Embaixo da mangueira
candida 10/12/2013 00:01
Embaixo da mangueira Cândida Albernaz A casa amarela na esquina com as paredes cheias de rachaduras e o portão que um dia fora branco, levou-a de volta a um tempo que julgava esquecido. Não precisava entrar para saber que no canto esquerdo da sala, o rodapé havia se soltado. Tinha certeza de que continuava assim, mesmo sem ter estado lá por tantos anos. No dia em que decidiu ir embora, a mãe preparava para o almoço uma carne assada recheada com farofa e linguiça, seu prato predileto. Dizia que gostava de fazer o serviço da casa: cozinhar, cuidar do seu pai, arrumar a casa, agradar a seu pai, fazer faxina, obedecer a seu pai e chorar, graças a seu pai. Apenas a roupa suja era permitida que fosse lavada e passada fora de casa. Ele não gostava de estranhos onde vivia. Claro, nem de pessoas que pudessem testemunhar como agia. Quando voltavam da escola, ela e o irmão mais velho sabiam que encontrariam a mãe à espera deles. Os três sentavam-se embaixo da mangueira. Ali ela sorria, conversavam e sempre entregava uma bala, bombom, ou algum doce que comiam com prazer antes do jantar, o que era expressamente proibido fazer. Se às vezes os olhos dela estavam inchados de chorar, os braços com marcas vermelhas, ou o lábio machucado, eles ignoravam, o que foi previamente combinado, e só falavam de coisas boas. Riam alto e escondiam de si mesmos, durante àquela hora e meia, que não havia tanta graça o jeito que viviam. Às sete horas em ponto, todos se reuniam à mesa e jantavam com o pai que se habituara a fazer uma espécie de interrogatório sem esperar as respostas. Ele já as tinha, o que na realidade eram ordens. Seu irmão costumava adoecer com frequência. Sofria com alergia, em sua opinião, a tudo ou quase. Eram unidos e quando o barulho dentro de casa começava, costumavam se abraçar e ficar embaixo da coberta. A mãe tentava não gritar, só depois que tudo se acalmava, ouviam um choro baixinho. Mais tarde ela entrava no quarto deles e os beijava pedindo desculpas. A única vez em que tentaram chegar perto, durante o que acontecia, o pai se virou para eles e esbofeteando cada um, mandou que voltassem para o quarto. Nessa noite, além de cuidar de si mesma, a mãe teve que tratar deles, pois havia também um corte em suas bocas. No dia seguinte, não puderam ir à aula, parte do rosto inchara. Prometeram a ela nunca mais sair do quarto quando ouvissem qualquer ruído. O irmão aos doze anos foi embora. O pai num dos dias de demonstração de ignorância, obrigou o filho a passar a noite sentado embaixo da mangueira. Era inverno. No dia seguinte de manhã, ele tremia e parecia ter convulsões. O pai pegou um remédio no banheiro, onde ficavam guardados, e o obrigou a tomar. Chamando-o de maricas e estúpido mandou que fosse dormir. Mais tarde, quando foi permitido à mãe que entrasse no quarto deles, já não havia muito que fazer. Correram para o hospital: pneumonia aguda e uma forte reação alérgica, provavelmente medicamentosa, o levaram para sempre. Continuou em casa até que aos dezoito anos foi para uma faculdade fora da cidade e nunca mais voltou. Sentiu culpa por deixar sua mãe sozinha com aquele homem, mas se ficasse, não sobreviveria. Escreviam uma para a outra e foi assim que soube que seu pai estava doente: “Alzheimer”, explicara numa das cartas. Um dia, com a doença em estágio avançado ele encontrou o portão aberto e saiu. A mãe escreveu dizendo que o procurou. Sem culpa desejou que ela não o encontrasse. Depois de dois meses sem que ele aparecesse foi até lá e a trouxe para que morassem juntas. Foi assim até o ano passado quando ela também se foi. Tem certeza de que nesses últimos cinco anos, conseguiu fazer com que tivesse paz não apenas em poucos momentos escondidos entre a chegada da escola e a volta do pai do trabalho. O mais importante naquele período era o riso dela, enfim aberto, alto e sem medo a qualquer hora do dia e da noite.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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