Memórias do Pan: Dobradinha do Brasil nos jogos de Cali 1971
11/05/2015 21:05

Dia 12 de agosto de 1971. Nesta data as Seleções Brasileiras feminina e masculina subiram no degrau mais alto do pódio dos Jogos Pan-Americanos de Cali, na Colômbia. A dobradinha deu ao time masculino o primeiro título na história da competição, enquanto as mulheres conquistavam o bicampeonato depois da vitória nos Jogos de Winnipeg (Canadá/1967). Mas para o esporte brasileiro, o que marcou os Jogos de Cali foi a união de toda delegação. As duas equipes possuíam o ritual de acompanhar e torcer uns pelos outros. Na época, a armadora Elza Arnellas Pacheco foi uma das principais jogadoras da nova geração que iniciava o processo de renovação.

"Os Jogos de Cali marcaram a união das delegações brasileiras, não só do basquete mas de todas as modalidades. No basquete não deixamos de assistir um jogo dos meninos e eles faziam o mesmo pela gente. Éramos muito amigos e estávamos sempre juntos. Na final contra Cuba foi emocionante. Além disso, algumas das veteranas se despediram em Cali e outras começavam a se preparar para deixarem as quadras, como Maria Helena Cardoso, Delcy Marques e Marlene Bento", relembrou Elzinha. "Estávamos sempre juntos dos meninos que nos protegiam de tudo. Na final, fomos torcer para os rapazes e foi muito legal. Depois das vitórias fomos comemorar com uma grande festa", completou a armadora.

Nos Jogos de Cali, os homens também passaram por algumas adversidades, como a perda do importante jogador Luiz Cláudio Menon. Para o pivô Marco Antônio Abdalla Leite, o Marquinhos, a trajetória até o título foi dura, tensa e com resultados muito apertados.

"Caímos em um grupo bastante difícil. Começamos vencendo o Suriname por 135 a 56, mas perdemos o Menon que teve um problema sério nos olhos. Cuba e Estados Unidos eram as grandes potências na época. Os americanos nunca haviam perdido uma partida em Jogos Pan-Americanos, e não fugimos a regra: 81 a 79 para eles na prorrogação. Mas os cubanos venceram os americanos e fomos jogar a classificação. Se ganhássemos de Cuba por cinco pontos estávamos classificados, mas se perdêssemos por cinco ou mais, os Estados Unidos ganhariam a vaga na próxima fase. E foi aí que começou a brincadeira, pois ganhamos por exatamente cinco pontos. As partidas tiveram placares muito apertados ou prorrogação. Não tivemos jogos fáceis nesse campeonato", contou Marquinhos.

Elzinha lembra ainda que a equipe feminina vinha de uma grande conquista que era o bronze no Campeonato Mundial de São Paulo (Brasil/1971). Uma conquista e um reconhecimento da mídia que poderia atrapalhar o desempenho nacional em Cali.

"Depois do Mundial de São Paulo, ficamos famosas no país. Estávamos nos canais de televisão e nos principais jornais. Quando chegamos em Cali para as disputas dos Jogos Pan-Americanos éramos as favoritas. O sucesso subiu nossa cabeça e nos atingiu de uma forma muito negativa. Nos desentendemos com o técnico e tivemos alguns desentendimentos no grupo. Eu digo sempre que a derrota contra o Canadá nos impulsionou para a conquista do título. Com a derrota, a Marlene, que tinha uma cabeça muito boa, fez uma reunião e conversou sério com a gente. Voltamos a jogar com as características que sempre tivemos de forma coletiva e não mais de forma individual. A partir daí a cara do time mudou. Vencemos os próximos jogos e fomos fazer a final contra as cubanas", disse a ex-jogadora.

Marquinhos relatou os minutos finais daquela emocionante partida que daria aos brasileiros o primeiro título pan-americano. O Brasil venceu Cuba por 63 a 62.

"Eu era um moleque, de 19 anos, e tive que lutar pela vitória com todas as minhas forças. As referências do time eram Hélio Rubens e Mosquito (Carlos Domingos Massoni). Cuba estava com uma preparação física muito forte e fomos para a final levando na técnica e na raça. Nos minutos finais o Hélio converteu dois lances livres e ficamos com um ponto de vantagem. Na última bola do jogo, faltando trinta segundos para o fim, o melhor jogador de Cuba subiu e quando ele foi fazer a cesta a bola escorregou da mão dele e caiu na minha. Na hora, fiquei perdido e não sabia o que fazer. A bola parecia de fogo e queimava na mão. O Mosquito gritava e dizia para eu fazer o passe, então ele segurou a bola por vinte e cinco segundos e fomos campeões", pontuou Marquinhos.

Nos Jogos Pan-Americanos de 1971, Cuba teve uma ascensão no cenário continental. Pela primeira vez, terminaram a competição em segundo lugar no quadro de medalhas. As brasileiras derrotaram Cuba na final por uma diferença de quatro pontos, 66 a 62.

"Éramos muito amigas das cubanas. Depois da vitória contra elas, voltamos para o alojamento no mesmo ônibus. Elas vieram dançando e cantando com a gente. Perguntei na época para a capitã o porque disso. Ela prontamente me respondeu que nos admiravam muito e que era um orgulho para elas terem feito a final contra a gente. Foi uma final muito emocionante com o ginásio bastante eufórico. Os colombianos eram muito gentis e torciam abertamente pela nossa seleção", destacou Elzinha.

Em um ano em que Cuba, a única nação do continente americano socialista, passava por momentos políticos conturbados por conta da Revolução, as delegações passaram por momentos difíceis na concentração.

"Cuba passava por um momento político muito difícil depois da revolução. Eu e a Laís Elena [Aranha], que éramos mais curiosas, esperávamos todo mundo deitar e íamos conversar com as cubanas e saber mais sobre o que estava acontecendo no país. Queríamos saber todos os causos. Estávamos juntas, inclusive quando os ciclistas e os lutadores de judô fugiram para o Panamá e um deles acabou morrendo no momento da fuga. Foram momentos de tensão na concentração", lembrou Elzinha.

VI JOGOS PAN-AMERICANOS

Local: Cali - Colômbia
Data: 02 a 12 de agosto de 1971

Delegação Masculina do Brasil
Adilson de Freitas Nascimento (41pts / 8 jogos), Carlos Domingos Massoni "Mosquito" (34pts / 7j), Emil Assad Rached (66pts / 7j), Francisco Sérgio Garcia (45pts / 8j), Hélio Rubens Garcia (121pts / 8j), José Aparecido dos Santos 51pts / 8j), Luiz Cláudio Menon (24pts / 1j), Luiz Martins de Mello (14pts / 3j), Marcos Antonio Abdalla Leite "Marquinhos" (158pts / 8j), Milton Setrini Junior "Carioquinha" (21pts / 5j), Roberto José Correa "Robertão" (16pts / 3j) e Washington Joseph "Dodi" (88pts / 8j). Técnico: Edson Bispo dos Santos.

Campanha do Brasil
Brasil 135 x 56 Suriname
Brasil 79 x 81 Estados Unidos
Brasil 73 x 68 Cuba
Brasil 88 x 77 Argentina
Brasil 73 x 71 Porto Rico
Brasil 92 x 52 Panamá
Brasil 76 x 72 México
Brasil 63 x 62 Cuba

Classificação final
1º- Brasil; 2º- Porto Rico; 3º- Cuba; 4º- México; 5º- Argentina; 6º- Panamá; 7º- Estados Unidos, 8º- Canadá; 9º- Peru; 10º- Colômbia; 11º- Haiti; 12º- Suriname; 13º- Ilhas Virgens.

Delegação Feminina do Brasil
Benedita Anália de Castro (9pts / 2 jogos), Delcy Ellender Marques (74pts / 6j), Elza Arnellas Pacheco (40pts / 6j), Jacy Boemer Guedes de Azevedo (12pts / 4j), Laís Elena Aranha da Silva (28pts / 6j), Maria Helena Campos "Heleninha" (8pts / 5j), Maria Helena Cardoso (40pts / 6j), Marlene José Bento (42pts / 5j), Nadir Lea Bazzani (18pts / 2j), Nilza Monte Garcia (95pts / 6j), Norma Pinto de Oliveira "Norminha" (67pts / 6j) e Odila Fernandes de Camargo (15pts / 5j). Técnico: Waldir Pagan Peres.

Campanha do Brasil
Brasil 98 x 45 Colômbia
Brasil 63 x 69 Canadá
Brasil 65 x 61 México
Brasil 64 x 60 Estados Unidos
Brasil 86 x 52 Equador
Brasil 66 x 62 Cuba

Classificação final
1º- Brasil; 2º- Estados Unidos; 3º- Cuba; 4º- México; 5º- Canadá; 6º- Equador; 7º- Colômbia.

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