José e Lena
candida 25/10/2013 12:43
José e Lena Cândida Albernaz Nesse dia cheguei a casa mais cedo. Estava silenciosa. Antes de entrar sentei-me na rede da varanda, olhando o pé de manga ao lado do portão. Sempre gostara da terra. O verde das folhas transmitia paz. Acendi um cigarro. Maldito hábito! Se Lena chegasse agora me repreenderia. José, não sabe que faz mal? Olha o exemplo para nossos filhos. Nossos filhos... Pedro já estava casado e morava perto dali. Dera-nos dois netos que eram umas pestes! Toda vez que nos visitavam faziam-me contar alguma história do passado. Gostava disso. Eram sempre as mesmas, mas os garotos ouviam atentos e todas as vezes riam delas. No meio da conversa Lena trazia bolo e refresco. Sentavam nos degraus da escada e comiam sem pressa enquanto a avó passava a mão nos cabelos deles. Ela então se encostava ao portão e ficava olhando-os como se fossem as crianças mais lindas do mundo. Em seguida vinha a pergunta: viram o tio Artur esta semana? Os dois moviam a cabeça de um lado para o outro negando. Eu não conseguia entender porque ela sempre fazia essa pergunta aos meninos. Artur fora embora para outra cidade já fazia tempo. Brigou comigo quando tinha dezoito anos, nunca mais apareceu e já esqueci o motivo. Há seis anos. Nem penso mais nele. Mandou duas cartas para a mãe nesse tempo e nenhuma palavra para mim. Não ligo. Ele era brigão, vivia arrumando confusão na rua. Uma vez quebrou a antena do carro do vizinho e este veio reclamar. Dei uma surra no Artur e ele jurou vingar-se dizendo que um dia iria embora e nunca mais voltaria. Cumprira a promessa. Menino de palavra! Lena sempre falou que ele era parecido comigo: turrão, briguento e com um coração enorme. Sei não. Essa história de coração enorme acho que puxou à mãe. Mentira quando digo que não ligo. Sinto saudades e às vezes choro escondido imaginando como ele está. Qualquer dia desses vou procurá-lo e pedir desculpas. Não sei do quê. Mas peço desculpas assim mesmo. Não tivemos uma filha. Lena sempre quis tanto... Mas Deus sabe o que faz. De vez em quando via minha mulher rezando de olhos fechados e com as mãos no peito segurando seu terço. Eu ficava escondido observando-a. Sempre gostei de olhar para ela. Quando jovem era muito bonita. Eu a conheci na igreja, na época estava noiva. Batemos os olhos um no outro... Pronto! Não teve jeito. Nunca mais a deixei em paz até que resolveu acabar o noivado. Casamos seis meses depois. Grande amor. Mesmo com o tempo passando a gente não diminuía o gostar. Na cama éramos um só. Depois que Artur foi embora ela envelheceu muito e seus olhos perderam o brilho. De vez em quando a colocava no colo e passava os braços em volta dela fazendo com que encostasse a cabeça no meu ombro e embalava-a como a um neném. Ficávamos assim por muito tempo sem falar. Acho que vou passar a noite aqui na rede. Não vou conseguir entrar em casa. Lena não vai estar me esperando com o jantar pronto. Não vou poder beijar sua testa sentindo o cheiro de seu cabelo. À noite não dormiremos abraçados. Tive que deixar Lena sozinha naquele lugar com a terra cobrindo seu corpo macio. Sinto que não vou aguentar. Estou pensando uma coisa... Como vou fazer para avisar a Artur?

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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