Desabafo de um policial federal
- Atualizado em 14/06/2019 02:05
Agência Brasil
Compreensível que, no decorrer de uma existência humana, ocorram renúncias em razão de infindáveis motivos, abdicando-se por vezes de certo estilo de vida, abrindo-se mão do conforto e da convivência familiar em função de uma oportunidade de trabalho em outro estado ou até em outro país. Há sempre uma gama enorme de possibilidades pessoais, o que é natural e perfeitamente plausível. Contudo, no Brasil, provavelmente não exista outra atividade que exija tantas renúncias como a de um policial, quer seja Federal, Civil ou Militar. E assim, revelo, sem qualquer glamour, o preço alto que esse singular ofício cobra a muitos daqueles que se dedicam integralmente a essa árdua missão.
O tempo passou, e lá se vão cerca de 18 anos desde que iniciei minha trajetória na polícia, tendo sido policial civil no Rio de Janeiro, como muitos que atualmente se encontram nos quadros da Polícia Federal. Apesar de relativamente breve passagem, aproximadamente dois anos, o período foi de intenso aprendizado, e marcante para sempre, principalmente pelas intempéries que se apresentaram. Breve também foi o curso de formação, estando todos supostamente aptos para assumirem seus postos de trabalho nas delegacias indicadas pela instituição. Dessa maneira, entrei em efetivo exercício numa delegacia no Bairro da Tijuca, a já extinta 3ª DEAC, única desse feitio que possuía setor de investigação, que incluía em sua circunscrição também os bairros de São Cristóvão, Praça da Bandeira, Maracanã, Grajaú, dentre outros.
“Novinho” de casa, fui “adotado” por um policial mais antigo que se tornou de certo modo um mentor. Havia nele uma constante inquietude, uma vontade atroz de combater o crime, uma revolta gigante com a impunidade. Justamente tais características faziam com que nós sistematicamente fôssemos investigar o tráfico nas cercanias num dos famosos morros pertencente à delimitada circunscrição da delegacia. De tanto incomodarmos o livre fluxo do comércio ilegal de drogas, subindo e descendo as ladeiras e becos da região, que num determinado dia, em um dos inúmeros diálogos travados nada amistosos, através de um rádio comunicador na frequência usada pelos marginais, os mesmos foram bastante incisivos: “vamos matar vocês dois, o Índio e Pirulito, e jogar no micro-ondas”.
A ameaça foi compreendida de imediato, Índio era meu colega, visto possuir um cabelo liso e comprido, e eu, seria o Pirulito, devido à altura. No momento não nos abalou, apesar da materialização clara de ódio por quem sequer conhecíamos pessoalmente. Mas a perversidade maior estava no fato do requinte de crueldade: “jogar no micro-ondas”, além de abominável cena, impõe a dor da perda do ente querido e traz implicações nefastas para a família, uma vez que o sumiço dos corpos pode acarretar desamparo financeiro durante certo período, havendo por vezes necessidade de apoio judicial para constatar a morte presumida. A ameaça direcionada não impactou um milímetro de recuo em nosso ímpeto profissional, porém repercutiu de forma única no campo pessoal.
Idas ao Estádio Maracanã para ver um simples jogo de futebol já não valiam a pena, tamanha exposição a um ato covarde que pudesse acontecer; idas a determinados bairros já não podiam ser feitas, afinal policial em algumas regiões é considerado inimigo incondicional. Frequentar bares com amigos tornou-se distração rara. Andar em coletivos, uma situação demasiadamente arriscada. A metrópole vai ficando pequena em possibilidades. O percurso vai encolhendo para os policiais. E assim, vão sucedendo renúncias, incorporadas uma após a outra, numa longa lista de violação ao direito de ir e vir do cidadão policial, que por fim renuncia até o direito de dizer como foi seu dia de trabalho para a família, pois não parece nada saudável contar-lhes sobre essas cotidianas intimidações.
Quanto ao meu colega de trabalho, continuou na PC, nesse “trampo” intenso, sucumbiu, adoeceu, perdeu-se em meio à dependência de remédios, faleceu. Assim como ele, há um enorme número policiais acometidos por doenças físicas e psicológicas, desajustados diante de tantas batalhas diárias, fragilizados pela falta de reconhecimento e pela abnegação sem contrapartida do Estado e da sociedade. E, agora, como explicar que a função policial, diante de tantas mazelas, tem a possibilidade de não ser considerada atividade de risco com a Reforma da Previdência e, assim, desaparecer do parágrafo 4º do art. 40 da Constituição Federal? Essa é uma reflexão para nós, policiais, mas também para a sociedade a quem servimos.
 Helio de Carvalho Freitas Filho
Agente de Polícia Federal
Vice Presidente do SINPEF ES

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    Sobre o autor

    Roberto Uchôa

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    Especialista em Segurança Pública, mestrando em Sociologia Política e policial federal