Lembrança tecnológica
06/08/2022 | 14h46
Mal acordou, não sabia sequer onde estava. Ao seu lado, a mulher com quem passara mais da metade dos anos vividos até então, uma completa desconhecida.

Sua primeira reação, atônito, foi sentar de prontidão na beira da cama, tatear o chinelo que se perdera ao longo da noite pelo tapete e, prestes a atacar a mulher, gritar: sai da minha casa AGORA!

Aflita, Neide se ergueu com a robustez da voz do marido e ainda tentou o diálogo: Freitas, sou eu, a Neide. Mas ele continuou a repelir a invasora, chegando a pegar o copo plástico da cabeceira para lançar contra ela.

Só então, vencida pelo esquecimento do marido, ela levantou e foi fazer o café, deixando ele só. Os dias passavam assim, entre lapsos de passado e presente, com o constante esquecimento de quem era ela.

Já na sala, tempos depois, ela assistia ao telejornal quando ouviu Freitas falar sozinho no quarto: Alexa, acenda a luz. Uma ponta de ciúme bateu. Dela, ele não se esqueceu.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Pequenas ficções pessoais
30/07/2022 | 14h00
Pixabay.
Se um barulho que corre na rua se aproxima de uma queda, um estampido, tudo bem, é o vento. Qual uma ocorrência paralisante de repente, os fragmentos cotidianos são juntados nas minuciosas explicações que damos para tudo. Do absoluto misticismo até a mais acurada observação, tudo passa pelo crivo hipotético de algo que pode não ser.

Isso porque a memória é um conjunto de justificativas que, reiteradas, respondem o que ninguém perguntou. Mas as questões permanecem postas apesar de a mente humana se satisfazer com a invenção injustificável.

Daí a racionalidade que tanto nos difere dos outros seres não ser mais que a ficção a colorir cada fato segundo o qual nos convencemos e seguimos como se realmente soubéssemos para onde vamos.

Diante do outro, diante do desconhecido, somos os mesmos a perpetuar visões de mundo que significam algo, no talvez das solidões, apenas para nós mesmos dentro de um contexto simbólico no qual nos imergimos. Esquecemos parágrafos para contar incríveis histórias que nem foram tão relevantes assim.

Talvez porque somos contaminados, às migalhas, pela verdade que alimentamos sobre o mundo – a qual se baseia, por sua vez, na verdade que se convencionou passar adiante. Ou talvez porque somos ególatras o suficiente para não aceitar uma outra versão.

E, assim, seguimos a esquecer ou inventar ou prescrever a narrativa do que aconteceu(rá) sob a ótica disforme de alguém que explica – e se convence - o mundo para si mesmo.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Desgaste em tempo real
23/07/2022 | 14h00
Criação de Irina Blok
 
Abastecido de opções por todos os lados, ao ser humano contemporâneo parece faltar vontade quando não se acha o que fazer.

Isso porque há um jogo de sedução por toda parte a tentar atrair as atenções que, fartas, sequer se importam com a notificação que vibra com mais do mesmo.

Tudo se explica na cobiça pelo excesso, que reduz os dias a uma realidade banal, ciclicamente marcada pelo exaurimento da euforia – que, passageira, dá lugar à vontade de querer.

Fora o sentimento de exaustão que se contorce pelo bombardeio de informações, ainda é preciso não sucumbir diante da impositiva sensação de ter que estar a par de tudo, emitir opinião engajada e, além disso, se entreter.

O que faz parecer um conjunto de obrigações sem sentido criadas, especialmente, pela vida virtual que levamos. Afinal, há algo de alienante a justificar a relação recompensa-prazer criada na mente humana quando se tem conhecimento do relevante divórcio de atores nem tão famosos assim.

Curiosidade, alteridade, fofoca? O tempo se preenche na incansável rolagem de inutilidades, que morre na absoluta ausência de vontade mergulhada na necessidade de estar conectado.

Por trás de alguém profundamente por dentro dos trending topics, há um vazio acachapante que corrói o próprio excesso de vontade.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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O simbolismo das fotografias
16/07/2022 | 16h22
(1999)
 
Pra qualquer criança, ter sua espoletice interrompida é uma espécie de negação da própria liberdade. Faz parecer que o adulto - essa figura chata que vive querendo colocar limite e responsabilidade em tudo – sente, no fundo, alguma dor de cotovelo por não viver mais aquele mundo de criatividade descompromissada, tentando podar a criança a fim de vingar as opressões da vida. Mas talvez exista um porquê em alguns desses casos.

Se tem um momento incompreendido pelas crianças e supervalorizado pelos adultos, é o de tirar fotografias. É aquele momento em que o pequeno interrompe sua preciosa correria e – suado, descabelado, roupa suja e tudo mais de direito – ouve a desalmada frase: “dá um sorriso direito, garoto!”.

Isso significa dizer, no mínimo, que a passagem do tempo ou faz com que a pessoa fique cada vez mais parecida com um tio chato e ranzinza ou faz com que valorize cada vez mais o passado e sinta a importância de acumular momentos em objetos simbólicos, como as fotografias – que já nem são mais objetos corpóreos, banais que ficaram.

No meu tempo – sim, uso essa expressão taxativamente antiquada para dizer, do alto dos meus vinte e três anos, que, de alguma maneira, sou da antiga -, tirar foto era ainda pior, pois tinha toda a engenharia da máquina, a limitação dos filmes, a pose da foto e essas coisas que eu já nem compreendo mais, afinal, a idade vai chegando, e a memória vai ficando limitada sobre as coisas da infância.

E falar disso leva minha lembrança diretamente a um dia, eu tinha três anos, perto do aniversário dos meus pais, quando estavam todos arrumando a casa para a festa, e eu corria de um lado para o outro, sem parar. Não estou inventando nada: fui uma criança legitimamente travessa. E, num espaço aberto, na animação festiva do momento, eu corria de um lado para o outro, é claro.

Até que, num repentino momento de pausa, minha mãe me chamou para tirar uma foto. Eu, sorriso forçado, suor escorrendo, camisa molhada, peguei meu cachorro, um poodle chamado Floffy, e tirei uma foto corrida para logo voltar a brincar.

Hoje, tantos anos passados, tenho essa foto como uma gostosa lembrança do meu cachorro, da minha infância, da minha espoletice – hoje ranzinzice -, e valorizo demais essas pequenas lembranças. Estou, decerto, com os sintomas do adultismo – e faço questão de registrar cada momento que posso pra alimentar as lembranças do depois.
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Enquanto sou observado
09/07/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay.
 
Uma confidência pouco relevante: eu me divirto enquanto, num lugar movimentado, crio ficções improváveis sobre as pessoas ao meu redor.

Praça de alimentação de shopping, por exemplo, é o lugar perfeito para sentar e observar e comentar os hábitos das pessoas – numa espécie de flaneurismo sedentário que substitui tranquilamente uma caminhada urbana por um hambúrguer.

Horas antes de este texto ser escrito, três homens reunidos numa mesa da área de alimentação de um shopping campista dividiam garrafinhas de água e pacotes de um biscoito de isopor com corante amarelo não identificado.

O motivo de estarem ali? Hipóteses surgiram – de terapia em grupo até promessa religiosa -, mas eles, provavelmente, estavam apenas fugindo da pacata rotina de suas casas numa sexta à noite.

Quase ao mesmo tempo, uma menina chorosa derrubou uma cadeira e saiu acompanhada por um grupo de adolescentes agitados. Teria ela ficado sabendo do fim de sua banda preferida por um colega inclemente que deu a notícia sem a devida cerimônia?

Tudo se passa na dinâmica dos minutos enquanto a comida não chega.

Ao meu lado, um homem sozinho passou cerca de meia hora com dois pratos de comida intocados na sua frente. Teria ele sido abandonado num encontro ou a pessoa realmente estava a caminho? Ou teria ele espaço interno para duas refeições?

Na verdade, a vida dos outros é de interesse público enquanto o estômago não está ocupado.

O que não se sabia, porém, é que o pessoal da mesa ao lado ria inventando histórias sobre quem estava observando a atitude dos outros – numa reação desencadeada pela simples presença humana ociosa num ambiente aglomerado.

Antes de terminar, vale um detalhe final a título de desfecho: apesar do tempo passado, a acompanhante do rapaz da mesa ao lado chegou. A espera não foi em vão, e eu não podia deixar vocês sem esse comentário relevante.

Com um pouco de criatividade ou de esperança, portanto, até o apetite pode aguardar.
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Como viver sem clichês
02/07/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay.
Determinados padrões sempre se repetem. Há nuances, estruturas, minúcias, que, invariavelmente, voltam à cena porque temos uma tendência ao mimetismo.

A vida – essa rotina cíclica dividida por pausas pontuais com tempo marcado – é um clichê por si só. Sendo que a clicherização não passa de uma ênfase dada a algo incrivelmente idiota ou mesmo a algo curiosamente relevante, que, por isso, se repete.

Mas tem sempre um sujeito que, ao comentar um filme ou uma obra de arte, vai dizer, envolvido em sua empáfia: achei muito clichê – o que, convenhamos, é um comentário bem clichê.

E é por isso que, apesar de me esforçar, não entendo o que essas pessoas têm contra o clichê. Talvez seja um desejo insaciável de serem surpreendidas, o que, por si, já acaba com qualquer surpresa. Ou mesmo uma necessidade de ver coisas completamente originais que, mal sabem, são paráfrases bem feitas de algo batido há muito tempo.

A dica, de pronto, para viver sem clichês é parar de dar atenção ao mundo ao redor. Penso que o mundo é uma eterna – e cíclica – novidade aos desatentos, que sempre perdem um detalhe e podem ser pegos de súbito por uma nuance óbvia que passou enquanto se mexe no celular.

Por outro lado, a repetição das mesmas coisas pode ter uma utilidade nostálgica de retomar certo sentimento que ilustrou deliciosamente uma parte da vida. Por isso, repetir – e valorizar o clichê – tem o seu valor para reviver com novos significados.

Aos extremamente atentos e presunçosos por isso, vale sempre ponderar: talvez o clichê que você critica seja sua própria vida passando regular e serena enquanto você exige novidades da ficção.


*Esta crônica faz parte da série “Manual de desutilidades”, que tem como finalidade trazer reflexões críticas sobre questões cotidianas, brincando com o pragmatismo dos manuais de instruções – mas sem a pretensão de instruir ninguém.
**Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Vida sebastiana
25/06/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay.
 
O primeiro passo para a frustração, você já deve saber, é criar expectativa sobre algo. Alimentar esperanças sobre o que se deseja pode ter repercussões danosas por uma vida inteira.

Sebastião, por exemplo, nunca se ligou nisso. Passou toda sua trajetória esperando reconhecimento da mãe por seus feitos na escola e no trabalho. Chegou recentemente ao doutorado ouvindo não fez mais que a obrigação.

E essa postura esperançosa sobre as coisas fez dele um ranzinza diante de surpresas nada surpreendentes: esperava que o prato do restaurante chegasse quente – tolice -, esperava que o amigo pagasse o empréstimo devido – coitado -, projetava uma tarde de domingo divertida toda semana – mas sempre dormia.

Sua esperança chegava a dar dó principalmente em Patrícia, sua esposa, que padecia junto com Sebastião ao ver que ele sempre esperava mais do que seria entregue – até quando o contrário era óbvio.

Ele fazia questão, por segurança, de tomar as mesmas atitudes e se frustrar com os mesmos resultados todos os dias.

Alguns tópicos, porém, deixavam Sebastião irritado. Quando falavam de política, por exemplo, ele tinha até um discurso decorado: sempre estava cansado de tanta corrupção e roubalheira, que precisava de alguém comprometido com a moralidade da nação.

Nesse caso, a ilusão do nosso personagem estava em pensar que o político deveria ser um sujeito escolhido divinamente para assumir o poder - e não uma pessoa gestada e escolhida como um reflexo da sociedade ao seu redor.

E veja só a curiosa expectativa criada por ele: em 2018, resolveu apostar suas fichas em um político com quase trinta anos de estrada – sem um único feito relevante em sua vida pública – acreditando que ele faria relevantes trabalhos ao sair do Legislativo para se tornar presidente.

Diferente de Sebastião, eu não criarei nenhuma expectativa quanto a você, leitor(a), e sinceramente não vou ficar esperando que você chegue a este ponto do texto.

Mas, sem querer me iludir, deixo aqui a questão: você realmente ainda acha que os problemas atuais do país são culpa de um governo que está fora do poder há cerca de seis anos e que o governante atual faria algum milagre para sairmos do buraco econômico, social e sanitário?

Sendo a resposta positiva, vale rever o quão Sebastião você tem sido.
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Para além da corrida
18/06/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay
 
Não bastando as necessidades prementes, ele precisava pensar constantemente na pressa com que se deslocaria de um ponto ao outro da cidade enquanto seu celular se alimentava com energia do próprio carro.

O passageiro entrava, saía quilômetros depois para outro entrar em seguida, numa lógica produtiva que fazia das ruas esteira de produção – sendo o carro e o motorista os produtos movimentados por todo o processo.

Na lógica devastadora de necessitar e suprir, o motor do carro grunhia ruidosamente, como a dizer que não suportava toda aquela rotina, mas aceitando maquinalmente o fato de ter que funcionar por tantas horas seguidas. O motorista, porém, sequer podia cogitar seus próprios limites.

Uma virada de chave era capaz de acionar todo um sistema de engrenagens e eixos – qual a necessidade, a despertar sentimentos primitivos nos seres humanos.

Na predatória sensação de aceitar uma corrida atrás da outra, o homem produz dinheiro enquanto queima combustível, enquanto dilapida seu tempo para garantir que sobreviverá por algum tempo mais.

Os pensamentos, se não ignorados na jornada de doze horas, consumiriam o cérebro a ponto de o homem não conseguir percorrer as rotas. Isso porque algo diferia o homem da máquina: enquanto o motor era capaz de queimar questionamentos junto com os combustíveis, o motorista não dispunha de tal estrutura, restando a ele calar.

Num sistema de lucros que se abastece com a necessidade, o homem crê estar trabalhando autonomamente enquanto se explora em nome do lucro de um terceiro, que, por sua vez, cisma em chamar seus empregados de autônomos, numa lógica empreendedora que cria a autoexploração sem que nenhum patrão precise cobrar.

A contemporaneidade extorque o tempo do homem para extrair lucro, fazendo de cada curva, de cada toque do celular, um traço das relações exploratórias que se calam na impossibilidade de fechar os olhos à noite – enquanto a máquina permanece a produzir necessidades.


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Como (não) disfarçar a realidade
11/06/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay
 
A casa está pegando fogo. Um incêndio. Fumaça, labaredas, um calor absurdo espalhado ao redor, algo factualmente aferível.

Mas ele não acreditava. Sentado na sala, sequer era capaz de se incomodar com a fumaça e o calor insuportáveis. Estava, é claro, em seus últimos minutos, mas insistia em crer que não havia fogo, fazendo valer sua teimosa opinião até o fim.

Não chamaria socorro, uma vez que não acreditava no que vivia. A realidade palpável dependia de sua interpretação para acontecer, prevalecendo sua opinião sobre o mundo ao redor.

Parece absurdo, mas o mesmo ocorreu com a COVID, com a vacina, com a terra plana e com tantos outros temas que são reduzidos a assuntos de ordem opinativa.

Fica a critério, porém, de quem presencia o absurdo julgá-lo como tal. Mas o que se faz ainda mais incongruente nisso tudo é pensar que a negação da realidade pode ter um propósito muito bem articulado.

Exemplos importantes contornam as jogadas de marketing das eleições presidenciais deste ano: a constante negação da segurança das urnas eletrônicas e o despautério da negação das pesquisas de intenção de voto - que dão a vitória para o candidato da oposição - são dois emblemáticos casos de rejeição da realidade.

O primeiro caso a gente já sabe o porquê: negar a segurança das urnas é apenas uma prévia do queixume - leia-se chilique - de uma possível derrota.

O segundo caso não é tão grave para a democracia brasileira, mas sim para a sanidade mental: eleitores fanáticos atacaram, nesta semana, a XP Investimentos em razão da pesquisa encomendada ao Instituto Ipespe. Nenhuma novidade nos números divulgados: a diferença entre o primeiro e o segundo candidatos era significativa, e a pesquisa, diante dos protestos, foi anulada.

A sede por negar a realidade é tanta que os transgressores da existência tendem a evidenciá-la nos atos grotescos de quem não se localizou na tragédia brasileira dos últimos anos.

A melhor parte, pensando no segundo caso, é que a casa - diz a pesquisa - está pegando fogo e vai ruir em breve. Só não vê quem permanece dentro dela.


*Esta crônica faz parte da série “Manual de desutilidades”, que tem como finalidade trazer reflexões críticas sobre questões cotidianas, brincando com o pragmatismo dos manuais de instruções – mas sem a pretensão de instruir ninguém.
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Tempo-controle
04/06/2022 | 14h17
Fonte: Pixabay
Escantilhando as arestas tortuosas, o tanto do tempo que ainda resta se esvai pelo vidro. Como se, preso num cantil, pudesse ser mais facilmente amealhado entre as afoitezas que o consomem, manejado pelas bordas sem perder um único grão.

Fica a impressão de que a vida é unidade mensurável em cortes quantificados, numericamente etiquetados por instante transcorrido. E o dia é o que cabe dentro das passadas dos ponteiros, algo que pode ser constantemente conferido de acordo com a posição do sol, a projeção das sombras, o alarme matinal do celular e a limitação dos compromissos listados ao longo do dia.

As expectativas, por sua vez, se esvaem junto com as horas, em desejos seletivos que se aleatorizam a cada ciclo que, mesmo em aberto, parece controladamente fechado. Isso porque nada cabe nos limites aparentemente fechados pelas arestas.

Mas o ser humano permanece(mos) à procura de formas de estar no controle, seja no quadriculado do calendário, seja na engrenagem do relógio, seja na conferência constante do que se passa no telefone. Tudo permite colocar o tempo no bolso, mas não permite segurá-lo, abstrato como escoa.

E o lazer o trabalho a ideia o compromisso o alarme o prazer a reunião o foco a aula o homem tocando a campainha se confundem na simultaneidade indefinida de algo que se pensa ter.

Mas tudo cansa porque há uma pressa – invisível, porém acachapante – capaz de ceifar a capacidade de perceber as minúcias. E tudo se sintetiza qual o tempo, que se mede não pelas vivências, mas pelos minutos regrados.

*Aproveito este espaço para agradecer ao poeta e jornalista Aluysio Abreu Barbosa pela cobertura do lançamento do meu segundo livro, "Muros impalpáveis - Recorte poético da cidade de Campos", que ocorrerá hoje (4), às 16h, na Sede da Academia Campista de Letras. A matéria pode ser lida aqui, e a entrevista concedida ao programa Folha no Ar pode ser assistida aqui.

**Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Sobre o autor

Ronaldo Junior

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Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.