O simbolismo das fotografias
Ronaldo Junior - Atualizado em 16/07/2022 16:22
(1999)
 
Pra qualquer criança, ter sua espoletice interrompida é uma espécie de negação da própria liberdade. Faz parecer que o adulto - essa figura chata que vive querendo colocar limite e responsabilidade em tudo – sente, no fundo, alguma dor de cotovelo por não viver mais aquele mundo de criatividade descompromissada, tentando podar a criança a fim de vingar as opressões da vida. Mas talvez exista um porquê em alguns desses casos.

Se tem um momento incompreendido pelas crianças e supervalorizado pelos adultos, é o de tirar fotografias. É aquele momento em que o pequeno interrompe sua preciosa correria e – suado, descabelado, roupa suja e tudo mais de direito – ouve a desalmada frase: “dá um sorriso direito, garoto!”.

Isso significa dizer, no mínimo, que a passagem do tempo ou faz com que a pessoa fique cada vez mais parecida com um tio chato e ranzinza ou faz com que valorize cada vez mais o passado e sinta a importância de acumular momentos em objetos simbólicos, como as fotografias – que já nem são mais objetos corpóreos, banais que ficaram.

No meu tempo – sim, uso essa expressão taxativamente antiquada para dizer, do alto dos meus vinte e três anos, que, de alguma maneira, sou da antiga -, tirar foto era ainda pior, pois tinha toda a engenharia da máquina, a limitação dos filmes, a pose da foto e essas coisas que eu já nem compreendo mais, afinal, a idade vai chegando, e a memória vai ficando limitada sobre as coisas da infância.

E falar disso leva minha lembrança diretamente a um dia, eu tinha três anos, perto do aniversário dos meus pais, quando estavam todos arrumando a casa para a festa, e eu corria de um lado para o outro, sem parar. Não estou inventando nada: fui uma criança legitimamente travessa. E, num espaço aberto, na animação festiva do momento, eu corria de um lado para o outro, é claro.

Até que, num repentino momento de pausa, minha mãe me chamou para tirar uma foto. Eu, sorriso forçado, suor escorrendo, camisa molhada, peguei meu cachorro, um poodle chamado Floffy, e tirei uma foto corrida para logo voltar a brincar.

Hoje, tantos anos passados, tenho essa foto como uma gostosa lembrança do meu cachorro, da minha infância, da minha espoletice – hoje ranzinzice -, e valorizo demais essas pequenas lembranças. Estou, decerto, com os sintomas do adultismo – e faço questão de registrar cada momento que posso pra alimentar as lembranças do depois.
 
*Ronaldo Junior tem 26 anos, é carioca, licenciando em Letras pelo IFF Campos Centro e escritor membro da Academia Campista de Letras. www.ronaldojuniorescritor.com
Escreve aos sábados no blog Extravio.

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    Ronaldo Junior

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    Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.