Pra não falar de política
01/10/2022 | 14h01
Fonte: Pixabay.
Depois de um considerável período de silêncio neste blog – por motivos vários -, retorno num momento em que não se fala em outra coisa: amanhã é o primeiro turno das eleições.

Fiquei tentado a falar sobre o tema, já ciente de que poderia – enquanto improvisado comentarista político - falar mais do mesmo e ficar repetindo ecos de uma abordagem qualquer que eu li no jornal.

Indo na contramão das minhas expectativas, porém, quero tomar rumo distinto e falar sobre teimosia.

Sim, esse é um assunto que move a humanidade, afinal, um teimoso inveterado é capaz de muita coisa para provar seu ponto. Quem já discutiu com um teimoso verdadeiro sabe que ele é capaz de relativizar até o terraplanismo para sair com a razão – e com a última palavra, pois ninguém suporta algo assim.

Isso significa dizer que o ser humano pode assumir consequências absurdas para garantir o posto de “coberto de razão” ou mesmo para se sentir superior ao outro, o que inclui questionar a realidade, dar um safanão na lógica e desacreditar séculos de estudos sérios sobre algo.

Tal coisa acontece, sobretudo, quando há paixão pelo tema. Um indivíduo apaixonado é capaz de garantir que seu time só foi rebaixado porque o VAR não deu um pênalti claro na rodada 15 do campeonato e brigar ferozmente por isso. Ou até dizer que seu ídolo pop não fez nada depois de ser acusado de uma centena de crimes aterradores – “mas ele é perfeito”, o sujeito dirá.

A questão da teimosia, no final das contas, se reduz ao ego de alguém que tem certeza de algo, apesar de tudo dizer o contrário – tudo mesmo. Há algo de teoria da conspiração nessa postura insensata, mas, na real, é só coisa da cabeça mesmo.

Imagine quem, ainda agora, acredita que não existiu pandemia, que vacina causa aids, que a monarquia é a solução para o Brasil e que todas as pesquisas de intenção de voto foram forjadas para favorecer um único candidato. Parece absurdo, mas pessoas que pensam assim estão por aí, teimosas até o fim, com razão até se cansarem de gritar pelo que não existe.

Ao teimoso, pode até faltar bom senso, mas falta, antes, um bom choque de realidade para entender o tempo e as condições em que se vive.

(Viu só? Em poucos parágrafos, escapei com tranquilidade do impertinente tema eleitoral.)

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Escreve aos sábados no blog Extravio.
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Candidato da esquina
03/09/2022 | 17h29
Fonte: Pixabay.
Numa esquina, recém acordado por um lojista irritado que abrira agressivamente a porta metálica do estabelecimento, José fixou seus olhos num estardalhaço que adentrava a rua.

Faixas bandeiras cânticos sorrisos apertos de mão santinhos números cargos e um samba frenético de ensurdecer.

Um pequeno grupo vinha ao redor distribuindo panfletos e apontando para o tal da foto, que estava no carro estardalhante acenando para um público imaginário, que não se fazia presente para ver o alvoroço.

José, vidrado naquele furdúncio aleatório, percebeu que a turma se aproximava, mas não em sua direção. Ainda entre as cobertas, ele foi completamente ignorado, é claro, pelo candidato e sua equipe. De um lado, isso foi ótimo, pois preferia passar mais tempo em repouso. De outro, se sentiu apenas um obstáculo a ser desviado no caminho.

Foi quando, a partir daquela tarde, ele estabeleceu uma peculiar rotina na esquina daquela rua movimentada: resolveu lançar oficialmente sua candidatura e postular um cargo para - ilusão - desbancar o homem do carro barulhento que o tratara como nada. Um banco improvisado e duas madeiras apoiadas qual balcão permitiam ler na placa, em letras malformadas, VOTE EM MIM – 0000.

O cargo para o qual se candidatava pouco importava. A questão era que causava, em seu silencioso gesto de disposição eleitoral, um espanto e até um riso naqueles que o viam ao passar pela esquina. Queria marcar posição, fazer parte daquele movimento destinado apenas aos poderosos.

E passou, então, a ocupar suas tardes inteiras sentado a acompanhar os transeuntes que se fixavam na informação do candidato sem registro, sem partido e de número vazio.

Certo dia, um garoto passou olhando e perguntou o nome dele. José, disse. Um dia você vai trabalhar com meu pai. José sorriu. Claro que não sabia quem era o pai do moleque, mas seguiu acompanhando o garoto com seu olhar sereno e abstrato, em sua seriedade de candidato anônimo.

Enquanto o pai não saía da loja ao lado, o menino corria às voltas por ali quando se voltou novamente ao homem e questionou, muito interessado, qual era o seu partido. O da rua, o garoto ouviu.

O meu pai deve conhecer seu partido. O dele é o... é o... esqueci! Mas você também deve conhecer.

Apesar da inércia de José, o garoto continuou por perto, como a sabatiná-lo em audiência única, com perguntas definidas por critério parcialíssimo – e sem a presença da assessoria do candidato.

E o que você vai fazer quando ganhar a eleição? A primeira coisa que meu pai faz sempre que ganha é comprar uma casa nova bem longe daqui e fazer uma festa lá. Toda eleição é assim.

Mal o menino dissera isso, o candidato do carro barulhento saiu da loja tomando a mão da criança. Ato contínuo, José virou ao contrário a placa que anunciava seu número. Tomado por uma repentina desesperança, viu que era inútil tentar desbancar o poderoso das tantas casas: estava retirando sua natimorta candidatura.
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Reflexões para fotógrafos de selfie
21/08/2022 | 13h22
Fonte: Pixabay.
Pra começo de conversa, a língua portuguesa possui em seu vernáculo uma palavra muito mais adequada do que o sucinto estrangeirismo selfie. Veja se a pronúncia não fica muito melhor: autorretrato.

Os preguiçosos de plantão vão me tachar de purista, de chato, mas eu já falo isso ciente de que a palavra não vai cair na boca do povo. Afinal, partindo da tendência esquartejadora que os falantes possuem, logo ouviríamos “vamos tirar um ‘aut’?”, o que estragaria por completo a beleza da palavra.

Fico com o termo estadunidificado, por fim – mas não convencido.

Enfim, selfie ou autorretrato, a questão reside no ato. O narcisismo pode atacar em qualquer lugar, onde menos se espera. Veja se esta cena não te faz lembrar algo: enquanto você lava as mãos num banheiro público, lá está, logo no lavatório ao lado, uma careta aleatória para a câmera.

Já cheguei a presenciar amigos se juntando para uma foto no espelho do banheiro e já ouvi relatos femininos sobre congestionamento na entrada do sanitário por amontoados de meninas tirando autorretratos – viu como soa melhor?

A questão que me inquieta não se refere à liberdade artística do fotógrafo que quer uma imagem do próprio rosto no banheiro, mas sim ao porquê de tão insólita escolha.

Tacham as mães e avós de bregas por pedirem uma “pose” pra foto ao lado de um vaso de planta, mas se acham vanguardistas por caretear na frente do espelho de um banheiro de shopping?

Entre tantas dicas que eu poderia deixar aqui, fica apenas uma: encontre seu melhor cenário, a melhor luz e o seu melhor ângulo, mas, para o bem das pessoas a contragosto fotografadas enquanto transitam pelo banheiro, espere a solidão do lugar para realizar seu ensaio fotográfico individual ou coletivo no sanitário público.

Pra acabar, vale a reflexão: se houvesse espelho em um banheiro químico, você também quereria um registro em tão íntimo e azulado lugar?

*Esta crônica faz parte da série “Manual de desutilidades”, que tem como finalidade trazer reflexões críticas sobre questões cotidianas, brincando com o pragmatismo dos manuais de instruções – mas sem a pretensão de instruir ninguém.
**Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Apartamento
13/08/2022 | 21h46
 
Cena do filme Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual, 2011
Mesmo que ladeados, encaixotados nos limites de corredores e concretos, há uma distância que fecha a porta e se coloca à espreita pelo olho mágico, observando a humanidade e a esquisitice que há no outro, mas que não passa de mera curiosidade.

Pois há uma medida fixa que separa as janelas e sacadas e convivências, particionando os espaços de um mesmo chão, que se encontra empilhado sobre outro e sobre outro sucessivamente até o – preencha um número ordinal aqui – andar.

Mas há, ainda antes do resguardado espaço que finge encaixotar personalidades e caracteres, uma troca social que se finda nas áreas comuns, feita de bons dias tardes noites, quase nunca algo além desse mero gesto que se diz educado, apesar de esquivo, marcado por olhares ladeados de quem nada queria dizer.

E há, também, um código partilhado que faz uns dos outros parte de um mesmo edifício, sem que talvez se deem conta de que os ruídos repentinos de portas batidas e copos quebrando ecoam andares acima e abaixo, sem, porém, conviver entre si.

Talvez porque a distância fixa que separa portas e janelas seja também a distância que cria um conjunto de ilhas de concreto verticais interligadas por elevadores e escadas.

No porém, se fazem silêncios após os cumprimentos e rápidas trocas de olhares, na convivência tácita de completos estranhos que se esbarram. Tudo na rotina amealhada das pessoas que, encaixotadas, se pensam resguardadas por estarem apartadas umas das outras – umas sobre as outras, empilhadas, mas sem se querer.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Lembrança tecnológica
06/08/2022 | 14h46
Mal acordou, não sabia sequer onde estava. Ao seu lado, a mulher com quem passara mais da metade dos anos vividos até então, uma completa desconhecida.

Sua primeira reação, atônito, foi sentar de prontidão na beira da cama, tatear o chinelo que se perdera ao longo da noite pelo tapete e, prestes a atacar a mulher, gritar: sai da minha casa AGORA!

Aflita, Neide se ergueu com a robustez da voz do marido e ainda tentou o diálogo: Freitas, sou eu, a Neide. Mas ele continuou a repelir a invasora, chegando a pegar o copo plástico da cabeceira para lançar contra ela.

Só então, vencida pelo esquecimento do marido, ela levantou e foi fazer o café, deixando ele só. Os dias passavam assim, entre lapsos de passado e presente, com o constante esquecimento de quem era ela.

Já na sala, tempos depois, ela assistia ao telejornal quando ouviu Freitas falar sozinho no quarto: Alexa, acenda a luz. Uma ponta de ciúme bateu. Dela, ele não se esqueceu.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Pequenas ficções pessoais
30/07/2022 | 14h00
Pixabay.
Se um barulho que corre na rua se aproxima de uma queda, um estampido, tudo bem, é o vento. Qual uma ocorrência paralisante de repente, os fragmentos cotidianos são juntados nas minuciosas explicações que damos para tudo. Do absoluto misticismo até a mais acurada observação, tudo passa pelo crivo hipotético de algo que pode não ser.

Isso porque a memória é um conjunto de justificativas que, reiteradas, respondem o que ninguém perguntou. Mas as questões permanecem postas apesar de a mente humana se satisfazer com a invenção injustificável.

Daí a racionalidade que tanto nos difere dos outros seres não ser mais que a ficção a colorir cada fato segundo o qual nos convencemos e seguimos como se realmente soubéssemos para onde vamos.

Diante do outro, diante do desconhecido, somos os mesmos a perpetuar visões de mundo que significam algo, no talvez das solidões, apenas para nós mesmos dentro de um contexto simbólico no qual nos imergimos. Esquecemos parágrafos para contar incríveis histórias que nem foram tão relevantes assim.

Talvez porque somos contaminados, às migalhas, pela verdade que alimentamos sobre o mundo – a qual se baseia, por sua vez, na verdade que se convencionou passar adiante. Ou talvez porque somos ególatras o suficiente para não aceitar uma outra versão.

E, assim, seguimos a esquecer ou inventar ou prescrever a narrativa do que aconteceu(rá) sob a ótica disforme de alguém que explica – e se convence - o mundo para si mesmo.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Desgaste em tempo real
23/07/2022 | 14h00
Criação de Irina Blok
 
Abastecido de opções por todos os lados, ao ser humano contemporâneo parece faltar vontade quando não se acha o que fazer.

Isso porque há um jogo de sedução por toda parte a tentar atrair as atenções que, fartas, sequer se importam com a notificação que vibra com mais do mesmo.

Tudo se explica na cobiça pelo excesso, que reduz os dias a uma realidade banal, ciclicamente marcada pelo exaurimento da euforia – que, passageira, dá lugar à vontade de querer.

Fora o sentimento de exaustão que se contorce pelo bombardeio de informações, ainda é preciso não sucumbir diante da impositiva sensação de ter que estar a par de tudo, emitir opinião engajada e, além disso, se entreter.

O que faz parecer um conjunto de obrigações sem sentido criadas, especialmente, pela vida virtual que levamos. Afinal, há algo de alienante a justificar a relação recompensa-prazer criada na mente humana quando se tem conhecimento do relevante divórcio de atores nem tão famosos assim.

Curiosidade, alteridade, fofoca? O tempo se preenche na incansável rolagem de inutilidades, que morre na absoluta ausência de vontade mergulhada na necessidade de estar conectado.

Por trás de alguém profundamente por dentro dos trending topics, há um vazio acachapante que corrói o próprio excesso de vontade.

*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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O simbolismo das fotografias
16/07/2022 | 16h22
(1999)
 
Pra qualquer criança, ter sua espoletice interrompida é uma espécie de negação da própria liberdade. Faz parecer que o adulto - essa figura chata que vive querendo colocar limite e responsabilidade em tudo – sente, no fundo, alguma dor de cotovelo por não viver mais aquele mundo de criatividade descompromissada, tentando podar a criança a fim de vingar as opressões da vida. Mas talvez exista um porquê em alguns desses casos.

Se tem um momento incompreendido pelas crianças e supervalorizado pelos adultos, é o de tirar fotografias. É aquele momento em que o pequeno interrompe sua preciosa correria e – suado, descabelado, roupa suja e tudo mais de direito – ouve a desalmada frase: “dá um sorriso direito, garoto!”.

Isso significa dizer, no mínimo, que a passagem do tempo ou faz com que a pessoa fique cada vez mais parecida com um tio chato e ranzinza ou faz com que valorize cada vez mais o passado e sinta a importância de acumular momentos em objetos simbólicos, como as fotografias – que já nem são mais objetos corpóreos, banais que ficaram.

No meu tempo – sim, uso essa expressão taxativamente antiquada para dizer, do alto dos meus vinte e três anos, que, de alguma maneira, sou da antiga -, tirar foto era ainda pior, pois tinha toda a engenharia da máquina, a limitação dos filmes, a pose da foto e essas coisas que eu já nem compreendo mais, afinal, a idade vai chegando, e a memória vai ficando limitada sobre as coisas da infância.

E falar disso leva minha lembrança diretamente a um dia, eu tinha três anos, perto do aniversário dos meus pais, quando estavam todos arrumando a casa para a festa, e eu corria de um lado para o outro, sem parar. Não estou inventando nada: fui uma criança legitimamente travessa. E, num espaço aberto, na animação festiva do momento, eu corria de um lado para o outro, é claro.

Até que, num repentino momento de pausa, minha mãe me chamou para tirar uma foto. Eu, sorriso forçado, suor escorrendo, camisa molhada, peguei meu cachorro, um poodle chamado Floffy, e tirei uma foto corrida para logo voltar a brincar.

Hoje, tantos anos passados, tenho essa foto como uma gostosa lembrança do meu cachorro, da minha infância, da minha espoletice – hoje ranzinzice -, e valorizo demais essas pequenas lembranças. Estou, decerto, com os sintomas do adultismo – e faço questão de registrar cada momento que posso pra alimentar as lembranças do depois.
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Enquanto sou observado
09/07/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay.
 
Uma confidência pouco relevante: eu me divirto enquanto, num lugar movimentado, crio ficções improváveis sobre as pessoas ao meu redor.

Praça de alimentação de shopping, por exemplo, é o lugar perfeito para sentar e observar e comentar os hábitos das pessoas – numa espécie de flaneurismo sedentário que substitui tranquilamente uma caminhada urbana por um hambúrguer.

Horas antes de este texto ser escrito, três homens reunidos numa mesa da área de alimentação de um shopping campista dividiam garrafinhas de água e pacotes de um biscoito de isopor com corante amarelo não identificado.

O motivo de estarem ali? Hipóteses surgiram – de terapia em grupo até promessa religiosa -, mas eles, provavelmente, estavam apenas fugindo da pacata rotina de suas casas numa sexta à noite.

Quase ao mesmo tempo, uma menina chorosa derrubou uma cadeira e saiu acompanhada por um grupo de adolescentes agitados. Teria ela ficado sabendo do fim de sua banda preferida por um colega inclemente que deu a notícia sem a devida cerimônia?

Tudo se passa na dinâmica dos minutos enquanto a comida não chega.

Ao meu lado, um homem sozinho passou cerca de meia hora com dois pratos de comida intocados na sua frente. Teria ele sido abandonado num encontro ou a pessoa realmente estava a caminho? Ou teria ele espaço interno para duas refeições?

Na verdade, a vida dos outros é de interesse público enquanto o estômago não está ocupado.

O que não se sabia, porém, é que o pessoal da mesa ao lado ria inventando histórias sobre quem estava observando a atitude dos outros – numa reação desencadeada pela simples presença humana ociosa num ambiente aglomerado.

Antes de terminar, vale um detalhe final a título de desfecho: apesar do tempo passado, a acompanhante do rapaz da mesa ao lado chegou. A espera não foi em vão, e eu não podia deixar vocês sem esse comentário relevante.

Com um pouco de criatividade ou de esperança, portanto, até o apetite pode aguardar.
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
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Como viver sem clichês
02/07/2022 | 14h00
Fonte: Pixabay.
Determinados padrões sempre se repetem. Há nuances, estruturas, minúcias, que, invariavelmente, voltam à cena porque temos uma tendência ao mimetismo.

A vida – essa rotina cíclica dividida por pausas pontuais com tempo marcado – é um clichê por si só. Sendo que a clicherização não passa de uma ênfase dada a algo incrivelmente idiota ou mesmo a algo curiosamente relevante, que, por isso, se repete.

Mas tem sempre um sujeito que, ao comentar um filme ou uma obra de arte, vai dizer, envolvido em sua empáfia: achei muito clichê – o que, convenhamos, é um comentário bem clichê.

E é por isso que, apesar de me esforçar, não entendo o que essas pessoas têm contra o clichê. Talvez seja um desejo insaciável de serem surpreendidas, o que, por si, já acaba com qualquer surpresa. Ou mesmo uma necessidade de ver coisas completamente originais que, mal sabem, são paráfrases bem feitas de algo batido há muito tempo.

A dica, de pronto, para viver sem clichês é parar de dar atenção ao mundo ao redor. Penso que o mundo é uma eterna – e cíclica – novidade aos desatentos, que sempre perdem um detalhe e podem ser pegos de súbito por uma nuance óbvia que passou enquanto se mexe no celular.

Por outro lado, a repetição das mesmas coisas pode ter uma utilidade nostálgica de retomar certo sentimento que ilustrou deliciosamente uma parte da vida. Por isso, repetir – e valorizar o clichê – tem o seu valor para reviver com novos significados.

Aos extremamente atentos e presunçosos por isso, vale sempre ponderar: talvez o clichê que você critica seja sua própria vida passando regular e serena enquanto você exige novidades da ficção.


*Esta crônica faz parte da série “Manual de desutilidades”, que tem como finalidade trazer reflexões críticas sobre questões cotidianas, brincando com o pragmatismo dos manuais de instruções – mas sem a pretensão de instruir ninguém.
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Sobre o autor

Ronaldo Junior

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Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.