Minha escolha
candida 17/10/2013 17:41
Minha escolha Cândida Albernaz Com o frio que está fazendo hoje, não vou conseguir dormir. Esse cobertor é fino e o papelão é pouco. Andei o dia inteiro. É o que mais gosto de fazer. Claro que vem depois de falar enquanto ando. Falo muito, tudo o que imagino ou imaginei um dia, coloco para fora. Às vezes percebo um e outro olhando, mas na maioria das vezes, me concentro tanto no que não penso que parece não ter nada ou ninguém à minha volta. Quando fui atropelado me levaram para o hospital, engessaram meu braço, e passei a noite lá. Bati com a cabeça também. A vantagem de quando isso acontece é um dia inteiro com roupas limpas, comida quase quente e travesseiro. É a única coisa de que sinto falta: travesseiro! Mas não dá para carregar um deles para cima e para baixo. Na manhã seguinte recebi alta bem cedo. Precisavam do leito e eu da rua para respirar novamente. Não sou sozinho como muitos pensam. Tenho um filho e tive uma mulher. De vez em quando minha mente me permite recordá-los. Vêm como lampejos e fogem com rapidez. Melhor que seja assim. A memória pode nos trazer muito sofrimento. Não gosto de sofrer e escolhi não sentir. Meu filho me encontrou de novo. É sempre a mesma coisa. Quer me levar para casa, cuidar de mim, dar roupas passadas e lembrar que sou avô. Vez ou outra vou com ele e permaneço por uma semana. Ou duas. Depois saio em busca da liberdade e do pensar em nada pensando em tudo ao mesmo tempo. Gosto de cantar também e quando estou feliz, danço. Pessoas ficam me olhando, riem das piruetas que faço ou do som da minha voz. Alguns jogam moedas e se não passar nenhum daqueles garotos que não respeitam ninguém, consigo uns trocados para um almoço decente. Quando minha mulher se foi com um sujeito que se dizia amigo, nunca mais tive um, achei que ia ficar louco. Quis tanto isso, que fiquei; e foi a melhor coisa que fiz por mim. Na verdade, ela dizia que eu estava bancando maluco há algum tempo. Deixava  ela falar e vivia minha vida do trabalho de mecânico para casa. Não fazia outra coisa. A não ser beber com alguns amigos nos fins de semana. Não percebi que um deles sempre chegava mais tarde. Sempre de banho tomado, sempre com um sorriso filho da puta na cara e sempre sem me encarar. Levou minha mulher com ele um dia. Disseram para eu seguir em frente porque ela não valia nada. Eu é que sei se ela valia ou não. A cabeça começou a doer. Não posso raciocinar demais que logo vem essa dor. A parte boa é que minha memória é fraca e do jeito que vem, o que vivi vai embora. Foi! Estou com vontade de cantar e é o que vou fazer. Gosto de ser doido de vez em quando porque a vida das pessoas que se acham normais é muito chata. E machuca. Hoje resolvi dormir num lugar diferente. Ainda bem que não arranjei confusão com ninguém. Sou forte e quando é necessário brigo pelo canto onde quero dormir e tiro quem estiver no lugar na base da pancada. Quando estou com meu filho, não gosto de incomodar. Fico quieto, obedeço e procuro não sujar ou quebrar nada. Meu neto fica olhando, mas não chega perto. Prefiro desse jeito porque já tenho recordações demais para atrapalhar. Fugiu mais uma vez. Olho o céu e noto que não vai chover. O dia amanhã vai ser bom e a caminhada longa. Só não me perguntem para onde eu vou. Vou para algum lugar e é disso que gosto. Acho que lá vou rir, não, vou gargalhar. Talvez me deem algumas moedas.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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