Cada um com sua vida
candida 30/01/2014 15:52
Cada um com sua vida Cândida Albernaz Entrei no carro e enquanto dirigia, sorri. Observei meu rosto no espelho retrovisor. Os dentes são perfeitos dentro de uma boca de lábios grossos. Uso o sorriso para atrair. As mulheres gostam. Os homens também. Os olhos são negros, não muito grandes e costumo fixá-los no que chamo de minha presa, com insistência. Sei seduzir e no meu ramo é tudo o que preciso. O cabelo é preto e cheio e sei como passar a mão entre os fios, da testa até próximo a orelha ao mesmo tempo em que giro levemente o pescoço e meu olhar cai dentro do olhar de quem se tornou alvo. Se não desviar logo, sei que está na hora de me apresentar. A noite fora boa. Não costuma ser sempre assim. Neste mês houve noites em que não trabalhei. Em compensação, hoje a senhora que me contratou pediu que ficasse com ela por toda a noite. Isso rendeu um bom dinheiro. Fomos a um restaurante caro e depois rodamos de carro por um longo tempo, pediu que a acompanhasse até a casa. Conversamos muito e ela contou sobre os filhos que via menos do que gostaria, os netos que já estavam se casando e iriam lhe dar bisnetos. Falou de seu casamento arranjado pelos pais com um homem vinte anos mais velho do que ela. Me disse que aprendeu a gostar dele e que jamais conseguiu amá-lo. Perguntei como sabia que não era amor se não conheceu mais ninguém. -Engano seu, respondeu. -Conheci um homem, quando já tinha meu primeiro filho e vivemos um amor que me deu paixão pela vida. Ele se foi há muito tempo. Queria largar a mulher e pediu que eu deixasse meu marido. Não o fiz. Não saberia como fazê-lo, porque tinha um filho e se escolhesse ficar com ele, teria que abandoná-lo. Vimo-nos até o final de sua vida. Fiquei observando-a: era uma senhora com traços delicados e olhos que transmitiam serenidade. Ao sair, encostei meus lábios nos dela. Sorriu e passou a mão no meu rosto. - Vamos nos ver novamente, ela afirmou. Coloco velocidade no carro, abro o vidro e deixo que o vento entre com força. Ontem não foi tão tranquilo, saí com um cara que tinha lá suas manias. Expliquei a ele até onde podia ir, mas no final quis fazer uma surpresinha e chamou um amigo. Não foi fácil me livrar dos dois. Sou forte, mas na hora o que importa é a conversa. A maioria dos meus clientes é homem. São mais velhos e não costumo ter problemas. Uma vez ou outra pego idiotas que não respeitam ninguém. A agência para a qual trabalho é de primeira. Só classe A, como dizem meus colegas de profissão. Houve um rapaz, filho de um empresário conhecido que queria que sua primeira vez fosse comigo. Gostava de homens, mas não sabia como reagiria e queria um profissional. Conversamos muito antes e quando ia embora, pediu para me ver de novo. Não aceitei. Não tenho limite na quantidade de vezes que saio com um cliente, mas criar vínculos não me interessa. Achei qualquer coisa de dependência na voz dele e preferi não repetir a dose. Tenho faro para grudes. Há pouco, estive na cidade em que nasci e revi uma garota que sempre mexeu comigo. Ainda criança dizíamos que no futuro nos casaríamos. Ficamos juntos naquela semana e prometi voltar. Não devia, porque não pretendo cumprir. Na vida que levo não há espaço para amor. Quem sabe um dia, se eu conseguir juntar algum dinheiro abrirei um negócio para mim. Estou tentando. De qualquer forma isso vai demorar. Não sou mais tão jovem, mas aqui na cidade em que resido ainda me rendo uma boa grana. Ela não conhece minha profissão e vive em um mundo bem diferente. Não pretendo voltar tão cedo, muito menos vê-la outra vez. Talvez eu e a senhora com quem estive esta noite, tenhamos muito em comum. Ela não pôde e eu não posso deixar para trás a vida que me escolheu. O único recurso foi e é seguir em frente. Ela ainda teve sorte de viver um amor, mesmo que dividida. Eu não posso me dar o luxo de amar.

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    Sobre o autor

    Candida Albernaz

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    Candida Albernaz escreve contos desde 2005, e com a necessidade de publicá-los nasceu o blog "Em cada canto um conto". Em 2012, iniciou com as "Frases nem tão soltas", que possuem um conceito mais pessoal. "Percebo ser infinita enquanto me tornando uma, duas ou muitas me transformo em cada personagem criado. Escrever me liberta".

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