Macho sim senhor
Macho sim senhor
Cândida Albernaz
Àquela hora do dia, sempre é mais tranquilo. As pessoas costumam estar almoçando e a ruas ficam vazias. Em cidade do interior é assim.
Talvez ninguém o visse entrar e agiria com rapidez.
Eudóxia estava esperando por ele. Ela e seu primeiro filho. O barrigão não deixava dúvidas de que nasceria a qualquer momento.
Sentia um amor enorme pela mulher. Quando reparou nela numa festa de aniversário da cidade, achou-a grande demais. Era alta, de quadris largos, uma boca carnuda e seios fartos. Ah! Os peitos de Eudóxia... Como os atraíam. Agora então, com a gravidez ficaram maiores ainda.
Era um contraste, aquela mulher cheia de carnes e sua delicadeza. Quando falava, a voz não parecia vir da mesma pessoa. Era suave e carinhosa. Nunca antes havia sido tratado com tanta consideração.
Em casa fora criado com três irmãos. Trabalhou desde garoto na marcenaria do pai, que não era um sujeito dos mais agradáveis para se lidar, bronco, sem estudos ou qualquer preocupação em se fazer entender. Se houvesse algo que não estivesse de acordo, era resolvido aos berros ou em pancadas. Não havia muita conversa.
A mãe, quase não falava e para ela o que o marido dizia, era lei.
Depois que encontrou Eudóxia, as coisas mudaram. Conheceu um lado das pessoas que não estava acostumado.
Ele sabia que não possuía um temperamento fácil, mas com jeitinho, ela sempre fazia com que abaixasse a voz. Chegou até a pedir desculpas a mulher umas duas vezes.
Hoje, ela pediu esse favor. Não gostava de negar-lhe nada.
Escolhera aquele horário para evitar maiores comentários. Afinal, não era homem de fineza e se orgulhava de ser macho.
Ninguém precisava saber que ao lado dela se transformava num homem menos rude que conseguia brincar e rir de si mesmo. Isso era entre ele e a mulher.
Agora esse desejo de última hora. Os olhos dela encheram-se d’água ao fazer o pedido. E ele não suportava ver sua garota sofrer.
Só a fizera chorar uma vez, quando estava num bar com amigos bebendo, jogando e algumas mulheres em volta observando. Ela entrou para dizer a ele, baixinho em seu ouvido, que já estava tarde e precisava ir para casa, o jantar estava na mesa.
Levantou-se da cadeira e diante de todos mandou-a sair. Disse que não aturaria mulher nenhuma em seu rastro. Fosse para casa e ficasse esperando sem reclamar. Ela olhou dentro dos olhos dele e as lágrimas saíram com abundância. Não falou mais nada. Virou-se e foi embora. Ele sentiu o coração apertar, mas ficou com os amigos até o dia clarear.
Quando chegou a casa, viu a mulher dormindo sentada na poltrona. Os olhos estavam inchados, tanto que chorou. Segurou sua mão ajudando-a a levantar e no quarto, pediu desculpas.
Ela nunca mais tocou no assunto, nem ele, mas a partir de então, os jogos com os amigos passaram a terminar muito mais cedo. Sabia que se a pegasse acordada, os carinhos e os chamegos de Eudóxia, eram para lá de afogueados.
Atravessou a rua com rapidez. Não encontrou ainda nenhum amigo. As poucas pessoas que o viam, cumprimentavam com um sorriso. Ele mantinha a cara fechada, respondendo com um movimento de cabeça. Seus olhos diziam que não brincassem com ele.
Entrou em casa rápido. A mulher estava deitada, cansada do peso da barriga. Parou no quarto e ficou olhando-a.
- Onde está?
Tirou o braço das costas e levou até ela o enorme buquê de flores do campo que acabara de comprar na única floricultura da cidade.
- As pessoas ficaram me olhando. Amanhã essa gente vai ter o que falar. Você sabe que não sou homem dado a essas coisas.
O sorriso nos olhos da mulher compensaria qualquer disse me disse.
Ajoelhou ao lado dela entregando as flores.
- Jamais ganhei flor antes na vida. Tinha que ser você para satisfazer essa minha vontade.
Não importava se no dia seguinte ia ser motivo de chacota dos amigos. Eudóxia merecia. Em momento algum pensou que pudesse se sentir tão agradecido por alguém existir.