é beberrão e desajeitado. Sempre no meio de ações perigosas, ele escapa de todas elas ileso, com sua bússola mágica e seu navio Pérola Negra.
Não apenas isso. É de se esperar que os filmes de piratas sejam filmes de aventura. Mas a série “Piratas do Caribe” mistura ação com comédia e magia. Os piratas são enfocados como histriões sempre envolvidos com o sobrenatural. Os quatro filmes anteriores foram dirigidos por Gore Verbinski. Seja qual for a crítica dirigida a ele, confesso que gosto desse diretor. No filme atual, com subtítulo de “A vingança de Salazar”, a direção passa para as mãos de Joachim Ronning e Espen Sandberg. É difícil notar diferença de direção quando os efeitos especiais quase assumem o lugar do diretor. Recorre-se então ao roteiro. No caso deste filme, ele está a cargo de Jeff Nathanson. Normalmente, os roteiros dos filmes de Jack Sparrow são barrocos e rocambolescos. No caso de “A vingança de Salazar”, o maneirismo atinge seu auge. Há excessos também na música de Geoff Zanelli, muito wagneriana e apoteótica. Juntando tudo, o filme cai no exagero. E só se salva por seu viés cômico.
Johnny Depp parece ter passado da idade para representar um ágil pirata, mas este é um aspecto que pode ser compensado com os efeitos especiais. Sim, porque cenas representadas por jovens seriam impossíveis se fossem reais. Há uma breve aparição de Paul McCartney representando Sparrow quando jovem e jogando na morte o capitão Salazar (Javier Bardem) e sua tripulação. Todos se transformam em zumbis em busca do retorno à vida. Tudo gira em torno do tridente de Posseidon, que permite o controle dos mares.
Um novo casal, representado por Henry Turner (Brenton Thwaites) e Carina Smyth (Kaya Scodelario), substituem Orlando Bloom e Keira Knightley, que ainda fazem uma aparição no filme. A turma original de “Piratas do Caribe” envelheceu. O casal Orlando/Keira já tem um filho. O pirata Barbossa tem uma filha. Será que a Walt Disney Company dará continuidade à série? No final do quinto filme, há uma deixa para continuação, como tem sido comum nos filmes de aventura. Talvez um filho desconhecido de Sparrow dê continuidade às peripécias do pai.
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Os perfis humanos da modernidade
28/05/2017 | 10h21
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 28 de maio de 2017
Os perfis humanos da modernidade
Arthur Soffiati
 
Em 1991, fui convidado a ministrar um minicurso em Rio Branco, Acre. Na primeira aula, a sala estava cheia de pessoas. Eu estava me sentindo em casa até que três índios entraram. Eles estavam vestidos a caráter: corpos pintados, trajes de penas e fibras. Usavam armas. Sentaram-se no fundo da sala. Quem não está acostumado estranha. Não se tratava de preconceito, mas de estranhamento. Falariam eles o português? Estavam matriculados e me fariam perguntas? Eles permaneceram mudos durante toda a aula. Ao término, uma pessoa se aproximou de mim e disse que os índios queriam conversar comigo. Depois das apresentações, o que parecia ser o chefe me convidou a almoçar com eles. Ainda inseguro, aceitei. Eles me levaram para um restaurante muito bom. Senti certo pânico por não saber se tinha dinheiro suficiente para a despesa. Durante a refeição, o que parecia chefe desejava que eu formulasse um projeto para apresentá-lo ao Banco Mundial a fim de obter recursos financeiros para a comunidade indígena. Foi constrangedora a resposta tanto pra mim quanto pra eles: eu não sabia fazer projetos. Nem sequer sei lidar com dinheiro. Eles pagaram o almoço e se despediram com cortesia. Não os vi mais.
Não houve o mínimo indício de ilicitude na nossa conversa. Apenas pensei que os índios estavam inseridos num mundo dominado pelo capitalismo. Hoje, entendo que a globalização ocidental (sinônimo de economia de mercado e de modernidade) dissolve as relações sociais tradicionais. Ela dilui as sociedades pré-capitalistas de forma impiedosa. Marx reconheceu esta capacidade destruidora do capitalismo. Embora eu não seja marxista em seu projeto de futuro, reconheço o valor das análises marxistas.
O mercado detonou as comunidades tradicionais e as substituiu por uma legião de indivíduos. Hoje, os indivíduos vivem em função de si próprios. São individualistas. Vivem em sociedade, mas não vivem por elas. Ao estudar as sociedades tradicionais, concluo que elas eram maiores que os indivíduos que a integravam. Os bens produzidos serviam para o uso, não para a troca. Hoje, com exceção dos bens com valor sentimental, os demais bens devem ter valor de mercado. Num mundo como o nosso, o indivíduo, além de individualista, é também consumista e não se situa mais em contextos históricos. Existe uma história, mas os indivíduos a ignoram, no seu imediatismo. Daí tanta opinião inconsistente até por parte de estudiosos.
Numa análise inicial, identifico três tipos de perfis produzidos: o do alienado, o do reducionista e o do independente. O alienado representa a humanidade em sua profundidade. Ele não se interessa pelo contexto e pelo tempo. Reage apenas a situações de sobrevivência. Não é apenas representado por pobres. A grande maioria da classe média se enquadra nessa categoria. Trata-se de um perfil conservador. Não são assim os que estão abaixo da linha de pobreza. Para a pessoa alienada, a religião está presente, mas não é vivida com intensidade. Trata-se apenas de um conforto existencial, se tanto.
Já o reducionista toma partido com facilidade. Reduzir é excluir e simplificar o mundo para lhe conferir sentido. É mais fácil lidar com poucos elementos que com muitos. As operações reducionistas eliminam os ruídos de uma interpretação. A realidade, assim, resume-se a nós e eles, a nós e os outros. À verdade e à razão, que estão conosco e não com eles. O independente, por sua vez, é aquele que desconfia. A modernidade lhe subtraiu o contexto cultural e o abandonou com seu pensamento. Agora, ele tem de se virar sozinho. As religiões não mais lhe dão as respostas desejadas. As doutrinas e os partidos políticos, sucedâneos das religiões, não conseguem satisfazê-los. As éticas coletivas não mais o contentam.
O independente sofre. É preciso abrir caminho por conta própria. É preciso construir éticas. Ele pode ter opinião e assumir um lado, mas sempre de forma complexa e considerando o lado do outro, pois o contrário de uma verdade não é necessariamente uma mentira. Pode ser outra verdade. Seus julgamentos sempre envolvem múltiplos fatores. Para ele, as éticas religiosas e partidárias foram empobrecidas pela cultura da modernidade.
O independente inveja o alienado e o reducionista, mas de forma salutar. Seria bom não pensar em nada ou simplificar o pensamento. Thomas More, Montaigne, Max Weber, Dostoievski, Umberto Eco e Edgar Morin desenvolveram pensamentos independentes e auto éticas. A atual crise política do Brasil é um desafio para os três tipos, que nunca são puros no sentido weberiano. O alienado reage a ela por questões de sobrevivência. O reducionista assume um lado com facilidade, seja contra ou a favor; a favor ou contra. O independente também assume posições, mas sempre de forma complexa.
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Poesia brasileira em 2016
26/05/2017 | 09h25
Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 26 de maio de 2017
Poesia brasileira em 2016 (II)
Arthur Soffiati
Embora eu me considere um leitor aplicado de poesia e ficção, creio não me enganar ao concluir que a poesia brasileira atual não vive um bom momento. Poetas existem muitos. As pessoas julgam que escrever poesia é fácil. Bastam inspiração e empilhamento de versos. De todos, entendo que o momento é do lúcido Paulo Henriques Brito, que segue as pegadas de João Cabral de Melo Neto.
Evidentemente, não li tudo o que se publicou de poesia em 2016, mas li os antigos, dos quais dei notícia no artigo de abril. Agora, detenho-me nos poetas que publicaram livros no ano passado. Uma delas é Ana Martins Marques, com o “O livro das semelhanças” (São Paulo: Companhia das Letras, 2015). A produção poética atual é muito centrada no “eu poético”. Sei que literatura é um fenômeno humano, que não se conhece nenhuma espécie animal além do homem a escrever. No entanto, o individualismo da atualidade está se refletindo em todas as manifestações humanas.
Ana, pelo menos, sai um pouco de si ao tomar apontamentos (“Ideias para um livro”), partes de um livro (“Capa”, “Nome do autor”, “Título”, “Dedicatória”, “Epígrafe”, “Índice remissivo”, “Colofão”, “Contracapa”) como títulos de poemas, mas logo recai no “eu”. Do seu livro, destaco “Mar”, “Sereia” (de nada te serviriam/joelhos ou pés//o que és é também/o que não és), “Uma caminhada noturna” (há um modo cão de existir no dia/um modo águia ou cavalo ou búfalo/e um pássaro está tão à vontade/na noite quanto na floresta). A autora usa imagens inusitadas e a memória.
Já Fabio Weintraub se apresenta com “Treme ainda” (São Paulo: Editora 34, 2015). No poema “Pés”, ele escreve “no espelho os pés refletidos/são de meu pai/que já não caminha. Assinalei também “Manual de instruções”: “cuidado: ágil/contém material sórdido/feche a puta ao sair/este fado para cima.” E nada mais. Nunca endosso palavras escritas nas orelhas dos livros. Elas parecem escritas sob encomenda.
De Ronaldo Polito, veio a lume “Ao abrigo” (Belo Horionte: Scriptum, 2015). O autor foge ao máximo de si mesmo, mas ainda de forma tímida. Parece que sair de si atualmente é perigoso. Talvez um mundo conturbado absorva a inspiração e o trabalho. Parece que também há pressa e a necessidade de mostrar que se está vivo num mundo de alta concorrência. Em “Ponto final”, o poeta escreve: “Qualquer movimento que fizesse, e o horizonte distante/adaptava-se, indiferente, ao novo ponto de partida.” E na forma de hai-kai: “Um relâmpago./ Escuro. Um homem.”
Em nenhuma passagem de “Com os dentes na esquina” (São Paulo: Portal, 2015). Reynaldo Damazio me motivou anotações. Pareceu-me um livro perfeitamente dispensável. Já Alice Sant’Anna volta à cena com “Pé do ouvido” (São Paulo: Companhia das Letras). Com 29 anos, ela já conta com três livros de poemas. Este, o mais recente, consiste num longo poema em duas partes com temas recorrentes. O principal parece ser o Japão. “Estou escrevendo um poema/você aparece bastante/tudo o que disser pode entrar/é um poema tagarela”. A autora também parece ser muito tagarela no livro.
Carlito Azevedo anuncia algo de arriscado em “Livro das postagens” (Rio de Janeiro: Sete Letras), mas a promessa não me pareceu cumprida. O livro se divide em duas partes. Na segunda parte, mistura poema com foto, partitura e prosa. O exercício transtextual não basta para caracterizar boa poesia.
Restou-me Fabrício Corsaletti com os livros “Baladas” (São Paulo: Companhia das Letras), com ilustrações do cartunista Caco Galhardo, e “Quadras paulistanas”, também editado pela Companhia das Letras e ilustrado por Andrés Sandoval. Eu já conhecia crônicas do autor “Ela me dá capim e eu zurro” (São Paulo: Editora 34, 2014) reunindo crônicas sobre o cotidiano da cidade de São Paulo, principalmente. Creio que minha leitura é insuficiente para uma avaliação sopesada do autor. Pelo que li dele em prosa, entendo que o autor ajuda a mantes vivo o gênero crônica, com Milton Hatoum e Cristovão Tezza, que, por sua vez, escrevem crônicas de alto nível.
O que Corsaletti faz em crônica faz também em poesia. Os dois livros mencionados contêm cônicas em forma de poema, abordando o cotidiano paulistano, inclusive valendo-se de gírias que rimam com palavras portuguesas e inglesas. O autor conhece poesia. Ele se vale da forma “balada”, com redondilhas maiores. Suas rimas nem sempre são perfeitas, mas são justificadas pelo senso de humor que o autor deseja transmitir. Trata-se de poesia de circunstância, mas também permanente. Entre os poemas, são inseridas fotografias de São Paulo, mas não como forma de transtextualidade.
Para concluir, a “Balada para Michael Corleone”, apenas como amostra.
 
ninguém escapa ao destino
ninguém evita um ciclone
e quem, em sã consciência
resiste a um saxofone?
há sortilégios no vento
maldições que vêm de longe
sinto um calafrio na espinha
quando toca o telefone
meu Deus, que vida de merda
teve Michael Corleone
 
seu rosto frio (Al Pacino)
branco feito mascarpone
é a muralha de um palácio
vazio, onde nem o clone
do que ele não pôde ser
ou do que foi (esse monte
de mentiras que somadas são a verdade) se esconde-
ria – não há nada por
trás de Michael Corleone
vamos compará-lo ao pai –
Vito, vital, canelone
disseminava chacinas
com a exuberância de um conde
amava a glutonaria
era um grande cicerone
sua morte entre os tomates
é pura como a de um monge
– o filho é estranho e mesquinho
pobre Michael Corleone
 
como foi mesmo que eu fiz
pra acabar assim alone?
às vezes acho que penso
que sou Michael Corleone.
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