Embaixo da mangueira
Embaixo da mangueira
Cândida Albernaz
A casa amarela na esquina com as paredes cheias de rachaduras e o portão que um dia fora branco, levou-a de volta a um tempo que julgava esquecido.
Não precisava entrar para saber que no canto esquerdo da sala, o rodapé havia se soltado. Tinha certeza de que continuava assim, mesmo sem ter estado lá por tantos anos. No dia em que decidiu ir embora, a mãe preparava para o almoço uma carne assada recheada com farofa e linguiça, seu prato predileto. Dizia que gostava de fazer o serviço da casa: cozinhar, cuidar do seu pai, arrumar a casa, agradar a seu pai, fazer faxina, obedecer a seu pai e chorar, graças a seu pai.
Apenas a roupa suja era permitida que fosse lavada e passada fora de casa. Ele não gostava de estranhos onde vivia. Claro, nem de pessoas que pudessem testemunhar como agia.
Quando voltavam da escola, ela e o irmão mais velho sabiam que encontrariam a mãe à espera deles. Os três sentavam-se embaixo da mangueira. Ali ela sorria, conversavam e sempre entregava uma bala, bombom, ou algum doce que comiam com prazer antes do jantar, o que era expressamente proibido fazer. Se às vezes os olhos dela estavam inchados de chorar, os braços com marcas vermelhas, ou o lábio machucado, eles ignoravam, o que foi previamente combinado, e só falavam de coisas boas. Riam alto e escondiam de si mesmos, durante àquela hora e meia, que não havia tanta graça o jeito que viviam.
Às sete horas em ponto, todos se reuniam à mesa e jantavam com o pai que se habituara a fazer uma espécie de interrogatório sem esperar as respostas. Ele já as tinha, o que na realidade eram ordens.
Seu irmão costumava adoecer com frequência. Sofria com alergia, em sua opinião, a tudo ou quase.
Eram unidos e quando o barulho dentro de casa começava, costumavam se abraçar e ficar embaixo da coberta. A mãe tentava não gritar, só depois que tudo se acalmava, ouviam um choro baixinho. Mais tarde ela entrava no quarto deles e os beijava pedindo desculpas.
A única vez em que tentaram chegar perto, durante o que acontecia, o pai se virou para eles e esbofeteando cada um, mandou que voltassem para o quarto. Nessa noite, além de cuidar de si mesma, a mãe teve que tratar deles, pois havia também um corte em suas bocas. No dia seguinte, não puderam ir à aula, parte do rosto inchara. Prometeram a ela nunca mais sair do quarto quando ouvissem qualquer ruído.
O irmão aos doze anos foi embora. O pai num dos dias de demonstração de ignorância, obrigou o filho a passar a noite sentado embaixo da mangueira. Era inverno. No dia seguinte de manhã, ele tremia e parecia ter convulsões. O pai pegou um remédio no banheiro, onde ficavam guardados, e o obrigou a tomar. Chamando-o de maricas e estúpido mandou que fosse dormir.
Mais tarde, quando foi permitido à mãe que entrasse no quarto deles, já não havia muito que fazer.
Correram para o hospital: pneumonia aguda e uma forte reação alérgica, provavelmente medicamentosa, o levaram para sempre.
Continuou em casa até que aos dezoito anos foi para uma faculdade fora da cidade e nunca mais voltou. Sentiu culpa por deixar sua mãe sozinha com aquele homem, mas se ficasse, não sobreviveria.
Escreviam uma para a outra e foi assim que soube que seu pai estava doente: “Alzheimer”, explicara numa das cartas. Um dia, com a doença em estágio avançado ele encontrou o portão aberto e saiu. A mãe escreveu dizendo que o procurou. Sem culpa desejou que ela não o encontrasse.
Depois de dois meses sem que ele aparecesse foi até lá e a trouxe para que morassem juntas. Foi assim até o ano passado quando ela também se foi.
Tem certeza de que nesses últimos cinco anos, conseguiu fazer com que tivesse paz não apenas em poucos momentos escondidos entre a chegada da escola e a volta do pai do trabalho.
O mais importante naquele período era o riso dela, enfim aberto, alto e sem medo a qualquer hora do dia e da noite.