Vou encontar uma solução
candida 28/11/2013 10:47
Vou encontrar uma solução Cândida Albernaz Passou a mão no rosto e não conteve o gemido de dor. Sentiu que começava a inchar abaixo do olho direito. Dessa vez recebera um soco no meio de tantos tapas e chutes. Pensou que talvez pudesse matá-lo enquanto dormia. Não seria tão difícil, já que com a cara cheia e o corpo cansado de se divertir batendo nela, costumava dormir por horas. Quem sabe vidro ralado na comida. Bem pequeno. Micro pedacinhos. Precisava pesquisar mais a respeito. Melhor parar de bobagens, lavar o rosto e preparar a comida. Quando acordasse ele sentaria na cadeira em frente a cabeceira da mesa, e com as duas mãos sobre ela, ficaria esperando que o servisse. E ela bem quieta, colocaria a comida em seu prato, na quantidade certa e sem derramar qualquer coisa. Não queria provocá-lo. Engraçado como ele mudara com o transcorrer dos anos. Engraçado era maneira de dizer, porque não havia graça alguma no que ele se tornara. A mãe vivera o mesmo com seu pai. Jurou que com ela seria diferente. Não foi. Sua mãe morreu ainda nova. Um câncer a levou. Acha que foi melhor assim. O pai bebia demais, todo o dinheiro que ganhava gastava nos bares e com mulheres. Era um homem violento e rude no falar. Nem mesmo com a doença da mulher, deixou de agredi-la. Não entendia porque ela não o deixava. Trabalhava como faxineira e sustentava sozinha, a casa e a filha única. Afirmava que o pai era um homem doente, que precisava de ajuda e que Deus dera a ela forças para carregar sua própria cruz. Acho que no final das contas, Ele teve pena e a levou para perto. Quando a mãe partiu, ainda ficou algum tempo morando com o pai, e percebeu que seria a próxima. Foi quando conheceu Ramon. Tinha dezesseis anos. Em seis meses estavam casados. Em três anos começou a apanhar. Não tinham filhos. Ele não podia e sabia disso, mas a acusava de não ser mulher suficiente para lhe dar um. Nunca mais viu o pai. Soube que bebia com maior frequência , sem controle algum e estava vivendo com uma fulana de gênio difícil. Contaram outro dia que ele foi parar no hospital com a cara queimada. Água fervendo que, segundo ele, jogara em si mesmo sem querer, num tropeção que dera enquanto segurava o canecão cheio. A mãe também tropeçara tantas vezes... Pois sim, agora ele pegou alguém à sua altura. Iam se matar os dois. Que assim fosse. Não nutria qualquer outro sentimento pelo pai a não ser indiferença. Com o tempo, deixou a raiva escorrer e sobrou apenas uma falta de amor. O problema agora era com ela. Estava ficando cansada de se sentir culpada pelo que não fazia. Ou pelo que achava que fazia. Uma vizinha contou que deu parte do marido e que ele mudou depois disso. Bom para ela, porque conhecia outras que quando o companheiro voltava para casa, recebiam uma surra maior ainda. Algumas vezes nutria tanto ódio por Ramon, que se sentia mais forte, mas em seguida vinha uma tristeza, um “não sei mais o que fazer”, que a derrubava. Verificou a toalha na mesa para que não tivesse marcas. Ele não gostava. O feijão com linguiça e bacon. Como ele gostava. Vigiava para que a comida não estivesse morna. Ele não gostava. O cabelo preso no alto da cabeça. Como ele gostava. Abaixou os olhos quando Ramon entrou na sala. Isso não faria muita diferença, porque ele não a olharia. Era sempre assim. Não tocavam no assunto, ou se olhavam. Como consolo, sabia que ele só voltaria a tocar nela depois de passados alguns dias. Teria uma pausa até então. O pior seria à noite quando se deitassem. Ter que suportar o peso daquele homem no corpo dolorido e a saliva desse estranho em sua boca. Pensando bem, já que não tinha coragem de ir embora, ou o poder de fazê-lo parar, a solução seria a tal pesquisa. Cacos de vidro ou algum medicamento que confundisse os médicos? Lembrou-se de uma prima que morava um pouco longe e quando o marido da mesma morreu, suspeitaram dela. Mas ninguém provou nada. O certo, é que a danada está casada de novo. E muito bem. Teve saudade dessa prima. Ligaria para ela. Ainda hoje. 24/11/13

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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