Isso visto ao longe dá a impressão de que o calor que escalda a tarde se materializa em desespero, correria e olhares curiosos para postar o fogo que se alastra e deixa casas sem luz sem internet sem perspectiva de não queimar ao meio-dia enquanto as sirenes chegam varadas.
A especulação sobre o início do fogo é dispersa e abstrata. A maioria só quer ver queimar. Poucos são os que se perguntam, ao sentir o calor no vento, como aquilo aconteceu numa esquina em frente à funerária numa tarde aleatória do começo de abril.
Vai ter quem diga que começara do nada, simplesmente pegara fogo. Outros dirão que tudo começara com uma guimba lançada na lixeira afixada no poste. No entanto, a explicação mais curiosa parte justo de um homem que esperava o ônibus perto da calçada em chamas.
Diz ter visto um menino que passara ileso por baixo dos fios, com a nítida expressão de quem encontra uma ideia que casa perfeitamente com suas expectativas, abrindo um sorriso repentino por simplesmente pensar, deixando um rastro – faísca que se esvai em chamas -, exigindo o auxílio imediato dos bombeiros.
Uma epifania? Não é possível que uma simples ideia cause tamanho estrago – questionam, estarrecidos, os que se forçam a viver com os pés fincados no chão.
Nefelibata, o menino passante combustionava ideias em plena luz do dia.
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Sobre o autor
Ronaldo Junior
[email protected]Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.