Vida sebastiana
18/06/2022 | 02h35
Fonte: Pixabay.
 
O primeiro passo para a frustração, você já deve saber, é criar expectativa sobre algo. Alimentar esperanças sobre o que se deseja pode ter repercussões danosas por uma vida inteira.

Sebastião, por exemplo, nunca se ligou nisso. Passou toda sua trajetória esperando reconhecimento da mãe por seus feitos na escola e no trabalho. Chegou recentemente ao doutorado ouvindo não fez mais que a obrigação.

E essa postura esperançosa sobre as coisas fez dele um ranzinza diante de surpresas nada surpreendentes: esperava que o prato do restaurante chegasse quente – tolice -, esperava que o amigo pagasse o empréstimo devido – coitado -, projetava uma tarde de domingo divertida toda semana – mas sempre dormia.

Sua esperança chegava a dar dó principalmente em Patrícia, sua esposa, que padecia junto com Sebastião ao ver que ele sempre esperava mais do que seria entregue – até quando o contrário era óbvio.

Ele fazia questão, por segurança, de tomar as mesmas atitudes e se frustrar com os mesmos resultados todos os dias.

Alguns tópicos, porém, deixavam Sebastião irritado. Quando falavam de política, por exemplo, ele tinha até um discurso decorado: sempre estava cansado de tanta corrupção e roubalheira, que precisava de alguém comprometido com a moralidade da nação.

Nesse caso, a ilusão do nosso personagem estava em pensar que o político deveria ser um sujeito escolhido divinamente para assumir o poder - e não uma pessoa gestada e escolhida como um reflexo da sociedade ao seu redor.

E veja só a curiosa expectativa criada por ele: em 2018, resolveu apostar suas fichas em um político com quase trinta anos de estrada – sem um único feito relevante em sua vida pública – acreditando que ele faria relevantes trabalhos ao sair do Legislativo para se tornar presidente.

Diferente de Sebastião, eu não criarei nenhuma expectativa quanto a você, leitor(a), e sinceramente não vou ficar esperando que você chegue a este ponto do texto.

Mas, sem querer me iludir, deixo aqui a questão: você realmente ainda acha que os problemas atuais do país são culpa de um governo que está fora do poder há cerca de seis anos e que o governante atual faria algum milagre para sairmos do buraco econômico, social e sanitário?

Sendo a resposta positiva, vale rever o quão Sebastião você tem sido.
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Escreve aos sábados no blog Extravio.
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Biscoitagem
30/04/2022 | 12h29
Fazer e postar – um movimento sincronizado tão curioso quanto incômodo.

Eu sempre achei esquisita a relação obsessiva das pessoas com as redes sociais – o que se aplica também a mim -, sobretudo ao conhecer pessoalmente quem está por trás de determinados perfis.

Já gargalhei com perfis cômicos de amigos virtuais, repletos de memes engraçadíssimos – sim, meu senso de humor não é muito exigente -, e descobri depois que o administrador era um cara completamente sem graça e introvertido. Timidez ou dupla personalidade? Vai saber.

Por outro lado, para além das pessoas que viram personagens caricatos nas redes, eu fico abismado quando vejo aqueles que postam absolutamente tudo: do aniversário do cachorro ao cachorro quente na praça, nada passa sem um registro nos stories.

Neste exato instante, por exemplo, estou numa cafeteria presenciando alguém fotografar seus solitários (apesar de unidos) três pães de queijo antes de comê-los solitariamente – um like ou um emoji de coração pode, certamente, preencher esse vazio que a comida não conseguiu alcançar.

Essas pessoas, decerto, têm um dom único para criar conteúdo – desinteressante, claro -, mas expõem uma mesquinha característica humana ao querer virar os holofotes para si: a de não controlar o ego.

Se as celebridades, que costumam gerar curiosidade sobre tudo que fazem, já forçam a barra para criar conteúdo 24 horas por dia, imagina o seu amigo de trabalho, que tira foto da marmita dele todos os dias antes de almoçar? Ele pode estar indo longe demais sobre sua autoimagem.

Será um amor próprio sem limites ou uma tentativa de se fazer interessante forçosamente? Talvez nem um, nem outro. Pode ser que ele só queira se sentir menos sozinho, receber uma reação genérica e, como dizem, ganhar um biscoito.

A lista de motivos para a carência biscoital é imensa, mas o meu interesse se volta especialmente para as ideias. Por exemplo: de onde uma pessoa que posta opiniões a cada quinze minutos no Twitter tira tanta bobagem? Navegar por alguns minutos nas aleatoriedades do microblog me deixa pasmo ao ver que as pessoas têm muitas razões para se expressar – e uma criatividade que vai além do limite de caracteres.

Aliás, quem dá importância para tanta opinião lançada na internet? Esta minha, como se pode ver, não importa nada, mas exemplifica muito bem o ponto aqui colocado.

Essas ideias e opiniões devem vir de onde surgem os tantos memes dos perfis administrados por usuários introvertidos: da vontade de parecer alguém que não são. Mais impressionante ainda é conseguirem fazer as bobagens parecerem coisas relevantes.

Nota: quase tirei uma foto da cena do pão de queijo para ilustrar esse texto, mas aí já seria um biscoito extra pra pessoa da mesa ao lado.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Desmascarar
25/03/2022 | 04h53
Fonte: Pixabay
Por trás do pano, a vaga lembrança de quando o costume era manifestar as emoções com traços faciais e dizer, muito além da fala e dos gestos corporais, um sem número de coisas – do deboche ao consentimento.

A pandemia tirou muito de nós, ceifando vidas e oprimindo liberdades, o que se apresenta não apenas com o isolamento social, mas também com a necessidade do uso de máscaras, que acaba isolando as pessoas em si próprias, ocultadas por seus paninhos de nariz e boca.

Este texto, claro, fala de quem usa máscaras. Quem não usa – nem agora nem antes – já é absolutamente descrente da gravidade da doença e do momento pandêmico.

Como muitas outras pessoas, ainda mantenho o costume de usar máscara – sobretudo em lugares fechados - por não sentir essa segurança plena que estão pregando por aí. Mas admito, claro, que sinto a diferença dos tempos e percebo que vivemos um novo momento de transição.

Nada disso de “novo normal” ou qualquer outra nomeação pasteurizada. Acredito que esse negócio de normal já é discutível por si só, mas não é o foco daqui. Fico com o fato de que certos hábitos acabam sendo mais fortes do que as exigências da rotina, não estando necessariamente aptos a ser banidos de forma abrupta.

As incômodas máscaras são um deles. Fazem parte de uma rotina cristalizada – da qual queremos, acredito, nos livrar enervadamente – que gerou uma série de dificuldades e comodismos muito próprios.

As dificuldades eu nem preciso mencionar – cada um tem a sua. Mas, entre os comodismos, decerto está a possibilidade de ocultar as emoções ao se esconder atrás do paninho com elásticos, seja para murmurar, cantarolar ou rir de alguém, a máscara guarda a função de ocultar muito do que somos e fazemos.

Numa sociedade em que as pessoas se pautam em se mostrar fortes e maduras a todo tempo, esconder suas fraquezas e feições pode ser um ganho para alguns, que guardam desde a infância a reforçada ideia de que chorar, por exemplo, é sinal de embaraço e fragilidade.

Isso fala muito sobre nós, o que desemboca no fato de que a ocultação de parte considerável da face tem um significado próprio nas relações sociais, na forma como falamos uns com os outros pelas expressões não verbais e, sobretudo, na forma como expressamos o que sentimos.

Numa época em que o sentir se resume a um story ou a um número delimitado de caracteres – que acabam por ocultar a realidade da mão que posta e nem sempre sente o que representa -, tirar máscaras é se despir em público, expondo além do que se pretende, desocultando a privacidade que se queria guardar.

Para além da doença que tirou vidas e quebrou rotinas, se mascarar tem um fundo simbólico profundo, que leva ao questionamento interno: estamos prontos, enquanto sociedade, para nos livrarmos das tantas máscaras que acumulamos ao longo desses últimos anos, expondo francamente quem somos e o que sentimos dentro do caos social em que vivemos?
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Conviver com a ficção
18/03/2022 | 10h31
Fonte: Pixabay
 
Tem gente que resolve mergulhar numa trama com o objetivo pontual de fugir da realidade, se permitindo ler um livro ou ver um filme sob o raso olhar que dissocia a trama do mundo factual. Decerto, tal leitura de uma obra não vai se desdobrar em debates ou reflexões sobre o que se quis dizer com certa cena, uma vez que se pautará apenas em “assistir por assistir” ou “ler por ler”.

Mas a verdade é que as tantas camadas de uma obra de ficção podem ser acessadas a partir de uma breve comparação entre elas e o que está, por exemplo, nos jornais. Até a ficção fantástica possui correlação intrínseca com a realidade. Não porque os seres humanos ganharão super força ou habilidade de voar, mas porque a referência fundamental de qualquer ficcionista é a realidade humana.

Isso, por si só, é algo fácil de perceber.

Mais fácil ainda é notar que as ficções comprometidas com a dinâmica do mundo real criam um pacto com o leitor/espectador no sentido de não fugir do que se considera real, palpável aos seres humanos e seus sentimentos. Porque a ficção sempre traz um balanço entre o que vivemos e o que imaginamos e sentimos, demonstrando as humanidades de diversas formas numa linguagem metaforizada.

Diante disso, surge uma problematização pertinente: ao apresentar mazelas cotidianas, intolerância, discriminação ou qualquer forma de violência real ou simbólica, a obra de ficção estaria fazendo uma apologia ou apenas replicando o mundo real?

Depende. A forma como a ficção apresenta a realidade pode soar como elogio ou reprovação a depender do público a que se destina e do contexto em que a ação é colocada. Uma cena de agressão, por exemplo, pode gerar empatia e, por meio dela, reflexão sobre o que muitas pessoas sofrem cotidianamente, de modo a criar um paralelo com as vivências e com o que se conhece da sociedade.

A partir disso, é intrigante ouvir de algumas pessoas que o fato de um filme de cinco anos atrás – com a flagrante proposta de ser caricato – ter como personagem um vilão pedófilo é apologia ao abuso sexual de crianças, o que parece, no mínimo, ser um sério problema de interpretação ou de caráter – a menos que a ideia seja fazer marketing para que mais pessoas vejam o tal filme, o que, é claro, está ocorrendo.

Tal confusão, por mais estarrecedora que seja – gerando, inclusive, uma decisão autoritária de censurar o filme do Gentili – expõe a grave crise de realidade que vivemos. Isso porque acreditar nas narrativas vendidas como se realidade fossem provoca uma falsa percepção sobre o atual estado das coisas e, principalmente, confunde muitas pessoas sobre o que é fictício ou não, como se vivêssemos numa espécie de alucinação em que realidades paralelas se colidem, e o palpável, o que se vê na vida diária, fosse mera invencionice.

Nessas invencionices, o ódio e a intolerância se alastram, pois é ignorada a existência das violências e pressões geradas pela vida em sociedade, ampliando muitas formas de agressão por desconsiderar que alguns assuntos existem e precisam ser debatidos.

Isso se apresenta, por exemplo, numa comédia ridícula, e certas pessoas tentam flagrantemente abafar a vilanização de um pedófilo sob o discurso (falso) moralista de que se trata de uma apologia. Mas, se você notar, viver um conto de fadas pode ser uma apologia à completa ignorância sobre o que se passa fora do castelo encantado – no mundo real.

A verdade é que essa crise de realidade, entre tantos absurdos vividos – dos preços disparados às manifestações insanas do chefe do Executivo –, chega a tornar plausível questionar a ficção por apresentar algo que, aterradoramente, existe na realidade.

*Ronaldo Junior tem 25 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Escreve aos sábados no blog Extravio.
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Por que a Semana não terminou?
17/02/2022 | 10h06
Um movimento artístico, ao contrastar com o anterior, causa estranhamento, repulsa e até comentários raivosos de quem não aceita as tendências estéticas e os valores sociais de determinado recorte temporal.

Com a Semana de 22 não foi diferente, existindo apoiadores, odiadores – ou haters, no estrangeirismo forçado das redes sociais – e também aqueles que sequer compreendiam o que estavam presenciando, diante de um movimento explicitamente elitista e voltado para os principais centros urbanos do país.

Capa da primeira revista Horizonte 22 (1954)
Capa da primeira revista Horizonte 22 (1954) / Ronaldo Junior
Tais características ficam demonstradas a partir da demorada disseminação do modernismo pelo interior do Brasil, sendo seu impacto notado sobretudo nas capitais de alguns estados, onde publicações e informações chegavam mais rapidamente.

Campos, por exemplo, só teve seu marco modernista em 1954, capitaneado por nomes como Mário Newton Filho, Genaro de Vasconcelos, Vilmar Rangel e Oswaldo Martins, num periódico publicado sob o título “Horizonte 22” (LEIA AQUI), que contou com seis edições ilustradas. A revista era organizada pelo Clube de Poesia de Campos, fundado em março daquele ano enquanto associação de poetas que compartilhavam de ideais próximos.


Como diz a apresentação do primeiro volume da revista “Horizonte 22”, escrita por Genaro, "assim lembramos o movimento renovador da Semana de Arte Moderna e procuramos honrar todos aquêles que, em terras do Brasil, buscaram, na primeira fase do Modernismo, novos caminhos para a Poesia e a Estética."

Tal renovação estética encontrou dificuldades entre os artistas campistas, o que fica claro com a publicação da revista “Paralelo 38” – lançada ainda no ano de 1954 para fazer frente ao movimento de vanguarda representado pela revista “Horizonte 22” -, com vertente explicitamente passadista, para usar um termo com que os modernistas se referiam a movimentos anteriores. Nessa revista, que contou com um único volume (LEIA AQUI), apareceram nomes como Pedro Batista Manhães, Gercy Pinheiro e Pedro Caputti.

Tal resistência às novas tendências, claro, tem como função zelar pela tradição literária anterior, mas também funciona como uma barreira que chega a dificultar o surgimento de movimentos de vanguarda no município ainda nos dias atuais – quando, em diversos lugares, já se fala em “pós-modernismo”, em nítida contradição com tais entraves existentes ainda hoje.

Tanto é que textos com padrões métricos, rímicos e formas fixas ainda preponderam na expressão literária local, em criações voltadas para a trova e para o soneto, em poemas quase invariavelmente colocados em forminhas fechadas, bem quadradinhas. A questão, porém, vai muito além das formas e dos recursos poéticos: é perceptível, ao olharmos para grupos de escritores institucionalizados, o passadismo temático, espiritual, a negação completa das novas vertentes e até a negação dos movimentos que se apresentam como livres e inovadores.

Diante disso, ao meu ver, Campos é um exemplo entre inúmeros outros municípios brasileiros que aparentam não ter rompido com tendências passadistas, não tendo sido factualmente alcançados pelo modernismo em suas tantas fases.

Como eu disse acima, esse é um olhar voltado para as instituições campistas – como as academias de letras e outras uniões de escritores, que concentram apenas uma ou outra voz que representa a vanguarda literária -, mas é preciso, sim, dizer que existe um movimento individual considerável no sentido de romper com o academicismo e com a escrita que se prende em conceituações e regularidades formais dentro do município de Campos.

O fato de esse movimento ser individualista – ou por esses escritores não encontrarem representação nas instituições ou por se alimentarem do sentimento exclusivista dos nossos tempos – prejudica a construção de um panorama artístico geral, uma vez que as tantas vozes que representam o modernismo campista se encontram dispersas, espalhadas em publicações individuais que muitas vezes sequer chegam a se apresentar em eventos literários locais e nem sempre aparecem na mídia do município, considerando o fato de estarem dissipadas.

Trata-se, pois, de uma contradição curiosa: uma associação poética – o Clube de Poesia de Campos - fez surgir o modernismo campista, e a barreira que se encontra nos dias atuais é justamente a desassociação de tais poetas vanguardistas. A lacuna, talvez, reside na necessidade de termos uma Semana de Arte Moderna própria, para concentrar tais artistas e fazer com que todos pensem e critiquem e criem com base na estética de seu tempo. Como questionou meu caro amigo Carlos Augusto Alencar, não seria o Festival Doces Palavras (FDP) a Semana de Arte Moderna campista? Vale a reflexão.

Capa da revista Paralelo 38 (1954)
Capa da revista Paralelo 38 (1954) / Ronaldo Junior


A referida desassociação gera o fortalecimento, em compensação, de associações que, por tradição, acabam por prezar mais pelo passadismo do que pela vanguarda. E as vozes modernas de Campos se perdem pela dispersão, reclusas e individuais que são. Por outro lado, isso também gera uma dificuldade de aceitação social da arte moderna, já que os autores nem sempre encontram leitores que apreciem a beleza de sua imperfeição formal ou de sua liberdade criativa, já que o “mais bonito” é o mais certinho, é o simétrico, o rimado.



A questão que incomoda é o fato de, ainda hoje, haver tanta relutância em aceitar e valorizar determinados movimentos artísticos. Tanto que acredito que Anita Malfatti, se pintasse nos nossos dias, veria muitos narizes torcidos para seus homens amarelos e que Mário de Andrade talvez sequer conseguisse encontrar uma editora que aceitasse publicar “Macunaíma”. Manuel Bandeira, coitado, talvez só conseguisse ter seu poema “Os sapos” recitado em encontros íntimos com poucos amigos. Tudo isso sob a crítica raivosa de inúmeros Monteiros Lobatos conservadores – que se proliferam em qualquer tempo.

Isso faz com que o modernismo, no meu entender, se apresente em ciclos que mesclam o passadismo com nuances de vanguarda – muitas vezes tímida – no panorama do que se publica contemporaneamente, não havendo, pelo menos em Campos, um período a partir do qual podemos dizer que entrou em vigor o modernismo na literatura.
Há que se considerar, porém, que todo movimento carrega traços do passado consigo, de modo que o modernismo funciona como uma gama de expressões que mesclam, por exemplo, os versos livres e brancos de Manuel Bandeira com os sonetos rimados de Vinicius de Moraes, sendo cabível a liberdade expressiva e criativa que dá margem a formas fixas ou não – pois vai muito além disso, tendo a ver com a plena liberdade de expressão literária.
A questão, talvez, pode ser resumida no espírito com que as criações são concebidas, pois é nítida a diferença entre romper e compactuar com determinado estilo pelo tema e pelas ideias debatidas em um texto, não havendo espaço para o sentimento que se fecha na contagem de sílabas métricas e deixa de libertar-se pela sonoridade vocabular por não concordar com o significado denotativo de uma palavra – com esses ideais, comecei a escrever poesia, tendo “Poética”, de Manuel Bandeira, como lema da minha criação desde então.

Para fins de conclusão – deste debate inconcluível -, digo que, enquanto os escritores não experimentarem a inquietação livre de Ferreira Gullar - que, em “A luta corporal” (1954), chegou a romper com a simples formação das palavras na escrita do poema – e se mantiverem sob a mesmice pacífica das formas perfeitas, a Semana não terá acabado, mesmo cem anos depois.
 
 
*Ronaldo Junior tem 25 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com

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O rio que não se nota
03/02/2022 | 02h09
Foto: Ronaldo Lobão (@ronaldolobao)
Sobre a ponte, olhos à frente ou no celular, aquele é mais um pedaço de rua que liga um a outro lugar, não havendo curiosidade pela janela que incite mover os olhos desatentos no curto percurso feito de carro, a pé ou de bicicleta.

Notada ou não, a vastidão movediça das águas esteve sempre ali, a segregar a cidade, a deslocar as distâncias, a cortar ao meio a malha urbana que se formara paulatinamente ao redor. Cercado de prédios e ruas e árvores, o rio permanece oculto em suas margens, gigante não notado a habitar silenciosamente cada rotina.

Com isso, o imenso flume é apenas paisagem – mais um elemento a servir de referência nas localizações endereçadas. Numa vivência mais interessada, vai além: o Paraíba é sustento do pescador, esporte pro remador, diversão pro saltador.

O porém fica para as exceções: o acúmulo de água a espremer o rio pelas margens faz dele um evento. Deixa de ser paisagem para ser especulação. Novidade que movimenta o buchicho de quem não encontra ocupação mais interessante e vai para a beira-rio assistir à cheia do Paraíba.

Apoiados no dique ou mesmo espalhados pela calçada, os olhos curiosos passam a ver o que talvez nunca tenham notado, filmando o rio para compartilhar nas redes sociais e chamar ainda mais atenção para os acontecimentos fluviais, na contemplação da estranheza, do que está prestes a acontecer no cais.

Ou seria a iminência dos desastres que provoca os comentários e faz do rio influenciador natural-digital enquanto famílias perdem suas casas e ruas são fechadas por alagamento? Fato é que, entre a beleza e o perigo, as pessoas querem manter os olhos fixos para ver algo acontecer, na expectativa de qualquer centímetro elevado desencadear o transbordo.

E os dias passam, o nível das águas retorna ao patamar da tranquilidade, e o Paraíba do Sul, que leva na correnteza lendas e acontecimentos e traços de cidades inteiras, volta ao esquecimento paisagístico para quem só o nota em tempos de cheia.

Texto escrito em 13 de janeiro de 2022
 
*Ronaldo Junior tem 25 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com

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Sobre o autor

Ronaldo Junior

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Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.