Cada um com sua vida
21/01/2017 | 18h50
Cada um com sua vida Cândida Albernaz Entrei no carro e enquanto dirigia, sorri. Observei meu rosto no espelho retrovisor. Os dentes são perfeitos dentro de uma boca de lábios grossos. Uso o sorriso para atrair. As mulheres gostam. Os homens também. Os olhos são negros, não muito grandes e costumo fixá-los no que chamo de minha presa, com insistência. Sei seduzir e no meu ramo é tudo o que preciso. O cabelo é preto e cheio e sei como passar a mão entre os fios, da testa até próximo a orelha ao mesmo tempo em que giro levemente o pescoço e meu olhar cai dentro do olhar de quem se tornou alvo. Se não desviar logo, sei que está na hora de me apresentar. A noite fora boa. Não costuma ser sempre assim. Neste mês houve noites em que não trabalhei. Em compensação, hoje a senhora que me contratou pediu que ficasse com ela por toda a noite. Isso rendeu um bom dinheiro. Fomos a um restaurante caro e depois rodamos de carro por um longo tempo, pediu que a acompanhasse até a casa. Conversamos muito e ela contou sobre os filhos que via menos do que gostaria, os netos que já estavam se casando e iriam lhe dar bisnetos. Falou de seu casamento arranjado pelos pais com um homem vinte anos mais velho do que ela. Me disse que aprendeu a gostar dele e que jamais conseguiu amá-lo. Perguntei como sabia que não era amor se não conheceu mais ninguém. -Engano seu, respondeu. -Conheci um homem, quando já tinha meu primeiro filho e vivemos um amor que me deu paixão pela vida. Ele se foi há muito tempo. Queria largar a mulher e pediu que eu deixasse meu marido. Não o fiz. Não saberia como fazê-lo, porque tinha um filho e se escolhesse ficar com ele, teria que abandoná-lo. Vimo-nos até o final de sua vida. Fiquei observando-a: era uma senhora com traços delicados e olhos que transmitiam serenidade. Ao sair, encostei meus lábios nos dela. Sorriu e passou a mão no meu rosto. - Vamos nos ver novamente, ela afirmou. Coloco velocidade no carro, abro o vidro e deixo que o vento entre com força. Ontem não foi tão tranquilo, saí com um cara que tinha lá suas manias. Expliquei a ele até onde podia ir, mas no final quis fazer uma surpresinha e chamou um amigo. Não foi fácil me livrar dos dois. Sou forte, mas na hora o que importa é a conversa. A maioria dos meus clientes é homem. São mais velhos e não costumo ter problemas. Uma vez ou outra pego idiotas que não respeitam ninguém. A agência para a qual trabalho é de primeira. Só classe A, como dizem meus colegas de profissão. Houve um rapaz, filho de um empresário conhecido que queria que sua primeira vez fosse comigo. Gostava de homens, mas não sabia como reagiria e queria um profissional. Conversamos muito antes e quando ia embora, pediu para me ver de novo. Não aceitei. Não tenho limite na quantidade de vezes que saio com um cliente, mas criar vínculos não me interessa. Achei qualquer coisa de dependência na voz dele e preferi não repetir a dose. Tenho faro para grudes. Há pouco, estive na cidade em que nasci e revi uma garota que sempre mexeu comigo. Ainda criança dizíamos que no futuro nos casaríamos. Ficamos juntos naquela semana e prometi voltar. Não devia, porque não pretendo cumprir. Na vida que levo não há espaço para amor. Quem sabe um dia, se eu conseguir juntar algum dinheiro abrirei um negócio para mim. Estou tentando. De qualquer forma isso vai demorar. Não sou mais tão jovem, mas aqui na cidade em que resido ainda me rendo uma boa grana. Ela não conhece minha profissão e vive em um mundo bem diferente. Não pretendo voltar tão cedo, muito menos vê-la outra vez. Talvez eu e a senhora com quem estive esta noite, tenhamos muito em comum. Ela não pôde e eu não posso deixar para trás a vida que me escolheu. O único recurso foi e é seguir em frente. Ela ainda teve sorte de viver um amor, mesmo que dividida. Eu não posso me dar o luxo de amar.
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Ainda presa num retrato
21/01/2017 | 18h50
  Ainda presa num retrato Cândida Albernaz Estou presa neste retrato em preto e branco já amarelado pelo tempo. Daqui vejo você e o mundo acontecendo. Não lembro mais como foi que me aprisionei. Essa pessoa que não emite som ou demonstra sentimento. Talvez tenha sido por você que vim parar aqui. Talvez tenha sido você quem me escravizou. Talvez tenha sido eu quem preferiu assim. O tempo esfarela enquanto eu prisioneira de uma vontade não envelheço, mas também não vivo. Ainda recordo o dia em que a foto foi tirada e também de quando a colocou numa gaveta para não mais olhar. Até entendo o motivo por não querer me ver, mas através de um retrato não posso te fazer mal. Ou são as recordações que ainda o afetam? A vida quis assim poderia dizer, mas não seria verdade. Foi por minha opção o que aconteceu. Quando tivemos Carlinhos, achei que o mundo era nosso e que nada poderia estragar o que vivíamos. Sempre foi um ótimo pai e por várias vezes mais completo do que eu como mãe. Nos pesadelos de nosso filho, antes que pensasse em levantar você estava ao lado dele acalentando e fazendo com que dormisse outra vez. Nas vacinas ou doenças infantis era você quem o acompanhava e mesmo que insistisse em estar junto, me sentia excluída e desnecessária. No fundo, penso hoje, acomodei deixando que fosse mãe e pai ao mesmo tempo enquanto eu mera espectadora. Paguei por tamanha imaturidade. Quando nos separamos ele não titubeou: quis ficar com você. Também não briguei pelo contrário, achava justo que fosse assim. Injusto só para mim. Nunca me perdoou quando avisei que ia embora e pensei que com isso você fosse me enxergar. Ocorreu o inverso; olhou-me com a frieza habitual e disse que estaria no escritório. Só exigiu que fosse sem ele: Carlinhos fica! Obedeci, é claro. Não saí de casa para viver sozinha. Em pouco tempo eu e Marcos morávamos juntos. Quando soube, tenho a impressão de que não sentiu nada, não é de seu feitio. Jamais fui proibida de ver nosso filho a hora em que quisesse, mas foram raras as vezes em que esteve por perto. Até hoje, não sei de verdade se sentiu minha perda ou se teve ódio por estar com seu melhor amigo. Jamais demonstrar o que sente. Poderia dizer que sofri com a decisão tomada, que jamais quis ir embora de verdade, que esperei muito tempo que me chamasse de volta, que não amei outro que não fosse você. Depois de alguns anos, refez sua vida. Não sei se foi feliz com ela, porque não sei se é capaz de ter esse sentimento por qualquer pessoa que não seja Carlinhos, que agora se tornou homem. Marcos morreu num acidente de carro, quando vinha para casa trazendo um presente e um cartão com flores, como sempre fez durante todos os anos em que comemorávamos estar juntos. Fui feliz, só não consegui amá-lo porque nunca o esqueci. Quando adoeceu, Carlinhos me comunicou e disse a ele ter vontade de vê-lo mais uma vez. Num horário em que sua mulher saiu e você ficou entregue aos cuidados dele, ligou e fui até onde estavam. Dormia. Da porta do quarto fiquei olhando-o. Carlinhos saiu e me deixou sozinha. Aproximei-me e abaixando ao lado da cama, segurei sua mão. Abriu os olhos e encontrou os meus. Fechou-os rapidamente. Puxei a gaveta da mesinha ao lado da cama e vi a foto antiga debaixo de alguns papéis. Coloquei no mesmo lugar. Você apertava os olhos com força para que não abrissem. Beijei-o no rosto e a palma de sua mão. Espero que não se vá sem perdoar. Eu já o perdoei. Saio do quarto e volto a cabeça apenas uma vez. Permanece com os olhos fechados. Não mudou nada. Nem eu mudei.
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O abraço que nunca soube dar
21/01/2017 | 18h50
O abraço que nunca soube dar. Cândida Albernaz   - Querido, não demore. Estamos atrasados. - Não se preocupe Isabel, com certeza seremos os primeiros a chegar. - Não se você continuar se olhando no espelho a toda hora. Nunca vi um homem tão vaidoso. - Por que a pressa? Você nem mesmo gosta de Marta e Artur. Vive dizendo que ela é fútil e sem inteligência e o quanto ele é grosseiro. - Mas se aceitamos o convite... - Está bem, podemos ir. Lembro de quando me viu beijando Marta na varanda estreita e escura, horas mais tarde, naquela mesma noite. Mesmo assim consegui ver seus olhos brilhando com as lágrimas que se acumularam ali. Não falou nada. Voltou pra a sala onde estavam os outros. Nunca tocou no assunto. *                                 *                                 *   Os pés se arrastam e não consigo fazê-los obedecer minha vontade. Em volta observo que a vida continua correndo. As pessoas parecem ter pressa. Também fui assim. Estou com dor nas costas. Hoje mais do que ontem. Gosto de ficar na areia olhando o mar. Ele me acalma e traz lembranças que me fazem pensar sem sofrer. Passo as mãos nos ralos fios de cabelo que ainda possuo. A doença carregou tudo com ela: meus cabelos, meus movimentos e a ansiedade de seguir em frente. *                                 *                                 *   - Não fique assim, Isabel. Vai ser melhor para nós dois. - Como você pode pensar que se afastar de mim pode ser bom? E nossa filha? - Ela pode estar comigo durante as férias. Sempre tive vontade de morar na Espanha e nunca pude. Primeiro a falta de dinheiro, depois o casamento e sua gravidez. Serão apenas três anos. Não demora a passar. - Vou com você. Da mesma forma que fechou seu consultório, fecho o meu. Conseguirei um trabalho por lá, mesmo que seja em outra área. - Vou sozinho. Está decidido. Preciso disso. Costumava responder suas cartas de forma evasiva. Vivi intensamente esta época não me preocupando com o que sentia. Sempre arrumando uma desculpa de que estaria ocupado quando você dizia que tentaria me ver. Voltei três anos depois sem arrependimento algum. Reatamos nosso casamento. Perguntas não foram feitas ou explicações dadas. Não quis saber o que fez nesse tempo e você aparentemente também não. *                                 *                                 *   Amanhã volto para a cidade. Faço novos exames para ver se houve alguma regressão. O tratamento que faço é agressivo, mas jamais penso em desistir. Daqui a pouco vou entrar porque o vento está mudando e não posso arriscar em pegar uma gripe. O mar está ficando num tom azul escuro. O entardecer me comove. Não foi sempre assim. Houve uma época em que pensar em mim era a única coisa que importava. *                                 *                                 *   Quando voltei depois dos três anos na Espanha, percebi em você a saudade que sentia e a insegurança em me aceitar outra vez. Por inúmeras vezes, vi em seus olhos tristeza e tive certeza de que para ficar comigo, deixava alguém para trás. Com certeza melhor do que eu. Fingi não notar estes momentos e agi como se você optar por mim, depois de tanto tempo fosse a coisa mais natural a ser feita. Seja lá o que você sentia ou por quem, mesmo depois que acabou, porque sei que acabou não consegui tê-la inteira novamente. *                                 *                                 *   Puxo o casaco no peito para que me aqueça mais. Levanto da cadeira com sua ajuda e já em pé, me firmo em seus ombros. Olho para seu rosto e sorrio. Gosto das rugas em volta de seus olhos. A idade fez com que adquirisse uma expressão mais forte, que acho bonita. Não havia notado no passado, mas sempre o mais forte de nós dois, foi você. Achei que por ser homem cuidaria de sua velhice, para compensar o que fiz. Mas continuou sendo você a buscar força dentro de si mesma para seguir em frente. Desculpe se jamais soube demonstrar, mas a amo por tudo o que fiz. Seus braços em minha cintura e o meu em seu ombro é quase o abraço que eu nunca soube dar.
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Mesa de bilhar
21/01/2017 | 18h50
Mesa de bilhar Cândida Albernaz O dia hoje estava mais quente do que de costume. O suor escorria da testa para o pescoço e daí para dentro do seu uniforme verde, que a mulher não tivera tempo de lavar. Há uma semana a filha mais velha mantinha uma tosse que não parava. Não dormia nem deixava que os outros dormissem. A casa pequena com dois quartos, banheiro e cozinha, mal acomodava sua família e a do irmão. Quando Antônio escreveu avisando que vinha com a mulher e um casal de filhos, para a cidade, tentou dizer que não seria fácil. Mas ele preferiu vir assim mesmo. Explicou que a fábrica de alumínio onde trabalhava fechou, muitos ficaram desempregados, inclusive ele. Durante quase um ano viviam com o salário de manicure da mulher. Não suportava mais e precisava de ajuda. Resolveu acomodar o irmão que agora trabalhava como vigia numa construção e podia dividir com ele o aluguel. De manhã, notou que sua mulher estava com os olhos inchados de cansaço por não dormir. A garota não melhorava. Tinham duas meninas que eram sua paixão. Aos domingos costumavam sair os quatro. Pegavam um ônibus e desciam na praça onde havia alguns brinquedos e podiam brincar sem que precisasse pagar por eles. Elas riam e sempre achavam alguma novidade para mostrar. Ou algum pássaro que viam, ou uma nova maneira de empurrar o balanço, ou ainda como corriam rápido. Na saída, comprava um saco de pipoca para cada uma e voltavam para casa. Encontrava o irmão acordando. Esperava que se ajeitasse e saíam os dois para uma pelada, antes de sentar no bar que ficava no próximo quarteirão. Ali havia uma mesa de bilhar disputadíssima pelos homens da região. E algumas garotas também. A mulher reclamou com ele quando soube que umas e outras iam ali. Não deu conversa, era homem e precisava se distrair. Trabalhava pesado a semana inteira como pedreiro. No último domingo apareceram uns caras diferentes para jogar. Não eram da área e ninguém os conhecia. Eram bons e ganharam de todos. Levaram o dinheiro e ainda olharam feio para Oswaldo, um amigo, que havia bebido todas, como sempre, e chamou os tais de ladrões.  Os dois não gostaram mas foram embora rindo, esfregando o bolso da calça, onde haviam guardado a grana que ganharam. Preferia que não voltassem, mas estavam ali há meia hora, quando chegaram com mais um sujeito. Foram em direção de Oswaldo e um deles perguntou se não queria uma revanche. O amigo que emendara a bebedeira do dia anterior aceitou na hora e ainda disse que esses filhos da puta agora vão ver o que é jogar. Semana passada me pegaram desprevenido. Chamou o companheiro que estava com ele que se negou dizendo sentir cheiro de confusão. A palavra certa para Antônio se achar estimulado. Topou fazer uma dupla com Oswaldo. Ficou olhando para o irmão, mas não disse nada. Antônio sempre gostou de uma disputa. E de briga também. Quando chegou a vez deles, as coisas pareciam tranquilas. Até que começaram a perder. Oswaldo que mal se aguentava foi ficando irritado. Disse que estavam trapaceando, que mexeram na bola quando se virou para pegar cerveja. Que não era bobo e não ia deixar dois ladrões de merda fazerem-no de trouxa. O terceiro que viera hoje pela primeira vez, abraçou Oswaldo e disse que ele precisava de mais uma, afinal aquilo era só um jogo. Continuou observando o irmão que ria, como se não estivesse percebendo o clima em volta. Sabia o que isso queria dizer. Aquele risinho prendendo os lábios significava que sua paciência estava a zero A partida terminava quando seu parceiro, completamente bêbado resolveu enfiar o dedo na cara de um deles e dizer que não pagaria aposta nenhuma porque não era idiota. Foi imediato. Oswaldo recebeu um soco e um filete de sangue começou a escorrer da sobrancelha. Foi a deixa para que o bar inteiro entrasse na briga. Tentou falar alguma coisa, mas a cadeira que recebeu nas costas fez com que mudasse de opinião. O barulho que ouviram foi seguido de silêncio geral. Seu irmão estava no chão. Os três caras apontando uma arma, foram até o caixa, pegaram tudo o que encontraram e saíram nas motos estacionadas na rua. Na barriga de Antônio era possível ver a mancha vermelha que aumentava rapidamente. Alguém ligou e chamou uma ambulância. - E aí, meu irmão? Os médicos já estão chegando. - Se preocupa não, estou bem. Só queria que avisasse a mulher que não faço mais isso. Tinha prometido a ela, mas sabe como é, não fujo de briga e nem posso ver uma. - Está tudo bem. - Eu sei, eu sei. A cabeça de Antônio, que se apoiava em seu colo, foi ficando mole, até que pendeu para um lado. Ouviu a voz da mulher: - Vem marido, o posto de saúde deve estar cheio. Deixe os pensamentos para depois. Passou a mão no rosto e pegou a menina no colo. Ela tinha razão, não tinha tempo para ruminar idéias. Olhou para trás e viu os dois sobrinhos e a cunhada parados no portão. Mais três bocas para alimentar.
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Macho sim senhor
21/01/2017 | 18h50
Macho sim senhor Cândida Albernaz Àquela hora do dia, sempre é mais tranquilo. As pessoas costumam estar almoçando e a ruas ficam vazias. Em cidade do interior é assim. Talvez ninguém o visse entrar e agiria com rapidez. Eudóxia estava esperando por ele. Ela e seu primeiro filho. O barrigão não deixava dúvidas de que nasceria a qualquer momento. Sentia um amor enorme pela mulher. Quando reparou nela numa festa de aniversário da cidade, achou-a grande demais. Era alta, de quadris largos, uma boca carnuda e seios fartos. Ah! Os peitos de Eudóxia... Como os atraíam. Agora então, com a gravidez ficaram maiores ainda. Era um contraste, aquela mulher cheia de carnes e sua delicadeza. Quando falava, a voz não parecia vir da mesma pessoa. Era suave e carinhosa. Nunca antes havia sido tratado com tanta consideração. Em casa fora criado com três irmãos. Trabalhou desde garoto na marcenaria do pai, que não era um sujeito dos mais agradáveis para se lidar, bronco, sem estudos ou qualquer preocupação em se fazer entender. Se houvesse algo que não estivesse de acordo, era resolvido aos berros ou em pancadas. Não havia muita conversa. A mãe, quase não falava e para ela o que o marido dizia, era lei. Depois que encontrou Eudóxia, as coisas mudaram. Conheceu um lado das pessoas que não estava acostumado. Ele sabia que não possuía um temperamento fácil, mas com jeitinho, ela sempre fazia com que abaixasse a voz. Chegou até a pedir desculpas a mulher umas duas vezes. Hoje, ela pediu esse favor. Não gostava de negar-lhe nada. Escolhera aquele horário para evitar maiores comentários. Afinal, não era homem de fineza e se orgulhava de ser macho. Ninguém precisava saber que ao lado dela se transformava num homem menos rude que conseguia brincar e rir de si mesmo. Isso era entre ele e a mulher. Agora esse desejo de última hora. Os olhos dela encheram-se d’água ao fazer o pedido. E ele não suportava ver sua garota sofrer. Só a fizera chorar uma vez, quando estava num bar com amigos bebendo, jogando e algumas mulheres em volta observando. Ela entrou para dizer a ele, baixinho em seu ouvido, que já estava tarde e precisava ir para casa, o jantar estava na mesa. Levantou-se da cadeira e diante de todos mandou-a sair. Disse que não aturaria mulher nenhuma em seu rastro. Fosse para casa e ficasse esperando sem reclamar. Ela olhou dentro dos olhos dele e as lágrimas saíram com abundância. Não falou mais nada. Virou-se e foi embora. Ele sentiu o coração apertar, mas ficou com os amigos até o dia clarear. Quando chegou a casa, viu a mulher dormindo sentada na poltrona. Os olhos estavam inchados, tanto que chorou. Segurou sua mão ajudando-a a levantar e no quarto, pediu desculpas. Ela nunca mais tocou no assunto, nem ele, mas a partir de então, os jogos com os amigos passaram a terminar muito mais cedo. Sabia que se a pegasse acordada, os carinhos e os chamegos de Eudóxia, eram para lá de afogueados. Atravessou a rua com rapidez. Não encontrou ainda nenhum amigo. As poucas pessoas que o viam, cumprimentavam com um sorriso. Ele mantinha a cara fechada, respondendo com um movimento de cabeça. Seus olhos diziam que não brincassem com ele. Entrou em casa rápido. A mulher estava deitada, cansada do peso da barriga. Parou no quarto e ficou olhando-a. - Onde está? Tirou o braço das costas e levou até ela o enorme buquê de flores do campo que acabara de comprar na única floricultura da cidade. - As pessoas ficaram me olhando. Amanhã essa gente vai ter o que falar. Você sabe que não sou homem dado a essas coisas. O sorriso nos olhos da mulher compensaria qualquer disse me disse. Ajoelhou ao lado dela entregando as flores. - Jamais ganhei flor antes na vida. Tinha que ser você para satisfazer essa minha vontade. Não importava se no dia seguinte ia ser motivo de chacota dos amigos. Eudóxia merecia. Em momento algum pensou que pudesse se sentir tão agradecido por alguém existir.
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Embaixo da mangueira
21/01/2017 | 18h50
Embaixo da mangueira Cândida Albernaz A casa amarela na esquina com as paredes cheias de rachaduras e o portão que um dia fora branco, levou-a de volta a um tempo que julgava esquecido. Não precisava entrar para saber que no canto esquerdo da sala, o rodapé havia se soltado. Tinha certeza de que continuava assim, mesmo sem ter estado lá por tantos anos. No dia em que decidiu ir embora, a mãe preparava para o almoço uma carne assada recheada com farofa e linguiça, seu prato predileto. Dizia que gostava de fazer o serviço da casa: cozinhar, cuidar do seu pai, arrumar a casa, agradar a seu pai, fazer faxina, obedecer a seu pai e chorar, graças a seu pai. Apenas a roupa suja era permitida que fosse lavada e passada fora de casa. Ele não gostava de estranhos onde vivia. Claro, nem de pessoas que pudessem testemunhar como agia. Quando voltavam da escola, ela e o irmão mais velho sabiam que encontrariam a mãe à espera deles. Os três sentavam-se embaixo da mangueira. Ali ela sorria, conversavam e sempre entregava uma bala, bombom, ou algum doce que comiam com prazer antes do jantar, o que era expressamente proibido fazer. Se às vezes os olhos dela estavam inchados de chorar, os braços com marcas vermelhas, ou o lábio machucado, eles ignoravam, o que foi previamente combinado, e só falavam de coisas boas. Riam alto e escondiam de si mesmos, durante àquela hora e meia, que não havia tanta graça o jeito que viviam. Às sete horas em ponto, todos se reuniam à mesa e jantavam com o pai que se habituara a fazer uma espécie de interrogatório sem esperar as respostas. Ele já as tinha, o que na realidade eram ordens. Seu irmão costumava adoecer com frequência. Sofria com alergia, em sua opinião, a tudo ou quase. Eram unidos e quando o barulho dentro de casa começava, costumavam se abraçar e ficar embaixo da coberta. A mãe tentava não gritar, só depois que tudo se acalmava, ouviam um choro baixinho. Mais tarde ela entrava no quarto deles e os beijava pedindo desculpas. A única vez em que tentaram chegar perto, durante o que acontecia, o pai se virou para eles e esbofeteando cada um, mandou que voltassem para o quarto. Nessa noite, além de cuidar de si mesma, a mãe teve que tratar deles, pois havia também um corte em suas bocas. No dia seguinte, não puderam ir à aula, parte do rosto inchara. Prometeram a ela nunca mais sair do quarto quando ouvissem qualquer ruído. O irmão aos doze anos foi embora. O pai num dos dias de demonstração de ignorância, obrigou o filho a passar a noite sentado embaixo da mangueira. Era inverno. No dia seguinte de manhã, ele tremia e parecia ter convulsões. O pai pegou um remédio no banheiro, onde ficavam guardados, e o obrigou a tomar. Chamando-o de maricas e estúpido mandou que fosse dormir. Mais tarde, quando foi permitido à mãe que entrasse no quarto deles, já não havia muito que fazer. Correram para o hospital: pneumonia aguda e uma forte reação alérgica, provavelmente medicamentosa, o levaram para sempre. Continuou em casa até que aos dezoito anos foi para uma faculdade fora da cidade e nunca mais voltou. Sentiu culpa por deixar sua mãe sozinha com aquele homem, mas se ficasse, não sobreviveria. Escreviam uma para a outra e foi assim que soube que seu pai estava doente: “Alzheimer”, explicara numa das cartas. Um dia, com a doença em estágio avançado ele encontrou o portão aberto e saiu. A mãe escreveu dizendo que o procurou. Sem culpa desejou que ela não o encontrasse. Depois de dois meses sem que ele aparecesse foi até lá e a trouxe para que morassem juntas. Foi assim até o ano passado quando ela também se foi. Tem certeza de que nesses últimos cinco anos, conseguiu fazer com que tivesse paz não apenas em poucos momentos escondidos entre a chegada da escola e a volta do pai do trabalho. O mais importante naquele período era o riso dela, enfim aberto, alto e sem medo a qualquer hora do dia e da noite.
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Vou encontar uma solução
21/01/2017 | 18h50
Vou encontrar uma solução Cândida Albernaz Passou a mão no rosto e não conteve o gemido de dor. Sentiu que começava a inchar abaixo do olho direito. Dessa vez recebera um soco no meio de tantos tapas e chutes. Pensou que talvez pudesse matá-lo enquanto dormia. Não seria tão difícil, já que com a cara cheia e o corpo cansado de se divertir batendo nela, costumava dormir por horas. Quem sabe vidro ralado na comida. Bem pequeno. Micro pedacinhos. Precisava pesquisar mais a respeito. Melhor parar de bobagens, lavar o rosto e preparar a comida. Quando acordasse ele sentaria na cadeira em frente a cabeceira da mesa, e com as duas mãos sobre ela, ficaria esperando que o servisse. E ela bem quieta, colocaria a comida em seu prato, na quantidade certa e sem derramar qualquer coisa. Não queria provocá-lo. Engraçado como ele mudara com o transcorrer dos anos. Engraçado era maneira de dizer, porque não havia graça alguma no que ele se tornara. A mãe vivera o mesmo com seu pai. Jurou que com ela seria diferente. Não foi. Sua mãe morreu ainda nova. Um câncer a levou. Acha que foi melhor assim. O pai bebia demais, todo o dinheiro que ganhava gastava nos bares e com mulheres. Era um homem violento e rude no falar. Nem mesmo com a doença da mulher, deixou de agredi-la. Não entendia porque ela não o deixava. Trabalhava como faxineira e sustentava sozinha, a casa e a filha única. Afirmava que o pai era um homem doente, que precisava de ajuda e que Deus dera a ela forças para carregar sua própria cruz. Acho que no final das contas, Ele teve pena e a levou para perto. Quando a mãe partiu, ainda ficou algum tempo morando com o pai, e percebeu que seria a próxima. Foi quando conheceu Ramon. Tinha dezesseis anos. Em seis meses estavam casados. Em três anos começou a apanhar. Não tinham filhos. Ele não podia e sabia disso, mas a acusava de não ser mulher suficiente para lhe dar um. Nunca mais viu o pai. Soube que bebia com maior frequência , sem controle algum e estava vivendo com uma fulana de gênio difícil. Contaram outro dia que ele foi parar no hospital com a cara queimada. Água fervendo que, segundo ele, jogara em si mesmo sem querer, num tropeção que dera enquanto segurava o canecão cheio. A mãe também tropeçara tantas vezes... Pois sim, agora ele pegou alguém à sua altura. Iam se matar os dois. Que assim fosse. Não nutria qualquer outro sentimento pelo pai a não ser indiferença. Com o tempo, deixou a raiva escorrer e sobrou apenas uma falta de amor. O problema agora era com ela. Estava ficando cansada de se sentir culpada pelo que não fazia. Ou pelo que achava que fazia. Uma vizinha contou que deu parte do marido e que ele mudou depois disso. Bom para ela, porque conhecia outras que quando o companheiro voltava para casa, recebiam uma surra maior ainda. Algumas vezes nutria tanto ódio por Ramon, que se sentia mais forte, mas em seguida vinha uma tristeza, um “não sei mais o que fazer”, que a derrubava. Verificou a toalha na mesa para que não tivesse marcas. Ele não gostava. O feijão com linguiça e bacon. Como ele gostava. Vigiava para que a comida não estivesse morna. Ele não gostava. O cabelo preso no alto da cabeça. Como ele gostava. Abaixou os olhos quando Ramon entrou na sala. Isso não faria muita diferença, porque ele não a olharia. Era sempre assim. Não tocavam no assunto, ou se olhavam. Como consolo, sabia que ele só voltaria a tocar nela depois de passados alguns dias. Teria uma pausa até então. O pior seria à noite quando se deitassem. Ter que suportar o peso daquele homem no corpo dolorido e a saliva desse estranho em sua boca. Pensando bem, já que não tinha coragem de ir embora, ou o poder de fazê-lo parar, a solução seria a tal pesquisa. Cacos de vidro ou algum medicamento que confundisse os médicos? Lembrou-se de uma prima que morava um pouco longe e quando o marido da mesma morreu, suspeitaram dela. Mas ninguém provou nada. O certo, é que a danada está casada de novo. E muito bem. Teve saudade dessa prima. Ligaria para ela. Ainda hoje. 24/11/13
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Frases nem tão soltas VIII
21/01/2017 | 18h50
Frases nem tão soltas VIII Cândida Albernaz Há silêncios que gritam tão alto que nos ensurdecem. * São as horas. Elas me consomem, correm atrás de mim enquanto tento buscá-las. * Coloca-me em seu colo, hoje o peito pesa com dores de vida real. Com dores de vida material. Com dores de sufocar. * Porque menos que tudo é quase nada. * Enquanto mulher, menina para sempre. * Quer vir comigo? Alguns sonhos se perderam no caminho e resolvi voltar para buscar. * Através da cortina o vento sopra sussurros. É a noite que chega com seus segredos. * Não importa se chove lá fora. Eu quero é viver colorido! * Sou muitas em uma só, para que me dividindo possa permanecer inteira. * Quero poder pensar alegrias e distribuir “coloridices” pela boca. * Resolvi acreditar em mim. Sou forte. Não tenho escolha, só posso ser forte. * Vivo buscando não sei o que de não sei onde e não canso nunca. * Quero portas onde eu possa passar. Portas fechadas me assustam. E afastam. * Sempre gostei de acordar quietinha e ir me acostumando com a vida aos poucos. * Se todos os sonhos fossem possíveis eu guardaria alguns para serem realizados aos poucos e outros para que permanecessem sonhos. Estes seriam guardados em meios sorrisos como segredos. * Atrás de um livro o real se torna imaginário ou o imaginário se torna real? * Medo de tentar é andar para trás. * O para sempre é igual ao nunca mais. Os dois são tão longos que nos fazem desistir. 5/11/2013  
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José e Lena
21/01/2017 | 18h50
José e Lena Cândida Albernaz Nesse dia cheguei a casa mais cedo. Estava silenciosa. Antes de entrar sentei-me na rede da varanda, olhando o pé de manga ao lado do portão. Sempre gostara da terra. O verde das folhas transmitia paz. Acendi um cigarro. Maldito hábito! Se Lena chegasse agora me repreenderia. José, não sabe que faz mal? Olha o exemplo para nossos filhos. Nossos filhos... Pedro já estava casado e morava perto dali. Dera-nos dois netos que eram umas pestes! Toda vez que nos visitavam faziam-me contar alguma história do passado. Gostava disso. Eram sempre as mesmas, mas os garotos ouviam atentos e todas as vezes riam delas. No meio da conversa Lena trazia bolo e refresco. Sentavam nos degraus da escada e comiam sem pressa enquanto a avó passava a mão nos cabelos deles. Ela então se encostava ao portão e ficava olhando-os como se fossem as crianças mais lindas do mundo. Em seguida vinha a pergunta: viram o tio Artur esta semana? Os dois moviam a cabeça de um lado para o outro negando. Eu não conseguia entender porque ela sempre fazia essa pergunta aos meninos. Artur fora embora para outra cidade já fazia tempo. Brigou comigo quando tinha dezoito anos, nunca mais apareceu e já esqueci o motivo. Há seis anos. Nem penso mais nele. Mandou duas cartas para a mãe nesse tempo e nenhuma palavra para mim. Não ligo. Ele era brigão, vivia arrumando confusão na rua. Uma vez quebrou a antena do carro do vizinho e este veio reclamar. Dei uma surra no Artur e ele jurou vingar-se dizendo que um dia iria embora e nunca mais voltaria. Cumprira a promessa. Menino de palavra! Lena sempre falou que ele era parecido comigo: turrão, briguento e com um coração enorme. Sei não. Essa história de coração enorme acho que puxou à mãe. Mentira quando digo que não ligo. Sinto saudades e às vezes choro escondido imaginando como ele está. Qualquer dia desses vou procurá-lo e pedir desculpas. Não sei do quê. Mas peço desculpas assim mesmo. Não tivemos uma filha. Lena sempre quis tanto... Mas Deus sabe o que faz. De vez em quando via minha mulher rezando de olhos fechados e com as mãos no peito segurando seu terço. Eu ficava escondido observando-a. Sempre gostei de olhar para ela. Quando jovem era muito bonita. Eu a conheci na igreja, na época estava noiva. Batemos os olhos um no outro... Pronto! Não teve jeito. Nunca mais a deixei em paz até que resolveu acabar o noivado. Casamos seis meses depois. Grande amor. Mesmo com o tempo passando a gente não diminuía o gostar. Na cama éramos um só. Depois que Artur foi embora ela envelheceu muito e seus olhos perderam o brilho. De vez em quando a colocava no colo e passava os braços em volta dela fazendo com que encostasse a cabeça no meu ombro e embalava-a como a um neném. Ficávamos assim por muito tempo sem falar. Acho que vou passar a noite aqui na rede. Não vou conseguir entrar em casa. Lena não vai estar me esperando com o jantar pronto. Não vou poder beijar sua testa sentindo o cheiro de seu cabelo. À noite não dormiremos abraçados. Tive que deixar Lena sozinha naquele lugar com a terra cobrindo seu corpo macio. Sinto que não vou aguentar. Estou pensando uma coisa... Como vou fazer para avisar a Artur?
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Minha escolha
21/01/2017 | 18h49
Minha escolha Cândida Albernaz Com o frio que está fazendo hoje, não vou conseguir dormir. Esse cobertor é fino e o papelão é pouco. Andei o dia inteiro. É o que mais gosto de fazer. Claro que vem depois de falar enquanto ando. Falo muito, tudo o que imagino ou imaginei um dia, coloco para fora. Às vezes percebo um e outro olhando, mas na maioria das vezes, me concentro tanto no que não penso que parece não ter nada ou ninguém à minha volta. Quando fui atropelado me levaram para o hospital, engessaram meu braço, e passei a noite lá. Bati com a cabeça também. A vantagem de quando isso acontece é um dia inteiro com roupas limpas, comida quase quente e travesseiro. É a única coisa de que sinto falta: travesseiro! Mas não dá para carregar um deles para cima e para baixo. Na manhã seguinte recebi alta bem cedo. Precisavam do leito e eu da rua para respirar novamente. Não sou sozinho como muitos pensam. Tenho um filho e tive uma mulher. De vez em quando minha mente me permite recordá-los. Vêm como lampejos e fogem com rapidez. Melhor que seja assim. A memória pode nos trazer muito sofrimento. Não gosto de sofrer e escolhi não sentir. Meu filho me encontrou de novo. É sempre a mesma coisa. Quer me levar para casa, cuidar de mim, dar roupas passadas e lembrar que sou avô. Vez ou outra vou com ele e permaneço por uma semana. Ou duas. Depois saio em busca da liberdade e do pensar em nada pensando em tudo ao mesmo tempo. Gosto de cantar também e quando estou feliz, danço. Pessoas ficam me olhando, riem das piruetas que faço ou do som da minha voz. Alguns jogam moedas e se não passar nenhum daqueles garotos que não respeitam ninguém, consigo uns trocados para um almoço decente. Quando minha mulher se foi com um sujeito que se dizia amigo, nunca mais tive um, achei que ia ficar louco. Quis tanto isso, que fiquei; e foi a melhor coisa que fiz por mim. Na verdade, ela dizia que eu estava bancando maluco há algum tempo. Deixava  ela falar e vivia minha vida do trabalho de mecânico para casa. Não fazia outra coisa. A não ser beber com alguns amigos nos fins de semana. Não percebi que um deles sempre chegava mais tarde. Sempre de banho tomado, sempre com um sorriso filho da puta na cara e sempre sem me encarar. Levou minha mulher com ele um dia. Disseram para eu seguir em frente porque ela não valia nada. Eu é que sei se ela valia ou não. A cabeça começou a doer. Não posso raciocinar demais que logo vem essa dor. A parte boa é que minha memória é fraca e do jeito que vem, o que vivi vai embora. Foi! Estou com vontade de cantar e é o que vou fazer. Gosto de ser doido de vez em quando porque a vida das pessoas que se acham normais é muito chata. E machuca. Hoje resolvi dormir num lugar diferente. Ainda bem que não arranjei confusão com ninguém. Sou forte e quando é necessário brigo pelo canto onde quero dormir e tiro quem estiver no lugar na base da pancada. Quando estou com meu filho, não gosto de incomodar. Fico quieto, obedeço e procuro não sujar ou quebrar nada. Meu neto fica olhando, mas não chega perto. Prefiro desse jeito porque já tenho recordações demais para atrapalhar. Fugiu mais uma vez. Olho o céu e noto que não vai chover. O dia amanhã vai ser bom e a caminhada longa. Só não me perguntem para onde eu vou. Vou para algum lugar e é disso que gosto. Acho que lá vou rir, não, vou gargalhar. Talvez me deem algumas moedas.
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Candida Albernaz

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