O abraço que nunca soube dar
O abraço que nunca soube dar.
Cândida Albernaz
- Querido, não demore. Estamos atrasados.
- Não se preocupe Isabel, com certeza seremos os primeiros a chegar.
- Não se você continuar se olhando no espelho a toda hora. Nunca vi um homem tão vaidoso.
- Por que a pressa? Você nem mesmo gosta de Marta e Artur. Vive dizendo que ela é fútil e sem inteligência e o quanto ele é grosseiro.
- Mas se aceitamos o convite...
- Está bem, podemos ir.
Lembro de quando me viu beijando Marta na varanda estreita e escura, horas mais tarde, naquela mesma noite. Mesmo assim consegui ver seus olhos brilhando com as lágrimas que se acumularam ali.
Não falou nada. Voltou pra a sala onde estavam os outros.
Nunca tocou no assunto.
* * *
Os pés se arrastam e não consigo fazê-los obedecer minha vontade.
Em volta observo que a vida continua correndo. As pessoas parecem ter pressa. Também fui assim.
Estou com dor nas costas. Hoje mais do que ontem.
Gosto de ficar na areia olhando o mar. Ele me acalma e traz lembranças que me fazem pensar sem sofrer.
Passo as mãos nos ralos fios de cabelo que ainda possuo. A doença carregou tudo com ela: meus cabelos, meus movimentos e a ansiedade de seguir em frente.
* * *
- Não fique assim, Isabel. Vai ser melhor para nós dois.
- Como você pode pensar que se afastar de mim pode ser bom? E nossa filha?
- Ela pode estar comigo durante as férias. Sempre tive vontade de morar na Espanha e nunca pude. Primeiro a falta de dinheiro, depois o casamento e sua gravidez. Serão apenas três anos. Não demora a passar.
- Vou com você. Da mesma forma que fechou seu consultório, fecho o meu. Conseguirei um trabalho por lá, mesmo que seja em outra área.
- Vou sozinho. Está decidido. Preciso disso.
Costumava responder suas cartas de forma evasiva. Vivi intensamente esta época não me preocupando com o que sentia. Sempre arrumando uma desculpa de que estaria ocupado quando você dizia que tentaria me ver.
Voltei três anos depois sem arrependimento algum.
Reatamos nosso casamento. Perguntas não foram feitas ou explicações dadas. Não quis saber o que fez nesse tempo e você aparentemente também não.
* * *
Amanhã volto para a cidade. Faço novos exames para ver se houve alguma regressão. O tratamento que faço é agressivo, mas jamais penso em desistir.
Daqui a pouco vou entrar porque o vento está mudando e não posso arriscar em pegar uma gripe.
O mar está ficando num tom azul escuro. O entardecer me comove. Não foi sempre assim. Houve uma época em que pensar em mim era a única coisa que importava.
* * *
Quando voltei depois dos três anos na Espanha, percebi em você a saudade que sentia e a insegurança em me aceitar outra vez. Por inúmeras vezes, vi em seus olhos tristeza e tive certeza de que para ficar comigo, deixava alguém para trás. Com certeza melhor do que eu. Fingi não notar estes momentos e agi como se você optar por mim, depois de tanto tempo fosse a coisa mais natural a ser feita.
Seja lá o que você sentia ou por quem, mesmo depois que acabou, porque sei que acabou não consegui tê-la inteira novamente.
* * *
Puxo o casaco no peito para que me aqueça mais. Levanto da cadeira com sua ajuda e já em pé, me firmo em seus ombros. Olho para seu rosto e sorrio. Gosto das rugas em volta de seus olhos. A idade fez com que adquirisse uma expressão mais forte, que acho bonita.
Não havia notado no passado, mas sempre o mais forte de nós dois, foi você.
Achei que por ser homem cuidaria de sua velhice, para compensar o que fiz. Mas continuou sendo você a buscar força dentro de si mesma para seguir em frente.
Desculpe se jamais soube demonstrar, mas a amo por tudo o que fiz.
Seus braços em minha cintura e o meu em seu ombro é quase o abraço que eu nunca soube dar.