Ainda presa num retrato
candida 20/01/2014 08:22
  Ainda presa num retrato Cândida Albernaz Estou presa neste retrato em preto e branco já amarelado pelo tempo. Daqui vejo você e o mundo acontecendo. Não lembro mais como foi que me aprisionei. Essa pessoa que não emite som ou demonstra sentimento. Talvez tenha sido por você que vim parar aqui. Talvez tenha sido você quem me escravizou. Talvez tenha sido eu quem preferiu assim. O tempo esfarela enquanto eu prisioneira de uma vontade não envelheço, mas também não vivo. Ainda recordo o dia em que a foto foi tirada e também de quando a colocou numa gaveta para não mais olhar. Até entendo o motivo por não querer me ver, mas através de um retrato não posso te fazer mal. Ou são as recordações que ainda o afetam? A vida quis assim poderia dizer, mas não seria verdade. Foi por minha opção o que aconteceu. Quando tivemos Carlinhos, achei que o mundo era nosso e que nada poderia estragar o que vivíamos. Sempre foi um ótimo pai e por várias vezes mais completo do que eu como mãe. Nos pesadelos de nosso filho, antes que pensasse em levantar você estava ao lado dele acalentando e fazendo com que dormisse outra vez. Nas vacinas ou doenças infantis era você quem o acompanhava e mesmo que insistisse em estar junto, me sentia excluída e desnecessária. No fundo, penso hoje, acomodei deixando que fosse mãe e pai ao mesmo tempo enquanto eu mera espectadora. Paguei por tamanha imaturidade. Quando nos separamos ele não titubeou: quis ficar com você. Também não briguei pelo contrário, achava justo que fosse assim. Injusto só para mim. Nunca me perdoou quando avisei que ia embora e pensei que com isso você fosse me enxergar. Ocorreu o inverso; olhou-me com a frieza habitual e disse que estaria no escritório. Só exigiu que fosse sem ele: Carlinhos fica! Obedeci, é claro. Não saí de casa para viver sozinha. Em pouco tempo eu e Marcos morávamos juntos. Quando soube, tenho a impressão de que não sentiu nada, não é de seu feitio. Jamais fui proibida de ver nosso filho a hora em que quisesse, mas foram raras as vezes em que esteve por perto. Até hoje, não sei de verdade se sentiu minha perda ou se teve ódio por estar com seu melhor amigo. Jamais demonstrar o que sente. Poderia dizer que sofri com a decisão tomada, que jamais quis ir embora de verdade, que esperei muito tempo que me chamasse de volta, que não amei outro que não fosse você. Depois de alguns anos, refez sua vida. Não sei se foi feliz com ela, porque não sei se é capaz de ter esse sentimento por qualquer pessoa que não seja Carlinhos, que agora se tornou homem. Marcos morreu num acidente de carro, quando vinha para casa trazendo um presente e um cartão com flores, como sempre fez durante todos os anos em que comemorávamos estar juntos. Fui feliz, só não consegui amá-lo porque nunca o esqueci. Quando adoeceu, Carlinhos me comunicou e disse a ele ter vontade de vê-lo mais uma vez. Num horário em que sua mulher saiu e você ficou entregue aos cuidados dele, ligou e fui até onde estavam. Dormia. Da porta do quarto fiquei olhando-o. Carlinhos saiu e me deixou sozinha. Aproximei-me e abaixando ao lado da cama, segurei sua mão. Abriu os olhos e encontrou os meus. Fechou-os rapidamente. Puxei a gaveta da mesinha ao lado da cama e vi a foto antiga debaixo de alguns papéis. Coloquei no mesmo lugar. Você apertava os olhos com força para que não abrissem. Beijei-o no rosto e a palma de sua mão. Espero que não se vá sem perdoar. Eu já o perdoei. Saio do quarto e volto a cabeça apenas uma vez. Permanece com os olhos fechados. Não mudou nada. Nem eu mudei.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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