É bonito ser de esquerda no Instagram
Ronaldo Junior 12/09/2026 20:40 - Atualizado em 12/09/2026 20:40

Imagem gerada por inteligência artificial.


Admirar alguém que luta por seus princípios e ideologias com clareza e honestidade intelectual é um deleite - claro que não estou falando de quem defende violência, desinformação ou cerceamento de direitos alheios. Mas o foco deste texto não é exatamente pensar no mundo perfeito da quase inalcançável coerência humana.

Aqui, quero pensar naqueles que oscilam, indo de um lado para o outro na grande gangorra do falar e não praticar. Esses merecem um olhar especial, pois se camuflam, vestindo camisas e cantando canções de liberdade enquanto não tiram os olhos do próprio umbigo.

Nos stories, bater em Flávios e Tarcísios e Castros e Jaires pode demonstrar uma clareza e tanto. Defender o fim da escala seis por um num carrossel argumentativo pode até ser um ato de cidadania. Fazer live numa manifestação pelo direito dos professores pode ser um ato de coragem. Falar em prol de minorias sociais pode até ser um sinal de respeito.

Mas, quando o discurso e a prática são incompatíveis, assume-se o risco de favorecer tacitamente tudo que é combatido nas redes sociais. Isso porque as injustiças exercem um forte poder coercitivo. Elas estão entranhadas em nós e acabam sendo praticadas mesmo enquanto fazemos os discursos mais altruístas.

O problema, penso eu, existe quando a diferença entre uma pessoa de esquerda e outra de direita se resume unicamente ao número que aperta na urna eletrônica - sim, aquela, segura e auditável. Esse número, clicado antes de ouvir o famoso "piriririri", pode até fazer diferença, mas, na prática, nada muda.

É preciso um olhar de autocrítica para compreender seu papel no mundo e o impacto que seus atos possuem dentro da ideologia que você professa.

Não adianta ser patrão de esquerda e torcer o nariz para o funcionário que cobra um direito legítimo. Não faz sentido fazer caridade e pensar que o outro existe para te servir. Não ecoa o grito por justiça daquele que ofende outrem quando ninguém está olhando. Não para em pé o professor que prega Paulo Freire e age como dono da verdade.

Desses seres que vivem da rasa aparência do progressismo eu quero distância, pois jamais estaremos nas mesmas trincheiras.


*Ronaldo Junior nasceu em março de 1996 no Rio de Janeiro/RJ. É professor, escritor e atual presidente da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com

Escreve no blog Extravio.

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    Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.