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Nelson Rodrigues foi, sem nenhuma dúvida razoável, um dos melhores escritores que tivemos. Dominava alguns gêneros jornalísticos e literários, mas era especialmente brilhante em crônica esportiva.
São rodriguianos os conceitos do viralatismo brasileiro e da realeza de Pelé. Ambos cunhados em crônicas esportivas, no final dos anos 1950.
São rodriguianos os conceitos do viralatismo brasileiro e da realeza de Pelé. Ambos cunhados em crônicas esportivas, no final dos anos 1950.
Pode um brasileiro não gostar de futebol — eu mesmo não tenho a influência familiar necessária ou o gosto pessoal para apreciar o ludopédio —, mas não é possível negar a influência desse esporte na formação da identidade nacional.
O vira-latas de Nelson não é xingamento, é diagnóstico. Nelson cunhou o termo em 1958, às vésperas da Copa da Suécia, para nomear "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente" diante do mundo — repare no advérbio: não a inferioridade imposta, mas a assumida. Vinha do trauma de 1950, do Maracanã emudecido.
E aí vem a Copa do Mundo atual — um evento grandioso, que envolve não apenas a parte esportiva, mas também as nações que o disputam. Quando um time entra em campo, veste um uniforme. Ele tem as cores, os símbolos, os jogadores entoam o hino de suas nações, torcedores se emocionam. É o patriotismo não canalha, é a pátria sem ser refúgio. Todos estão ali imbuídos de um objetivo esportivo e também, inevitável, de uma disputa entre nações.
Dois episódios ganharam grande repercussão nesta Copa, e ambos aliaram a qualidade futebolística à camisa nacional que os jogadores envolvidos vestiam. O primeiro foi o veterano goleiro de Cabo Verde, Josimar José Évora Dias, o Vozinha. Quando acabou o histórico jogo, o rosto de Vozinha chorava de emoção. Estreante em Mundiais, Cabo Verde empatou em 0 a 0 com a atual campeã da Europa, a Espanha.
Assim como o Brasil, Cabo Verde foi colonizado pelos portugueses. Em 1951, foi reclassificado como província ultramarina de Portugal, mas os seus habitantes continuaram a campanha pela independência, o que foi conseguido 24 anos depois. Cabo Verde tem sido uma democracia e um dos países mais desenvolvidos da África.
O outro episódio foi protagonizado pelo técnico holandês Dick Advocaat, de 78 anos. Os expressivos olhos azuis de Advocaat encheram-se de lágrimas durante a execução do hino, na estreia de seu time, o Curaçao, diante da poderosa Alemanha. E também quando vibrou no primeiro gol marcado pelo time em Copas do Mundo. Curaçao acabou goleado por sete a um, mas o gol que os caribenhos marcaram representou uma vitória muito mais significativa para os curaçauenses.
Uma ode necessária à Copa
O que a Copa do Mundo ensina é que há algo mágico quando se mistura um esporte como o futebol com histórias. Quando há personagens improváveis, heróis nascidos mesmo da derrota. Quando colonizados estão de igual para igual com os colonizadores, e por vezes os superam.
Na Copa, as diferenças antes irreconciliáveis dão lugar a discussões sobre a escalação, e a teimosia do técnico é reclamada da mesma forma. Não nos enganemos, talvez as concordâncias resistam apenas até o final do torneio, ou a alguma derrota vexatória do Brasil. Mas, por agora, as ruas estão pintadas de verde e amarelo e ninguém ousa dizer que há ali objetivos políticos eleitorais.
O Brasil da Copa não é o mesmo Brasil eleitoral. Por alguns dias retoma-se a ideia de um país que olha para suas diferenças com mais parcimônia, e que não acha necessário eliminar o oponente, e aceitava que em quatro anos poderá tentar novamente.
No fim, a pátria de chuteiras não é a maior, nem a mais rica, nem a mais antiga. É a que entra em campo sabendo que vai perder e ainda assim canta o hino até o fim. Cabo Verde e Curaçao não vencerão a Copa. Mas venceram até aqui o complexo de vira-latas — que, como sabia Nelson, é a única derrota autoimposta que ninguém se livra goleando.