Melodia de despertar
13/05/2022 | 10h59
Foto: Ana Paula Lopes
A luz entrava em penumbra pela fresta deixada na cortina do quarto, e todos ainda dormiam prostradamente – o casal e a pequena Yorkshire com um ano de amabilidade recém-completado.

Numa repentina vibração, a tela do celular se acendeu e começou a tocar uma ligeiramente aguda e repetitiva melodia acompanhada pela trepidação do aparelho apoiado na mesa de cabeceira.

Com isso, arregalaram-se as duas pequenas jabuticabas da cadelinha Jolie, que se encontrava delicadamente espalhada no meio do edredom. A questão era que a música – incapaz de despertar o casal de imediato – causava na pequena uma euforia inquietante, com pulos e lambidas e leves impulsos com a pata dianteira para acordar seus humanos.

Eles, sonolentos pelo excesso de trabalho que varara madrugada adentro, acabaram por acordar com a alegria do entusiasmo de Jolie, incapaz de conter os impulsos diante daquela música. Ela pulava pelo edredom e lambia a mão, o braço e o rosto deles, alternando a euforia entre um e outro até que alguém acordasse e fizesse cessar o som e a animação.

As horas passavam com a exatidão pontual de sempre, e Jolie se detinha em sua pequena cama, no sofá da sala ou mesmo brincando com seus humanos, mas sempre a melodia tornava a ecoar pelo ambiente – por qualquer ligação ou alarme -, trazendo novamente à tona a euforia da Yorkshire.

Nada a deixava tão feliz e inquieta, apenas a melodia – e banana, é claro. Aquela atitude, além de amável, era também digna de curiosidade: por que nenhuma outra melodia a deixava tão feliz? Seria necessário fazer experiências musicais a fim de descobrir.

Tentaram Chico Buarque, Tom Jobim, mas nenhuma reação surgia. Resolveram ouvir Marcelo D2, Paulinho Moska e Lenine, mas nada: ela dormia, inalterável. Chegaram até a se expor aos extremos pelo bem da experiência, indo do pagode ao heavy metal, mas somente a melodia do toque padrão do celular tinha tão peculiar efeito.

Então os humanos – esses seres esfaimados pela explicação e pela utilidade de tudo – resolveram ir mais a fundo, levando a tal melodia para um entendedor de música a fim de tentar desvendar o mistério.

Junto com eles, a pequena Jolie deu ao musicista – um humano que a fazia tremer de medo, uma vez que não convivia com ela - sua demonstração de afeto melódico enquanto ele ouvia atentamente aquela música que nada tinha de especial.

Ele até tentou explicar, apontando aspectos sonoros capazes de despertar tanta alegria na cachorrinha, como algumas notas agudas e o ritmo. Mas não conseguia dizer o porquê de outros sons similares não despertarem suas emoções.

Chegou a dizer que lera estudos sobre a relação entre a música clássica e o estado de relaxamento dos cães, mas, definitivamente, não era o caso: era exatamente o contrário, uma música causadora de euforia.

A questão, Jolie guardava para si, estava muito distante dos estudos feitos e das rasas explicações humanas. Aquela música, todos os dias executada, despertava nela uma reação performática incontível, e ela precisava expressar – performar – muitos sentimentos com sua euforia.

Tudo porque aquela fora a primeira música ouvida na manhã seguinte ao dia em que seus humanos a levaram para casa, na noite do dia dezesseis de dezembro.

A melodia era seu hino de descoberta do mundo a partir da nova família. Algo inefável para os humanos, mas simplesmente exprimível em sua espontaneidade.
 
*Conto publicado originalmente na antologia virtual “Meu amigo bicho” (2021), organizada por Welington Cordeiro e Cristiano Pluhar, com a colaboração de diversos autores.
**Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Escreve aos sábados no blog Extravio.
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Descaminho
19/01/2022 | 11h00
Centro de Campos dos Goytacazes, foto de 2018.
Centro de Campos dos Goytacazes, foto de 2018. / Ronaldo Junior
Não havendo paralelismo que encontrasse, ele firmava suas posições no cruzamento de realidades, na predisposição a incertezas e na crueza repentina das relações espontâneas.

Suas saídas cotidianas e intempestivas faziam de seu silêncio um esclarecimento sobre a personalidade abrupta que o dominava: buscava capturar momentos com a câmera de seu celular a fim de desenredar o que havia por trás dos transeuntes que faziam as horas úteis do Calçadão em seu ir e vir.

A mulher cheia de sacolas carregava o filho, aos tropeções, pelo braço. O vendedor gritava suas ofertas ao vento enquanto passava com seu passo pesado. O engravatado, cara amarrada, caminhava relutante sob o sol. O casal carregava, um de cada lado, a TV de 55 polegadas. A mulher, saltos ritmados na pedra portuguesa, caminhava lentamente até o banco.

Tudo acontecia na simultaneidade das pressas guiadas pelo compasso cronológico que dissipava todo o movimento tão logo o sol se pusesse. E ele permanecia sentado no banco fingindo digitar em seu telefone enquanto fotografava os passantes. Uma vez, quase tivera sua atuação descoberta quando um homem de meia idade – frequentador habitual da área – perguntara, do nada, o que ele fazia com a câmera aberta.

Mas uma desculpa qualquer bastara, sem maiores repercussões.

Chegava em casa após um dia inteiro de fotos de pessoas aleatórias para abrir uma a uma na tela do computador e criar narrativas – factuais? – sobre a vida das pessoas que por ele passaram ao longo do dia.

Preenchia sua realidade com ficções alheias, pois, saindo de si, era muitos. Não tinha nome que limitasse suas possibilidades, preenchendo-se dos que por ele passavam ao longo de tardes inteiras cercado por ruídos e cheiros e acontecimentos repentinos que tomavam sua atenção no relance do centro da cidade.

Em seu solitário perfil na rede social, alimentava-se de postar algumas das fotos com legendas que recriavam o inimaginável: mazelas, desejos, histórias pregressas e até genealogias epopeicas eram atributos dos personagens desconhecidos percorridos por sua aflição de viver vidas outras.

Flâneur da virtualidade, deixava-se vagar por outras vivências no passatempo de extraviar a sua própria pelos caminhos. Na multidão digital, encontrava sua extensão a perscrutar certezas pendulares na recusa plena de estar só.

De nada adiantava segui-lo. Seus rastros eram insuficientes para guiar um mero curioso pelo labirinto de seus pensamentos, pois cada elemento de sua personalidade fora esquartejado e espalhado categoricamente pelos cantos da cidade, na sola dos sapatos e na atenção dispersa dos passantes que não o percebem.

*Ronaldo Junior tem 25 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Escreve aos sábados no blog Extravio.
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Sobre o autor

Ronaldo Junior

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Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.