Biscoitagem
30/04/2022 | 14h00
Fazer e postar – um movimento sincronizado tão curioso quanto incômodo.

Eu sempre achei esquisita a relação obsessiva das pessoas com as redes sociais – o que se aplica também a mim -, sobretudo ao conhecer pessoalmente quem está por trás de determinados perfis.

Já gargalhei com perfis cômicos de amigos virtuais, repletos de memes engraçadíssimos – sim, meu senso de humor não é muito exigente -, e descobri depois que o administrador era um cara completamente sem graça e introvertido. Timidez ou dupla personalidade? Vai saber.

Por outro lado, para além das pessoas que viram personagens caricatos nas redes, eu fico abismado quando vejo aqueles que postam absolutamente tudo: do aniversário do cachorro ao cachorro quente na praça, nada passa sem um registro nos stories.

Neste exato instante, por exemplo, estou numa cafeteria presenciando alguém fotografar seus solitários (apesar de unidos) três pães de queijo antes de comê-los solitariamente – um like ou um emoji de coração pode, certamente, preencher esse vazio que a comida não conseguiu alcançar.

Essas pessoas, decerto, têm um dom único para criar conteúdo – desinteressante, claro -, mas expõem uma mesquinha característica humana ao querer virar os holofotes para si: a de não controlar o ego.

Se as celebridades, que costumam gerar curiosidade sobre tudo que fazem, já forçam a barra para criar conteúdo 24 horas por dia, imagina o seu amigo de trabalho, que tira foto da marmita dele todos os dias antes de almoçar? Ele pode estar indo longe demais sobre sua autoimagem.

Será um amor próprio sem limites ou uma tentativa de se fazer interessante forçosamente? Talvez nem um, nem outro. Pode ser que ele só queira se sentir menos sozinho, receber uma reação genérica e, como dizem, ganhar um biscoito.

A lista de motivos para a carência biscoital é imensa, mas o meu interesse se volta especialmente para as ideias. Por exemplo: de onde uma pessoa que posta opiniões a cada quinze minutos no Twitter tira tanta bobagem? Navegar por alguns minutos nas aleatoriedades do microblog me deixa pasmo ao ver que as pessoas têm muitas razões para se expressar – e uma criatividade que vai além do limite de caracteres.

Aliás, quem dá importância para tanta opinião lançada na internet? Esta minha, como se pode ver, não importa nada, mas exemplifica muito bem o ponto aqui colocado.

Essas ideias e opiniões devem vir de onde surgem os tantos memes dos perfis administrados por usuários introvertidos: da vontade de parecer alguém que não são. Mais impressionante ainda é conseguirem fazer as bobagens parecerem coisas relevantes.

Nota: quase tirei uma foto da cena do pão de queijo para ilustrar esse texto, mas aí já seria um biscoito extra pra pessoa da mesa ao lado.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Escreve aos sábados no blog Extravio.
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Degradação
23/04/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay.
Ainda habitados pelo destemor, os escombros abstratos das ideias insensatas se mantêm firmes nos despautérios que os sustentam há décadas.
 
As marcas deixadas pelo amarelecer dos anos decorridos expõem o tanto que sentem os que por eles passam. Sob os cacos ainda pendentes a dividir os símbolos e as intenções, surge uma luz lânguida que se nega a irradiar plenamente.
 
Os restos da concepção idealizada de mundo – outrora suntuosa – demarcam sua fragilidade como se a materialidade dependesse de fatores impalpáveis. E depende. Pois os princípios instáveis, quando materializados, acabam por ruir sob condições determinadas.
 
Isso porque é preciso muito mais que concreto e tijolos para manter de pé as convicções dissimuladas de quem brada contra a vida alheia e tenta inutilmente encontrar eco nas ruínas que não preservam som.
 
Na audaciosa ignorância de quem não vê que a diferença que surge pelos dias, ainda bradam entre aqueles escombros iconoclastas capazes de reverenciar as piores imagens humanas, fazendo desmoronar os restos no desespero de preservar convicções que talvez nunca devessem ter encontrado lastro.
 
Não se sente, mas o que ali se vê não mais representa a concepção de ser humano cunhada através dos séculos, mas os destroços de um passado que se deveria deixar para trás – na memória, apenas o que não se pode reviver – ainda se fazem valer pelo lastro das ruínas que já se enraizaram com a eloquência de abomináveis concepções ressurgidas.
 
Tais idealizações – mausoléus de quem cisma em manter de pé valores invariáveis – virão ao chão na imperceptível virada de um segundo. Pois o tempo invade tão remotos locais com sua cólera incontrolável para – como faz com as ruínas – esfacelar o que só era passado no agora que reside em si.


*Dica de leitura para além deste texto: soneto “Vandalismo”, de Augusto dos Anjos, do livro “Eu” (1912).
**Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Consciência à queima-roupa
16/04/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay
Entre os disparos distantes, uma risada grave reverberava, fazendo alarde para um divertimento que destoava diante daqueles estampidos aleatórios a lançar faíscas pela cidade impetuosa.

Outro disparo ainda mais próximo.

O alvo, ainda intocado, se fazia camaleônico em meio às paredes e postes perfurados. A lua piscava acompanhando os batimentos aflitivos da consciência que se queria externar, ainda latente, ainda engatilhada.

Ele ria, orgulhoso, porque estava realizado ao fazer justiça, mas uma justiça que escorria por seus lábios e exalava um quê metálico que transbordava entre seus dentes. Sua razão apontava os inimigos, e ele executava a sentença seletiva todas as noites.

Era um esporte que todos deveriam poder praticar. Cada disparo era uma catarse – contra o outro. Nada tirava de sua cabeça que isso devia ser política pública, devia ser lei: todos terem o direito de usar artefatos próprios para matar ou ferir quando fosse pertinente.

Isso era o justo, já que apenas alguns poucos tinham tal privilégio. Era preciso que todos estivessem municiados para lutar contra o mal, definindo seus alvos e ditando se agiriam por impulso, por justiça ou apenas por diversão.

Suas ideias, formadas pelo maniqueísmo tolo do “nós e eles”, pareciam justificar os atos aparentemente saídos da tela do cinema – estampido –, partindo de sua capacidade de julgar a vida alheia sob suas próprias munições, sem qualquer afetação além.

Entre o senso de justiça e a vingança aleatória não havia distinção. Bastava executar o que ensaiava em seus treinos de tiro. Mas ali era diferente. Ele seguia se escondendo pelas esquinas, entre os escombros, em busca de seu propósito.

A distância entre ele e os criminosos? Nada além de uma retórica persuasiva.

Estar à espreita era uma forma de sobreviver diante de um mundo hostil e violento, para o qual devia se preparar na constante dissimulação de sua real face, gritando que criminosos são os outros – capazes de fazer o mesmo que ele. Por isso todos deviam ter paridade de armas, para lutarem como iguais na dinâmica caótica das arbitrariedades.

Seu contraditório senso de justiça se despedaçava no ego frágil de alguém que ansiava por poder, mas só o encontrava no disparo atemorizante capaz de gerar plenitude ao justificar a destruição do mundo ao redor.

Ainda mais perto, com os olhos fixos voltados para dentro de si, localizou o alvo. Disparo. Estava morto o último ser que ainda o desafiava.


*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Incêndio repentino
09/04/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay.
 
No meio da tarde, clarão que surge no meio da rua. Não exatamente no meio, mas ali no canto da calçada, como quem desce para a sarjeta, alcançando o poste e, em consequência, a rede elétrica.

Isso visto ao longe dá a impressão de que o calor que escalda a tarde se materializa em desespero, correria e olhares curiosos para postar o fogo que se alastra e deixa casas sem luz sem internet sem perspectiva de não queimar ao meio-dia enquanto as sirenes chegam varadas.

A especulação sobre o início do fogo é dispersa e abstrata. A maioria só quer ver queimar. Poucos são os que se perguntam, ao sentir o calor no vento, como aquilo aconteceu numa esquina em frente à funerária numa tarde aleatória do começo de abril.

Vai ter quem diga que começara do nada, simplesmente pegara fogo. Outros dirão que tudo começara com uma guimba lançada na lixeira afixada no poste. No entanto, a explicação mais curiosa parte justo de um homem que esperava o ônibus perto da calçada em chamas.

Diz ter visto um menino que passara ileso por baixo dos fios, com a nítida expressão de quem encontra uma ideia que casa perfeitamente com suas expectativas, abrindo um sorriso repentino por simplesmente pensar, deixando um rastro – faísca que se esvai em chamas -, exigindo o auxílio imediato dos bombeiros.

Uma epifania? Não é possível que uma simples ideia cause tamanho estrago – questionam, estarrecidos, os que se forçam a viver com os pés fincados no chão.

Nefelibata, o menino passante combustionava ideias em plena luz do dia.


*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Como ignorar a liberdade
02/04/2022 | 14h00
Antes mesmo de entrar verdadeiramente no assunto, vale dizer que você tem total liberdade para sequer iniciar a leitura deste texto - o que inclui a livre expressão de rechaçar minhas ideias à sua maneira.

Feita esta intervenção - direcionada aos leitores que se posicionam mais ardorosamente contra a liberdade -, já é possível dizer que, se você chegou até aqui, é porque tem alguma ponderação sobre o tema ou já antevê alguma crítica sobre o meu texto.

Tudo começa com as intolerâncias e a falsa compreensão de liberdade que o indivíduo tem. Xingar ou injuriar alguém e se proteger sob a égide da liberdade de expressão demonstra que o indivíduo sequer sabe o que é liberdade - ou alteridade e bom senso, a depender.

Isso porque ser livre em sociedade pressupõe limites, pois o outro pode ter sua dignidade impactada pelo uso desenfreado de uma liberdade que se considera absoluta. Aliás, deve ser frisado que a consideração sobre a ofensa diz respeito ao ofendido, não ao agressor.

Isso se aplica também à tão falada liberdade de ir e vir, limitada durante alguns momentos da pandemia como forma de prevenir a disseminação da COVID. Os que se dizem encarcerados e reclamam da falta de liberdade - talvez porque não suportam a própria companhia - não vão além de pessoas que não entenderam o que é ser livre, pois a liberdade não pode contribuir com o agravamento de uma crise sanitária nem com a proliferação e a mutação de um vírus que matou centenas de milhares de pessoas só no Brasil.

E essa, talvez, seja a questão mais incômoda quando vejo pessoas apedrejando a liberdade: quem o faz diz que não é livre porque não pode se manifestar para atingir o outro - sendo, por exemplo, racista - ou porque não pode fazer suas próprias escolhas, uma vez que deve abrir mão de suas ações em razão do outro.

Com isso, a aclamação de uma ditadura traz consigo a curiosa postura de quem o faz tão somente porque é livre. E a primeira dica deste texto não é outra: usem o direito livre e irrestrito de cercear a própria liberdade se calando como se censurados fossem - o que poupará os ouvidos de muita gente das intolerâncias vociferadas por aí.

Outra dica que pode cair bem diz respeito a ignorar as redes sociais, o que não significa apenas silenciar certas opiniões, mas abrir mão do ambiente virtual, que acaba sendo um antro de inutilidades e de opiniões diversas - você não vai querer estar lá.

Além disso, vale esta: esqueça toda e qualquer expressão artística, pois a arte é um símbolo da liberdade que, numa ditadura, deve ser banida, e isso inclui músicas, filmes, séries e diversas outras expressões.

Por fim, os apoiadores da ditadura podem também se eximir de votar, uma vez que esse negócio de voto, ainda mais em urna eletrônica, não é coisa para quem rechaça a liberdade.

Afinal, ao não compreender que não há direito absoluto em uma sociedade livre, se perde também a própria noção de dignidade humana, pois cada indivíduo convive com as liberdades do outro e com as suas. Mas quem apoia censura só vai querer saber de limitar a opinião do outro em benefício da própria - talvez por falta de convicção ou por conforto.

Até porque, convenhamos, elogiar ditadura em um regime democrático é confortável demais.
 
*Esta crônica faz parte da série “Manual de desutilidades”, que tem como finalidade trazer reflexões críticas sobre questões cotidianas, brincando com o pragmatismo dos manuais de instruções – mas sem a pretensão de instruir ninguém.
**Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Desmascarar
26/03/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay
Por trás do pano, a vaga lembrança de quando o costume era manifestar as emoções com traços faciais e dizer, muito além da fala e dos gestos corporais, um sem número de coisas – do deboche ao consentimento.

A pandemia tirou muito de nós, ceifando vidas e oprimindo liberdades, o que se apresenta não apenas com o isolamento social, mas também com a necessidade do uso de máscaras, que acaba isolando as pessoas em si próprias, ocultadas por seus paninhos de nariz e boca.

Este texto, claro, fala de quem usa máscaras. Quem não usa – nem agora nem antes – já é absolutamente descrente da gravidade da doença e do momento pandêmico.

Como muitas outras pessoas, ainda mantenho o costume de usar máscara – sobretudo em lugares fechados - por não sentir essa segurança plena que estão pregando por aí. Mas admito, claro, que sinto a diferença dos tempos e percebo que vivemos um novo momento de transição.

Nada disso de “novo normal” ou qualquer outra nomeação pasteurizada. Acredito que esse negócio de normal já é discutível por si só, mas não é o foco daqui. Fico com o fato de que certos hábitos acabam sendo mais fortes do que as exigências da rotina, não estando necessariamente aptos a ser banidos de forma abrupta.

As incômodas máscaras são um deles. Fazem parte de uma rotina cristalizada – da qual queremos, acredito, nos livrar enervadamente – que gerou uma série de dificuldades e comodismos muito próprios.

As dificuldades eu nem preciso mencionar – cada um tem a sua. Mas, entre os comodismos, decerto está a possibilidade de ocultar as emoções ao se esconder atrás do paninho com elásticos, seja para murmurar, cantarolar ou rir de alguém, a máscara guarda a função de ocultar muito do que somos e fazemos.

Numa sociedade em que as pessoas se pautam em se mostrar fortes e maduras a todo tempo, esconder suas fraquezas e feições pode ser um ganho para alguns, que guardam desde a infância a reforçada ideia de que chorar, por exemplo, é sinal de embaraço e fragilidade.

Isso fala muito sobre nós, o que desemboca no fato de que a ocultação de parte considerável da face tem um significado próprio nas relações sociais, na forma como falamos uns com os outros pelas expressões não verbais e, sobretudo, na forma como expressamos o que sentimos.

Numa época em que o sentir se resume a um story ou a um número delimitado de caracteres – que acabam por ocultar a realidade da mão que posta e nem sempre sente o que representa -, tirar máscaras é se despir em público, expondo além do que se pretende, desocultando a privacidade que se queria guardar.

Para além da doença que tirou vidas e quebrou rotinas, se mascarar tem um fundo simbólico profundo, que leva ao questionamento interno: estamos prontos, enquanto sociedade, para nos livrarmos das tantas máscaras que acumulamos ao longo desses últimos anos, expondo francamente quem somos e o que sentimos dentro do caos social em que vivemos?
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Conviver com a ficção
19/03/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay
 
Tem gente que resolve mergulhar numa trama com o objetivo pontual de fugir da realidade, se permitindo ler um livro ou ver um filme sob o raso olhar que dissocia a trama do mundo factual. Decerto, tal leitura de uma obra não vai se desdobrar em debates ou reflexões sobre o que se quis dizer com certa cena, uma vez que se pautará apenas em “assistir por assistir” ou “ler por ler”.

Mas a verdade é que as tantas camadas de uma obra de ficção podem ser acessadas a partir de uma breve comparação entre elas e o que está, por exemplo, nos jornais. Até a ficção fantástica possui correlação intrínseca com a realidade. Não porque os seres humanos ganharão super força ou habilidade de voar, mas porque a referência fundamental de qualquer ficcionista é a realidade humana.

Isso, por si só, é algo fácil de perceber.

Mais fácil ainda é notar que as ficções comprometidas com a dinâmica do mundo real criam um pacto com o leitor/espectador no sentido de não fugir do que se considera real, palpável aos seres humanos e seus sentimentos. Porque a ficção sempre traz um balanço entre o que vivemos e o que imaginamos e sentimos, demonstrando as humanidades de diversas formas numa linguagem metaforizada.

Diante disso, surge uma problematização pertinente: ao apresentar mazelas cotidianas, intolerância, discriminação ou qualquer forma de violência real ou simbólica, a obra de ficção estaria fazendo uma apologia ou apenas replicando o mundo real?

Depende. A forma como a ficção apresenta a realidade pode soar como elogio ou reprovação a depender do público a que se destina e do contexto em que a ação é colocada. Uma cena de agressão, por exemplo, pode gerar empatia e, por meio dela, reflexão sobre o que muitas pessoas sofrem cotidianamente, de modo a criar um paralelo com as vivências e com o que se conhece da sociedade.

A partir disso, é intrigante ouvir de algumas pessoas que o fato de um filme de cinco anos atrás – com a flagrante proposta de ser caricato – ter como personagem um vilão pedófilo é apologia ao abuso sexual de crianças, o que parece, no mínimo, ser um sério problema de interpretação ou de caráter – a menos que a ideia seja fazer marketing para que mais pessoas vejam o tal filme, o que, é claro, está ocorrendo.

Tal confusão, por mais estarrecedora que seja – gerando, inclusive, uma decisão autoritária de censurar o filme do Gentili – expõe a grave crise de realidade que vivemos. Isso porque acreditar nas narrativas vendidas como se realidade fossem provoca uma falsa percepção sobre o atual estado das coisas e, principalmente, confunde muitas pessoas sobre o que é fictício ou não, como se vivêssemos numa espécie de alucinação em que realidades paralelas se colidem, e o palpável, o que se vê na vida diária, fosse mera invencionice.

Nessas invencionices, o ódio e a intolerância se alastram, pois é ignorada a existência das violências e pressões geradas pela vida em sociedade, ampliando muitas formas de agressão por desconsiderar que alguns assuntos existem e precisam ser debatidos.

Isso se apresenta, por exemplo, numa comédia ridícula, e certas pessoas tentam flagrantemente abafar a vilanização de um pedófilo sob o discurso (falso) moralista de que se trata de uma apologia. Mas, se você notar, viver um conto de fadas pode ser uma apologia à completa ignorância sobre o que se passa fora do castelo encantado – no mundo real.

A verdade é que essa crise de realidade, entre tantos absurdos vividos – dos preços disparados às manifestações insanas do chefe do Executivo –, chega a tornar plausível questionar a ficção por apresentar algo que, aterradoramente, existe na realidade.

*Ronaldo Junior tem 25 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Artifici(re)alidade
12/03/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay
 
Levemente flexionado para baixo, o pescoço deixa pender a cabeça na direção da tela, que desequilibra o corpo para se colocar em reverência à informação virtualizada na palma da mão, que passa a ter em sua extremidade não apenas os dedos, como também uma entrada para outra dimensão.

Cercado pelo vazio da bolha construída ao seu redor, o indivíduo se autocentra na oportuna negação de olhar para o lado, preferindo se cegar com o brilho de sua própria reflexão – devidamente regulado de acordo com o ambiente por uma série de sensores.

E o ser humano – que é carne e espírito, mas também é perfil na rede social – constrói os mecanismos de sua constante transfiguração, dissolvendo a humanidade de si em pequenas experiências sócio-virtuais que se propõem a simular o mundo real.

Os escassos indivíduos ainda não curvados ao digital, estando alheios a tudo e passando por antissociais, abrem mão do ilusório processo socializador dessa realidade paralela, que foge ao simples abrir dos olhos, pois tais órgãos passam a ansiar por luz e palavras e áudios visuais que possam saciar a necessidade latente de viver fora de si.

Só que o digital se faz paulatinamente inevitável para o corpo, que se molda aos hábitos e gestos e trocas que se mostram mais facilmente à disposição, no conforto dos olhos e do passatempo oportuno – o que flexiona até mesmo os mais resistentes a se curvar.

Com isso, olhar para baixo e se perder nos pixels é visto como uma forma fácil de sair da realidade com o intuito de entrar em outra – mais volátil, talvez -, que tem como proposta ser extensão desta, de modo a projetar os elementos sensórios como se fossem naturais, enganando o cérebro para envolver seus hábitos e criar rotinas gatilhos desejos interpretações cercados pelo sentimento de fuga deste mundo – que pode ser livre, mas o é no cárcere das individualidades conflitantes.

E as informações que chegam, no estopim das notificações atrativas, são banalidade misturada com bulhufas, oportunidade plena de preencher o tédio com a necessidade inexistente de ver o mundo a partir de vozes que o desfragmentam. Tudo devidamente personalizado de acordo com a curtida deixada, com o conteúdo consumido nos dias an(in)teriores, para que o viajante de realidades paralelas se sinta identificado com o que lê, disposto a passar horas naquele ambiente controlado pelo percentual da bateria e a intensidade do wi-fi.

Dia após dia, a sensibilidade humana, enganosamente engambelada pelas artificialidades criadas pelos próprios seres sensíveis, se deixa ser empacotada em uma carcaça robótica, perdendo sua natureza a partir disso, mas mantendo a essência oculta, intocada. Mesmo que a inventividade humana seja capaz de ir muito além desta realidade cartesiana, a artificialidade permanece falsa, por mais convincente que seja sua simulação de natureza.

Assim, a menos que a cabeça que pende sobre a tela perceba tal simulação e entenda que o pôr-do-sol não é uma foto do pôr-do-sol, a contemplação estará esfacelada no metaverso que se acredita realidade e se constrói na vontade humana – quase invencível – de fugir de si.
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Dicas amadoras para não ser um velho rabugento
05/03/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay
Antes de começar a ler, atente para um fato: as dicas são amadoras, sem nenhuma garantia de eficácia, uma vez que eu mesmo me ponho a falhar vergonhosamente todos os dias no quesito “não ser um velho rabugento”.

O que eu posso fazer é justamente pensar o que me faria menos velho (apesar de jovem) e menos rabugento e, com algum esforço, tentar colocar em prática os passos aqui expostos – sugiro que reflita, caso seja cabível para você também.

Primeiro, é importante dizer “sim” para quase tudo que aparece – digo “quase” porque há em mim uma rabugice encruada que não me permite essa completa liberdade, mas também porque é necessário manter princípios – pois acredito, já definindo um parâmetro, que não é desejável estar fechado para as oportunidades da vida.

Um bom velho rabugento é aquele que nega tudo – comida, saída, ligar a TV – e ainda fica balbuciando queixas contra tudo e contra todos que o cercam sem qualquer motivo aparente, o que faz parte de uma narrativa montada em sua própria mente para dizer que tudo ao seu redor não presta.

E isso me leva ao segundo ponto: é preferível calar ao invés de reclamar. Gente chata murmura pelos cantos, joga indireta, procura o defeito pra mostrar insatisfação. É preciso se afastar disso – e, se esse for seu caso, talvez você nem perceba que faz isso.

Terceiro, é bom saber a hora de parar de falar, porque nem sempre seu atento ouvinte quer saber daquela ótima história sobre o verão de quinze anos atrás – fosse possível, ele pegaria o controle e mudaria de canal, mas ele te ouve com um sorriso que questiona quando a história acaba.

Quarto, ser um bom leitor da realidade pode significar lucidez. Pessoas ranzinzas geralmente são cheias de teorias da conspiração, loucas para tirar do baú problemas que sequer afetam as pessoas mais obsessivas por problematizar tudo – como terraplanistas, monarquistas e até os caras que acreditam que a Xuxa fez um pacto obscuro.

Sem dúvidas, a realidade humana deve ser questionada a todo tempo. Isso é ter senso crítico e demonstrar posicionamento diante das questões. Mas, convenhamos, algumas pessoas criam teorias conspiratórias como se fosse um hobby, orbitando ao redor de assuntos completamente vagos apenas por distração – nada contra, já que todos temos nossas formas de alienação por conveniência.

Quinto, pra fechar, não seja a nostalgia em pessoa. Relembrar o passado é bom, sentir saudade de pessoas e momentos é humano, mas viver disso poder ser insuportável – pra quem fala e pra quem ouve. Portanto, viva o hoje e deixe as fotos guardadas na gaveta ou na galeria do computador. Decerto é mais pertinente a saudade do que ainda não foi vivido, capaz de construir novos momentos para se ter saudade no futuro.

Diante dessas dicas básicas – que servem apenas para nortear a mim e ao leitor no cotidiano -, fico pensando se não seria um sinal de rabugice tentar criar manuais para tudo. Talvez seja minha grande contradição, que demonstra a ironia presente nesses manuais de desutilidades, que mais servem como pitaco do que como instruções pragmáticas.

Como vivo, porém, de contrariar meus próprios conselhos, vou pedir aos que me cercam pra controlar o jovem-velho rabugento que há em mim com base nessas dicas, que eu, aliás, já esqueci nessas últimas linhas – a menos que seja pra dançar música eletrônica em uma festa, afinal, já não tenho mais idade pra isso.
 
 
*Esta crônica faz parte da série “Manual de desutilidades”, que tem como finalidade trazer reflexões críticas sobre questões cotidianas, brincando com o pragmatismo dos manuais de instruções – mas sem a pretensão de instruir ninguém.

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Tamanho único
26/02/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay
Sob o manto de uma igualdade que só reafirma as diferenças, os seres e discursos e modos de vida são podados, limados, até alcançar a simetria mercadológica que permite o amplo controle humano, um a um, dentro das curvas de oferta e demanda.

Consome-se o tempo, a realidade, a vontade, o corpo, a fome, a culpa, o planeta. Consumir para não ser consumido dentro dos padrões inalcançáveis das fotos instagramadas.

Na prateleira do comercial televisivo, brota uma vontade no sofá que leva a mão ao celular, alcança o comodismo da entrega sob a ilusão da economia de um cupom que tabela o preço do produto e fecha o ciclo da compra facilitada com o consumidor confortável. Tudo no trabalho incansável de quem sua para manter o conforto de outros, alimentando a máquina que mói mão a mão no dia que não passa.

Produtos: enquanto parafusos que fixam a engrenagem ao eixo, cada consumidor é usado até o fim enquanto crê estar usando o que, na verdade, ceifa a natureza do ato de existir. Passo a passo, é necessário algo novo para passar o tempo que não cessa – até ser preciso um novo consumir ou mesmo um novo consumidor. O novo é o agora que se quer na necessidade que se cria a partir do passado que se descarta para obter outro idêntico, mas com embalagem novíssima.

Assim, moramos e vestimos e assistimos e lemos e sentimos e viajamos e seguimos na rede social com base em um padrão imperceptível que leva a crer que cada decisão é personalizadamente única – perdida na multidão de decisões igualmente direcionadas por um único gesto, uma única aparição midiática.

Nessa lógica de consumo, o ser humano nasce programado para extrair cada benefício de tudo ao redor ou jogar fora para trocar quando valer mais a pena, o que cada indivíduo projeta em suas próprias relações – com os outros, com os produtos e com o planeta e seus recursos. Mas ninguém nota que não será possível consumir até o fim sem, antes, ser consumido pela escassez inobservada.

Isso porque não se percebe – os sinais são inúmeros, mas os olhares, não – que a lógica predatória do consumo carrega consigo o próprio gesto impetuoso de tirar o ar o chão a terra a comida e a própria mão que clica no carrinho do aplicativo do celular, pois, na ausência de uma, haverá outra mão interessada em clicar.

E as necessidades e desejos se correlacionam: o prazer leva à doença, que leva ao remédio, que leva a um novo hábito guiado por outros desejos e necessidades artificiais, num ciclo que se fecha se renova mês a mês no saldo da conta-salário.

No acordar de cada hora para fazer dia, há trabalho e consumo e consumo de trabalho para valer a pena o que se gasta fazendo tudo ficar igual – e necessário - para cada mente que conecta sinapses de prazer a cada “blip” do celular.

Assim é a experiência personalizada: humanidade homogênea sob a dinâmica que só evidencia e aprofunda as desigualdades de quem ainda não percebeu seu papel na lógica das experiências uniformizadas.
 
*Ronaldo Junior tem 25 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Sobre o autor

Ronaldo Junior

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Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.