Crítica de cinema - O problema é a coda
Edgar Vianna de Andrade - Atualizado em 06/11/2017 18:30
A Noiva
A Noiva / Divulgação
(A Noiva) - Viajar de uma cidade russa para a zona rural do país deve representar uma mudança considerável, ainda nos dias de hoje. Já chegou ao nosso conhecimento que as cidades russas ocidentalizaram-se muito desde Pedro, o Grande. Mas o campo ainda é um mistério. O filme “A noiva” é dirigido pelo jovem Svyatoslav Podgayevskiy, também autor do roteiro.
Ele bem poderia ser comparado a “Corra”, uma parábola ao racismo vigente nos Estados Unidos na forma do gênero terror. Em “Corra”, há uma história particular para entendimento dos espectadores pouco exigentes e uma história profunda para os muito exigentes.
Poderíamos entender “A noiva” com esse duplo sentido. Para os pouco exigentes, trata-se de um filme de terror sobre uma família amaldiçoada vivendo no interior da Rússia. Para os exigentes, ele pode ser considerado um estudo sobre os contrastes entre a Rússia urbana e a Rússia rural. Existe ainda uma Rússia profunda que sobreviveu à revolução de 1917 e à invasão do capitalismo depois do esfacelamento da União Soviética. Esta Rússia está presente nos escritos de Tchecov.
Mateusinho
Mateusinho / Divulgação
No sentido literal, o marido fotógrafo no século XIX, perde a noiva. Ele acredita que o sacrifício de uma moça virgem permitirá que sua alma se incorpore no corpo da noiva morta. Ao que parece, essa noiva precisa de almas novas para se manter viva através dos tempos. É um espectro que precisa de alimento sobrenatural. Mas existe muito de metáfora nessa história. O casamento representa a morte da mulher junto ao marido. Ela deve abdicar de sua vida própria para cuidar do homem com quem casou, dos filhos e da casa.
Esse ambiente ainda não totalmente dessacralizado receberá a visita de um casal prestes a se casar. Ele vai visitar sua irmã e não deseja a companhia de sua noiva. Mas ela insiste em acompanhá-lo. As forças antigas e soturnas aguardam uma moça virgem para que a noiva morta se alimente de sua alma. Contudo, virgindade é um artigo de luxo na cidade. No passado, a pureza da virgindade salvava as moças dos perigos sobrenaturais. Hoje, a salvação está na ausência dela. Fica a advertência: antes de visitar o campo, as moças devem perder a virgindade.
Um dos equívocos do filme é tentar ganhar o mercado ocidental com a língua. Ele é falado em inglês. Em russo, o clima de terror seria mais intenso. Em música erudita, a finalização é chamada de coda. Existem compositores que sabem dar um toque final em suas composições. Outros se perdem nessa conclusão. É o problema de “A noiva”. A coda foi a salvação da noiva, mas a perdição do filme.
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