Elas querem respeito
10/11/2019 | 10h24
Para encerrar uma série de artigos sobre violência contra mulheres, a ideia hoje é mostrar que mesmo existindo previsão legal para um atendimento especializado a essas vítimas, tanto Estado quanto Município tem sido negligentes. Enquanto o Estado deixa a DEAM em situação longe da ideal para atendimento ao público, o Município não tem política pública direcionada a essas vítimas. A situação é tão grave que no final de 2018 tanto Estado quanto Município foram condenados em ação civil pública a implantarem um Centro Especializado de Atendimento à Mulher (CEAM).
Como citado na semana passada, a DEAM (Delegacia Especial de Atendimento à Mulher) em Campos não tem uma estrutura física adequada, nem um corpo de servidores treinados para um atendimento especializado. Segundo a legislação, o primeiro atendimento às mulheres vítimas de violência deve ser feito preferencialmente por policiais especializadas do sexo feminino, o que não ocorre na DEAM em Campos, onde grande parte do atendimento é feito por policiais do sexo masculino e a maioria sem treinamento especializado.
Além disso, não há no município um local com psicólogas, assistentes sociais e advogadas que possibilite um primeiro atendimento adequado às vítimas. Atualmente são atendidas no CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social), que oferece atendimento à toda população do município.
Em razão desse quadro o Ministério Público impetrou a Ação Civil Pública contra o Estado e o Município, mas isso com certeza não será suficiente. Medidas como a inclusão do tema no escopo da educação básica para evitar a perpetuação da violência de gênero, a criação de casas de acolhimento para vítimas e seus dependentes e a realização de campanhas de esclarecimento junto à população, com certeza teriam como resultado a diminuição de casos de violência contra as mulheres.
Mas mesmo sendo mais da metade do eleitorado, parece que a segurança e proteção das mulheres não é prioridade para muitos políticos. Seja por falta de vontade ou prioridades diferentes, o tratamento às mulheres vítimas de violência tem deixado muito a desejar em nossa cidade. Isso só irá mudar quando as eleitoras mostrarem nas urnas o que acontece com quem não as coloca entre suas prioridades. Porque elas não querem apenas ajuda, querem ser respeitadas como cidadãs.
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Delegacias que afastam as vítimas
03/11/2019 | 22h49
Nas últimas semanas nesse espaço foram abordadas questões relacionadas a violência contra mulheres e como a falta de visibilidade e de atuação estatal dificultam o combate ao problema. Hoje o objetivo é mostrar porque muitas mulheres não fazem registros de ocorrência quando são vítimas de violência. Seja por medo de retaliação do agressor ou pelo receio de não receber a atenção adequada, a realidade é que hoje as mulheres não acreditam mais na capacidade das instituições estatais de protegê-las de seus agressores.
Pesquisa realizada pelo Coletivo Nós por Nós com mulheres no município de Campos dos Goytacazes/RJ apresentou números preocupantes. Segundo as pesquisadoras, 82% das entrevistadas afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência de gênero e apenas um terço dessas procurou atendimento na DEAM (Delegacia Especial de Atendimento à Mulher). Isso significa que cerca de 66% das vítimas de violência não procurou ajuda na delegacia. Mas o que faz com que elas não acreditem que a melhor opção é fazer o registro de ocorrência na delegacia? A resposta está na própria pesquisa.
Daquele um terço de vítimas que se dirigiu até a DEAM, impressionantes 98,6% afirmaram não ter recebido atendimento psicológico, social ou jurídico, e 80,6% disseram não ter recebido informações adequadas sobre como proceder em casos de violência. Além disso, segundo as pesquisadoras, entrevistadas relataram casos de imposição de dificuldades para confecção do registro por policiais e comportamentos inadequados durante o atendimento.
Outro problema segundo a pesquisa é a precária estrutura física da DEAM. Segundo 66% das entrevistadas que se dirigiram até a delegacia, as instalações são inadequadas para atendimento ao público, faltando até insumos básicos como papel higiênico e água.
São condições que realmente afastam as vítimas de um local que deveria ser planejado justamente para ser acolhedor a quem já chega fragilizada. É verdade que a Polícia Civil tem passado por enormes dificuldades financeiras e de pessoal. Não há investimento em estrutura e muito menos treinamento adequado para os policiais. Casos de comportamentos inadequados devem ser punidos, mas os responsáveis por toda essa precariedade que fragiliza ainda mais as mulheres vítimas de violência não são os servidores e sim os governantes, de todas as esferas.
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UENF sedia IV Fórum Discente de Sociologia Política
01/11/2019 | 21h36
Nos próximos dias 26, 27 e 28 deste mês de novembro vai ocorrer o IV Fórum Discente de Sociologia Política da UENF, cujo tema é as ciências sociais e seus campos de atuação na sociedade contemporânea: desafios e perspectivas. O evento será no Centro de Ciências do Homem (CCH) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.
Os pesquisadores e estudantes interessados em apresentar seus trabalhos podem se inscrever, com envio de resumos, até o dia 07 de novembro por meio do link: https://forumdiscenteuenf.wixsite.com/index/inscricao.
A proposta de reflexão deste fórum tem como base os desafios das ciências sociais na atualidade, entre eles, os problemas, os caminhos e as possibilidades do exercício sociológico, e, em especial, o campo de atuação dos profissionais da área. "O que vem depois?" da titulação e "o que fazer em tempos de crise?" são algumas das reflexões a serem fomentadas no evento. O evento terá mesas de debate, GTs, minicursos, lançamento e sorteio de livros e conversa com os autores.
Confira toda a programação no site https://forumdiscenteuenf.wixsite.com/index/agenda.
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Punição que pode salvar vidas
27/10/2019 | 01h50
No último sábado o tema foi o alto número de casos de violência contra mulheres em nossa região e como somente casos envolvendo pessoas que moram em áreas mais valorizadas recebem destaque na mídia. Porém hoje o objetivo é mostrar que esse não é um problema restrito à nossa região e ocorre em todo o Estado do Rio de Janeiro. Segundo dados levantados pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, de janeiro a julho de 2019 foram registrados 132.000 processos de violência contra mulher em todo o Estado. Um número alto que dá uma dimensão do desafio das autoridades.
Números divulgados pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, mostram que no ano de 2019 foram registradas mais de 20.000 denúncias de agressões contra mulheres, sendo que 9.000 foram investigadas e encaminhadas para a Justiça, acarretando na prisão de 463 agressores. Um pequeno número de presos frente a uma verdadeira “enxurrada” de denúncias, o que tem o efeito de desestimular as vítimas a registrarem ocorrências, e resulta em altos índices de subnotificação de crimes. Para corroborar essa sensação de insegurança das mulheres, segundo o núcleo da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, que atende cerca de 300 mulheres vítimas de violência diariamente, apenas em 2019 foram deferidas na Justiça mais de 16.000 medidas protetivas em todo o Estado.
São dados que conjugados mostram como o quadro de violência contra as mulheres é grave e precisa de resposta adequada do Estado. Não é somente uma questão de segurança pública, pois muitas vezes o registro de ocorrência só é feito após a ocorrência de vários episódios de violência, mas o pior é perceber que mesmo quando a denúncia é feita, a quantidade de prisões é muito pequena frente ao número de registros. Não se trata de militar apenas por mais punição, mas nos casos que envolvem violência contra as mulheres, a punição dos agressores pode salvar suas vidas.
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Esquecidas por todos
19/10/2019 | 02h21
Essa semana novamente foi notícia em toda a cidade um caso de agressão a mulher. Diferente da última, onde tivemos um lutador agredindo sua namorada, dessa vez o caso envolveu um policial militar e sua companheira. Em comum, além da agressão, o fato de terem ocorrido com pessoas que residem em áreas mais valorizadas da cidade. Mas, se esses crimes tiveram grande cobertura da imprensa, o mesmo não pode ser dito das milhares de ocorrências similares que são notificadas anualmente por toda a região. Essas mulheres ficam no esquecimento por não terem o mesmo “status” de outras ou residirem em regiões de maior apelo comercial.
No ano de 2018 segundo dados obtidos junto ao ISP – Instituto de Segurança Pública, foram registrados 1552 casos de violência contra mulheres na região coberta pelo 8 batalhão da Polícia Militar, sendo que 550 foram casos de lesão corporal dolosa, onde há intenção de agredir, como os noticiados. Números muito próximos aos de 2017, quando 557 foram agredidas em um total de 1490 crimes contra mulheres. E esses são os casos que chegam ao conhecimento das autoridades, pois há estimativas de que cerca de 65,3% das ocorrências sequer são comunicadas segundo pesquisa realizada pelo coletivo “Nós por Nós”.
Ao analisar o perfil das ocorrências no ano de 2018 chama atenção o fato de que 45% ocorreram no período de sexta a domingo e 46% à noite e de madrugada. Também fica claro que não há lugar onde as mulheres estejam seguras, pois 57% das agressões ocorreram em suas residências e 35% delas eram casadas ou viviam com o agressor.
Portanto o problema não se limita à segurança pública. Entender o ambiente em que a vítima vive e oferecer mecanismos de proteção é essencial. Há uma enorme quantidade de vítimas que ficam esquecidas, que não recebem a atenção devida e, muitas vezes, sequer o apoio necessário das instituições dos governos. Abandonadas à própria sorte, lhes resta muitas vezes conviver e suportar suas tragédias pessoais. Não é uma situação que irá melhorar apenas com mais visibilidade, mas, chamar a atenção para o problema e para a sua dimensão é importante para que a sociedade possa cobrar das autoridades medidas concretas para proteger as mulheres. O que não podem é ser esquecidas por todos.
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O maior bem do município
13/10/2019 | 22h20
No dia 10 de outubro foi celebrado o dia nacional da Guarda Municipal e o que deveria ser um dia de celebração, se tornou um dia de muitas reclamações frente as grandes dificuldades que integrantes dessas instituições enfrentam. Alvos de grande preconceito por parte das próprias administrações municipais, muitas vezes são tratados apenas como porteiros ou “seguranças” de instalações da administração pública, que alega ser essa a sua função. Apesar da Constituição Federal realmente prever a atuação dos guardas municipais na proteção do patrimônio dos municípios, desde 2014 seguidas inovações legislativas passaram a prever a atuação das guardas municipais na segurança pública.
Em muitos municípios, principalmente no Estado de São Paulo, essa já é uma realidade e o impacto na segurança pública da população é mostrado em números. Estudo feito por pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas comprovou que em municípios onde as guardas municipais passaram a atuar armadas e ostensivamente na segurança pública houve uma redução expressiva nos índices de violência. A queda no número de homicídios chegou a impressionantes 44%, tendo cidades onde a queda foi ainda maior, chegando a 63%.
Infelizmente não há hoje no Estado do Rio de Janeiro exemplo de guarda atuando armada e ostensivamente na segurança pública. Apesar de ser o Estado com o maior percentual de municípios com guardas municipais, cerca de 85% segundo o IBGE, é um dos poucos Estados onde não há nenhuma guarda atuando dessa forma. E isso é uma decisão puramente política, pois a legislação atual dá pleno suporte a uma atuação mais incisiva das forças municipais na segurança pública.
Apesar de ser um dos Estados mais violentos do país, parece que a segurança da população não é uma das preocupações centrais dos políticos fluminenses. Mantendo os guardas municipais somente na proteção de bens dos municípios, os prefeitos e vereadores parecem ter esquecido que o maior patrimônio dos municípios é a sua população, e que instalações podem ser reformadas, mas vidas não são recuperadas.
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O invasor não é vítima
07/10/2019 | 00h38
No último domingo, dia 29, uma adolescente de 12 anos atirou em um garimpeiro, de 27 anos, que invadiu a propriedade onde ela mora com sua família, na zona rural de Alta Floresta, a 800km de Cuiabá. Segundo relatado por policiais, o homem se aproximou do portão da propriedade e pediu para entrar, o que foi negado pela adolescente que estava sozinha em casa, e mesmo diante da negativa o homem afirmou que era amigo do pai dela e que precisava tomar banho.
Diante disso a adolescente pegou uma espingarda calibre 22 que sua família tinha em casa e disparou duas vezes contra o homem, que já estava dentro do sítio. Baleado no braço e no abdômen o homem conseguiu ir até o hospital mais próximo para ser socorrido e assim que policiais tiveram conhecimento da ocorrência foram até o local, porém a menina já havia fugido.
Infelizmente casos como esse são comuns no cotidiano de várias regiões do nosso país, e mesmo assim, o debate na imprensa se limitou a discutir se a ação da jovem foi legal ou não, e se a arma tinha registro ou era irregular. Ninguém procurou debater sobre as razões que levam uma menina de 12 anos a mexer tão bem com uma espingarda e ter acesso rápido a ela, e a resposta é simples: porque ela precisa.
A realidade das nossas crianças e jovens nos rincões desse país é assustadora e muitas vezes a única forma de defesa frente a possíveis violências é o uso de armas de fogo. Segundo dados levantados pelo jornal Folha de São Paulo, 72% dos registros de violência sexual têm como vítimas menores de idade, 68% dos estupros ocorrem na casa da vítima e 42% dos estupros em menores de idade envolvem vítimas recorrentes.
Portanto, antes de ter um debate sobre a arma em si, deve ser discutido o que faz com que essas jovens tenham na arma de fogo sua única forma de defesa. Enquanto isso não for feito, é preferível que elas continuem a se defender da melhor forma possível ao invés de se tornarem vítimas. Porque o que tem que ficar claro é que o invasor não é vítima.
 
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Epidemia de Suicídios entre os policiais: nossos "heróis anônimos" estão doentes...
04/10/2019 | 01h13
Um assunto delicado como esse (suicídio de policiais) demanda uma abordagem diferente daquela tradicionalmente utilizada para se falar e compreender a origem dos grandes problemas sociais. Por isso, sua atenção e concentração devem também buscar a remota origem do tema que vou lhes apresentar resumidamente, a seguir, com uma pequena base doutrinária, mas de fácil entendimento. Leiam tranquilos. Sei que não estou escrevendo para os juristas, mas para a população angustiada por mudanças efetivas e pela harmonização da sociedade. Sigamos juntos nessa análise e aceitem esse pequeno desafio intelectual.
A dificuldade enfrentada pelos criminalistas pátrios remonta há época do Império do Brasil, em que existia uma imensa dificuldade na formulação do conceito de delito, tendo em vista a exagerada aproximação metodológica com o Código Criminal de 1830, fazendo menção ao jurista italiano Cesare Beccaria a fim de criticar a dificuldade de fixação conceitual para o referido diploma legal que até hoje ainda apresenta severas falhas. Agora imagine isso potencializado ao longo de décadas no controle da criminalidade e na definição da Política de Segurança Pública. É um completo caos que fez emergir a "doutrina negativa" das chamadas "autoridades policiais", alimentando a burocracia e a ineficácia dos procedimentos investigatórios com baixa ou inexpressiva resolutividade dos atos criminosos na persecução penal.
O maior obstáculo desse sistema de ciclo incompleto da ação policial criado no período colonial que permanece até hoje com a mesma estrutura ideológica é a negatividade ética do elemento moral, tendo um duplo condicionamento para o ato delituoso da ação humana que seria a perturbação da ordem social e a violação da lei moral, sendo que essa classificação binária concentra uma enorme contradição: o delito é uma ação antijurídica que infringe preceitos da ética. É constituído por dois elementos básicos: a agressão social e a reação sancionatória.
Calma... calma, muita calma nessa hora, Pessoal. Vou explicar a vocês esse preceito da teoria criminal em palavras populares: isso significa dizer que os nossos representantes políticos seguem na contramão da história mundial relativo as diretrizes para a Segurança Pública e iludem os cidadãos com discursos enganosos dizendo que o problema da criminalidade e da impunidade vão ser resolvidos quando houverem penas mais rígidas e chegam a propor “50 anos de cadeia” para o crime de homicídio ou quaisquer outros delitos graves. Mas essas propostas de “expansionismo penal” e “redução da maioridade penal” que tem forte ressonância social são um claro atestado de desespero e angústia da população, porque não se tem a coragem de identificar qual a verdadeira causa da violência: o falido modelo de investigação criminal, as estruturas arcaicas das corporações policiais e o baixo índice de resolutividade dos crimes, gerando a impunidade.
Infelizmente, ainda estamos longe de resolver o problema dos elevados níveis de violência urbana e rural, da qualificação e valorização dos operadores de segurança pública e da harmonização da sociedade brasileira. As decisões governamentais insistem em repetir a mesma fórmula política fracassada: carros potentes, armas modernas e computadores mirabolantes que são entregues aos representantes dos órgãos policiais em grandiosos eventos de mídia, mas mantendo uma estrutura “medieval”, injusta e ineficiente das corporações que atuam em ciclo incompleto da ação policial, com gestão administrativa deficitária, estrutura de cargos inadequados que competem entre si, submetidos às danosas interferências políticas em visíveis conflitos de competência e vácuos constitucionais que esperam ser sanados com o falacioso discurso da integração entre os órgãos policiais ou da famosa atividade de inteligência da polícia.
São muitos os aventureiros políticos que apresentam fórmulas milagrosas e inócuas para o controle da criminalidade e transformam a Segurança Pública e seus operadores em verdadeiro “laboratório” de experiências desastrosas ou inócuas, jogando pelo “ralo da irresponsabilidade” os valores orçamentários sempre escassos que, em primeira visão parecem medicamentos potentes, mas em realidade são venenos extremamente fatais. Essas medidas desproporcionais e sem fundamento criminológico demonstram o completo desespero de um povo que não consegue escolher adequadamente e confiar em seus representantes parlamentares que demonstram estarem preocupados apenas com seus próprios interesses, embora o discurso geral seja outro.
Nesse contexto dramático, surge a epidemia dos suicídios entre os operadores da Segurança Pública, demonstrando claramente uma realidade que os administradores não querem admitir: a polícia brasileira está doente. Nossos heróis precisam urgentemente de atenção, tratamento e acompanhamento psicológico, sob pena de autodestruição de todas as categorias policiais gerando a desestabilização das instituições democráticas e a falência da república.
É preciso modernizar toda a estrutura da Segurança Pública, valorizar os profissionais de todas as corporações policiais, dar-lhes apoio psicológico, social, médico, odontológico, jurídico (pasmem vocês, eles não tem e nunca tiveram), além de atribuir-lhes salários justos e dignos para o exercício de uma profissão que requer pessoas extremamente vocacionadas e avessas ao “exibicionismo” patético (estatal ou pessoal) que somente lhes expõem a vida à vingança privada dos criminosos.
A dissimulação dessa problemática é tão séria que governantes e administradores públicos utilizam-se de atitudes aparentemente simpáticas como a excessiva entrega de certificados e medalhas por meio de uma exagerada “glamorização” da atividade policial em ato ilusório e mesquinho que não celebra os verdadeiros "policiais de rua", aqueles que estão doentes de tanto trabalharem “sob pressão” e contraem enfermidades mentais que são agravadas pela atividade de polícia e a péssima gestão dos órgãos policiais.
Muitos desses profissionais convivem anos e anos com a doença silenciosa, sem que a administração pública tome medida eficaz de apoio social e tratamento do servidor, acentuando- se ainda mais a problemática com a instauração de processos disciplinares, em muitos casos originados na dependência química ou decorrente dos sintomas ocasionados pela doença mental. Ao invés disso, premiam sempre os mais influentes e bem relacionados com a elite administrativa, proporcionando-lhe cursos escolhidos e boas viagens à serviço, ficando as atividades mais árduas para os demais, aí incluídos todos os policiais doentes ainda não declarados oficialmente e de difícil constatação meramente visual.
Em contraponto a isso, as atitudes individualistas de autopromoção em busca da fama imediata a qualquer preço promovida por diversos indivíduos da categoria, também não estão comprometidas com o pensamento coletivo ou querem entender serem assuntos diversos e preferem esquecer os inúmeros casos de suicídios resultantes de assédio moral ininterrupto e silencioso durante a atividade profissional diária.
Somente a ética policial, sem censura, mas consciente, comprometida com a coletividade, poderá estancar as exageradas postagens irreais em redes sociais que misturam e estampam a imagem da corporação por meio de fotografias sensuais, roupas sociais elegantes associadas a trajes operacionais, armamentos sofisticados e robustos como se fossem “brinquedos” pessoais, aeronaves e viaturas policiais ilustrando a vaidade de suas figuras inexperientes, criando imagens glamorosas e fictícias daquilo que não é o cotidiano de todos os policiais brasileiros.
Isso é uma lástima. Mas tais atitudes inescrupulosas não se encaixam com profissionais verdadeiramente experientes nessa atividade laboral extremamente perigosa que se
estende ao descanso particular e as horas de folga com a família (ou alguém acha que criminoso não monitora a futura vítima pela Web). É necessário e urgente agir em prol da consciência coletiva das categorias de operadores da Segurança Pública, deixando a vaidade excessiva para as outras profissões como cantores, artistas, modelos e jogadores de futebol. Isso não se integra adequadamente à vida policial. É necessária uma atitude diária discreta na vida pessoal e profissional, prezando sempre pela própria saúde física e mental, mantendo uma vida familiar equilibrada que preserve a paz espiritual do profissional de Segurança Pública. Queira ser sempre o “herói anônimo” que a sociedade ansiosamente espera da conduta ética e digna de seus guardiões da paz. Mas se qualquer situação ou momento, por uma fração de segundo, for insustentável ou minimamente perceptível continuar caminhando, procure imediatamente apoio psicológico e considere-se em “missão cumprida”.
Roberto Darós é Advogado Criminalista, Mestre em Direito Processual Penal (UFES), Professor de Pós-Graduação em Ciências Penais e Segurança Pública (UVV), Especialista em Ciência Policial e Investigação Criminal na Escola Superior da Polícia Federal (ESP/ANP/PF).
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Política de confrontos
29/09/2019 | 01h32
Fernando Frazão/Agência Brasil
Fernando Frazão/Agência Brasil
No final de semana passado mais uma criança foi morta por disparo de arma de fogo em uma comunidade carioca. Ela estava dentro de uma Kombi, no Complexo do Alemão, a caminho de casa, quando foi atingida nas costas por um tiro. Segundo policiais militares que estavam no local houve um confronto com traficantes no momento em que a kombi passava, versão contestada por testemunhas que estavam no local. As armas dos policiais foram recolhidas para exame, mas peritos da Polícia Civil afirmaram que não será possível identificar de onde partiu o projétil em razão de sua fragmentação. Foi a quinta criança morta em razão de confrontos em comunidades no Rio de Janeiro.
Desde sua campanha o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel afirmava que teria tolerância zero com narcotraficantes e que daria liberdade para que as polícias enfrentassem os criminosos onde estivessem. Em sintonia com o discurso do presidente Jair Bolsonaro, essa fala teve grande aceitação e apoio, o que acabou por eleger a ambos. Já como governador, Witzel cumpriu sua promessa e deu total apoio às forças policiais.
Segundo dados do ISP (Instituto de Segurança Pública) do estado do Rio de Janeiro, autarquia do governo, de janeiro a agosto deste ano, 1249 pessoas foram mortas por intervenção de agentes de segurança, um aumento de 16,2% frente ao mesmo período de 2018, quando 1075 pessoas foram mortas. São números que chamam a atenção, porém, para contrapor as críticas a essa escalada no número de mortes em ações policiais, o governo afirma que essas ações tem ajudado a reduzir diversos índices de crimes. Nesse mesmo período 2717 pessoas foram vítimas de homicídio, uma queda de 21,5% em comparação ao mesmo período de 2018.
Não há ainda estudos que comprovem essa vinculação entre o número de pessoas mortas em operações policiais e diminuição do número de homicídios, mas está claro que o governador irá manter essa política. Ninguém pode acusa-lo de mentir, pois desde sua campanha ele sempre afirmou que esse seria seu projeto para a segurança pública e a maioria da população escolheu esse caminho. O que não pode ser aceito é a morte de inocentes como “efeito colateral” dessa linha de ação. Autoridades públicas tem o dever de preservar a vida das pessoas e a cada inocente morto, nossa crença em um futuro melhor diminui.
 
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Admirada por muitos, mas doente por dentro
21/09/2019 | 01h35
No último dia 17, terça feira, mais um policial federal cometeu suicídio, aumentando para 33 o número de policiais federais que tiraram a própria vida nos últimos dez anos. Estudioso, primeiro colocado no seu curso de formação, mestre, doutor, excelente profissional, professor universitário e integrante de um dos órgãos mais admirados pela população brasileira. Uma vida que parecia perfeita, mas que na verdade escondia mais um policial doente. O que levou José Ricardo Ventura Correa a se matar na sede regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro?
Não é uma pergunta cuja resposta seja fácil. Há vários fatores que podem ter concorrido para o trágico desfecho, mas sem medo de errar podem ser citados o péssimo ambiente de trabalho e a ausência de acompanhamento psicológico e psiquiátrico dos policiais. Em estudo realizado por psicólogas da Universidade de Brasília em 2012, a pedido do Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal (Sindpol-DF), foram entrevistados centenas de policiais federais da ativa e os números encontrados apresentavam um panorama alarmante.
Segundo relatório apresentado, 50% dos entrevistados apresentaram sintomas de quadro depressivo, 43% relataram desesperança quanto ao futuro, 83% dos agentes se sentiam desvalorizados profissionalmente, 74% sentiam indignação, 46% tinham sentimentos de raiva, 39% de inutilidade, 18% sentiam medo e 21% tinham ideias suicidas. As pesquisadoras concluíram que esses dados eram resultado de um ambiente de trabalho caracterizado pelo assédio moral e terror psicológico, além de “transformar as relações interpessoais no ambiente de trabalho em fontes concretas de destruição da cidadania e dignidade humana”.
Com o objetivo de contribuir para a elaboração de medidas que melhorassem o péssimo quadro apresentado no estudo, os dirigentes do Sindpol-DF apresentaram o relatório para os gestores da Polícia Federal. Porém, segundo os sindicalistas, nada de relevante foi feito desde então, enquanto isso, vidas de policiais são perdidas e famílias destruídas. Uma polícia admirada por muitos, mas doente por dentro. Se não forem adotadas medidas urgentes, o órgão corre o risco de se transformar em um “cemitério de vivos”.
No vídeo abaixo comento o assunto.
 
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Sobre o autor

Roberto Uchôa

[email protected]

Especialista em Segurança Pública, mestrando em Sociologia Política e policial federal