A metamorfose ambulante do carisma lulista: do sindicato à turminha do capital cultural
02/06/2022 | 11h09
Max Weber define o carisma como uma forma de autoridade baseada em qualidades extraordinárias que os adeptos atribuem a um líder político, religioso ou de qualquer outra esfera social. O ponto fundamental é que antes de ser algo possuído pelo líder, o carisma é algo atribuído pelo movimento carismático. Não existe líder carismático sem movimento carismático.
Lula é o mais importante exemplo de liderança carismática na política brasileira das últimas 4 décadas. Muitos estudos já foram feitos sobre a trajetória pessoal e política dele. Mas ainda não conheço um estudo sobre a trajetória do carisma lulista, ou seja, sobre as metamorfoses do movimento carismático responsável pela construção e duração deste carisma.
O ponto de partida para um estudo deste tipo deve ser o da pluralidade e sobreposição estratificada dos diferentes segmentos que compõem o movimento carismático. E deste ponto de partida decorre evidentemente a tese de que tanto o movimento como o carisma não permanecem estáticos: eles vão se transformando de acordo com a centralidade que certos grupos e classes sociais assumem no movimento e na atribuição das qualidades extraordinárias que constituem o carisma do líder.
Tendo por base esta reflexão, gostaria de esboçar um modelo hipotético sobre a trajetória do carisma lulista.
1) A primeira fase: Nas décadas de 1980 e 1990 o carisma lulista era a de um líder sindical que sabia defender com qualidades políticas extraordinárias os interesses dos setores organizados da classe trabalhadora, sejam estes da indústria ou do funcionalismo público. Sustentando este carisma havia um movimento sindical forte, que mesmo não sendo capaz de garantir vitória em eleições presidenciais, assegurava pelo menos 25% dos votos. Intelectuais e artistas participavam do movimento, mas não constituem um grupo definidor do carisma lulista.
2) A primeira metamorfose: Entre 2002 e 2010, durante seus mandatos presidenciais, ocorreu um realinhamento eleitoral em torno de Lula que também se verifica na estrutura do movimento carismático em torno de sua liderança: como fica claro nas eleições de 2006, a maioria dos pobres e dos setores desorganizados da classe trabalhadora passam a fazer parte não apenas do eleitorado, mas também do movimento carismático lulista. Lula deixa de ser apenas um líder carismático dos sindicatos para ser também um líder carismático do Brasil popular desorganizado, ocupando um espaço que lideranças como a de Brizola e Arraes já haviam ocupado. Este segundo momento é o mais pluralista e amplo na trajetória do movimento carismático lulista, cujo auge foi em 2010. No entorno mais próximo de Lula, ainda se encontram seus companheiros líderes sindicais. Mas é ao redor deles, em outro segmento, que vemos a grande força do movimento: o povão desorganizado que projeta em Lula não as qualidades de um líder sindical combativo e habilidoso, mas as virtudes de um homem do povo que já passou fome e que tem empatia e compromisso com os pobres.
3) Segunda metamorfose? Entre 2010 e 2018 o movimento carismático lulista viveu o processo mais difícil de todo movimento carismático: a sucessão do líder por outra pessoa e os riscos de encolhimento que isso pode trazer para o carisma do líder, empenhado no fracassado governo Dilma. O fracasso da sucessora de Lula criou problemas sérios para os elementos populares e desorganizados do lulismo. E como o governo Lula promoveu a maior desindustrialização da história brasileira, ele acabou também destruindo as bases sociais do elemento organizado/sindicalizado do movimento carismático. O sindicalismo hoje não representa nada no movimento lulista, assim como não representa no país. Com a volta da fome em massa e da miséria selvagem no governado Bolsonaro, Lula retorna com força. Mas o que isso indica para a composição de seu movimento carismático? A grande maioria dos pobres continua atribuindo a Lula qualidades extraordinárias no sentido de melhorar a vida do povo, da classe trabalhadora desorganizada, hoje jogada na mais selvagem informalidade. Trata-se, porém, de um carisma baseado na memória recente, e que pode ser abalado tanto pelo embate com outra memória recente - a tragédia Dilma - como pelas dificuldades de um eventual novo governo. Velho e claramente sem condições pessoais para os embates políticos que precisaria enfrentar para garantir o mínimo existencial para este público mais pobre, Lula corre o risco de perder rapidamente a principal base que resta a seu movimento carismático. Além dos pobres, o movimento carismático lulista conta hoje com um entorno mais próximo de artistas, intelectuais e ativistas de orientação identitária, como pudemos ver claramente no evento desta semana na PUC de São Paulo. Ao contrário dos antigos companheiros sindicalistas, este segmento da elite cultural detesta tudo que é popular, da música sertaneja ao pentecostalismo. Essa "turminha do capital cultural", para usar a expressão do cientista político Carlos Sávio Teixeira, pode redefinir o carisma de Lula em uma direção elitista e politicamente preocupante: em vez de ser o líder com qualidades extraordinárias para representar o povo organizado ou desorganizado, se atribui a Lula qualidades extraordinárias que parecem transformá-lo numa espécie de novo Chico Buarque, ou seja, um senhor refinado e com sensibilidade para os afetos e padrões de comportamento pessoal da classe média culta, mas sem apelo popular. É o Lula que dá protagonismo à esposa no palanque para não parecer o “tosco machista”; é o Lula que fala em comida vegana para não provocar desgosto em uma plateia que não consegue disfarçar sua condenação do gosto popular pelo churrasco. Mesmo a empatia de Lula com a pobreza ganha outro sentido nesta relação que o líder carismático mantém com seu círculo mais próximo, hoje constituído por essa “turminha do capital cultural”: agora não se trata de uma relação de empatia entre Lula e os pobres, mediada apenas pelo trabalho de difusão dos meios de comunicação de massa, mas sim de uma empatia de Lula com a “turminha do capital cultural”, cujo sentido é confirmar, para este público, seu próprio sentimento de superioridade moral por gostarem dos pobres e por estarem do “lado certo da história”. Evidência de que esta hipótese é correta foi o fato de que, no evento destinado à leitura de cartas enviadas a Lula durante o período em que esteve preso, o protagonismo maior foi assumido não pelos autores das cartas, mas pelos artistas que estavam ali para melhor interpretar o sentimento popular. Para essa parte culturalmente elitizada do movimento carismático lulista, o povo é apenas um pretexto. E se Lula continuar neste caminho corre o risco de ter seu exuberante carisma reduzido ao tamanho da importância que a “turminha do capital cultural” possui para o povão, que graças a Deus não é muita coisa.
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A Enel em Campos dos Goytacazes: violação de direitos e expectativa de impunidade
20/05/2022 | 11h36
As reclamações sobre o fornecimento de energia feito pela Enel se multiplicam em Campos e em muitas cidades do Estado do Rio de Janeiro. Interrupções diárias no fornecimento do serviço se tornaram rotina não apenas em localidades rurais distantes, mas também nos próprios centros urbanos. Ontem duas Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSF) da área urbana de Campos dos Goytacazes (Parque Rodoviário e Eldorado) tiveram que suspender a vacinação contra a Covid-19 e o calendário de rotina de vacinação da criança e do adolescente em razão de oscilações no fornecimento de energia elétrica. O mesmo aconteceu na localidade de Lagoa de Cima. A empresa, como sempre, atribui a responsabilidade aos ventos, externalizando para a natureza toda sua responsabilidade pela falta de manutenção da infraestrutura de energia elétrica, utilizada pelo poder público para o serviço de iluminação pública.
Evidentemente que os fortes ventos podem ser a causa de muitos incidentes que levam à interrupção de energia. Mas basta observar com um pouco de atenção a infraestrutura de postes de muitas localidades para constatar que o efeito da natureza recebe a colaboração da própria Enel que decide não fazer a manutenção dos postes, muitos dos quais em estado de evidente putrefação. É esta situação que se pode observar na localidade de Pião, no distrito de Morro de Coco, município de Campos dos Goytacazes. Os moradores desta localidade relataram a este blogueiro que existem pelo menos 6 postes neste estado de putrefação alocados ao lado de residências ao longo da rua principal da localidade. Os postes são facilmente penetrados por qualquer objeto, dado ao estado putrefato em que se encontram. Possivelmente existem outros nesta mesma condição.
No último dia 10/05/2022, um poste nesta situação veio a baixo com toda a fiação de alta-tensão. Localizado entre duas residências, o acidente colocou em risco a vida dos moradores durante todo o dia. Acionada por um morador, a Enel só foi substituir o poste e soerguer os fios com eletricidade mais de 12 horas após ser informada. Durante todo o dia, a fiação de alta-tensão esteve em contato com cercas de arame farpado, amplificando ainda mais o risco para os moradores. Um cliente da empresa Enel, após acionar a empresa em nome de todos os moradores e registrar a ocorrência, procurou alertar os transeuntes sobre o perigo relativo à queda do poste e da fiação. No dia 13/05/2022, com informações sobre os demais postes em estado calamitoso, os moradores fizeram nova solicitação a Enel: desta vez para que a empresa venha substituir os postes e assim sanar o risco à vida dos moradores. Repetindo sua prática negligente com a queda do poste no dia 10/05, assim como em relação a inúmeros outros problemas no fornecimento de energia elétrica à localidade, a Enel não cumpriu o compromisso assumido e sequer enviou um técnico para verificar o problema. Nos dias seguintes, outras solicitações foram feitas. E o resultado foi a mesma negligência.
Em conversa informal, um técnico de uma empresa que presta serviço à Enel revelou aos moradores que a política deliberada da empresa é de somente substituir os postes que vierem abaixo. A prática negligente da empresa, que simplesmente ignora as demandas encaminhadas individualmente pelos moradores, parece confirmar esta política informal de violar direitos individuais dos consumidores privados de energia e direitos difusos dos moradores, afetados em sua segurança ao transitar pela rua com a rede de alta-tensão ameaçando desabar e no acesso ao serviço de iluminação pública. A necessidade de resguardar a segurança dos transeuntes na localidade corresponde a um direito difuso: a situação calamitosa dos postes que ameaçam cair afeta a todos que circulam pela rua principal da localidade. Além disso, a situação dos postes também produz danos à rede de iluminação pública administrada pelo poder público municipal, que utiliza os postes da Enel, para fornecer este serviço. Em sua decisão de considerar inconstitucional a cobrança de taxa de iluminação pública (súmula vinculante 41), o Supremo Tribunal Federal fixa a compreensão de que a iluminação pública é uma atividade estatal que se traduz em prestação de utilidade inespecífica, indivisível e insuscetível de ser vinculada a determinado contribuinte, ou seja, trata-se clara e inequivocamente de um direito difuso cujo titular é toda a coletividade. Com esta compreensão, os moradores da localidade de Pião enviaram, no dia 13/05/2022, ofício à Subsecretaria Municipal de Iluminação Pública solicitando que o poder público municipal exerça suas responsabilidades e prerrogativas na relação com a Enel no sentido de requerer que os postes sejam urgentemente substituídos de modo a reestabelecer 1) as condições de funcionamento do serviço de iluminação pública e 2) a garantia da segurança dos moradores e transeuntes. No ofício, seguem como anexo um conjunto de fotos atestando a situação putrefata dos postes, bem como sua numeração oficial. Como a prefeitura de Campos utiliza os postes da Enel e já foi devidamente informada sobre os danos e riscos acarretados pelo estado calamitoso destes postes, me parece plausível supor que o governo municipal está implicado em suas responsabilidades e prerrogativas, não podendo se omitir do esforço de fazer com que a Enel cumpra suas obrigações e pare de violar os direitos dos moradores e consumidores. Após informar oficialmente a prefeitura sobre a situação dos postes, muitos moradores decidiram acionar o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, através de sua ouvidoria.
A percepção generalizada entre os moradores é que, enquanto indivíduos/consumidores, estão todos impotentes, pois a promessa neoliberal do consumidor empoderado é refutada a cada contato com a Enel. Na semana em que avançou a privatização da Eletrobras não podemos deixar de lembrar os conflitos e contradições inerentes à prestação de serviços públicos realizada por empresas privadas. Por sua natureza, empresas privadas tomam o lucro como valor absoluto de suas práticas e tendem a violar todo direito que atrapalhe a maximização deste lucro, sobretudo quando podem contar com níveis consideráveis de impunidade. E é no dia a dia da violação de direitos que o sentido da privatização se revela. Na relação diária com uma empresa privada poderosa como a Enel, cidadãos se tornam subcidadãos sem direitos. Nem o direito à vida é respeitado. A assimetria de poder entre as partes é absurda e explica em grande medida a inefetividade da regulação estatal e do controle jurídico sobre a conduta da Enel. O cidadão isolado nada pode contra uma poderosa organização como a Enel. Para garantir seus direitos, só nos resta contar com outras organizações poderosas: o Ministério Público e o poder público municipal, diretamente interessado em fazer com que a Enel seja obrigada juridicamente a reparar a infraestrutura do fornecimento de energia elétrica, especialmente substituir os postes em situação calamitosa.



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Para além da tese da personalidade autoritária: queremos sim o eleitor bolsonarista
25/04/2022 | 14h41
1) O fenômeno do bolsonarismo tem provocado uma retomada da tese da personalidade autoritária de Theodor Adorno. No famoso livro “Estudos sobre a personalidade autoritária” (2019), Adorno e seus seguidores tentam explicar a adesão a políticas e ideologias autoritárias com base em estruturas psíquicas construídas no processo de socialização primária, especialmente a formação de um “eu” fraco. Na estrutura do argumento, os atributos autoritários da personalidade são claros e a tal ponto bem fixados que não deixam quase nenhuma margem para redefinições e redirecionamentos políticos a partir da mesma base de socialização primária. Quem possui uma personalidade autoritária praticamente não tem salvação, pois a política não é capaz de oferecer alternativas que consigam disputar os corações e mentes destas pessoas com as alternativas autoritárias. A única saída é modificar as próprias estruturas da socialização primária. Para quem já foi condenado ao autoritarismo, só resta impedir que haja uma oferta autoritária capaz de dar vazão as tendências autoritárias que definem a personalidade. O determinismo sociológico e o estruturalismo vulgar desta abordagem são marcas da fracassada teoria crítica de Adorno. Walter Benjamin, ao contrário, tinha visão bem distinta: entendia que o sucesso do fascismo não se devia primeiramente às tendências autoritárias formadas na socialização primária, mas sim ao fracasso da esquerda em disputar os corações e mentes destas pessoas com a extrema-direita.
2) O determinismo sociológico e o estruturalismo vulgar são muito atraentes: proclamar o fatalismo é um caminho sedutor para quem não consegue pensar a contingência e a indeterminação da vida social e política. Ao fim e ao cabo, este fatalismo resulta na mesma ladainha moralista do senso comum de esquerda: eleitores de Bolsonaro, Le Pen e Trump são autoritários incorrigíveis. No caso dos eleitores de Bolsonaro, generalizou-se um argumento moralista que atribui uma “política do ódio” como desenvolvimento necessário da personalidade autoritária. Como consequência, quem quiser ter o voto deste eleitor teria que apelar a mesma “política do ódio”, única capaz de mobilizar verdadeiramente personalidades autoritárias. Por isso, quando um político como Ciro Gomes busca disputar os eleitores bolsonaristas, ele é acusado de enveredar necessariamente pela mesma tendência autoritária protagonizada por Bolsonaro. Para o determinismo sociológico e o estruturalismo vulgar da tese da personalidade autoritária, o eleitor não possui indeterminação e contingência, ou seja, não tem possibilidade de aderir a diferentes ofertas e alternativas políticas. Ele já está definido e perdido. Daí que, identificando a personalidade autoritária com a masculinidade, a filósofa petista Marcia Tiburi, conselheira de Lula em temas comportamentais, sugira a exclusão política dos homens como única alternativa segura para enfrentar Bolsonaro.
3) Para compreender e enfrentar fenômenos autoritários como o bolsonarismo precisamos nos livrar do determinismo sociológico e do estruturalismo vulgar que orientam teses como a da personalidade autoritária. Na verdade, determinismo e estruturalismo são sintomas de falta de sociologia, pois a vida social não é nem determinista nem estruturada de modo fixo. Contingência e indeterminação são partes de todo fenômeno social: tudo que é pode ou poderia se configurar de outro modo. O eleitor não é autoritário por causa de sua socialização primária. Ele pode se tornar autoritário em razão da dinâmica e da estrutura de ofertas políticas. Os traços autoritários devem ser vistos como manifestações contingentes de frustrações e descontentamentos com o sistema político e as alternativas políticas dominantes, incapazes de encaminhar soluções para problemas concretos como miséria, violência e serviços públicos de má qualidade. A rebeldia antisistema é, por exemplo, outra manifestação possível para esta frustração. E ela pode ser potencializada pela oferta política. Em resumo: o bolsonarismo só pode ser enfrentado se for compreendido por uma sociologia de qualidade – não determinista e não estruturalista – que reconheça a autonomia do sistema político e das ofertas políticas como variáveis que garantem a contingência e a indeterminação das práticas e opiniões políticas. Adorno só atrapalha nesta dupla tarefa, e o caráter infecundo de sua obra já deveria bastar para nos convencermos de que a tese da personalidade autoritária é falsa sociologicamente e fatalista politicamente. Disputar o eleitor bolsonarista é um imperativo político de quem aposta na inteligência.
Referências:
ADORNO, Theodor. W. Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo: Editora Unesp, 2019.
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A crise silenciosa no Flamengo: um problema espiritual que nem Jesus consegue resolver
04/04/2022 | 16h41
Culpar o treinador é um discurso tão fácil e superficial que parece não convencer mais uma parte importante da apaixonada e raivosa torcida do Flamengo. Felizmente a parte do público mais raivosa e irracional parece ter diminuído ou mudado parcialmente suas disposições. Comentaristas rasos que só sabem jogar com as emoções deste público, como é o caso exemplar de Renato Maurício Prado, não tem aquele espaço todo que sempre tiveram neste tipo de crise. Paulo Souza é um treinador competente e já mostrou isso. Mas além de tempo, precisa da cooperação dos jogadores para realizar um bom trabalho.
Ocorre que o Flamengo está com um elenco arrogante, acomodado e desonesto: o time claramente está boicotando o trabalho do treinador, como já fizeram antes com Dome e Ceni. Há um problema “espiritual” no grupo. E foi a presença de espírito do Fluminense que derrotou a arrogância do Flamengo. Assim como foi a presença de espírito do Palmeiras que ajuda a explicar a virada épica contra o São Paulo. Não falta apenas o famoso, amado e necessário “plus” da “raça” em campo, mas também e principalmente respeito à hierarquia organizacional e portanto ética profissional. Como afirma Mauro Cezar: esses jogadores estão manchando sua própria história no clube.
É evidente que o trabalho de Paulo Sousa não surtiu os resultados esperados. Demonstrou avanços no começo, mas a equipe retrocedeu de modo inaceitável nos últimos jogos, especialmente no último. Neste jogo, os jogadores cumpriam as posições, mas não faziam os movimentos requeridos pelo esquema tático. Os generosos buracos entre as linhas foram o resultado desta indisciplina do time em correr como manda o treinador e sua tática.
Tem cara de boicote, rabo de boicote, pele de boicote. Não pode ter sido outra coisa. O grande problema do Flamengo não é o treinador. É a equipe. Obviamente não toda a equipe. Mas uma parte bem maior do que imaginamos. Há ervas daninhas poderosas que precisam ser arrancadas. Jogador não tem que pedir pra treinador ser flexível e mudar o esquema de jogo de acordo com suas preferências e seu comodismo. Jogador é pago, e no caso muito bem pago, para fazer o que o treinador manda. Se Paulo Sousa cair, será o terceiro treinador que essa panelinha de velhos cansados derruba. E se voltar, com a vitória da panelinha sobre mais um técnico, nem Jesus salva o Flamengo de sua grave crise na cultura organizacional do futebol. Precisamos de uma barca grande e generosa, e sobretudo de uma mudança política no futebol do clube que inviabilize esse boicote inaceitável que alguns atletas estão fazendo. Paulo Sousa tem que ficar e os velhos devem ir caminhar na praça. A manutenção do treinador é um posicionamento político essencial para resolver a crise.
 
 
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O que representam os quatro pré-candidatos a presidente
02/01/2022 | 12h14
Quem é simpatizante de pré-candidaturas presidenciais como eu tende a ficar conversando quase sempre com quem pensa parecido. Essa tendência é reforçada pela estrutura da esfera pública digital cada vez mais fragmentada em bolhas e públicos que quase não se comunicam. Infelizmente são raras as oportunidades de conversar fora de nossas respectivas bolhas, com simpatizantes de outros pré-candidatos. Desde o segundo semestre do ano passado tenho me esforçado para encontrar e aproveitar estas oportunidades. No último dia 5 de novembro, o programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, criou uma destes raros momentos. Promoveu um debate entre simpatizantes dos quatro principais pré-candidatos à presidência da república: Lula, representado pelo professor José Luis Vianna, Bolsonaro representado pelo odontólogo Alexandre Buchaul, Sérgio Moro representado pelo advogado Cristiano Sampaio e Ciro Gomes, por mim representado. Neste texto gostaria de fazer uma análise sobre a visão de país representada pelos quatro pré-candidatos tomando este debate do Folha no Ar como principal referência para construir e apresentar meu ponto de vista.
‘Embora não possa reivindicar nenhuma imparcialidade, já que sou assumidamente simpatizante de um pré-candidato, tenho me esforçado para compreender o ponto de vista dos apoiadores das outras três pré-candidaturas. Lula, Bolsonaro, Moro e Ciro representam correntes de opinião e interesses importantes no país. Se é inegável que meu interesse político em torno de Ciro me torna parcial em qualquer análise sobre o assunto, acredito que meu interesse sociológico sobre os distintos grupos sociais e suas visões de mundo me permite levar a sério e discutir o ponto de vista de quem simpatiza com Lula, Bolsonaro e Moro. Para isso, creio ser conveniente começar pela apresentação de minha simpatia política.
Ciro Gomes
Porque simpatizo com a pré-candidatura de Ciro Gomes?
Minha simpatia por Ciro começou na disputa pré-eleitoral para as eleições presidenciais de 2010. Naquele momento, mesmo sendo filiado ao PT, defendia que Lula e seu partido apoiassem o ex governador do Ceará e então aliado, que havia sido um dos principais quadros do governo e que desde seu rompimento com o PSDB na década de 1990 trabalhava na construção de um projeto de desenvolvimento para o país. Dilma foi a escolhida. A tragédia inconteste de seu governo, referendada pelo ostracismo que seu próprio partido hoje lhe impõe, mostra que eu tinha razão em defender o nome de Ciro. Desde então vejo Ciro como o único líder político nacional que se preocupa em entender os graves problemas econômicos, sociais, culturais que o Brasil enfrenta na sua quadra histórica mais recente. Do meu ponto de vista, apenas Ciro coloca no centro de sua ação aquilo que o Brasil mais precisa hoje: ideia e projeto. Ideias apenas não bastam para mudar a realidade, mas sem ideias nenhuma mudança é possível. No episódio em que suspendeu sua pré-candidatura para pressionar parlamentares do seu partido a mudar de posição sobre a PEC dos precatórios, Ciro deu talvez o mais importante e convincente testemunho da centralidade que as ideias ocupam em sua prática política. Riscou uma linha em torno de concepções inegociáveis. Precisamos de um presidente que assuma os riscos de conduzir as mudanças que o país precisa e o compromisso com ideias é precondição para isso.
As principais propostas de Ciro referem-se à economia, mas abrangem também a reconstrução do presidencialismo, a educação e a reformulação do pacto federativo. O foco é a superação de nossa trajetória de subdesenvolvimento, desindustrialização e reprimarização através de políticas macroeconômicas e setoriais que visam construir novo processo de industrialização sintonizado com a economia do conhecimento. Entre os setores destacam-se o complexo industrial da saúde, do agronegócio, da energia e da defesa. Meu argumento, no entanto, é que cada uma das quatro pré-candidaturas representa mais que políticas públicas específicas. Elas trazem para o jogo político visões de mundo sobre o país, seus problemas, potencialidades e possíveis soluções. A visão de mundo articulada por Ciro é o trabalhismo nacional-desenvolvimentista: a perspectiva de que o aviltamento do trabalho pelo capital é inseparável da subordinação nacional na divisão internacional do trabalho e nas relações centro/periferia. Para Ciro esta condição de superexploração do trabalho e subordinação nacional não é necessária. Ela é o resultado de políticas públicas que desperdiçam as potencialidades físicas, culturais e econômicas do país e de seu povo. Em sua perspectiva as soluções podem e devem ser criadas pela política, especificamente por uma nova política nacional-desenvolvimentista que combine valorização do trabalho e da produção com o soerguimento nacional. É possível e desejável que haja discordância e debate sobre esta visão do país. Mas infelizmente isso não ocorreu em 2021, pois os outros três pré-candidatos fizeram a opção pelo personalismo exagerado, pela conversa sobre pessoas em detrimento do debate sobre ideias e projetos. Nenhum deles quis debater com Ciro, pois sabem que ideia e projeto são a grande qualidade do trabalhista. E quais os problemas de Ciro e de sua pré-candidatura? O principal e mais grave deles, fazendo jus ao conhecido e verdadeiro chichê, tem a ver com sua virtude: ao investir no debate racional de ideias, apostar na inteligência do povo, Ciro acaba negligenciando a dimensão afetiva e as urgências da população que legitimamente se fazem representar na política democrática.
Na democracia, votar com o estômago vale tanto quanto votar com o fígado ou com a cabeça. A democracia é o regime em que a quantidade tem primazia sobre a qualidade: é o governo da maioria, não o governo dos que se colocam como mais qualificados. Esta é a norma básica e simples da igualdade política, inventada pelos atenienses: mesmo que os cidadãos (apenas homens, mulheres e escravos de fora) aptos à vida política na Atenas antiga fossem apenas uma parte minoritária da população, entre eles não valia critério hierárquico de qualidade, mas sim critérios quantitativos igualitários de agregação de vontades e preferências. Na democracia, é a quantidade que define a qualidade.
Os outros três pré-candidatos não investiram no debate de projetos de governo e país em 2021. No entanto, mesmo sem debate racional, creio ser possível identificar a perspectiva de mundo representada por cada um deles. É preciso deixar claro que não estou analisando prioritariamente a personalidade concreta de nenhum deles, mas sim a pessoa política que constroem na relação de representação de segmentos da população. O foco é menos no que cada um deles pensa e diz do que nas expectativas com as quais os eleitores, de modo explícito ou implícito, os identificam e diferenciam. Assim, na sequência identifico pontos positivos e negativos das pré-candidaturas de Lula, Bolsonaro e Moro não como qualidades e defeitos de suas respectivas personalidades individuais, mas sim enquanto atributos da visão de mundo e país que julgo representarem.
Bolsonaro
No caso de Bolsonaro, acredito que a principal qualidade que ele representa é o agonismo democrático. Bolsonaro representa uma extrema-direita que não traz nada de construtivo em seu conteúdo. Mas há algo de muito fundamental e positivo na forma como ele articula a visão de mundo que representa: o elemento plebiscitário e populista da democracia, capaz de desafiar a hegemonia ideológica e institucional vigentes, mesmo sem apresentar nada melhor como alternativa. Neste ponto sigo as teses de Chantal Mouffe sobre o “momento populista”. Ao seu modo, Bolsonaro articula o antagonismo “povo” x “oligarquias” como forma de criticar e atacar o que seu movimento chama de “sistema”, mas que nada mais é do que a estrutura institucional e ideológica do regime político da constituição de 1988. O “momento populista” inaugurado pelo bolsonarismo denuncia que esta estrutura institucional e ideológica fracassou em representar os anseios das maiorias. Mesmo sem apresentar nenhuma alternativa, sendo por isso um movimento essencialmente destrutivo, a denúncia de nossa falência institucional, ideológica e constitucional me parece pertinente.
De fato, a democracia brasileira se encontra bloqueada pela própria natureza do regime que desacelera a política em desfavor do povo e em proveito das oligarquias. Infelizmente nenhuma outra corrente política cumpre a tarefa de denunciar este bloqueio como faz o bolsonarismo. Por isso a crítica radical de nossa democracia bloqueada fica restrita a uma crítica autoritária, mas pode e deve ser uma crítica democrática. Bolsonaro representa a força necessária para se insurgir contra arranjos institucionais e ideológicos que não nos servem. A maioria de nosso povo não aceita bem o papel de vítima da história, e Bolsonaro soube vocalizar essa visão de mundo. Quem não souber entender este mérito “antisistema” de Bolsonaro terá não apenas dificuldades de enfrentar o bolsonarismo, mas também de se conectar com as demandas sociais que ele representa. Mas Bolsonaro distorce a força social que representa, transformando-a em mera violência destrutiva. O grande problema do bolsonarismo é sua evidente pulsão de morte. Na ausência de uma alternativa ao modelo que denuncia, resta o ódio destrutivo contra tudo que está aí, a revolta puramente moralista, irmã siamesa da violência escancarada. Por isso, ele não é o melhor representante da direita conservadora brasileira, que é bem distinta da extrema-direita. Bolsonaro não tem nada de conservador. É um destruidor compulsivo, um jacobino miliciano. Os conservadores podem dar contribuição importante ao país, mas não por meio de Bolsonaro. Além da pulsão de morte, outra diferença importante entre o bolsonarismo e o conservadorismo é a incapacidade de Bolsonaro de separar palanque de governo. É quase completa a falta de racionalidade administrativa no governo Bolsonaro. Esta colonização do governo pelo palanque está na raiz de todas as tragédias administrativas do governo, que a gestão da pandemia sintetiza tão bem.
Moro
A relevância política de Moro está evidentemente ligada ao que a operação Lava Jato representou e ainda representa em alguma medida. Como sabemos hoje pela boca do próprio pré-candidato, a Lava Jato sempre foi uma operação política com o objetivo de combater o PT. Mesmo assim, politicamente, Moro acabou representando a denúncia moral da relação promíscua entre dinheiro e poder. A legitimidade política e a força desta denúncia independem da corrupção política do Direito que a própria Lava Jato promoveu. Ela demonstrou de modo farto e inconteste como os grandes empresários estão sempre na antessala da política, corrompendo economicamente os partidos e sua legitimidade em representar a vontade popular. No entanto, embora esta seja uma contribuição importante, a corrente de opinião que Moro representa comunga com ele o mesmo vício moralista presente no bolsonarismo. A corrupção, percebida como maior dos males e grande causa de todos os problemas nacionais, é atribuída unicamente à ação de pessoas e grupos corruptos, e não a arranjos institucionais incapazes de bloquear a ação corruptora do dinheiro sobre o poder e o Direito, e do poder sobre o Direito e o dinheiro. Na visão de mundo representada por Moro, a solução de todos os problemas é a cruzada moralista contra pessoas e grupos corruptos. Enquanto o moralismo bolsonarista tem a violência miliciana como horizonte, o moralismo morista deságua no culturalismo colonizado: o Brasil seria um país marcado pela cultura da corrupção em comparação com a cultura da honestidade que ele atribui aos EUA. Daí que, sem surpresa, a solução inclua a subordinação neocolonial do nosso país às estratégias de “combate a corrupção” promovidas pelo grande irmão do norte. O morismo é uma variante do mesmo moralismo que constitui o bolsonarismo, só que com doses cavalares de complexo de vira-latas.
Lula
A grande qualidade política do lulismo não é apenas representar a massa de despossuídos, hoje torturados novamente pela fome e pelo desespero quase completo. Isso já seria algo muito importante. Mas Lula representa algo ainda mais forte: a identificação do povo brasileiro consigo mesmo e com o próprio país. O grande legado de Lula não está em nenhuma política pública ou construção institucional, mas sim nesta auto-identificação positiva do povo a partir de sua pessoa política e de seu carisma. Isso não é pouca coisa. Embora Lula esteja longe de ser um estadista do tamanho de Vargas, como dizem os mais obtusos bajuladores, esta obra simbólica de promover a autoestima do povão não foi realizada antes por nenhum outro na extensão alcançada pelo lulismo. De certo modo, o próprio Bolsonaro se valeu desta auto-identificação positiva. O grande problema do lulismo é o desperdício do seu próprio movimento carismático: Lula, como nenhum outro nas últimas décadas, poderia ter sido o grande representante e articulador de um projeto e de um sonho nacional. É inegável que Lula realizou políticas sociais importantíssimas de combate a pobreza. Mas nenhuma delas constituiu um legado como foi o caso das políticas de Vargas. Se tivesse articulado o “popular” como o “nacional”, Lula poderia ter superado Vargas no posto de maior presidente da história do país. Com mais de oitenta por cento de aprovação, não realizou nenhuma mudança estrutural e institucional. Talvez por confiar demais em seu carisma, Lula parece até hoje não acreditar na importância das ideias como elemento fundamental na transformação da realidade. Que fique bem claro: não se trata aqui de questionar a inquestionável inteligência de Lula. É inteligentíssimo em quase todas as dimensões da vida. O problema é que ele não valoriza a força das ideias na vida política. Possivelmente também por conviver com intelectuais bajuladores e medíocres, trata as ideias como mero adereço retórico, preferindo o improviso intuitivo, cujo resultado é sempre a acomodação conservadora em lugar de inadiáveis mudanças que exigem firmeza de convicção e disposição para o risco. Isso fica claro quando comparamos sua retórica de afirmação nacional na política exterior, acompanhada de uma política econômica que pouco ou nada fez para reverter a trajetória de desindustrialização e degradação econômica do país. Será que Lula mudou depois da amarga experiência? Gostaria de acreditar que sim, mas suas ações infelizmente indicam que não.
E o que podemos esperar para o decisivo ano de 2022? Que tipo de resultante irá emergir do embate entre os quatro principais pré-candidatos? Nos 200 anos de sua independência encontrará o país um rumo para sair de sua mais grave crise existencial? A própria natureza da crise, que é multidimensional, encurta os horizontes temporais e torna o futuro algo abstrato, sem sentido concreto para as maiorias, tornando-se uma enorme pedra no caminho de quem deseja disputar a cadeira de presidente a partir do debate de ideias. Isso contribui muito para que Lula e Bolsonaro se mantenham firmes em suas respectivas posições na preferência dos eleitores.
Quanto a isso, não há o que se queixar da democracia. A política democrática não é o espaço para a vitória garantida do melhor argumento. Não é ciência, não é discussão racional, para espanto de muitos. Não para o meu. A política democrática é o espaço da disputa pacífica, agonística e regular entre visões de mundo distintas, entre visões distintas sobre a natureza dos problemas coletivos e de suas possíveis soluções. Não é, por exemplo, o lugar em que o conhecimento científico tem mais valor que a visão religiosa não científica. Não é o lugar em que a racionalidade de quem pensa a longo prazo tem mais valor do que o voto com o estômago ou com o fígado. A tarefa de quem pode pensar problemas e questões de longo prazo, sem a urgência do estômago e as perturbações afetivas do fígado, não é apostar exclusivamente na racionalidade de longo prazo e desprezar a de curto e curtíssimo prazo. É usar a primeira para conquistar a segunda. Este é o desafio de quem deseja construir um projeto nacional de desenvolvimento em um país devastado pela urgência da fome e pelo moralismo que perturba a razão a partir dos afetos do fígado. O país precisa urgentemente de debate racional sobre seu futuro. E isto deve ser cobrado de todos os postulantes à cadeira de presidente da república. Mas o povo é o que é. E é bom que os ilustrados, se quiserem ter sucesso na política, saibam entender as “línguas estranhas” que atribuem a ele.
 
 
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Sou progressista, mas
07/12/2021 | 11h33
Sou progressista, mas não consigo rejeitar completamente todos os elementos de outras perspectivas políticas. Como rejeitar, por exemplo, o princípio conservador, e pragmático, de que devemos manter certas formas culturais e institucionais que funcionam bem na sociedade? Como pessoa de esquerda, meu foco é pensar como mudar as coisas, mas isto não significa mudar tudo e, menos ainda, mudar tudo rápido.
Por exemplo, o valor da pessoa humana enquanto referência sagrada da vida social moderna é a base para as liberdades e direitos individuais de participação e expressão na vida privada e pública. Conservar este valor é a luta de todos que se opõem a Bolsonaro, que de conservador não tem nada. É um destruidor compulsivo, um jacobino de Rio das Pedras. Mas rejeito também a tese pseudo-revolucionária de que é conveniente relativizar este valor da pessoa humana sagrada em nome da sacralização da coletividade. A consciência coletiva moderna precisa conservar como seu valor máximo a sacralidade da pessoa humana individual.
No entanto, devemos mudar as estruturas sociais, o que não quer dizer mudança rápida e violenta, e nem, como disse, mudar todas as estruturas sociais. Em primeiro lugar, cabe mudar as estruturas de desigualdade e opressão que impedem a realização mais ampla e efetiva do valor da pessoa humana sagrada. Mas se quisermos transformá-las sem a devida prudência corremos o risco de desperdiçar o que temos em nome do que não sabemos se é possível ter tão rápido.
A atitude progressista em relação ao mundo é antes de qualquer coisa uma predileção pelo futuro em detrimento do passado. O progressismo é uma afirmação da modernidade, ou seja, da percepção de que o futuro é aberto e de que não existe fórmula institucional definitiva e perfeita para a vida social e política. É por isso que o identitarismo não tem nada de progressista: sua orientação predileta é ao passado. O identitarismo é uma negação da modernidade e de suas promessas em nome de verdades reivindicadas com base em identidades supostamente autorizadas pelo passado comum, não pelo futuro comum.  Progressista não é quem julga possuir alguma verdade sobre a vida social e política, mas sim quem se dispõe a encarar a precariedade e a incompletude de tudo que existe, inclusive de suas próprias posições, como chance para o experimentalismo, a criatividade e a ampliação das conquistas modernas como igualdade, liberdade e fraternidade. Mas esta atitude de abertura em relação ao novo não é a negação de tudo que conquistamos. Ao contrário: a abertura do futuro depende de estruturas sociais específicas que impedem que algum grupo social monopolize a narrativa e a oferta de alternativas sociais e políticas. Em síntese: para afirmar o futuro e a mudança, o progressista precisa ser um conservador quando se trata de manter o pluralismo social e político como condição para que o futuro seja o horizonte fundamental de qualquer mudança e inovação.
Como não alimento nenhum ideal de sociedade perfeita para os humanos, nenhum ideal de Céu na Terra, não posso rejeitar completamente o princípio conservador de manter o que valorizamos e conquistamos. Mas isto não me impede de aderir primariamente ao princípio progressista de que as coisas não precisam ser como são e que vale sempre mais a pena tentar ser protagonista em sua transformação do que esperar que se ajustem sozinhas. Vejo isso como atitude de humildade intelectual: rejeitar o princípio autoritário e arrogante de que alguma pessoa ou grupo social possa elaborar e planejar plenamente uma sociedade melhor e inteiramente distinta da que temos.
 
 
 
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Religião, política e a dimensão espiritual da crise brasileira
06/09/2021 | 17h58
Muitos gostariam de abolir a presença das religiões na esfera pública e na política. São os que defendem que o Brasil busque construir um Estado laico inspirado na França. Esta tentativa foi feita com a constituição de 1891 e não teve êxito. Outros se dispõem a aceitar a religião pública desde que ela se oriente pelas ideologias políticas laicas como o liberalismo ou o socialismo, fornecendo apenas a efervescência coletiva que estas ideologias já não conseguem produzir por contra própria. As duas posições rechaçam a presença da fé e da busca da transcendência como algo que tenha contribuição própria para a construção do Estado e na nação. O sentido propriamente religioso do mundo, que podemos resumir com as noções de fé e transcendência, não teria nada a acrescentar ao sentido político da reconstrução nacional.
Discordo destas duas posições. Da primeira em razão de seu provincianismo caricato. Basta dizer que a França é exceção e não regra entre os modelos ocidentais de separação entre religião e Estado. A grande nação ocidental do século XX, os Estados Unidos, nunca confundiu separação entre Igreja e Estado com confinamento da religião na esfera privada. E nisso, como em outros aspectos, o Brasil (graças a Deus!) é muito mais parecido com os Estados Unidos do que com a França. Da segunda posição eu discordo pela falta de acuidade sociológica sobre o processo de construção nacional: todo projeto nacional de longo prazo precisa de um sentido de transcendência capaz de conferir no presente valor ao futuro desconhecido. O futuro precisa ser percebido como um horizonte de realização daquilo que não podemos ver inteiramente no presente, mas cujas primeiras manifestações já se mostrem como futuro adjacente, como sinal no presente de que a fé constrói o futuro. E em muitos casos, especialmente naqueles de colapso das ideologias políticas laicas, este sentido de transcendência do presente e de seus desesperos vem diretamente das religiões.
A contribuição própria que a religião pode trazer para a política é sua capacidade de construir no presente a fé no futuro. A disponibilidade desta fé é um recurso de valor insubstituível para a política. Não se trata de acreditar em um futuro inteiramente distante e inteiramente desconhecido, mas sim de criar um futuro adjacente e em alguma medida visível já no presente. O desafio de amplos segmentos das classes populares, que buscam manter a fé no futuro (“não deixar a peteca cair”) organizando em torno da religião estratégias concretas de reconstrução da vida familiar, econômica e comunitária, é semelhante ao desafio nacional: não se trata apenas de planejar o futuro da nação, mas de reconstruir e alimentar a própria crença de que a nação tem algum futuro. É preconceito iluminista não esclarecido supor que podemos dispensar a fé religiosa nesta grande batalha espiritual que o país precisa travar: não uma batalha contra algum inimigo inventado (“comunistas”, “chineses”, STF etc.) como faz Bolsonaro em sua “guerra cultural”, mas sim contra a desesperança, a dimensão propriamente espiritual da crise brasileira. Ideologias políticas e projetos nacionais dependem da crença compartilhada no futuro. A religião popular têm conseguido construir esta crença em diferentes esferas sociais, especialmente na vida familiar. Pode também contribuir para que isto seja feito na política. Não se trata de ignorar os riscos envolvidos na relação entre religião e política, mas sim de explorar as possibilidades desta relação. Pelos menos quatro possibilidades se colocam de início: o boicote recíproco entre religião e política, a colonização de uma pela outra, o fortalecimento recíproco e a indiferença. Nas últimas décadas, a colonização da religião pela política tem predominado no Brasil. No caso específico dos evangélicos, desde sua entrada efetiva na política pós Constituição de 1988, os presidentes buscaram se aproximar dos religiosos pela via da cooptação política a partir de acordos com figurões que dizem representar este segmento do público. Com Bolsonaro é um pouco diferente: ao mesmo tempo em que radicaliza a manipulação da religião pela política feita por seus antecessores, encena com a “guerra cultural” o controle religioso da política e da república como um todo. Politicamente, essa estratégia tem a vantagem de criar uma sensação de inclusão autêntica dos religiosos na política nacional, produzindo um contraste com quem pedia o voto mas não gostava de dividir o poder com os religiosos. Por isso, Bolsonaro desempenha com certo sucesso o papel de primeiro presidente evangélico do país (Arenari, 2020). Mas este sucesso só pode durar se Bolsonaro conseguir destruir o sentido de esperança e fé no futuro cultivado pelos evangélicos e cristãos em geral: um governo definido pela destruição precisa destruir também o sentido de futuro, pois a esperança no futuro é sempre construtiva. Ou então criar um sentido destrutivo de futuro, como vemos em seus apelos apocalípticos destinados ao rápido descrédito. Precisa destruir a religião para continuar usando a religião e fingindo que ela têm importância em sua obra de destruição nacional.
A obra de reconstrução nacional de que precisamos não requer substituir esta colonização destrutiva da religião pela política nem pela indiferença entre ambas, como querem os adeptos da laicidade francesa, nem por uma politização com outra cor ideológica, que trata a religião apenas como fonte de legitimação e energia para ideologias políticas seculares. Para enfrentar a dimensão espiritual da crise brasileira, precisamos construir uma relação de fortalecimento recíproco entre política e religião, combinando separação de esferas com influência construtiva entre elas. Não se trata de colocar a política no lugar da religião, nem a religião no lugar da política, mas sim de construir uma nova “religião civil” brasileira: uma nova cultura política inspirada não só em valores religiosos como superação e solidariedade, mas antes de tudo na fé no transcendente como traço próprio do sentido religioso do mundo que ultrapassa fronteiras ideológicas e sociais.
Na prática, isso significa adotar um caminho bem distinto daquele seguido por Bolsonaro e seus antecessores. Em vez de mobilizar politicamente a religião em torno de “guerras culturais” contra inimigos inventados, criando uma cultura política de destruição e fragmentação nacional (Bolsonaro), ou cooptar os conhecidos figurões com poder e audiência (antecessores), buscar aproximação com as obras sociais das igrejas que reconstroem famílias e vidas em nossas periferias urbanas. Em vez de buscar conchavos com esses figurões que dizem decidir pelo povo, se aproximar de lideranças novas, de sacerdotes que buscam o poder não como um fim em si mesmo, mas como meio indispensável para mudar e melhorar a realidade. Em vez de andar com quem promete trazer apenas o voto dos fiéis, unir forças com aquelas organizações e lideranças interessadas em amplificar, através da cooperação com o Estado, o trabalho social que já realizam. Missões que buscam reconstruir famílias e vidas ameaçadas pela pobreza e pela violência, como vemos no caso da missão Cristolândia de orientação batista, também reconstroem e alimentam diariamente o sentido de fé no futuro, em uma vida melhor para quem, como todos no inferno de Dante, é invocado pela realidade a perder todas as esperanças. Esta dimensão espiritual da crise brasileira – o desespero, a falta de fé no futuro – não será superada sem que a política consiga estabelecer relação construtiva com o único sistema social que tem conseguido fazer a grande maioria do povo acreditar no futuro e na vida: a religião. Mas para isso, a política não deve buscar a cooptação dos religiosos e a manipulação da fé, mas sim a cooperação em torno do trabalho social com religiosos que desejam influenciar as políticas públicas, mas não fundir organização religiosa com o poder político. É este tipo de relação que permite existir religião pública e ao mesmo tempo separação entre religião e política. Não basta exigir a separação entre religião e política. É preciso entender que esta separação só ocorre dentro de relações específicas entre estas duas esferas da sociedade e da vida.
Referências
ARENARI, Brand. “Bolsonaro, o primeiro presidente “evangélico” do Brasil”. In: TEXEIRA, Carlos Sávio & MONTEIRO, Geraldo Tadeu (orgs.) Bolsonarismo: teoria e prática.1 ed.Rio de Janeiro: Gramma editora, 2020, v.1, p. 281-308.
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Existe um autoritarismo brasileiro?
02/09/2021 | 15h56
Junto com meu amigo e colega de trabalho científico, Marcos Abraão Fernandes Ribeiro, publiquei hoje um artigo na Revista Brasileira de Sociologia sobre tema sempre atual: o autoritarismo na história política brasileira. O autoritarismo é um dos principais temas do pensamento político brasileiro. Existe uma vertente deste pensamento, de orientação interpretativa culturalista e liberal, que afirma que o país sempre padeceu de um “atraso” social e político que resulta da ausência de uma ordem moderna, racional-legal e autenticamente democrática. A ausência desta ordem democrática e racional-legal seria um traço típico e singular do Brasil, definido pelo caráter tradicional de nossa cultura e de nossas instituições políticas. Em resumo: teríamos um autoritarismo pré-moderno para chamar de nosso que, se fôssemos modernos, já teria sido superado. Esta visão pensa a política moderna como sendo exclusivamente democrática e não deixa espaço para tratar das autocracias modernas. É uma visão idealista sobre a modernidade política que não reflete sobre os problemas da democracia que criam chances e oportunidades para formas competitivas e modernas de autoritarismo.
O artigo tem como objetivo criticar esta visão e oferecer uma interpretação alternativa à tese do autoritarismo brasileiro. Argumentamos que as variações do autoritarismo ao longo da história brasileira não são resultantes da singularidade política nacional, mas sim variantes distintas do autoritarismo moderno. Por mais que seja um trabalho científico que inevitavelmente utiliza uma linguagem especializada, o leitor não especializado também consegue tirar proveito do texto, que pode ser acessado e baixado gratuitamente no site da Revista Brasileira de Sociologia (RBS). Acreditamos que todos os interessados nos problemas e limites de nossa democracia podem e devem buscar o contato com discussões científicas como a que fazemos neste trabalho!
 
 
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Adversidades Político-Sociais na Administração Pública
29/06/2021 | 08h42
Esse ano o Centro Acadêmico de Administração Pública Leonel Brizola (CAAP-UENF) junto com a coordenação do curso de Administração Pública - UENF organizaram um mês de recepção aos calouros de 2021, com atividades remotas que intercalavam entre palestras no canal do YouTube do CAAP-UENF e minicursos ministrados no Google Meet. A programação se encerará no Dia do Administrador Público, com a palestra intitulada "Adversidades Político-Sociais na Administração Pública"
Convidados:
Dra. Gabriela Lotta (FVG EAESP)
Dr. Roberto Pires (UNB)
Mediação: Dr. Roberto Dutra (LGPP - UENF)
A palestra será transmitida no canal do YouTube do CAAP-UENF no dia 05 de julho às 15h.
 
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Desigualdades de gênero e trabalho doméstico
08/06/2021 | 11h52
Tive o prazer de traduzir e agora de publicar o mais novo texto do sociólogo alemão André Kieserling no Frankfurter Allgemeine Zeitung, que saiu em 03.06.2021. Agradeço novamente ao colega Kieserling por ter conseguido autorização do jornal alemão para que eu traduzisse e publicasse seus textos aqui no Brasil. Nesta recente contribuição, o sociólogo de Bielefeld discute pesquisas sobre divisão do trabalho doméstico e desigualdades de gênero. Apresenta argumentos genuinamente sociológicos que refutam exageros moralistas que confundem a existência de desigualdades de gênero em diversas esferas da vida social com a existência de uma estrutura unitária de dominação masculina, comumente chamada de “patriarcado”. Kieserling, em escrita concisa e elegante, nos atualiza a resposta: o patriarcado não existe. Existem, sim, desigualdades de gênero.
Quando seu amor não consegue fazer
André Kieserling
Os ideais de igualdade em questões de distribuição do trabalho doméstico também parecem ter, aparentemente, uma utilidade prática limitada para as mulheres. O pragmatismo domina. Faz-se o que cada um pode fazer melhor. Pesquisas sobre a distribuição do trabalho doméstico mostram que mesmo em casais com uma atitude marcadamente igualitária, a mulher contribui mais do que o homem para o trabalho doméstico, especialmente quando há crianças pequenas para cuidar. Isto é frequentemente citado como prova da desvantagem contínua das mulheres. Se, no entanto, se perguntar como é que os próprios envolvidos vivenciam esta situação, obtém-se respostas, inclusive das mulheres, em que a distinção entre homens e mulheres não desempenha nenhum papel. A explicação feminista da situação não chega, portanto, àqueles a quem se destina. Isto foi novamente demonstrado por um estudo apresentado por Allison Daminger de Harvard.
Em entrevistas separadas, ela perguntou a 32 casais de classe média-alta sobre a relação entre o ideal e a realidade. Verificou-se que o trabalho doméstico foi distribuído de forma desigual em quase todos os casos, e numa clara maioria dos casais, à custa da mulher. A distância em relação à diferenciação clássica de papéis era, no entanto, considerável, pois embora se tratasse quase sempre de uma questão de encargos adicionais para as mulheres, eram praticamente inexistentes os casos em que elas tinham responsabilidade quase exclusiva pelas crianças e pela cozinha. A propósito, a autora não acredita que os seus casais possam ter feito melhor do que fazem, uma vez que também estavam preparados para falar francamente sobre outras imperfeições na sua relação.
Equidade versus eficiência
Além destas desigualdades, outra coisa impressionou na pesquisa: o quão raro essas desigualdades se tornaram objeto de insatisfação permanente ou de tentativas sérias de mudança. A maioria dos casais estava satisfeita com a divisão do trabalho. Também não viram qualquer razão para escolher entre a sua prática e os seus ideais de igualdade. Um segundo conjunto de perguntas foi, portanto, concebido para esclarecer a razão pela qual consideravam as duas coisas compatíveis.
Foram mencionados dois tipos de razões, em primeiro lugar as de eficiência: aqueles que têm horários de trabalho mais curtos e estão, portanto, em casa mais cedo, devem usar a sua vantagem de tempo para adiantar a comida. E em vez de insistir que ambos se revezem para transportar as crianças para a creche, aquele que trabalha nas proximidades deveria fazê-lo por regra. A segunda razão residia na disparidade de habilidades e inabilidades pessoais: havendo visitas pare receber, o melhor cozinheiro deve estar no fogão, e quando se trata de preparativos de férias, a escolha de hotéis e voos não deve ser deixada ao parceiro que sempre comete erros neste assunto. Este segundo ponto em particular está de acordo com os resultados de um estudo mais antigo sobre o assunto realizado pelo sociólogo francês Jean-Claude Kaufmann: quando um cônjuge afirma de forma crível que simplesmente não consegue fazer isto ou aquilo, este argumento costuma ter validade nas relações amorosas.
Porque a explicação feminista não é aceita?
O olhar feminista da autora não deixou de notar que logo depois do trabalho muitos homens não querem ser capazes de fazer o que fazem durante o dia. Já no caminho do escritório para casa muitos homens talentosos em termos organizacionais transformam-se em preguiçosos que ficariam em apuros sem a ajuda firme da sua esposa. Ela também notou que por detrás das limitações estão escolhas desiguais e uma vontade desigual de sacrifício. O horário de trabalho da esposa é mais curto apenas porque ela estava disposta a trabalhar em tempo parcial. Mas também pode haver razões factuais para isto, por exemplo, a perda de rendimento esperada para o conjunto da família.
Mas voltando à questão principal: Porque é que as explicações feministas não são aceitas? Os dois tipos de argumentos podem ser formulados de uma forma tão neutra em termos de gênero que o fardo mais pesado sobre a mulher parece ser uma coincidência. O fardo é mais pesado para a mulher do que para o homem, mas não porque ela é mulher, e sim por outras razões e apenas enquanto estas razões persistem. Os casais compreendem assim o princípio da igualdade da mesma forma que os juristas: não como proibindo as desigualdades, mas como forçando a que estas sejam justificadas com base no mérito do caso, e não no gênero das partes envolvidas.
Esta leitura da situação tem o mérito significativo de impedir que de uma desigualdade específica possa se derivar alguma outra. Assim, a distribuição desigual do trabalho doméstico não funciona como base para o marido se afirmar sobre a esposa em desacordos de opinião ou como fundamento para a distribuição desigual da influência na criação dos filhos ou das prerrogativas decisórias sobre grandes compras. Pelo contrário, tudo isto deve ser reexaminado, questão por questão.
Bibliografia
Allison Daminger, De-gendered Processes, Gendered Outcomes, in: American Sociological Review 85 (2020), p. 806-829; Jean-Claude Kaufmann, Schmutzige Wäsche, Konstanz 1994.
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Sobre o autor

Roberto Dutra

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