Vida sebastiana
25/06/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay.
 
O primeiro passo para a frustração, você já deve saber, é criar expectativa sobre algo. Alimentar esperanças sobre o que se deseja pode ter repercussões danosas por uma vida inteira.

Sebastião, por exemplo, nunca se ligou nisso. Passou toda sua trajetória esperando reconhecimento da mãe por seus feitos na escola e no trabalho. Chegou recentemente ao doutorado ouvindo não fez mais que a obrigação.

E essa postura esperançosa sobre as coisas fez dele um ranzinza diante de surpresas nada surpreendentes: esperava que o prato do restaurante chegasse quente – tolice -, esperava que o amigo pagasse o empréstimo devido – coitado -, projetava uma tarde de domingo divertida toda semana – mas sempre dormia.

Sua esperança chegava a dar dó principalmente em Patrícia, sua esposa, que padecia junto com Sebastião ao ver que ele sempre esperava mais do que seria entregue – até quando o contrário era óbvio.

Ele fazia questão, por segurança, de tomar as mesmas atitudes e se frustrar com os mesmos resultados todos os dias.

Alguns tópicos, porém, deixavam Sebastião irritado. Quando falavam de política, por exemplo, ele tinha até um discurso decorado: sempre estava cansado de tanta corrupção e roubalheira, que precisava de alguém comprometido com a moralidade da nação.

Nesse caso, a ilusão do nosso personagem estava em pensar que o político deveria ser um sujeito escolhido divinamente para assumir o poder - e não uma pessoa gestada e escolhida como um reflexo da sociedade ao seu redor.

E veja só a curiosa expectativa criada por ele: em 2018, resolveu apostar suas fichas em um político com quase trinta anos de estrada – sem um único feito relevante em sua vida pública – acreditando que ele faria relevantes trabalhos ao sair do Legislativo para se tornar presidente.

Diferente de Sebastião, eu não criarei nenhuma expectativa quanto a você, leitor(a), e sinceramente não vou ficar esperando que você chegue a este ponto do texto.

Mas, sem querer me iludir, deixo aqui a questão: você realmente ainda acha que os problemas atuais do país são culpa de um governo que está fora do poder há cerca de seis anos e que o governante atual faria algum milagre para sairmos do buraco econômico, social e sanitário?

Sendo a resposta positiva, vale rever o quão Sebastião você tem sido.
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Para além da corrida
18/06/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay
 
Não bastando as necessidades prementes, ele precisava pensar constantemente na pressa com que se deslocaria de um ponto ao outro da cidade enquanto seu celular se alimentava com energia do próprio carro.

O passageiro entrava, saía quilômetros depois para outro entrar em seguida, numa lógica produtiva que fazia das ruas esteira de produção – sendo o carro e o motorista os produtos movimentados por todo o processo.

Na lógica devastadora de necessitar e suprir, o motor do carro grunhia ruidosamente, como a dizer que não suportava toda aquela rotina, mas aceitando maquinalmente o fato de ter que funcionar por tantas horas seguidas. O motorista, porém, sequer podia cogitar seus próprios limites.

Uma virada de chave era capaz de acionar todo um sistema de engrenagens e eixos – qual a necessidade, a despertar sentimentos primitivos nos seres humanos.

Na predatória sensação de aceitar uma corrida atrás da outra, o homem produz dinheiro enquanto queima combustível, enquanto dilapida seu tempo para garantir que sobreviverá por algum tempo mais.

Os pensamentos, se não ignorados na jornada de doze horas, consumiriam o cérebro a ponto de o homem não conseguir percorrer as rotas. Isso porque algo diferia o homem da máquina: enquanto o motor era capaz de queimar questionamentos junto com os combustíveis, o motorista não dispunha de tal estrutura, restando a ele calar.

Num sistema de lucros que se abastece com a necessidade, o homem crê estar trabalhando autonomamente enquanto se explora em nome do lucro de um terceiro, que, por sua vez, cisma em chamar seus empregados de autônomos, numa lógica empreendedora que cria a autoexploração sem que nenhum patrão precise cobrar.

A contemporaneidade extorque o tempo do homem para extrair lucro, fazendo de cada curva, de cada toque do celular, um traço das relações exploratórias que se calam na impossibilidade de fechar os olhos à noite – enquanto a máquina permanece a produzir necessidades.


*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Como (não) disfarçar a realidade
11/06/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay
 
A casa está pegando fogo. Um incêndio. Fumaça, labaredas, um calor absurdo espalhado ao redor, algo factualmente aferível.

Mas ele não acreditava. Sentado na sala, sequer era capaz de se incomodar com a fumaça e o calor insuportáveis. Estava, é claro, em seus últimos minutos, mas insistia em crer que não havia fogo, fazendo valer sua teimosa opinião até o fim.

Não chamaria socorro, uma vez que não acreditava no que vivia. A realidade palpável dependia de sua interpretação para acontecer, prevalecendo sua opinião sobre o mundo ao redor.

Parece absurdo, mas o mesmo ocorreu com a COVID, com a vacina, com a terra plana e com tantos outros temas que são reduzidos a assuntos de ordem opinativa.

Fica a critério, porém, de quem presencia o absurdo julgá-lo como tal. Mas o que se faz ainda mais incongruente nisso tudo é pensar que a negação da realidade pode ter um propósito muito bem articulado.

Exemplos importantes contornam as jogadas de marketing das eleições presidenciais deste ano: a constante negação da segurança das urnas eletrônicas e o despautério da negação das pesquisas de intenção de voto - que dão a vitória para o candidato da oposição - são dois emblemáticos casos de rejeição da realidade.

O primeiro caso a gente já sabe o porquê: negar a segurança das urnas é apenas uma prévia do queixume - leia-se chilique - de uma possível derrota.

O segundo caso não é tão grave para a democracia brasileira, mas sim para a sanidade mental: eleitores fanáticos atacaram, nesta semana, a XP Investimentos em razão da pesquisa encomendada ao Instituto Ipespe. Nenhuma novidade nos números divulgados: a diferença entre o primeiro e o segundo candidatos era significativa, e a pesquisa, diante dos protestos, foi anulada.

A sede por negar a realidade é tanta que os transgressores da existência tendem a evidenciá-la nos atos grotescos de quem não se localizou na tragédia brasileira dos últimos anos.

A melhor parte, pensando no segundo caso, é que a casa - diz a pesquisa - está pegando fogo e vai ruir em breve. Só não vê quem permanece dentro dela.


*Esta crônica faz parte da série “Manual de desutilidades”, que tem como finalidade trazer reflexões críticas sobre questões cotidianas, brincando com o pragmatismo dos manuais de instruções – mas sem a pretensão de instruir ninguém.
**Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Tempo-controle
04/06/2022 | 14h17
Fonte: Pixabay
Escantilhando as arestas tortuosas, o tanto do tempo que ainda resta se esvai pelo vidro. Como se, preso num cantil, pudesse ser mais facilmente amealhado entre as afoitezas que o consomem, manejado pelas bordas sem perder um único grão.

Fica a impressão de que a vida é unidade mensurável em cortes quantificados, numericamente etiquetados por instante transcorrido. E o dia é o que cabe dentro das passadas dos ponteiros, algo que pode ser constantemente conferido de acordo com a posição do sol, a projeção das sombras, o alarme matinal do celular e a limitação dos compromissos listados ao longo do dia.

As expectativas, por sua vez, se esvaem junto com as horas, em desejos seletivos que se aleatorizam a cada ciclo que, mesmo em aberto, parece controladamente fechado. Isso porque nada cabe nos limites aparentemente fechados pelas arestas.

Mas o ser humano permanece(mos) à procura de formas de estar no controle, seja no quadriculado do calendário, seja na engrenagem do relógio, seja na conferência constante do que se passa no telefone. Tudo permite colocar o tempo no bolso, mas não permite segurá-lo, abstrato como escoa.

E o lazer o trabalho a ideia o compromisso o alarme o prazer a reunião o foco a aula o homem tocando a campainha se confundem na simultaneidade indefinida de algo que se pensa ter.

Mas tudo cansa porque há uma pressa – invisível, porém acachapante – capaz de ceifar a capacidade de perceber as minúcias. E tudo se sintetiza qual o tempo, que se mede não pelas vivências, mas pelos minutos regrados.

*Aproveito este espaço para agradecer ao poeta e jornalista Aluysio Abreu Barbosa pela cobertura do lançamento do meu segundo livro, "Muros impalpáveis - Recorte poético da cidade de Campos", que ocorrerá hoje (4), às 16h, na Sede da Academia Campista de Letras. A matéria pode ser lida aqui, e a entrevista concedida ao programa Folha no Ar pode ser assistida aqui.

**Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Apagamento
28/05/2022 | 14h01
A persistência da memória (1931), de Salvador Dalí
Não há, por trás da tela, lembrança guardada pela digitalidade que nos leve às origens.

Esmaecem pouco a pouco os traços humanos que se moldam às ramificações maquinais deixadas pela contemporaneidade. Diferente do que parece, o acesso irrestrito à informação modela a memória de acordo com as reentrâncias ainda permeáveis da realidade.

E o que lembramos é apenas o modo de acesso, o caminho para chegar ao que se quer saber, sem, talvez, nunca alcançar a informação em si, mas apenas seu link, sua porta de entrada - joga no Google, ele sempre sabe.

E, com isso, cada dia mais esquecemos o como o porquê o quando o quem de termos chegado até aqui. E lembrar passa a ser o simples armazenamento de uma foto na memória do computador - para nunca mais acessar, na surpresa de saber um acontecimento já vivido, mas que se acredita nunca ter ocorrido.

Assim, apagamos os mínimos traços - esses detalhes inexplicáveis que dão sentido aos momentos - que se tornam apenas arquivos de uma máquina que só se acessa para tratar das pressas cotidianas.

O rosto a foto o trajeto a árvore o dia a música a dança o tempo o sol a calçada ainda estão ali, guardados no esquecimento.

Tudo se resume, por fim, à ilusão de ter pleno acesso às origens. Tudo na internet deixa rastro, você já deve ter ouvido. Mas o rastro se restringe ao quê ou a quem? A tendência ao nada, sobretudo pela sensação de pleno acesso a tudo, é cada vez mais palpável nos dias virtuais.

Dada a urgência do presente, o olhar para o passado é esquecimento. É a novidade que berra, sendo quase inviável desviar o olhar, que passa pela domesticação do agora, pela ignorância completa de algo que já foi. E vivemos na tranquilidade de saber que o passado está lá, ignorando o fato de que já não mais.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Dicas elementares para explicar o Brasil no futuro
21/05/2022 | 14h00
Ronaldo Henrique Barbosa Junior
Talvez ainda não, mas você já pensou como o Brasil do nosso tempo vai ser retratado nos livros do futuro? Como se referirão ao país com tantas aleatoriedades e tanto cinismo presente nas relações? Como explicarão as maracutaias cotidianas que enchem as páginas dos jornais e nos fazem ver que os ditos “santos” são justamente o contrário?

Impressionante, ainda no presente, é pensar que a reunião dos roteiristas que escrevem o cotidiano do país certamente é cercada por barracos, sadismo e, pasme, alguma previsibilidade.

Isso porque, nessa história, existem algumas reviravoltas revoltantes – como pessoas apoiando a gestão assassina de uma pandemia, com a nítida intenção de favorecer o vírus -, mas também existem muitas coisas que são mais do mesmo.

A eleição de um político ultraconservador pro mais alto cargo do Executivo nacional, por exemplo, não é nenhum plot twist num país construído sob os pilares da escravidão, das oligarquias e do jeitinho.

Isso, numa análise que não cabe neste espaço, desemboca nos retratos de intolerância que podemos presenciar todos os dias, com posturas que não condizem com o avançar dos tempos e com a concepção de ser humano. Nada justifica, mas nada surpreende.

Com isso, o retrato livre da nossa brasilidade mais parece uma casca bonita de uma face aterradoramente atrasada, intolerante e violenta. A liberdade alegre propagada na arte e no esporte é só uma forma de ocultarmos um passadismo encruado, que nos faz replicar padrões racistas, elitistas e heteronormativos – pra citar só três.

Explicar o Brasil de hoje, portanto, passa por compreender essas raízes e, principalmente, romper essa casca de hipocrisia que nos torna mais alegres e aprazíveis para o mundo – e pra alguns de nós que não se deram conta de onde estão vivendo.

No futuro, a explicação do Brasil atual certamente passa pela admissão de uma face vexaminosa da nossa brasilidade, com o obstáculo inacreditável de falar do país em que ninguém admite seus preconceitos e artimanhas, mas sabe sempre apontar exemplos diversos ao redor.

Fechados numa sala refrigerada com vista para o mar e adornada por um crucifixo, os roteiristas discutem rispidamente seus interesses com cerveja e churrasco à vontade. Na porta, uma placa: “SÓ FUNCIONAMOS MEIO EXPEDIENTE, VOLTE AMANHÔ.

*Esta crônica faz parte da série “Manual de desutilidades”, que tem como finalidade trazer reflexões críticas sobre questões cotidianas, brincando com o pragmatismo dos manuais de instruções – mas sem a pretensão de instruir ninguém.
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Melodia de despertar
14/05/2022 | 14h00
Foto: Ana Paula Lopes
A luz entrava em penumbra pela fresta deixada na cortina do quarto, e todos ainda dormiam prostradamente – o casal e a pequena Yorkshire com um ano de amabilidade recém-completado.

Numa repentina vibração, a tela do celular se acendeu e começou a tocar uma ligeiramente aguda e repetitiva melodia acompanhada pela trepidação do aparelho apoiado na mesa de cabeceira.

Com isso, arregalaram-se as duas pequenas jabuticabas da cadelinha Jolie, que se encontrava delicadamente espalhada no meio do edredom. A questão era que a música – incapaz de despertar o casal de imediato – causava na pequena uma euforia inquietante, com pulos e lambidas e leves impulsos com a pata dianteira para acordar seus humanos.

Eles, sonolentos pelo excesso de trabalho que varara madrugada adentro, acabaram por acordar com a alegria do entusiasmo de Jolie, incapaz de conter os impulsos diante daquela música. Ela pulava pelo edredom e lambia a mão, o braço e o rosto deles, alternando a euforia entre um e outro até que alguém acordasse e fizesse cessar o som e a animação.

As horas passavam com a exatidão pontual de sempre, e Jolie se detinha em sua pequena cama, no sofá da sala ou mesmo brincando com seus humanos, mas sempre a melodia tornava a ecoar pelo ambiente – por qualquer ligação ou alarme -, trazendo novamente à tona a euforia da Yorkshire.

Nada a deixava tão feliz e inquieta, apenas a melodia – e banana, é claro. Aquela atitude, além de amável, era também digna de curiosidade: por que nenhuma outra melodia a deixava tão feliz? Seria necessário fazer experiências musicais a fim de descobrir.

Tentaram Chico Buarque, Tom Jobim, mas nenhuma reação surgia. Resolveram ouvir Marcelo D2, Paulinho Moska e Lenine, mas nada: ela dormia, inalterável. Chegaram até a se expor aos extremos pelo bem da experiência, indo do pagode ao heavy metal, mas somente a melodia do toque padrão do celular tinha tão peculiar efeito.

Então os humanos – esses seres esfaimados pela explicação e pela utilidade de tudo – resolveram ir mais a fundo, levando a tal melodia para um entendedor de música a fim de tentar desvendar o mistério.

Junto com eles, a pequena Jolie deu ao musicista – um humano que a fazia tremer de medo, uma vez que não convivia com ela - sua demonstração de afeto melódico enquanto ele ouvia atentamente aquela música que nada tinha de especial.

Ele até tentou explicar, apontando aspectos sonoros capazes de despertar tanta alegria na cachorrinha, como algumas notas agudas e o ritmo. Mas não conseguia dizer o porquê de outros sons similares não despertarem suas emoções.

Chegou a dizer que lera estudos sobre a relação entre a música clássica e o estado de relaxamento dos cães, mas, definitivamente, não era o caso: era exatamente o contrário, uma música causadora de euforia.

A questão, Jolie guardava para si, estava muito distante dos estudos feitos e das rasas explicações humanas. Aquela música, todos os dias executada, despertava nela uma reação performática incontível, e ela precisava expressar – performar – muitos sentimentos com sua euforia.

Tudo porque aquela fora a primeira música ouvida na manhã seguinte ao dia em que seus humanos a levaram para casa, na noite do dia dezesseis de dezembro.

A melodia era seu hino de descoberta do mundo a partir da nova família. Algo inefável para os humanos, mas simplesmente exprimível em sua espontaneidade.
 
*Conto publicado originalmente na antologia virtual “Meu amigo bicho” (2021), organizada por Welington Cordeiro e Cristiano Pluhar, com a colaboração de diversos autores.
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Esmaecer
07/05/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay.
A escrita tem seu ponto de partida na omissão, na arbitrariedade de quem toma para si a incumbência da palavra.

Por isso os textos têm sempre uma perspectiva própria, uma parcialidade que, por mais que se esforce para ser ampla, é sempre tendenciosa para aquilo que foi dito (o que fica de fora lá está por um motivo).

E isso faz do texto, por diversas vezes, um espaço de opressão, pois a narrativa é, quase invariavelmente, uma forma de induzir a interlocução em determinado sentido.

Deixadas de lado, todas as demais narrativas são parte da história - não contada.

E, assim, se diz pelo não dito. Se diz no silêncio da colonização do outro. E o texto se posiciona pelo que deixa de lado, impondo sigilo nas cadeias paradigmáticas capazes de dizer pelo que se excetua ao que é proferido.

Até porque não é preciso desdizer o que não fora dito, guardando apenas o que fica com o registro das arbitrariedades, deixando espaço somente para explicações do que está explicitamente posto, não do que se oculta em ausência.

Ao se contentar com a fragmentariedade das palavras selecionadas, esmaecendo as nuances que foram emudecidas, o autor toma partido da linha em branco, fazendo dela um espaço daquilo que está nas ideias, mas não se declara – qual seria sua razão?

Não saber, porém, pode até ser um privilégio para viver unicamente a superfície do agora, sem os sofrimentos de suas funduras. Por outro lado, forçar o esquecimento é perpetuar, uma vez que as marcas vividas se perdem para reaparecer mais intensamente com outras faces

Na parede da memória, a palavra não dita - falada, porém, no avesso da enunciação que se ausencifica - fala ainda mais alto pela humanidade que passa despercebida.


*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Biscoitagem
30/04/2022 | 14h00
Fazer e postar – um movimento sincronizado tão curioso quanto incômodo.

Eu sempre achei esquisita a relação obsessiva das pessoas com as redes sociais – o que se aplica também a mim -, sobretudo ao conhecer pessoalmente quem está por trás de determinados perfis.

Já gargalhei com perfis cômicos de amigos virtuais, repletos de memes engraçadíssimos – sim, meu senso de humor não é muito exigente -, e descobri depois que o administrador era um cara completamente sem graça e introvertido. Timidez ou dupla personalidade? Vai saber.

Por outro lado, para além das pessoas que viram personagens caricatos nas redes, eu fico abismado quando vejo aqueles que postam absolutamente tudo: do aniversário do cachorro ao cachorro quente na praça, nada passa sem um registro nos stories.

Neste exato instante, por exemplo, estou numa cafeteria presenciando alguém fotografar seus solitários (apesar de unidos) três pães de queijo antes de comê-los solitariamente – um like ou um emoji de coração pode, certamente, preencher esse vazio que a comida não conseguiu alcançar.

Essas pessoas, decerto, têm um dom único para criar conteúdo – desinteressante, claro -, mas expõem uma mesquinha característica humana ao querer virar os holofotes para si: a de não controlar o ego.

Se as celebridades, que costumam gerar curiosidade sobre tudo que fazem, já forçam a barra para criar conteúdo 24 horas por dia, imagina o seu amigo de trabalho, que tira foto da marmita dele todos os dias antes de almoçar? Ele pode estar indo longe demais sobre sua autoimagem.

Será um amor próprio sem limites ou uma tentativa de se fazer interessante forçosamente? Talvez nem um, nem outro. Pode ser que ele só queira se sentir menos sozinho, receber uma reação genérica e, como dizem, ganhar um biscoito.

A lista de motivos para a carência biscoital é imensa, mas o meu interesse se volta especialmente para as ideias. Por exemplo: de onde uma pessoa que posta opiniões a cada quinze minutos no Twitter tira tanta bobagem? Navegar por alguns minutos nas aleatoriedades do microblog me deixa pasmo ao ver que as pessoas têm muitas razões para se expressar – e uma criatividade que vai além do limite de caracteres.

Aliás, quem dá importância para tanta opinião lançada na internet? Esta minha, como se pode ver, não importa nada, mas exemplifica muito bem o ponto aqui colocado.

Essas ideias e opiniões devem vir de onde surgem os tantos memes dos perfis administrados por usuários introvertidos: da vontade de parecer alguém que não são. Mais impressionante ainda é conseguirem fazer as bobagens parecerem coisas relevantes.

Nota: quase tirei uma foto da cena do pão de queijo para ilustrar esse texto, mas aí já seria um biscoito extra pra pessoa da mesa ao lado.

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Degradação
23/04/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay.
Ainda habitados pelo destemor, os escombros abstratos das ideias insensatas se mantêm firmes nos despautérios que os sustentam há décadas.
 
As marcas deixadas pelo amarelecer dos anos decorridos expõem o tanto que sentem os que por eles passam. Sob os cacos ainda pendentes a dividir os símbolos e as intenções, surge uma luz lânguida que se nega a irradiar plenamente.
 
Os restos da concepção idealizada de mundo – outrora suntuosa – demarcam sua fragilidade como se a materialidade dependesse de fatores impalpáveis. E depende. Pois os princípios instáveis, quando materializados, acabam por ruir sob condições determinadas.
 
Isso porque é preciso muito mais que concreto e tijolos para manter de pé as convicções dissimuladas de quem brada contra a vida alheia e tenta inutilmente encontrar eco nas ruínas que não preservam som.
 
Na audaciosa ignorância de quem não vê que a diferença que surge pelos dias, ainda bradam entre aqueles escombros iconoclastas capazes de reverenciar as piores imagens humanas, fazendo desmoronar os restos no desespero de preservar convicções que talvez nunca devessem ter encontrado lastro.
 
Não se sente, mas o que ali se vê não mais representa a concepção de ser humano cunhada através dos séculos, mas os destroços de um passado que se deveria deixar para trás – na memória, apenas o que não se pode reviver – ainda se fazem valer pelo lastro das ruínas que já se enraizaram com a eloquência de abomináveis concepções ressurgidas.
 
Tais idealizações – mausoléus de quem cisma em manter de pé valores invariáveis – virão ao chão na imperceptível virada de um segundo. Pois o tempo invade tão remotos locais com sua cólera incontrolável para – como faz com as ruínas – esfacelar o que só era passado no agora que reside em si.


*Dica de leitura para além deste texto: soneto “Vandalismo”, de Augusto dos Anjos, do livro “Eu” (1912).
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Sobre o autor

Ronaldo Junior

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Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.