Arredores
Ronaldo Junior
Fonte: Pixabay.
Aqui, detrás desses painéis que não te permitem me enxergar, dou as últimas pinceladas nas imagens para as quais pretendo olhar pelo resto dos meus dias - não que sejam muitos, mas são tudo que tenho.
 
Aproveitei para, numa pausa entre a observação e a mistura de tons, relatar o que faço como forma de explicar para mim mesmo os anseios por trás dessa que já considero minha principal obra.
 
VanGogh pode ter retratado a si mesmo, Michelangelo pode ter expressado a divindade, Picasso pode ter dado forma ao indizível, mas eu pinto para compor o que desejo vivenciar.
 
Não me refiro à imaturidade de pintar meus desejos ou paixões juvenis. Já passei disso há anos. Na verdade, falo de pintar minhas ficções pessoais, com as quais convivo e nas quais acredito a cada amanhecer.
 
A ideia de me dedicar a isso surgiu quando passei um tempo na casa do meu irmão, podendo olhar de perto a rotina da família e, em especial, do meu sobrinho mais novo. Parei para ter uma conversa com ele, saber de suas questões particulares e de sua formação, ter um contato com a juventude, mas fui surpreendido com uma realidade paralela.
 
Ele, assim como o restante da família, tinha uma perspectiva distorcida de acontecimentos históricos, descobertas científicas e até mesmo de fenômenos da natureza. Suas convicções chegavam a níveis de creditar fatos singelos ao divino ou mesmo explicar coincidências com teorias conspiratórias.
 
Faz alguns meses, saí de lá para procurar um canto e viver sozinho. E fiz isso convicto de que algo faltava em minha vida. Passar quatro décadas me dedicando a ilustrar, pintar e projetar murais fez com que eu nunca olhasse para o que havia de cor dentro de mim.
 
Se bem que, devo dizer, eu me encontrava simbolizado em cada pincelada que dedicava durante os meses de execução de um trabalho. Mas nunca tive algo meu, voltado para mim. Então resolvi fabricar meu próprio ópio, modelar a ficção absurda com a qual convivo em meus pensamentos e dar, enfim, uma explicação para tudo que fiz até hoje.
 
Aluguei este cubículo que me leva quase toda a aposentadoria e dediquei os últimos meses a idealizar o meu lugar nos painéis que agora me cercam. Penso, olhando agora, que pintei uma espécie de deserto, no qual sou eu mesmo o escaldar do sol e o refletir da lua, sou o centro.
 
Estou cercado de uma imensidão que pode ser infinito vazio ou abastado preenchimento, depende do dia em que observo. Nunca pisei num deserto nem nunca me detive a pensar em um, mas não havia outro motivo para esses painéis que não fossem tornar acessíveis os grãos de areia - ora cortantes como vidro, ora macios como flocos de espuma - que eu trazia em mim.
 
E assim, a partir dessa mensagem que escrevo antes mesmo de concluir as pinceladas, explico por que me isolei de todos e resolvi viver na misantropia da reclusão: tenho um deserto inteiro a percorrer todos os dias, às vezes em jejum, às vezes em um oásis. Foi essa a realidade em que escolhi acreditar e, nela, você me encontra enquanto lê estas palavras.
 
Você já encontrou a sua?
 
*Ronaldo Junior tem 27 anos, é carioca, bacharel em Direito, licenciado em Letras e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
A partir de 2024, escreve no último sábado de cada mês no blog Extravio.

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    Ronaldo Junior

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    Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.