
O ex-jogador campista Paulinho Almeida, de 80 anos, morreu na noite desta sexta-feira, por volta das 18h30, na Santa Casa de Misericórdia de Campos, por complicação de uma pneumonia. Ele era apontado como um dos principais ídolos do Flamengo, responsável pelo tricampeonato em 53-54-55, além de ter passado pela Seleção Brasileira e ter jogado fora do país. Paulinho enfrentava há anos uma enfisema pulmonar e estava desde a última quarta-feira na Unidade de Terapia Intensiva do hospital. O corpo está sendo velado em uma capela em frente ao Cemitério do Caju, onde será sepultado neste sábado, às 16h.
Uma das últimas entrevistas concedidas por Paulinho foi à Folha da Manhã em setembro deste ano, quando o ex-jogador recebeu a equipe de reportagem na sua casa em Atafona, preste a completar 80 anos. Na ocasião, a Folha relembrou a carreira de sucesso do ex-atleta que já barrou Mané Garrincha e dividiu o campo com craques como Pelé, Nilton Santos, Didi e Puskas. Isso sem contar em ouvir um Maracanã lotado com 100 mil pessoas gritar seu nome ao fazer o gol do título no Bi-Carioca.
Antes de ser internado, ele residia em sua modesta casa em Atafona há 25 anos e vivia há 11 da aposentadoria de um salário mínimo e tinha algumas dívidas, incluindo o IPTU de sua casa. Na entrevista Paulinho revelou algumas mágoas. “Joguei com os melhores do mundo, de igual para igual. Defendi meu país e dei um título ao Flamengo. E quando minha situação (financeira) ficou apertada, pedi um emprego na Gávea, que não é esmola, mas acho que merecimento, e o (então presidente) George Helal ficou me barrigando um ano e depois disse na imprensa: “Quem é Paulinho?”. Quem eu sou? Eu sou o que eu fiz”, falou em setembro o ex-atleta.
A história de Paulinho vai além do Flamengo. Ele foi vendido ao Palmeiras em 1957 e jogou ao lado de outros monstros sagrados, como o ponta-direita Julinho Botelho, titular da amarela número 7 na Copa de 54, na qual o Brasil seria eliminado por 4 a 2, nas quartas-de-final, pela Hungriade Puskas (que não jogou, contundido). Pelo time do Parque Antártica, jogando na meia-direita (onde já tinha atuado no Fla, com Evaristo de Macedo e Dida se revezando na meia-esquerda), o craque campista se sagrou Super-Campeão Paulista, em 1959, em cima do já imbatível Santos de Pelé, Gilmar, Zito, Mauro e Pepe, todos campeões mundiais pelo Brasil em 58 .
Veja a crônica de Péris Ribeiro, na ocasião do aniversário de 80 anos de Paulinho, em setembro deste ano:
Um passado ainda presente
No tradicional balneário de Atafona, o mais badalado do município fluminense de São João da Barra, as bancas de jornais estampavam naquela manhã, entre as principais manchetes do dia, uma que, particularmente, mexeu com a sensibilidade do antigo ponta-direita e meia-armador do Flamengo, Paulinho Almeida. É que, ali, estava configurado o desaparecimento do velho companheiro Dequinha – famoso pelo seu estilo clássico como centromédio -, morto na véspera devido a uma cirrose hepática, aos 68 anos, em Aracajú, Sergipe. Constava na matéria do Jornal do Brasil que Dequinha morrera no esquecimento, triste e magoado, depois de ter sido o grande ícone e capitão do tricampeonato do Flamengo, no início dos anos 1950. Um título inesquecível por si só, e a primeira façanha histórica de um time no Maracanã – o gigantesco e mágico estádio, que o carioca, orgulhosamente, já chamava de “O Maior do Mundo”. Abalado com o que lera, Paulinho remete ao passado em questão de segundos. E então sente, como que instantaneamente, estar de volta às radiantes tardes de domingo no seu velho Maracanã. O céu límpido e azul, o sol que convida a alegria, as arquibancadas coloridas de vermelho e preto, o ritmo pleno da festa...Já, lá embaixo, o que se vê é mais um previsível show de bola dos garotos comandados pelo Feiticeiro Solich. Desta vez, a vítima é a Portuguesa.Que perde por 6 a 0 ainda na metade do segundo tempo, graças à facilidade de encontrar as redes de um Evaristo, um Índio, um Dida... E dele próprio, Paulinho – àquela altura, o artilheiro absoluto do Campeonato, com 17 gols. Alguma semanas depois, era esse Flamengo avassalador de Don Fleitas Solich e Dequinha que se sagraria tricampeão. E se o infernal Dida se consagraria como o herói dos 4 a 1em cima do América, na decisão,quem levaria definitivamente a palma de artilheiro máximo da temporada seria mesmo ele, o não menos endiabrado Paulinho Almeida, com23 gols.Ainda saboreando a glória do inédito tri, iria Paulinho, logo depois,desfrutar do seleto ambiente da Seleção Brasileira, ao lado do amigo de sempre, Dequinha, e ainda de Evaristo de Macedo e Pavão – formando assim o quarteto rubro-negro convocado para a excursão à Europa. E seria lá, no Velho Mundo, que teria Paulinho a honra de pisar no sagrado gramado de Wembley, ao lado de craques notáveis como o mestre Didi, Gilmar, Canhoteiro, Zózimo, Dequinha e os dois Santos, os eternos Nilton e Djalma.— Pois é, pode parecer frase feita,mas não é. Naquele tempo, sim, é que eu era um homem feliz! Era feliz, e sequer sabia. Não tinha disso, a mínima noção... — disse-me ele, certo dia, numa daquelas mornas tardes deverão lá em Atafona. Quase que a parodiar, sem querer, o genial Ataulfo Alves. Naquela tarde longínqua – tenho certeza -, volvendo aos velhos jornais e às antigas revistas, e se debruçando demoradamente sobre os recortes das glórias no Flamengo, na Seleção Brasileira e no Palmeiras – pelo qual ainda seria supercampeão paulista, em 1959 -, o reencontro do antigo ídolo com o sucesso me parecia, isso sim, um misto de puro êxtase comum a certa aura de maldição.Hoje, na inglória luta por uma aposentadoria que nunca vem, o que verá Paulinho nas noites de insônia senão o beque caído, o goleiro vencido, as redes balançando? No vídeo-tape da memória – sou capaz de garantir -, só há espaço mesmo para a torcida gritando o seu nome; a faixa de tricampeão pelo seu amado Flamengo no peito. A consumir-lhe as madrugadas, apenas o delírio da eterna paixão rubro-negra.


