Lula é um homem de ontem, Flávio, de anteontem
11/10/2026 | 09h52
Lula e Flávio Bolsonaro: dias de um futuro esquecido
Lula e Flávio Bolsonaro: dias de um futuro esquecido / Montagem feita pelo autor / Edmundo Siqueira

O segundo turno eleitoral é também uma batalha de rejeições. Não basta convencer o eleitor de que se é a melhor escolha, as campanhas precisam demonstrar que o adversário representa um risco maior. Lula e Flávio Bolsonaro possuem 46% e 43% de rejeição, respectivamente, de acordo com o último Datafolha. O empate técnico, porém, se dá entre duas visões de mundo muito diferentes para o Brasil, e ambas atrasadas.

Não é intelectualmente — ou democraticamente — justo fazer uma simetria entre as propostas e o modo de agir politicamente do lulismo e do bolsonarismo. Lula participa ativamente da vida política do país há décadas, passando por vitórias importantes e por derrotas, mesmo as maiores, sem questionar a legitimidade do sistema eleitoral. Bolsonaro, o Jair, tentou um golpe de Estado quando perdeu, após vencer a sua primeira eleição para presidente. Foi condenado por isso. Portanto, as representações postas nesta eleição são de dois grupos que jogam jogos diferentes perante a democracia.


Porém, Lula não é um homem de hoje. E não se trata de idade. O atual presidente do Brasil é o maior representante ainda na ativa de um modelo de sociedade consolidado a partir da Constituição de 1988, chamado de Nova República. E esse modelo, a despeito de inegáveis avanços sociais, está em profunda crise. O tipo de presidencialismo que se consolidou naquele período rachou. O Congresso assumiu uma parcela crescente do controle sobre o orçamento federal, especialmente por meio das emendas parlamentares, e o Judiciário passou a ocupar um espaço cada vez maior nas decisões políticas, nem sempre respeitando os limites que deveriam separar os Poderes.

O alicerce econômico e social que sustentou o modelo da Nova República também começou a mostrar rachaduras severas. A burocracia brasileira herdou estruturas antigas, muitas delas favoráveis à concentração econômica, à proteção de grandes empresas e à excessiva intervenção estatal. O mercado de trabalho continuou organizado em torno de uma relação regida pela CLT, que garante uma gama de direitos, mas não conseguiu impedir a persistência de baixos salários, jornadas extensas e pouca qualificação profissional. Os investimentos estatais em tecnologia de ponta, embora existentes, ainda não produziram a transformação necessária desse cenário. E setores altamente competitivos da iniciativa privada, como o agronegócio, apesar de sua importância na geração de empregos, não conseguem, sozinhos, absorver uma população que precisa de ocupações cada vez mais qualificadas e bem remuneradas.


A rachadura do modelo não tem apenas causas internas. A profunda transformação nas relações sociais e na economia trazida pelas redes, e agora pela inteligência artificial, acelerou o descontentamento com as promessas que não foram cumpridas pela democracia liberal, no mundo inteiro. A sociedade mudou suas formas de trabalhar, consumir, informar-se e até de compreender a realidade. As instituições políticas, entretanto, não acompanharam essas mudanças na mesma velocidade.

Voltando ao caráter “de ontem” de Lula, percebe-se claramente que boa parte das ações, ideias e falas de seu governo ainda está voltada ao mundo anterior a essa toda essa transformação. A ideia tradicional petista é que a formalização do trabalho, nos modelos da CLT, deve ser o principal caminho de proteção e ascensão social. A garantia de direitos seria o grande ganho para esses trabalhadores, o que é verdade, mas já não corresponde, necessariamente, ao que boa parte deles deseja. A própria discussão sobre o fim da escala 6x1 mostra que o modelo precisa ser revisto. Não basta garantir o emprego formal se a remuneração não permite uma vida digna e se o trabalhador deseja, além dos direitos, autonomia, tempo e oportunidades de crescimento.

Há ainda uma transformação que o petismo parece não ter compreendido inteiramente. O empreendedorismo passou a integrar as aspirações de uma parcela considerável dos brasileiros. Muitos empreendem por necessidade, é verdade, submetidos a uma precarização disfarçada de autonomia. Mas outros desejam ter o próprio negócio, trabalhar por conta própria e não depender de um patrão. E a classe C, principalmente aquela que toca pequenos negócios, carrega uma carga de impostos e obrigações burocráticas que muitas vezes compromete sua capacidade de crescer. É gente que emprega, produz riqueza e não se reconhece necessariamente no discurso político tradicional sobre a classe trabalhadora. O petismo não soube, basta olhar para os números do primeiro turno, propor soluções suficientemente convincentes para esses impasses.


Flávio e o retrocesso


Flávio, porém, é de anteontem. E não se trata, igualmente, de idade. O senador representa uma visão de sociedade que busca recuperar uma ordem supostamente perdida, um passado idealizado no qual a autoridade, a hierarquia e os valores tradicionais seriam capazes de organizar a vida nacional. O bolsonarismo é, em grande medida, um movimento de retrocesso. Não por acaso, o próprio plano de governo de Flávio apresenta a ideia de que o Brasil precisa voltar a ser um país sem os avanços de hoje. A promessa de futuro começa, curiosamente, pelo retorno ao passado.

O simbolismo não é desprezível. O lema “Deus, Pátria e Família”, utilizado pelo bolsonarismo e reproduzido no próprio site de campanha de Flávio, foi também a divisa da Ação Integralista Brasileira, fundada por Plínio Salgado em 1932. Isso não significa afirmar que Flávio seja integralista, nem que a defesa da religião (sem imposição, é claro), da família ou do patriotismo seja incompatível com a democracia. Mas revela a persistência de um repertório político que encontra no passado suas principais referências de organização social.

Existe, nesse ponto, uma contradição interessante. O bolsonarismo compreendeu como poucos movimentos políticos brasileiros a importância das redes sociais, da comunicação direta e da construção de identidades políticas no ambiente digital. Não se pode, portanto, dizer que desconheça as transformações tecnológicas. Mas dominar os instrumentos do presente não significa possuir uma concepção contemporânea de sociedade. É possível utilizar a tecnologia mais avançada para defender ideias muito antigas. E é justamente essa combinação que torna o movimento de massa em um país como o Brasil.

Também não seria correto afirmar que todo o conservadorismo é autoritário. Existem tradições conservadoras profundamente comprometidas com o Estado de Direito, a separação dos Poderes e a preservação das instituições democráticas. O bolsonarismo, na figura de seu principal líder, foi condenado por tentar impedir a alternância de poder. Flávio não pode ser responsabilizado pelos crimes do pai, mas é o herdeiro político declarado de seu movimento e pretende governar em nome desse legado.

A experiência histórica demonstra que o desejo de ordem pode produzir resultados bastante diferentes, conforme essa autoridade esteja submetida à Constituição ou pretenda se colocar acima dela. O Brasil já conheceu governos que justificaram a concentração de poder pela necessidade de combater a desordem, a corrupção e os inimigos da nação. Não foram experiências que deixaram boas lembranças à democracia.


Dias de um futuro esquecido

Lula tenta preservar um modelo que envelheceu. Flávio promete restaurar uma ordem que já deveria ter ficado para trás. E o Brasil continua à espera do futuro.
Lula tenta preservar um modelo que envelheceu. Flávio promete restaurar uma ordem que já deveria ter ficado para trás. E o Brasil continua à espera do futuro. / Charge criada por IA, a partir do envio do texto / Edmundo Siqueira


Lula e Flávio, portanto, representam respostas distintas e não equiparáveis a um mesmo fenômeno: o esgotamento da capacidade de representação política das últimas décadas. Um procura preservar e reformar um modelo que ajudou a construir. O outro promete superá-lo, mas busca no passado parte importante de suas referências.

Nenhum dos dois parece oferecer, de maneira suficientemente convincente, uma resposta à sociedade que se forma sob novas relações de trabalho, novas tecnologias e novas expectativas individuais. Isso ajuda a explicar o descontentamento, embora não seja suficiente, sozinho, para compreender o resultado eleitoral.

Mas há uma diferença fundamental, que não pode desaparecer nessa crítica. Uma democracia pode sobreviver a governos incapazes de compreender inteiramente seu tempo. Pode reformar suas instituições, substituir seus representantes e corrigir suas escolhas. O que ela não pode é abrir mão das próprias regras de funcionamento. Uma eleição não serve apenas para escolher um projeto econômico ou uma determinada visão de sociedade. Serve também para decidir quem exercerá o poder e sob quais limites.

O Brasil chega, assim, ao segundo turno dividido entre dois passados. O de Lula, que ainda procura respostas no pacto político e social construído há quase quatro décadas, e o de Flávio, que se apresenta como renovação enquanto reivindica a restauração de uma ordem anterior. A escolha entre eles não é indiferente, especialmente para a democracia.

Mas qualquer que seja o resultado, permanecerá uma questão que a eleição não parece capaz de resolver: por que, diante de tantas transformações, os brasileiros continuam procurando no passado e no autoritarismo as respostas para o futuro?
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O teatro da cultura campista
01/10/2026 | 19h55
Arte criada por IA após o envio do texto
Arte criada por IA após o envio do texto / Edmundo Siqueira

Há dois problemas fundamentais na cultura campista: o governo e a desunião. O primeiro passa por questões estruturais e de definição de prioridades e, principalmente, por uma profunda falta de visão de sucessivos governos municipais sobre o enorme ativo que a cultura pode ser para uma cidade como Campos. O segundo problema começa a dar sinais de melhora.
Os dois principais teatros públicos campistas estão fechados. Ambos são emblemáticos para entender o tamanho do desperdício e do abandono.
Um deles é o Trianon, que é hoje o maior teatro do Norte e Noroeste Fluminense, possui aproximadamente 900 lugares, é o único teatro do interior do estado com Selo Ouro de Acessibilidade e já recebeu diversas apresentações de renome nacional. O Trianon é público, atualmente administrado pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), e serve não apenas como um instrumento de política cultural, mas também é cedido, por aluguel, à iniciativa privada para realização de eventos.
A evidência de que o Trianon é um ativo valioso, tanto cultural quanto economicamente, nas mãos do poder público local, é contrariada pela forma como vem sendo administrado. O teatro se encontra fechado, “passando por adequações técnicas”, como informou a prefeitura, em nota, depois da Carta Aberta do diretor teatral Fernando Rossi e da manifestação conjunta pela reabertura dos teatros subscrita por Folha da Manhã, J3News, Descubra Campos e Revista Fever. A nota não indica prazo para a reabertura.
O manifesto pode ser o início de um setor mais unido. E essa união é necessária. A cultura campista reúne grupos, linguagens, interesses e visões diferentes, como é natural que seja, mas a fragmentação enfraquece a capacidade de transformar demandas individuais em uma agenda coletiva. Um setor desunido reivindica aos pedaços. Organizado, participa da definição das prioridades e cobra continuidade.
A questão dos teatros pode parecer pontual, mas é apenas mais um capítulo de uma novela que tem a falta de projeto como enredo.
Apenas com a estrutura e a capacidade do Trianon, Campos tem condições de integrar regularmente o calendário estadual e nacional de artes cênicas, atraindo espetáculos que movimentariam a economia local. Hotéis, restaurantes e serviços ganhariam com o movimento, e o município, com o aumento da arrecadação. Ganha a cidade toda, em última análise.
Em julho, a Câmara Técnica de Teatro já havia solicitado um cronograma público para reparo de climatização, manutenção permanente e maior transparência. Dois meses depois, porém, os dois teatros estão com as atividades suspensas. O fechamento do Trianon agora representa a permanência de um problema antigo, já percebido por quem vive do teatro, por quem respira cultura no município e pelo público.
Teatro Trianon
Teatro Trianon / PMCG
E o simbolismo do Trianon vem ainda da história. O nome é herdado de um cineteatro construído no início dos anos 1920 no centro de Campos, com 554 cadeiras, 156 frisas, 290 balcões, 38 camarotes e 610 lugares nas galerias. A casa, com capacidade para cerca de 1.800 espectadores, não raro, lotava. Considerada um dos mais importantes espaços culturais do estado, impressionava pelas dimensões e pela arquitetura luxuosa, até ser demolida em 1975 para dar lugar a uma agência bancária. Aquele Trianon, porém, era privado. O atual possui obrigações de caráter público.
Teatro de Bolso desocupado
O fechamento do segundo teatro público campista é justificado pela prefeitura por um “furto de fiação” que teria “comprometido o funcionamento dos aparelhos de ar-condicionado”. O Teatro de Bolso, no centro de Campos, é fundamental para a cena do teatro amador campista, portanto, indispensável para manter viva a expressão cultural.
Obras no Teatro de Bolso, em 2017.
Obras no Teatro de Bolso, em 2017. / Rodrigo Silveira/Folha1
Esse mesmo teatro foi ocupado em julho de 1983 por artistas ligados à Associação Regional de Teatro Amador (ARTA), durante o terceiro governo de Zezé Barbosa e ainda sob a ditadura militar. Entre os dirigentes da associação estava Anthony Garotinho, então vice-presidente da entidade. O episódio, que ficou conhecido como o ‘pé na porta’ do Teatro de Bolso, seria posteriormente associado ao início de sua trajetória política. Os artistas reivindicavam a reabertura do espaço e maior participação em sua administração.
Depois da ocupação, o governo Zezé Barbosa recuou parcialmente. A classe artística passou a participar da direção do Teatro de Bolso, mas a prefeitura manteve o controle administrativo do espaço. A convivência permaneceu conflituosa, até que a ARTA deixou o teatro em 1985.
Há nisso uma ironia histórica. O Trianon (projeto iniciado em 1991, pelo então prefeito Anthony Garotinho em parceria com artistas locais) e o Teatro de Bolso são fechados na gestão atual, que assumiu após a renúncia de Wladimir, filho de Garotinho. Os dois espaços, Trianon e Teatro de Bolso, se complementam, e podem funcionar de forma complementar em uma política cultural que contemple tanto o teatro amador quanto os espetáculos profissionais.
O Teatro de Bolso, inclusive, havia passado por revitalização em 2022, com reparos estruturais, pintura, novos aparelhos de ar-condicionado e modernização da caixa cênica. Quatro anos depois, está novamente fechado — desta vez, segundo a Prefeitura, porque um furto de fiação comprometeu justamente a climatização.
O fechamento das casas, contudo, representa algo menos simbólico e de ordem prática, no tempo presente. A programação de diversos profissionais da área cultural, bem como eventos privados, foi afetada diretamente. Em um município com poucos equipamentos culturais públicos em pleno funcionamento, a falta de previsibilidade e as deficiências de manutenção dos espaços afetam ainda mais a disponibilidade para o público.
Falta dinheiro, mas falta também planejamento
Equipamentos culturais devem ser, antes de tudo, instrumentos de formação, inclusão, geração de renda e fortalecimento da identidade coletiva. Cidades que compreendem isso investem em manutenção preventiva, estabelecem cronogramas claros de intervenção e constroem políticas culturais de longo prazo.
Por sua importância estratégica e social, a política cultural de Campos — incluindo a preservação de seu patrimônio histórico — precisa ser tratada como política de Estado, não de governo.
O fechamento simultâneo do Trianon e do Teatro de Bolso expõe a ausência de um projeto consistente nessa área. O problema não está apenas nas portas fechadas, mas na incapacidade do poder público de impedir que elas chegassem a esse ponto.
Reabrir os teatros é urgente. Mais urgente ainda é garantir que não voltem a fechar pelos mesmos motivos. O debate sobre a cultura campista não deveria se limitar à recuperação de prédios, mas avançar para a construção de uma política pública capaz de transformar equipamentos culturais em ativos permanentes para a população.
Enquanto isso não acontece, seguimos reféns do teatro da nota oficial: ora a climatização, ora a fiação furtada. Muda o cenário, o enredo é o mesmo.


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Dutra, Lula e a última aposta
26/09/2026 | 20h15


Em 29 de abril de 1946, O Globo publicava na capa o que seria a primeira de uma série de reportagens sobre os cassinos do Rio de Janeiro. Uma das fotografias mostrava uma montanha de dinheiro sobre uma mesa do Cassino Atlântico, resultado de uma única noite de apostas. Segundo uma das versões, aquelas imagens tiraram do sério o presidente Eurico Gaspar Dutra, e pesaram em sua decisão de, no dia seguinte, assinar o Decreto-Lei nº 9.215 que viria a anular as licenças e proibir os jogos de azar em todo o território nacional.

Dutra não se furtou a justificar oficialmente a decisão, o texto do decreto dizia que o jogo contrariava “a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro”. Há ainda uma versão mais prosaica sobre a decisão do presidente, segundo a qual os cassinos foram fechados a pedido da primeira-dama Carmela Dutra, a Dona Santinha. Católica fervorosa, ela teria aderido à cruzada da Igreja contra o ambiente viciado dos cassinos e pressionado o marido.
O Globo


Oitenta anos depois, o Brasil vê novamente uma decisão presidencial fechando uma modalidade de jogo que se espalhou pelo país. Na última sexta-feira (25), o presidente Lula editou uma Medida Provisória proibindo as chamadas “bets”. Porém, o jogo, parte do argumento e, principalmente, a Constituição mudaram. O que antes precisava de salões iluminados da Urca e de Copacabana para funcionar, hoje cabe dentro de um smartphone e espraiou-se por um percentual de brasileiros bem maior.

A justificativa atual, ao menos a oficial, não cita a “moral e bons costumes” de Dutra, que colocou em seu lugar a ludopatia (o transtorno associado à compulsão pelo jogo), o endividamento e a proteção das famílias. E desta vez, o presidente que interrompeu o jogo é também candidato à própria sucessão. Na manhã em que anunciaria a medida, Lula levantou num ato de campanha no Recife um cartaz escrito “fim das bets”. Horas depois, como presidente da República, assinou a MP que colocava a frase do cartaz dentro do ordenamento jurídico do país.

A legislação eleitoral não proíbe que o presidente continue a exercer suas funções enquanto veste o chapéu de candidato. Não é exigido que o incumbente se afaste do cargo, e o governo precisa continuar a acontecer. E há ainda boas razões — sociais e econômicas — para que o Estado restrinja ou mesmo proíba as bets, uma vez que as plataformas de jogos eletrônicos sabidamente viciam e endividam apostadores.

Para além dos julgamentos morais, religiosos, sociais e jurídicos envolvidos, cabem questionamentos em relação ao momento em que a medida foi colocada em prática. A apenas nove dias do primeiro turno das eleições, a medida pode ter o potencial de alterar o resultado? Favorece a candidatura petista? Como deve ser encarada uma política pública de enorme apoio popular, capaz de reorganizar o debate eleitoral, que passa a valer por decisão imediata de um presidente poucos dias antes do eleitor julgar esse presidente nas urnas?

O Estado que abriu e fechou a porta

Em 2018, o governo Michel Temer legalizou a modalidade de aposta esportiva em “quota fixa”, focada em palpites sobre resultados de eventos esportivos no país. Temer também o fez por meio de Medida Provisória (MP 846/2018), mesmo instrumento que Lula usa agora para proibir. A MP foi convertida na Lei nº 13.756/2018, que previa prazos de regulamentação não cumpridos integralmente na época.

O governo subsequente, de Jair Bolsonaro, se omitiu em regulamentar. As bets começaram a movimentar uma quantidade enorme de dinheiro e financiar times de futebol, influenciadores digitais, programas de internet e TV. Regulamentar as bets se mostrava ainda mais problemático para Bolsonaro pois envolvia a questão religiosa, como agora, e a regulamentação poderia ser vista como uma aprovação dele.

Campanha do PT usando o fim das Bets
Campanha do PT usando o fim das Bets / Estadão/Reprodução


Só em 2023, cinco anos depois, as bets começaram a ser regulamentadas. Já no governo do presidente Lula foi sancionada a Lei nº 14.790/2023, estruturando as regras de taxação e funcionamento das apostas esportivas e jogos online no mercado nacional. A medida era, também, uma excelente oportunidade para arrecadar impostos para o governo.

Dinheiro, crime e urna

Os dilemas envolvendo apostas, governo e sociedade não são exclusividades do Brasil. Os cassinos atuam, mundialmente, em uma linha tênue de legalidade, não raro com envolvimento do crime organizado e lavagem de dinheiro. No Brasil, o Senado chegou a instalar uma CPI das Bets, cujos trabalhos reuniram indícios de ligação com o crime organizado, embora o relatório final tenha sido rejeitado em 2025.

Os números são gigantescos. Segundo reportagem do UOL, as bets movimentaram R$ 410,85 bilhões no primeiro semestre deste ano, gerando uma arrecadação de R$ 8,75 bilhões em impostos federais. Porém, segundo a mesma reportagem, saíram R$ 141 bilhões da economia brasileira no ano passado, pelo dinheiro direcionado às apostas.

O dinheiro ajuda a explicar parte da resistência. Clubes, emissoras, influenciadores e empresas incorporaram as bets às próprias receitas — e o Estado, aos seus tributos. E a quantidade jorrada por esse mercado mostra que muitas pessoas, empresas e instituições estão com seus orçamentos reféns desses recursos. Vale dizer, recursos que estavam regulamentados pelo próprio governo que agora interrompe os jogos.

A MP de Lula tem consequências imediatas, e em 60 dias, prorrogáveis por mais 60, o Congresso precisa se debruçar sobre ela para aprová-la ou não. Mesmo o segundo turno, caso aconteça, está marcado para 25 de outubro, portanto ainda na vigência da MP. A acusação de eleitoreira é automática e não poderia deixar de ser.

Proibir as bets produz dois efeitos, já visíveis: domina o noticiário e as conversas entre as pessoas e agrada alguns setores religiosos. São votos valiosos — se assim for convertido — de eleitores que não são necessariamente da base petista ou mesmo de esquerda. Em uma eleição de empate técnico, como apontam as pesquisas, esses votos podem decidir a eleição. Porém, a MP também desagrada setores poderosos e times de futebol que possuem torcidas muito numerosas.

Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na quarta-feira (23/9) mostra que 75% dos brasileiros são a favor da proibição das apostas on-line. Portanto, 3 em cada 4 defendem a proibição. Com esses números em mãos, proibir as bets pode ser menos arriscado que parece eleitoralmente, mas com consequências ainda imprevisíveis.

Transpor o debate público para esse assunto pode ser interessante em um cenário que estava dominado por crise institucional com o STF e o escândalo do INSS, que afetam o governo. Mas também pode tirar o foco de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, na investigação sobre as negociações com Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre seu pai.

O governo lembra que Lula tratou a regulamentação como um teste e prometeu suspendê-la se não funcionasse. “Eu, pessoalmente, acabava com as bets. Acho elas um mal para a sociedade”, disse o presidente, antes. Porém, uma MP com esse impacto a nove dias da eleição não se desvincula dela.

A Dona Santinha de hoje vai à urna?

Talvez nunca se saiba quanto existe de convicção e quanto existe de cálculo na decisão de Lula, assim como oitenta anos depois ainda se discute quais as motivações de Dutra para fechar os cassinos, se foi por Dona Santinha, pelas fotografias de O Globo ou simplesmente porque considerava o jogo incompatível com o país que pretendia governar.
Arquivo


Há, contudo, uma diferença que o calendário não permite esconder. Dutra fechou os cassinos depois da eleição que o levou ao poder. Lula fecha as bets enquanto pede voto ao eleitor. A medida pode ser necessária, popular e até correta. Mas, nada disso elimina a necessidade de perguntar por que uma política construída durante anos, regulamentada pelo próprio governo e capaz de movimentar centenas de bilhões de reais se tornou urgente exatamente agora.

No dia 4 de outubro, o eleitor dará sua resposta antes do Congresso. A medida provisória continuará produzindo efeitos enquanto deputados e senadores ainda discutem se ela deve sobreviver. Oitenta anos atrás, uma fotografia de dinheiro sobre uma mesa ajudou a simbolizar o fim dos cassinos. Hoje, o jogo inteiro cabe na tela de um telefone. Mas talvez a pergunta continue a mesma: quando o Estado decide que a aposta terminou, quem, afinal, está jogando?

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Dias de um futuro adiado
22/09/2026 | 22h38
Edmundo Siqueira


Faltam menos de duas semanas. Doze dias, para ser exato. Uma eleição estranhamente desmobilizada — não se fala exatamente em eleições e sim em instituições e acontecimentos que podem influenciá-las — confunde-se com a que talvez tenha maior importância na Nova República, justamente por representar seu crepúsculo ou sua manutenção.

A falta de estímulo é visível, mesmo na militância. O sentimento mais presente é o de evitar que o “outro lado” vença. Existem dois candidatos esponjas, que absorvem fidelidades, ressentimentos e identidades políticas previamente construídas, e que partem de pisos consolidados, representando projetos e ideologias conhecidos da maioria dos eleitores. Ambos carregam enormes rejeições, e são elas que estarão em jogo no provável segundo turno, daqui a 33 dias.

Não há um problema nisso, em princípio. Democracias podem acabar convergindo em duas visões de mundo, duas formas de governar, que podem ser dois partidos ou duas personalidades políticas. O problema aparece quando a divergência deixa de ser sobre futuros diferentes e passa a ser apenas sobre inimigos diferentes.

A questão brasileira, principalmente em 2026, é que a discussão binária não passa pelas propostas dessas visões de mundo. Há muito de futuro adiado numa eleição em que estão em jogo mais as personalidades dos candidatos do que suas ideias para o progresso da nação. Entram nessa disputa até seus costumes, religião e vida pessoal. O Brasil é um país central no mundo, detentor de importantes reservas naturais e uma de suas maiores economias. Qual papel o país deverá desempenhar neste novo desenho global que tem se construído? Quais setores estratégicos deverão receber investimento estatal? Quais linhas de pesquisa acadêmicas devem ser fomentadas? Como lidaremos com o mercado de trabalho interno com o avanço de inteligências artificiais? São todas perguntas absolutamente sem resposta a 12 dias das eleições.

Flávio Bolsonaro é um candidato por procuração. Representa o pai, condenado na trama golpista e atualmente em prisão domiciliar, e o movimento de massa construído a partir de sua figura. Bolsonaro, pai, foi construindo ao longo do tempo uma alternativa viável para uma direita e extrema-direita órfãs desde a redemocratização, que estavam adormecidas, envergonhadas, sem uma liderança popular. Consolidou-se como porta-voz de um eleitor conservador que viu muitos de seus ideais frontalmente atacados pelo progressismo. Bolsonaro, como todo político habilidoso, aproveitou as janelas de oportunidade que a história fornece, abraçando o forte antipetismo que se fortaleceu após a operação Lava Jato.

Não foi preciso uma construção partidária, os ideais se concentraram na pessoa de Bolsonaro, que ganhou em 2018 pelo PSL, tentou fundar um partido próprio, fracassou e acabou no PL, que ganhou novo protagonismo nacional pela chegada de Bolsonaro, não o contrário. Mas Bolsonaro se mostrou incapaz de aproveitar a sua maior oportunidade, que foi sentar-se na cadeira de presidente. Some-se a desastrosa condução da pandemia à tentativa de golpe de Estado, e ter-se-á o primeiro presidente, desde a instituição da reeleição consecutiva, a disputar e perder um segundo mandato.

Lula é a personificação da Nova República. Os “pais fundadores” deste regime, em sua maioria, já não estão entre nós; Fernando Henrique Cardoso está aposentado e o PSDB, como uma centro-direita histórica, foi engolido pelo bolsonarismo. Restou Lula, que disputa seu quarto mandato. Por essa personificação e pelo número de mandatos, carrega consigo os bônus e os ônus de tudo que o Brasil pós-Constituição de 1988 produziu. E isso traz a ele seu piso, inamovível, e também seu teto. Lula alcançou os maiores índices de popularidade já vistos por um presidente no Brasil, e foi um dos principais nomes na construção de uma das mais duradouras e capilarizadas organizações partidárias brasileiras.

Portanto, Lula é um “velho conhecido” do brasileiro, o que é um importante ativo, pois traz previsibilidade e simpatia de quem se beneficiou em seus governos, mas também traz um cansaço, um desalento do mais do mesmo. Somem-se os inúmeros casos de corrupção em seus governos à profunda crise econômica do governo Dilma e ter-se-á um empate técnico em pesquisas recentes com um candidato que disputa sua primeira eleição presidencial e atua por procuração.

A tragédia talvez esteja justamente aí. As duas opções mais viáveis eleitoralmente estão centradas nas personalidades políticas e não necessariamente na construção do país. E uma eleição tão ocupada pelo passado ocorre quando o futuro parece ter chegado antes do previsto, por uma nova disputa global por energia, tecnologia e recursos naturais. Os minerais críticos, por exemplo, tornaram-se ativos de interesse econômico, tecnológico e geopolítico, quando o Brasil possui reservas relevantes e precisa decidir se continuará apenas extraindo matéria-prima. Não é uma abstração para 2050. Já está acontecendo.

Dia 4, a eleição; dia 5, aniversário ou velório

No entanto, se Lula é a Nova República e o bolsonarismo nasceu como sua negação, esta é, sim, uma eleição de projetos — só que de um projeto já existente, o de 1988, contra a sua recusa. A Constituição completa 38 anos no dia 5 de outubro, o dia seguinte ao primeiro turno. Chega à maturidade sem saber se será celebrada ou velada.

O futuro não esperará a política brasileira terminar suas discussões sobre o passado. Um país não deixa de ter futuro porque não o discute. Apenas corre o risco de chegar a ele atrasado. No caso do Brasil, mais uma vez.
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Carta a Ulysses Guimarães
19/09/2026 | 21h00
Foto: Fernando Santos/FolhaPress
Caro Doutor Ulysses,


Trago-lhe notícias de sua República. Mas receio que não sejam as melhores. Sucessivas crises se instalaram nos últimos anos, e muitas delas começaram pela ação dos “cupins”; o senhor estava certo. A Nova República, consolidada institucionalmente pela Constituição que o senhor promulgou, vem sendo corroída e estamos vendo na prática que uma república “suja pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos”. E que esses demagogos, como o senhor alertou, “a pretexto de salvá-la, a tiranizam”. Estava tudo lá, naquele discurso de 1988 que parece não termos ouvido.
O senhor também não foi apenas testemunha dessa construção, Doutor Ulysses. Fez concessões. Presidiu um partido que começou a se perder no fisiologismo. Aceitou uma transição negociada com homens que até pouco antes sustentavam o regime que o senhor combatia. E a Constituinte que comandou não foi a Assembleia exclusiva que parte da sociedade desejava. Talvez os cupins não tenham chegado depois. Talvez alguns já viajassem na madeira

Eu era muito jovem, não passava de cinco anos de idade quando o senhor ergueu aquele livro de capa verde no Congresso. Porém, lendo hoje seu discurso, quase quatro décadas depois, senti necessidade de lhe escrever. Eu vivo desde sempre nesta Nova República que o senhor fez nascer com a Constituição. Confesso que a democracia não foi uma questão para nós; crescemos com liberdade. Talvez retomar a democracia tenha sido uma das maiores vitórias de sua geração e o esquecimento dela, um dos grandes perigos da minha. Talvez tenhamos crescido achando que ela não precisaria de vigília, de participação e de conversa.

Sim, Doutor Ulysses, deixamos de conversar.

O senhor sumiu no mar, em 1992. No discurso da promulgação citou Rubens Paiva, preso no Rio em 1971, levado ao DOI-CODI e morto sob tortura. Nunca achamos o corpo do senhor depois da queda daquele helicóptero, e também nunca encontramos o de Paiva.

Mas ano passado, veja o senhor, um filme brasileiro, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, venceu o Oscar de melhor filme internacional contando justamente a história do homem que a ditadura matou e tentou fazer desaparecer. Quase quatro décadas depois, uma democracia pôde contar ao mundo aquilo que o Estado autoritário tentou apagar. Nesse caso, Doutor Ulysses, a memória venceu o esquecimento oficial.

E fizemos mais.

No analfabetismo — “a cidadania começa com o alfabeto”, o senhor disse no discurso —, saímos de 17% para 4,9%. Em 1988, aproximadamente um em cada seis brasileiros com 15 anos ou mais não sabia ler nem escrever. Hoje, é aproximadamente um em 20. Para cada mil crianças que nasciam naquele seu Brasil de 1988, aproximadamente 54 não chegavam ao primeiro aniversário; hoje, são cerca de 12. Ganhamos quase 11 anos de expectativa de vida. E saímos de 1,5 milhão de pessoas matriculadas em universidades para 10,2 milhões.

Foi muito, Doutor Ulysses. Mas não bastou. O desenho institucional que o senhor e os demais constituintes traçaram está, quase quatro décadas depois, bastante rabiscado. Os poderes não se entendem.

Não seria honesto dizer que a Nova República não construiu outro Brasil. Os números estão aí, trouxe alguns ao senhor nesta carta. Mas veja, as melhoras não bastaram para corrigir fragilidades estruturais antigas e não foram capazes de deixar o país imune ao maior medo que o senhor externou no discurso. O senhor disse, naquele dia, que tínhamos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Falava no plural, e ninguém no plenário o corrigiu, porque parecia óbvio. Doutor Ulysses, é a pior notícia que lhe trago: aquele plural se desfez. Não é que tenhamos esquecido. É que uma parte de nós passou a ter saudade — e diz isso em voz alta, com microfone e mandato.

Uma de nossas maiores tragédias é que continuamos tremendamente desiguais; cerca de um quarto da população ainda está sob a linha de pobreza, de acordo com a régua do Banco Mundial; a aprendizagem é muito baixa; e a taxa de homicídios chegou a praticamente o dobro daquela de 1988. Caiu bastante nos últimos anos, é verdade, mas ainda não retornou ao patamar do Brasil em que o senhor ergueu a Constituição. Ao mesmo tempo, passamos de cerca de 90 mil pessoas presas no início da Nova República para mais de 727 mil em celas hoje.

Construímos, portanto, uma sociedade que mata muito e encarcera muito — e que, depois de quase quatro décadas, ainda parece não saber muito bem o que fazer com nenhuma das duas coisas. Tornamo-nos uma sociedade violenta, punitivista, que não se entende.

Eu não sei até que ponto esse crepúsculo da Nova República — desculpe, Doutor Ulysses, mas às vezes tenho a impressão de estar lhe escrevendo já sob essa luz — tem relação com nossa incapacidade de organizar os poderes e reduzir uma desigualdade ainda pornográfica, ou se estamos apenas sofrendo, à nossa maneira, as mesmas pressões que hoje atingem democracias pelo mundo. Talvez seja cedo para decretar o fim. Mas já não me parece cedo para reconhecer os sinais de desgaste.

O senhor falou na crista de uma onda e não sabia. Naquele mesmo 5 de outubro, do outro lado da cordilheira, os chilenos derrubaram Pinochet nas urnas. Treze meses depois, o Muro de Berlim cairia. Ao promulgar a Constituição, o senhor era parte da maré democrática mais generosa de que se tem notícia. Mas essa maré recuou, Doutor Ulysses. Hoje há mais autocracias que democracias no planeta, e três de cada quatro seres humanos vivem sob uma delas. Para o cidadão médio do mundo, a democracia voltou ao patamar de 1978 — dez anos antes do seu discurso.

Não fomos nós sozinhos, portanto. Mas parece que a sua Constituição não nos imunizou contra essa doença que veio de fora e encontrou, aqui dentro, hospedeiros propícios e se alastrou. Até os Estados Unidos perderam o status de democracia liberal pela primeira vez em mais de cinquenta anos. Antes modelo do mundo, está governada por um autoritário com ambições de domínio global. Se eu lhe contasse que uma operação militar americana capturou, em seu próprio palácio, em Caracas, o chefe de Estado de um país vizinho — ato que a defesa chama de sequestro e o governo americano chama de aplicação da lei —, o senhor não acreditaria. Aliás, a Venezuela se transformou em uma ditadura por volta de 2009, fechando-se de vez em 2017, mostrando que não é apenas a direita que promoveu autocracias e que elas não precisam de tanques nas ruas. Morrem por dentro.

O senhor fez uma Constituição conversando. Foram mais de 61 mil emendas, 122 delas populares, e o senhor chegou a contar cerca de dez mil pessoas por dia entrando livremente no Congresso atrás de gabinetes, comissões e galerias. Hoje carregamos no bolso uma rede capaz de pôr milhões de brasileiros para conversar ao mesmo tempo. E conseguimos a proeza de nos ouvir menos. Essas redes são alimentadas pelo ódio, diariamente. Ódio que vem de nós, não é fabricado por máquinas, que o senhor não se engane, mas ele é o combustível.

Reli sua lista, Doutor Ulysses. O senhor chamou aquela Carta de Constituição coragem, cidadã, federativa, participativa, fiscalizadora — e de Constituição do governo síntese Executivo-Legislativo. Ao presidente do Supremo, Rafael Mayer, disse que não haveria “Muda Brasil” sem “Muda Justiça”. O Judiciário estava, portanto, no desenho. Mas não estava naquela sua conta de quem governa.

Talvez ninguém pudesse prever onde chegaria, quase quatro décadas depois, o poder entregue ao guardião da Constituição.

O senhor disse que a resposta viria pela boca do tempo. Pois é justamente de lá que lhe escrevo. Estamos em 2026, às vésperas de uma eleição que encontra a Nova República sob uma tensão que talvez o senhor reconhecesse, esta que saudosamente trato aqui como uma criação do senhor, como esse símbolo. E há uma instituição que entrou como poucas vezes antes no centro da disputa eleitoral. Pasme, Doutor Ulysses: é o Supremo Tribunal Federal. O senhor entregou ao Supremo o julgamento penal de boa parte da cúpula da República. Talvez ninguém tenha medido inteiramente o que isso significaria quando a Corte passasse a ocupar o centro da política. A Corte também tomou decisões acusadas de avançar sobre espaços tradicionalmente reservados ao Legislativo, e nos últimos anos ganhando protagonismo real. A população brasileira conhece cada um dos ministros, e os embates travados e transmitidos pela TV Justiça são acompanhados por muitos como Copa do Mundo.

Os modelos de indicação dos ministros do Supremo precisam ser revistos? Precisamos pensar em mandatos? E de alguma forma também limitar suas decisões monocráticas? O poder que o senhor não citou como “governo” hoje é um dos mais determinantes da República, e infelizmente com fortes suspeitas de também estar deteriorado pelos cupins da corrupção.

Logo no início do discurso o senhor disse: “A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria”. Precisamos dessas reformas, Doutor Ulysses, sob pena de um grupo numeroso passar a ter o direito de descumprir e afrontar as determinações constitucionais. Alguns já estão ultrapassando esses limites.

“A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia”. Vale ainda hoje, Ulysses Guimarães. Mas o mundo e o Brasil são outros. Para que a república que a Carta fundou sobreviva, precisaremos de uma persistência reformista.

No fim daquele discurso, o senhor ainda confiava que a sociedade acabaria vencendo o Estado quando este se tornasse inerte ou hostil.
Quero acreditar, Doutor Ulysses, que nisso o senhor estava certo.
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Vai procurar sua turma!
13/09/2026 | 13h00
Reprodução / Caio Rosendo
Na terça-feira, o diretor-geral da Polícia Federal foi afastado do cargo por decisão de um ministro do Supremo. Na manhã de quarta, recuperou-o por decisão de outro. Antes que o dia terminasse, o presidente do STF suspendeu as duas. Andrei Rodrigues encerrou a quarta-feira exatamente onde começou a terça — sentado na cadeira que havia sido puxada e recolocada numa dança política com verniz jurídico.

Quem pediu o afastamento não foi o Ministério Público. Não foi a autoridade policial. Foi um partido político em plena campanha eleitoral. O Novo protocolou a representação em 2 de setembro, nos autos do inquérito do Banco Master, pedindo a avaliação do afastamento cautelar do diretor-geral — e, antes disso, sua prisão preventiva. O ministro André Mendonça decidiu favoravelmente ao primeiro pedido.

Independentemente do mérito — se o afastamento era ou não necessário de um servidor público citado no maior escândalo financeiro do país, Mendonça decidiu a partir desse requerimento de quem não podia requerer. O art. 282, § 2º, do Código de Processo Penal é explícito: as medidas cautelares serão decretadas a requerimento das partes ou, no curso da investigação, por representação da autoridade policial ou requerimento do Ministério Público. Partido político não é nenhum dos três.

E Mendonça não esteve sozinho. Outros dois ministros decidiram, nos mesmos dias, fora das vias que a lei e o regimento lhes impunham.

Alexandre de Moraes era relator, até quarta-feira, do Inquérito 4.781, instaurado em 2019 por ato da Presidência do STF, sem provocação do Ministério Público e com relator designado sem sorteio. A fórmula nasceu cercada de objeções quanto ao sistema acusatório e ao princípio do juiz natural. É preciso registrar: em 2020, o próprio Supremo enfrentou essas objeções na ADPF 572 e declarou, por dez votos a um, a legalidade e a constitucionalidade do inquérito. A controvérsia de agora, porém, é outra. Sete anos depois, foi desse mesmo procedimento excepcional que Moraes retirou documentos para apontar possíveis ilícitos praticados por um colega que o havia citado no caso Master — situação que, no mínimo, recoloca em cena a pergunta sobre os limites entre julgador, interessado e objeto da investigação.

Flávio Dino, por fim, fez cessar os efeitos da liminar de um colega e reconduziu o diretor-geral da PF ao cargo. Ainda que a razão de direito estivesse com ele quanto à legitimidade postulatória, não há via institucional que permita a um ministro revisar a decisão de outro. Isso é matéria de agravo regimental, de Turma, de Plenário. Tentou-se corrigir uma ilegalidade por um caminho cuja legalidade também é, no mínimo, duvidosa.
Convém antecipar a objeção que a semana trouxe de volta ao debate. Em abril de 2020, Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal, também a pedido de um partido, o PDT. A simetria é incômoda, mas não é jurídica. O PDT impetrou mandado de segurança coletivo, instrumento que a Constituição franqueia a partido com representação no Congresso (art. 5º, LXX, "a"), e o alvo era um decreto presidencial, ato administrativo sujeito a controle de finalidade. O Novo apresentou representação em inquérito penal, pedindo cautelar contra servidor. Não é o pedido do partido que distingue os dois casos: é a via.
Mas também aparentava um problema: em 2020 a liminar monocrática produziu todo o seu efeito e nunca passou por colegiado.
Não se pode discutir o mérito de uma decisão sem antes perguntar quem tinha competência para tomá-la, quem tinha legitimidade para pedi-la e quem era o juiz natural da causa. A forma não é obstáculo à justiça; é uma das condições que permitem chamar de jurídico o exercício do poder.
O poder estatal não se legitima apenas pelo lugar a que chega, mas pelo caminho que percorre. Do contrário, bastaria que cada governante, delegado, promotor ou juiz estivesse convencido de ter razão para que os limites legais se tornassem dispensáveis. É exatamente contra isso que existe o devido processo.
Vale uma ressalva. O esgarçamento do tecido legal não começou nesta semana. Alexandre de Moraes exerceu seu poder no limite, e por vezes fora dele, invocando a salvaguarda da democracia — e o mérito invocado não abona o meio empregado. Exigir procedimento de Mendonça e de Dino obriga a exigi-lo também de Moraes, e a corrigir o que dele ficou de pé. Ninguém está acima da lei, qualquer que seja a nobreza do motivo.
Supremacias políticas

O Supremo se transformou nesse ambiente altamente politizado por vários motivos, não apenas porque suas decisões produzem consequências políticas — isso é inevitável numa corte constitucional. Se dá também pelo protagonismo pessoal que alguns magistrados da Corte assumiram. Quando sabemos como cada ministro votará em uma matéria, por qual linha ideológica necessariamente seguirá, a corte passa a ser um ambiente de disputa política revestida de linguagem jurídica.

Coube a Edson Fachin, presidente da Corte, recolher os cacos; mesmo que de forma letárgica diante da gravidade dos sucessivos abusos de procedimento. Na quarta-feira, o presidente suspendeu as duas decisões, invocando o risco concreto de decisões contraditórias e de tumulto processual, e determinou a paralisação de qualquer procedimento voltado a apurar conduta de integrantes do Supremo. No mesmo ato, pela Portaria 189, revogou a designação de Moraes para o Inquérito 4.781, chamando-o para si.

Talvez a grave escalada na “crise suprema” desta semana não seja, portanto, uma crise de mérito. É uma crise de procedimento — e crises de procedimento são crises de autoridade.

Resta saber, na sessão marcada para o dia 15, se a Corte encontrará o caminho de volta ao colegiado, ou se apenas terá aprendido que, quando a turma falha, sempre haverá alguém disposto a decidir em nome dela.















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Qual você quer?
13/09/2026 | 12h41
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto / Edmundo Siqueira


Era uma tarde fria na cidade. Ali pelas quinze horas ela arrastava o carrinho de metal com isopor por cima e rodas de borracha dura pela grande avenida. Tentava se entranhar pela multidão que ocupava todas as pistas, num falatório incessante misturado com o barulho estridente da microfonia vindo do carro de som mais à frente. Perto do meio-fio encontrou um lugar que podia parar. Tirou duas latinhas de alumínio da bolsa, amarradas por um fitilho cinza que servia para pendurar e chamar os fregueses. Não demorou para o primeiro aparecer, camisa por dentro da calça, cabelo engomado — e pediu-lhe água e cerveja.

— A senhora vai ficar aqui até o final do show? — Ela achou estranho o homem chamar o movimento político de “show”, mas não retrucou.
— Vou sim, até ter gente.
— Isso aí! Vamos trabalhar, né? Já vi que a senhora não é de esquerda!
— Preferia estar em casa, moço. Tem um monte de coisa para fazer lá também. Mas sem trabalhar, não dá. Mercado tá caro.
— Culpa do Lula! Tá vendo, a senhora não é de esquerda!
— Vai querer qual cerveja, moço?
— A mais cara, para ajudar a senhora.
— Eu ganho o mesmo nas duas.

O homem não continuou a conversa, pagou as bebidas em dinheiro vivo e seguiu ao centro da multidão. Ela tinha posicionamento político e sabia, mesmo sem grandes teorias, o que significava ser de esquerda ou de direita. Não precisava recorrer à Revolução Francesa. Conhecia a própria vida o bastante para desconfiar de quem tentava explicá-la inteira com duas palavras.

Ela compreendia a importância do Estado. Não se tratava de pensar ideologicamente se ele deve ser maior ou menor. Se tiver um problema de saúde mais sério precisará do sistema único de saúde e seus filhos não estudariam se fosse preciso pagar mensalidade. Para ela, é uma questão de sobrevivência, não de ideologia. Quando havia acidente na rodovia perto de sua casa, via gente de carro caro e gente sem carro nenhum terminar no mesmo hospital. Achava natural. Naquela hora, havia vidas para salvar. As vendas de bebidas na rua eram a alternativa quando havia eventos grandes por perto. Cadastrou-se na prefeitura, e com alguma dificuldade conseguiu a licença para trabalhar. Nos dias de semana fazia faxina e vendia os doces que faz à noite. Já tem os pontos certos de entrega, todos a caminho das empresas e casas que presta o serviço de limpeza. Um de seus contratantes lhe ofereceu um serviço com carteira assinada, ganhando um salário mínimo mais benefícios. Fez as contas. Ganharia menos, ficaria mais tempo fora de casa com seus filhos e teria que pedir favor aos vizinhos para ficar com as crianças até chegar. Alguns direitos lhe seriam garantidos, mas não seria possível aceitar sem que abrisse mão de outras coisas mais importantes naquele momento.

Outro freguês chegou.

— Olá, boa tarde! Duas águas, por favor.
— Boa tarde, está na mão.
— Frio, né? A senhora sem um agasalho mais pesado! Sei que não tem.
— Tenho sim, filha. Mas como vim andando até aqui arrastando o carrinho, era melhor não usar.
— Ah, desculpe. Não quis te ofender, mas achei que seria caro para a senhora esse item.
— Não me ofendeu, menina. Aqui está, duas águas.
— A senhora trabalhando aqui e os donos do dinheiro ali, se divertindo nesse comício de merda. Bando de fascista.
— Eu acho bom. Mais gente para a gente poder trabalhar. Eles concordam com o que eles estão dizendo em cima do carro de som. Os que não são donos do dinheiro concordam.
— Ah minha senhora, todos ali são os donos do dinheiro!
— Não são não, moça. Agora há pouco veio um aqui pedindo desconto em três latas de cerveja. São trabalhadores, também.
— Que pena me deu agora da senhora. Eu sei que é difícil ter consciência de classe. O sistema todo é feito para a senhora pensar assim.
— Você viveu pouco, minha filha. Os donos do dinheiro são poucos, bem poucos. E lá eles não pensam em ideologia, não. E tem total consciência de classe, sabe que a deles não passa de 1% da população. Aqui, não está esse 1%, pode até ter algum representante deles.
— Eu sei, senhora. Alienação. Mas não é culpa da senhora.

A vendedora não respondeu. Entregou o troco, ajeitou o fitilho cinza das latinhas e ficou olhando a moça se afastar na direção do carro de som. Depois virou para o outro lado, onde já vinha chegando mais gente, e levantou as latas. Ficou calada. Não por concordar — é que já conhecia aquele jeito de escutar, o de quem não espera resposta, só confirmação. Deixou passar. Tinha comício até de noite e o carrinho ainda estava cheio.

Um homem se aproximou. Ela abriu a tampa do isopor.

— Tem cerveja?
— Tem. Qual você quer?
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A política e seus inimigos
05/09/2026 | 21h52
Norberto Bobbio (1909-2004): para o filósofo italiano, a democracia se define menos pelo conteúdo das decisões do que pelas regras que dizem quem decide e como
Norberto Bobbio (1909-2004): para o filósofo italiano, a democracia se define menos pelo conteúdo das decisões do que pelas regras que dizem quem decide e como / Reprodução



Cláudio saiu de casa, em Botafogo, numa noite de agosto. Foi espancado até a morte alguns bairros depois, em Copacabana, por ter sido confundido com um ladrão. Ele usava uma bicicleta emprestada da irmã, mas seus agressores entenderam que a suposição dele a ter roubado justificava sentenciá-lo a uma pena que sequer o Estado brasileiro pode impor. Cláudio tinha uma limitação cognitiva, o que dificultou ainda mais sua defesa, que já havia sido completamente suprimida.

Diego, estudante de história em uma universidade conceituada do Rio de Janeiro, resolveu sair de casa com uma camiseta da banda que ouvia. Foi espancado e empurrado para fora do campus por outros estudantes. A camiseta trazia uma iconografia associada ao nazismo e na lapela da jaqueta que usava por cima havia uma suástica, mas cortada com uma linha vermelha em sinal de negação. A suposição de que ele era nazista levou os estudantes a sentenciá-lo ao espancamento, pena que sequer o Estado pode impor.

Alexandre ocupa um cargo alto na República. Adquiriu respeito entre seus pares e em boa parte da sociedade por ter agido com firmeza em um tempo de crise democrática aguda. Antes de ser ministro da Suprema Corte do país, Alexandre havia sido promotor, e aceitou para si, como relator designado e não por sorteio, o inquérito 4.781, chamado de “inquérito das fake news”, no qual ele exerce o papel de acusador e de magistrado. Uma arquitetura excepcional, posteriormente validada pelo próprio Supremo, na qual a função jurisdicional passou a conviver com poderes de impulso investigativo que o desenho acusatório ordinário procura manter separados. Acúmulo que sequer o Estado brasileiro admite em qualquer outro processo.

André, ocupante do mesmo cargo que Alexandre, chegou ao cargo ostentando a pecha de “terrivelmente evangélico”, dada por quem o indicou e por sua ligação explícita com a Igreja Presbiteriana. A cadeira se define por notável saber jurídico e reputação ilibada (art. 101), e à União é vedado manter com igrejas relação de aliança ou dependência (art. 19, I). Procurou-se preencher a vaga por um critério que sequer o Estado brasileiro pode adotar. Em fevereiro deste ano, André assumiu a relatoria de um importante caso envolvendo fraudes financeiras promovidas por um banco. Em setembro, a cerca de um mês das eleições nacionais, André retirou o sigilo de um dos relatórios policiais contendo informações de enorme potencial político. Ao escolher o momento da divulgação, o magistrado não controla apenas o processo; controla também seus efeitos públicos. É o mesmo acúmulo de Alexandre — que respondeu pelo inquérito 4.781, porque o relatório divulgado por André alcançava a ele próprio. Cada um usou contra o outro o poder que nega ao outro.

Cláudio, Diego, Alexandre e André não ocupam posições equivalentes, nem praticaram atos comparáveis em gravidade, mas em cada uma dessas histórias aparece alguém convencido de que uma determinada circunstância — o crime, o nazismo, a ameaça à democracia, a corrupção — é grave o bastante para flexibilizar o limite que deveria conter sua própria ação, o limite da lei.

A política pressupõe a existência do conflito — não é surpreendente que haja agrupamentos ideológicos dentro da mesma sociedade que se posicionem de maneira diversa e diametralmente opostos uns dos outros. Porém, nas democracias constitucionais mais estáveis, a distinção entre inimigo e adversário tende a ser mais nítida. O que distingue não é a inexistência desses conflitos, mas a capacidade de impedir que o adversário seja transformado em inimigo.
Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão plenária do STF
Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão plenária do STF / Crédito: Nelson Jr./SCO/STF


Se pensarmos a sociedade como um grande condomínio de apartamentos, dispostos a formar uma estrutura circular que mantenha em seu miolo uma praça pública, nela poderão os adversários conviver sem que sofram represálias. Mesmo na praça pública poderão expor suas convicções em placas, visíveis a todos os apartamentos, sem que sejam acertadas por tomates vindos das janelas de quem pensa diferente.

Dentro da mesma analogia, uma sociedade que elege inimigos internos no lugar de adversários não permite que a praça seja ocupada por qualquer um dos lados antagônicos, sem que tomates sejam arremessados. Ainda há a praça, ela ainda pode ser ocupada por grupos diversos, mas não sem alguma violência que pode encontrar respaldo “estatal”, seja pela autorização, seja pela inação do condomínio.

No totalitarismo, ou seja, em um sistema no qual o síndico desse enorme condomínio determina qual ideologia é dominante e ordena que se fechem todas as janelas dos apartamentos dissonantes, os inimigos estarão no lado oposto da legalidade. Os tomates não serão jogados, pois não haverá a praça como um ambiente coletivo. Mas poderão ser distribuídos pelo condomínio quando for conveniente.

Cláudio e Diego foram atingidos por tomates atirados das janelas, quando o primeiro perdeu a vida por isso em uma escalada de ódio e o segundo poderia perdê-la. Alexandre e André decidem em inquéritos, estes com respaldo do “Condomínio Supremo”, cada um por sua conta, quais condutas devem ser investigadas, sobre quem e até onde o poder estatal pode avançar para contê-las.

O vizinho que arremessa o tomate sabe, ou deveria saber, que transgride as regras. Mais difícil é perceber o perigo quando quem detém o poder suspende uma regra afirmando agir justamente para protegê-la.

Inimigos internos

Platão, no Livro V de A República, estabeleceu uma distinção entre pólemos e stásis. O primeiro designava a guerra contra o estrangeiro; o segundo, o conflito entre aqueles que pertenciam à mesma comunidade.

Aristóteles levou a discussão adiante. A ideia aristotélica da stásis era de que os inimigos internos de uma sociedade a deixavam em “guerra entre irmãos”. O pensador percebeu que a pólis poderia ser destruída quando seus cidadãos deixassem de compartilhar vínculos políticos suficientes para permanecer numa mesma comunidade e passassem à stásis. Era a destruição de um modelo em que internamente viveriam em guerra, e ao fim, com a mesma consequência do inimigo externo, ou seja, a destruição da ordem comum.

O olhar atual para essa dualidade entre inimigos e adversários — vale dizer em sociedades significativamente mais complexas e superlotadas que as de observação anterior — consegue visualizar que os inimigos reais da política não são aqueles que discordam das regras, ou mesmo os que percebem incoerências nas regras de grupos em sua mesma sociedade. Os inimigos atuais são aqueles que se consideram moralmente autorizados ou superiores o bastante para suspender as regras coletivamente pactuadas.

As regras do jogo

Norberto Bobbio, filósofo político que foi senador vitalício na Itália, falecido em 2004, enxergava uma saída para que os conflitos da política — no interior das sociedades, por consequência — não escalem para que inimigos ocupem o lugar de adversários: a obediência às regras do jogo.

Na visão de Bobbio, é justamente nas regras do jogo que está o que impede a barbárie. Na democracia, enquanto sistema fundado na participação de todos os membros da sociedade, não é o bastante que uma decisão seja considerada justa, nem que sua finalidade pareça moralmente superior. É preciso saber quem está autorizado a decidir, por qual procedimento e dentro de quais limites.

A regra, nesse sentido, não é um obstáculo à política, mas, ao contrário, é o acordo que faz com que ela continue a existir. A política, enquanto regramento fora de totalitarismos, estabelece que maiorias governem sem eliminar minorias, que adversários disputem o poder sem precisar destruir o outro e que até aquele que, convencido de ter razão, permaneça submetido ao mesmo limite imposto aos demais. A convicção não revoga o procedimento.

Carl Schmitt, jurista e teórico político alemão, parte de uma percepção distinta, embora útil para compreender o mesmo problema. Para Schmitt, a política se sustenta na possibilidade de distinguir amigo e inimigo — não necessariamente alguém que se odeia pessoalmente, mas aquele que, em determinado conflito, representa uma ameaça suficientemente intensa ao modo de existência de uma coletividade.

Convém dizer que Schmitt não observava esse mecanismo de fora. Filiou-se ao partido nazista em maio de 1933, tornou-se conselheiro de Estado da Prússia e chegou a redigir a defesa jurídica dos assassinatos da Noite das Facas Longas (expurgo de junho de 1934, quando o regime executou os próprios quadros sem processo), em artigo cujo título anunciava que o Führer protegia o direito. É a teoria do inimigo posta em serviço do regime que a levou às últimas consequências. Isso não a torna falsa como diagnóstico — Schmitt continua sendo um dos autores que melhor explicam como um adversário vira inimigo. Torna-a, antes, uma advertência sobre o que acontece quando o diagnóstico se converte em programa.
 
Carl Schmitt (à direita), em 1941, na França ocupada. O jurista que formulou a distinção entre amigo e inimigo colocou sua técnica a serviço do regime que a levou às últimas consequências
Carl Schmitt (à direita), em 1941, na França ocupada. O jurista que formulou a distinção entre amigo e inimigo colocou sua técnica a serviço do regime que a levou às últimas consequências / Reprodução


É nesse ponto que Bobbio e Schmitt parecem olhar para lados opostos da mesma praça. Schmitt explica como o adversário pode se tornar inimigo; Bobbio procura construir instituições capazes de impedir que essa transformação destrua o espaço comum. Quanto mais uma sociedade passa a organizar sua vida política pela lógica do inimigo, mais sedutora se torna a ideia de que determinadas pessoas, grupos ou circunstâncias excepcionais já não merecem a proteção integral das regras ordinárias. E é justamente aí que a exceção deixa de ser apenas uma resposta ao perigo e começa, ela própria, a ameaçar a política.

A exceção

A exceção costuma chegar vestida de necessidade. Raramente alguém afirma que pretende romper uma regra apenas porque pode; quase sempre há uma justificativa considerada superior a ela. É o criminoso perigoso, o nazista, a ameaça à democracia, a corrupção sistêmica. O problema começa quando a gravidade do objeto passa a servir como licença para ampliar o poder de quem o enfrenta. A defesa transforma-se, em última análise, em arbítrio.

Nesse ponto, já não se discute apenas se a causa é justa, mas se aquele que age em seu nome continua submetido aos mesmos limites que exige dos demais. O verdadeiro inimigo da política não é quem viola as regras declarando-se contra elas. É também — e talvez principalmente — quem se considera tão certo sobre o mérito que passa a enxergar o procedimento como um obstáculo descartável.

A política não termina quando surgem divergências inconciliáveis. Ela termina quando alguém decide que, por estar do lado certo, já não precisa obedecer às regras que também protegem o lado errado. Quando isso acontece, a praça continua existindo — mas deixa de ser pública.
 
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Prefeitura licita projeto executivo de restauração do Solar dos Airizes
04/09/2026 | 17h29
Solar dos Airizes com iníco das obras de escoramento pela Prefeitura de Campos, foto do início de 2026
Solar dos Airizes com iníco das obras de escoramento pela Prefeitura de Campos, foto do início de 2026 / Foto: Edmundo Siqueira
Após décadas de abandono, ações judiciais, intervenções emergenciais e sucessivas denúncias sobre o estado de conservação do imóvel, o Solar dos Airizes recebe nova esperança. O Diário Oficial de Campos dos Goytacazes publicou nesta sexta-feira (4) o aviso de licitação para contratação da empresa que elaborará os projetos executivos necessários à restauração do histórico casarão localizado às margens da BR-356.

A concorrência eletrônica nº 004/2026, promovida pela Secretaria Municipal de Obras, Urbanismo e Mobilidade, prevê a contratação de empresa especializada para desenvolver o projetos técnico que subsidiará a futura restauração do imóvel, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1940. A sessão pública está marcada para o dia 29 de outubro.

A publicação ocorre poucas semanas após o início das obras emergenciais de estabilização da estrutura (leia aqui). Em agosto, depois de cobranças feitas em redes sociais e na Folha da Manhã, a Prefeitura iniciou serviços de limpeza, preparação da área e as primeiras etapas do escoramento das paredes e elementos estruturais do casarão, medida considerada indispensável diante do agravamento do processo de deterioração observado nos últimos meses. Anteriormente uma sobrecobertura foi construída sobre o Solar. 
D.O. de Campos do dia 04/09/2026


Sem um projeto executivo detalhado, qualquer obra definitiva ficaria inviabilizada sob os aspectos legais, patrimoniais e de engenharia. O edital publicado agora tem justamente a finalidade de produzir os estudos, levantamentos e soluções técnicas capazes de orientar a recuperação integral do monumento. 
O Edital fala em julgamento por "técnica e preço", o que se mostra um alento, uma vez que obras de restauro são complexas e no estado de deterioração que se encontra o Solar, qualquer intervenção é ainda mais sensível,  que deverão ser executadas a partir deste projeto. 
O Solar
Construído na primeira metade do século XIX por iniciativa do comendador Cláudio do Couto e Souza, o Solar dos Airizes tornou-se uma das mais expressivas referências da arquitetura rural fluminense. Posteriormente, o imóvel ganhou notoriedade por sua ligação com a família Lamego, especialmente com Alberto Frederico de Morais Lamego, um dos mais importantes intérpretes da formação histórica, econômica e cultural do Norte Fluminense.

Solar dos Airizes em processo avançado de ruína
Solar dos Airizes em processo avançado de ruína / Foto: Edmundo Siqueira
Nos últimos anos, entretanto, o casarão passou a simbolizar também a fragilidade das políticas de preservação patrimonial. Imagens divulgadas recentemente mostraram novos desabamentos e acelerada degradação estrutural, reacendendo o debate sobre a necessidade de intervenções urgentes. Diversas reportagens publicadas registraram o temor de historiadores, pesquisadores e defensores do patrimônio diante do risco real de perda irreversível de parte da edificação.


A situação levou o município a executar medidas emergenciais custeadas com recursos próprios, incluindo a instalação de cobertura de proteção e, mais recentemente, o escoramento estrutural. Paralelamente, segue vigente a decisão judicial que atribuiu à Prefeitura de Campos a responsabilidade pela recuperação do imóvel, resultado de ação civil pública que tramitou em julgado na Justiça Federal.
E o restauro, de fato?
O lançamento da licitação para elaboração dos projetos executivos não significa que as obras de restauração começarão imediatamente. Trata-se, contudo, de uma etapa fundamental e muitas vezes negligenciada em processos de recuperação patrimonial. É nesse momento que serão definidos os métodos construtivos, os materiais compatíveis com a edificação histórica, as técnicas de conservação e as intervenções necessárias para devolver estabilidade e autenticidade ao monumento.

Para Campos dos Goytacazes, a preservação do Solar dos Airizes transcende o valor arquitetônico. O imóvel constitui um testemunho material de ciclos econômicos, transformações sociais e personagens que ajudaram a construir a identidade regional. Sua restauração não representa apenas a recuperação de paredes e telhados, mas a preservação de uma parte essencial da memória fluminense.

A publicação do edital, portanto, é uma notícia que merece atenção. Depois de anos em que o noticiário registrou principalmente ruínas, desabamentos, incertezas e reparos emergenciais, essa parece ser uma oportunidade concreta para que o Solar dos Airizes sobreviva e permaneça de patrimônio vivo da história campista.
O Airizes já esperou mais que isso. Mas a pergunta que o edital não responde permanece: quanto tempo ele ainda resistirá? 
(Tentamos contato com o secretário de Obras e Urbanismo de Campos, Fábio Ribeiro, mas não recebemos retorno até a publicação desta matéria). 
 
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O tribunal da escada - quem decide o limite?
31/08/2026 | 20h34
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Um tribunal foi improvisado na escada de uma universidade pública. Não havia juiz, defesa, produção de provas ou mesmo uma acusação claramente formulada. Havia uma camiseta, uma suspeita, algumas certezas construídas em poucos minutos e um grupo suficientemente numeroso para transformar sua convicção em força física e linchamento.

Na noite de terça-feira, 25 de agosto, o estudante de História Diego Costa da Silva Araújo foi cercado, perseguido e agredido dentro e nas imediações do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o IFCS. Um dos vídeos mostra cerca de dez pessoas desferindo socos e chutes contra ele por aproximadamente 30 segundos. Em seguida, já em outro ponto da escadaria, Diego volta a ser atacado.

O motivo inicial da abordagem era a roupa que ele vestia. A camiseta trazia a caveira utilizada pela banda britânica Death in June, símbolo visualmente associado à totenkopf, usada em diferentes períodos da história militar alemã e, posteriormente, por unidades da SS nazista. Diego também portava um broche com uma suástica atravessada por uma faixa vermelha, de negação.

Os vídeos divulgados não registram integralmente o início da confusão. Estudantes afirmam que Diego teria provocado os presentes, dado uma cotovelada em um dos envolvidos, proferido uma ofensa racista e feito ameaças. Diego nega as acusações. O aluno que diz ter sido atingido prestou depoimento e realizou exame no Instituto Médico-Legal. A Polícia Civil e a própria universidade investigam o episódio.

Esse é o chão factual sobre o qual se pode caminhar por enquanto. Houve uma camiseta de simbologia controversa. Houve uma abordagem. Houve uma agressão coletiva registrada em vídeo. Sobre o que aconteceu antes dos primeiros golpes, existem versões conflitantes.
 
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O problema é que boa parte da discussão pública começou pelo fim. Antes que a polícia investigasse se houve crime relacionado à divulgação do nazismo, parte das redes sociais já havia declarado Diego nazista. Antes que se apurasse quem iniciou a agressão individual, outro grupo já havia classificado todos os envolvidos como criminosos de extrema-esquerda. O caso foi absorvido pelas trincheiras prontas da política brasileira.

A versão de Diego

Em entrevista ao jornalista Pedro Doria (assista aqui), publicada pelo canal Meio no sábado, 29, Diego negou ser nazista e afirmou identificar-se politicamente com a esquerda marxista. Disse que seu interesse pelo fascismo e pela iconografia nazista seria acadêmico e que acompanhava ambientes extremistas apenas como observador, sem participar de grupos organizados.

Sobre a roupa, sustentou que a Death in June pertence a uma tradição do punk e do pós-punk que se apropriava de símbolos autoritários para provocá-los ou ridicularizá-los. Segundo ele, a caveira da camisa não seria idêntica à utilizada pela SS, mas uma versão modificada a partir de um crânio de neandertal. O broche com a suástica cortada, acrescentou, demonstraria justamente sua oposição ao nazismo. Diego também negou ter proferido insultos racistas e classificou as agressões que sofreu como uma tentativa de homicídio. Disse continuar sentindo dores e apresentar sintomas físicos e emocionais decorrentes do episódio.

A entrevista não encerra a apuração nem transforma a versão de Diego em verdade judicial. Mas produz algo que os primeiros minutos de indignação pública haviam dispensado: uma versão do acusado.
 
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E isso importa. Não porque a alegada ironia estética ou dizer que há interesse acadêmico sejam salvo-condutos para qualquer conduta. Importa porque até mesmo a pessoa acusada de defender a mais abjeta das ideologias precisa ter o direito de dizer o que fez, por que fez e qual era a intenção de seus atos.

A lei brasileira é mais específica do que as palavras lançadas nas redes sociais. O artigo 20 da Lei nº 7.716 pune a prática, a indução ou a incitação à discriminação ou ao preconceito. Seu parágrafo primeiro criminaliza a fabricação, comercialização, distribuição ou veiculação de símbolos que utilizem a suástica “para fins de divulgação do nazismo”. Não basta, portanto, identificar visualmente um objeto e saltar automaticamente para a condenação: finalidade, contexto e conduta precisam ser apurados.

É verdade que qualquer pessoa pode efetuar uma prisão quando alguém é encontrado em flagrante delito, conforme o artigo 301 do Código de Processo Penal. Mas essa faculdade não concede a um grupo o poder de definir sumariamente que o flagrante existe, aplicar uma pena corporal e, somente depois, discutir o enquadramento jurídico.

A Universidade

A UFRJ tentou caminhar entre essas duas posições. Condenou manifestações de apologia ao nazismo, ao fascismo, ao racismo e ao antissemitismo, mas também afirmou que agressões físicas não podem ser admitidas como resposta a provocações ou divergências. Instaurou uma sindicância para apurar o ocorrido.

A nota (leia aqui) foi criticada pelos dois lados. Para uns, teria equiparado uma ideologia de extermínio à reação dos estudantes. Para outros, teria relativizado um espancamento ao colocá-lo ao lado de uma apologia que ainda não havia sido comprovada.

Mas condenar simultaneamente duas condutas não significa afirmar que elas sejam historicamente, moralmente ou juridicamente idênticas. Significa apenas que uma democracia não precisa escolher qual ilegalidade aceitar.

Quem decide o limite?

"Suponhamos, hipoteticamente, que restasse comprovado que tivesse havido apologia ao nazismo. Qual seria a sanção legal no Brasil? O linchamento não se configuraria como uma pena a ser aplicada. Ao falar de fascismos, é preciso lembrar que o que caracterizou a ascensão e manutenção no poder dos movimentos capitaneados por Mussolini na Itália e por Hitler na Alemanha, entre os anos 1920 e 1940, foi o uso da violência física como arma política. No caso da UFRJ, a violência física foi a arma política de quem?", é o que indaga Aluysio Abreu Barbosa, jornalista e diretor de redação da Folha da Manhã.

A pergunta final é desconfortável porque retira dos agressores a proteção moral que acreditavam possuir. Uma causa justa não torna justo qualquer método adotado em seu nome, assim como a convicção de representar o bem absoluto costuma permitir todo tipo de atrocidades em nome do “bem”.

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O professor George Coutinho, da UFF de Campos, chama atenção para o contexto cultural da banda. Segundo ele, a utilização de símbolos nazistas por setores do punk e do pós-punk inglês dos anos 1970 e 1980 fazia parte de uma provocação geracional dirigida à sociedade que havia transformado o nazismo em um tabu absoluto.


“Eu acho, particularmente, esse tipo de opção bastante de mau gosto. Mas consigo compreendê-la dentro da perspectiva de um enfrentamento geracional, simbólico e cultural. A banda Death in June, por exemplo, é uma banda do pós-punk inglês. Aí entra o John Lydon, dos Sex Pistols, usando uma camisa com uma suástica. Entra também uma banda totalmente ligada à classe trabalhadora de Manchester, chamada Joy Division”.

A tese dele é geracional. “O nazismo se transformou em um problema — e realmente é — para uma geração que veio depois da Segunda Guerra Mundial. O nazismo se tornou um tabu. E qual foi a resposta da juventude que tinha dezoito ou vinte anos, entre a segunda metade da década de 1970, na Inglaterra, e os primeiros dois ou três anos da década de 1980? Fazer uma chacota com isso.”

Compreender não significa aprovar. Coutinho considera que a simbologia deveria ter sido documentada e comunicada às autoridades:

“O símbolo em si pode e deve ser questionado. A pessoa pode fotografá-lo, documentá-lo e abrir um inquérito policial, porque o nazismo no Brasil é crime. Mas acho que faltou inteligência. Isso transcende a esquerda e a direita e se relaciona com a cultura do linchamento no Brasil.”

Essa talvez seja uma das dimensões menos exploradas do caso. O Brasil não inventou o linchamento no IFCS. Temos longa intimidade com o julgamento instantâneo: alguém é apontado como ladrão, abusador, traficante ou inimigo político; forma-se um círculo; a certeza coletiva dispensa a prova.

No ambiente universitário, porém, o episódio adquire um significado adicional. A universidade deveria ser justamente o lugar onde as certezas são submetidas à dúvida, os símbolos são interpretados dentro de seus contextos e mesmo as ideias mais repugnantes são examinadas antes de serem julgadas.

George comenta sobre o que viu na entrevista ao jornalista Pedro Doria: “eu vi parte da entrevista do rapaz que sofreu a tentativa de linchamento. É uma entrevista extremamente importante. Para mim, é um documento”. E continua: “Embora eu discorde bastante do Pedro Doria em muitas ocasiões — e, em outras, concorde com ele —, essa entrevista tem importância. O entrevistado sabia, mais ou menos, o que estava fazendo. Ele tem domínio desse assunto. É um cara letrado, tanto nas questões relacionadas à extrema direita quanto no pós-punk.”

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Márcia Carneiro, doutora em História e pesquisadora do integralismo brasileiro há trinta anos e ex-aluna do próprio IFCS, ainda durante a ditadura militar, disse que precisaria “estar presente”, mas que tem se “informado sobre o acontecido, neste Instituto que estudei”. E continua: “Por meio de notícias nas redes sociais, soube que o rapaz que se autocaracterizou como nazista (na entrevista com Pedro Doria, Diego nega), teria também cometido o crime de racismo, atacando violentamente um colega negro”.


Márcia Carneiro percorre o caminho mais longo até a mesma questão, e o percorre pela história das ideias — do contratualismo à Revolução Francesa, que segundo ela “fez-se pela e com a irrupção da massa, esta imensa camada social subalterna e subalternizadas nos costumes”, da Revolução Industrial à Rerum Novarum, de Kant a Popper. O ponto de chegada é uma inversão do paradoxo popperiano: “Assim, hoje, no tempo presente, convivemos com outro paradoxo: a liberdade de se usar de personas antiéticas, pois ferem o 'imperativo categórico' 'consensuado' pelo pacto contratualista liberal, o do respeito às leis e ao outro 'cidadão'."

Daí seu diagnóstico do presente: “Atualmente, em alguns casos, a defesa do 'Humanismo' vem sendo confundida com a aceitação da banalidade de um mal normalizado pela liberdade de dramatizar a hostilidade”, e vai além: os simbolismos expostos “não podem ser compreendidos como simples expressão crítica. É, sim, um ato criminoso, judicializado pela Lei 7.716 de 1989”.

Sobre o que deveria ter sido feito, ela é categórica, e aqui converge com quem está no polo oposto do debate: “no âmbito da Democracia, o mais correto teria sido sim, levar aquele que cometeu dois crimes, publicamente testemunhados ao órgão policial competente para lidar com crimes e violências cometidas num espaço federal, como o do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Polícia Federal.”.

Nesse sentido, sobre o que teria sido “mais correto”, converge com Roberto Dutra, professor da Uenf e professor visitante no Centro de Pesquisas sobre Desigualdade e Política Social, na Universität Bremen, Alemanha. Mas Dutra parte do lado oposto da controvérsia:

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“O que constitui uma manifestação de simpatia ao nazismo? Essa é uma questão técnica, que necessariamente precisa ser avaliada em um processo investigativo. Até agora, parece-me que não houve (apologia ao nazismo como tipificado no crime previsto). Mas isso deve permanecer em aberto e ser investigado. A definição dos limites de tolerância da democracia em relação a esse assunto cabe à lei. Não cabe a nenhum grupo da sociedade exercer a prerrogativa de definir o que é ou não nazismo, quem deve fazer essa distinção e o que deve ou não ser tolerado.”


A versão da defesa de um dos envolvidos

Em nota assinada pelos advogados Gabriel Vicente, Érica Barreto e Matheus de Carvalho (leia aqui), todos inscritos na OAB-RJ, a defesa de Deivid Eric, um dos estudantes envolvidos no episódio, afirma que ele foi vítima de agressões físicas e violência racial no campus da UFRJ no dia 25 de agosto. Os advogados dizem lamentar profundamente as tentativas de manipulação e distorção dos fatos, e classificam como extremamente graves as declarações que buscariam deslegitimar o relato de uma vítima de injúria racial ao mesmo tempo em que produzem conclusões acusatórias sobre o episódio.

Para os advogados, é inadmissível que o caso seja tratado publicamente a partir de uma construção narrativa que desloque o foco da violência denunciada. E sustentam que o racismo opera de várias formas, entre as quais a de responsabilizar quem sofreu a agressão: “a culpabilização da vítima não se distancia dessa lógica”.

A defesa informa que seguirá acompanhando o caso e adotando as medidas cabíveis para que os responsáveis sejam responsabilizados na forma da lei.

Universidade, violência e falsa equivalência

Roberto Dutra reclamou sobre “o silêncio de uma parcela expressiva da esquerda e um apoio descarado a esse tipo de método”, e estendeu sua crítica às universidades brasileiras:

“Isso é uma vergonha para a universidade. É uma vergonha para a universidade brasileira, especialmente para as áreas de ciências humanas. Precisamos libertar a universidade brasileira desses criminosos que querem definir o que deve acontecer e como alguém deve se vestir e se comportar dentro de uma universidade”.

Dutra disse que as universidades atravessam um processo de “favelização” e disse não ter sido um “caso isolado” o episódio:

“Esse não é um episódio isolado da UFRJ. Acontece em várias universidades. Acontece muito na UFF e na UnB, e vai se espalhar caso não seja combatido. Como professor, eu tenho vergonha dos meus colegas. Em geral, com raras exceções, eles são cúmplices covardes diante desse fenômeno. O episódio demonstra um processo de degradação que deveria ser compreendido como uma ‘favelização’ das universidades brasileiras. Elas estão sendo dominadas por grupos que impõem internamente leis e regras completamente opostas ao Estado Democrático de Direito, em algo equivalente ao que acontece nas nossas favelas”.

Folha1 - FolhaFM
A professora Natália Soares, doutora em Política Social pela Uenf em Campos, oferece um contraponto. Para ela, a condenação da violência não pode apagar a natureza histórica da simbologia nazista nem produzir uma falsa equivalência entre os fatos:


“A posição da reitoria (da UFRJ) não tem pesos semelhantes. Apesar de considerar que as notas deveriam ser separadas. A posição da reitoria é compatível a institucionalidade que espera o tempo necessário para que haja uma apuração correta. A manifestação nazista e a agressão possuem natureza, significado histórico e enquadramentos jurídicos totalmente distintos. Repudiar ambas significa afirmar, simultaneamente, que o discurso de ódio não se confunde com liberdade acadêmica e que seu enfrentamento deve ocorrer por meios democráticos, institucionais e legais.”

Natália mostrou preocupação com o crescimento das células nazistas no Brasil e considera que o debate sobre o fenômeno ainda não é “claro”:

“Acredito que a discussão pertinente é o avanço dos movimentos nazistas. Nos últimos cinco anos, o número de casos e de células nazistas cresceu 242%. Mas não sei se haveria toda essa repercussão caso o fato não tivesse culminado na agressão. Temos acompanhado inúmeros casos de apologia ao nazismo, sem, contudo, haver um acompanhamento ou uma divulgação clara dos números oficiais de quantos foram efetivamente condenados por essas práticas. Não há um debate claro sobre a importância de combater e suprimir tais movimentos. E, em parte, acredito que algumas instituições são coniventes”.

Como se combate o extremismo

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Michele Prado, que pesquisa radicalização, extremismo violento e terrorismo online, atua no Núcleo de Prevenção ao Extremismo Violento do Ministério Público do Rio Grande do Sul e é pesquisadora associada ao instituto de estudos de paz e segurança da SCI Belfast (Social Change Initiative) e do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema do Ministério Público do Rio Grande do Sul (NUPVE-PROEVE/MPRS), foi ouvida por telefone e insiste no mesmo ponto, por outro motivo.


Quem estuda o fenômeno sabe que ele cresce, que se organiza em rede e que exige resposta. Mas há caminhos institucionais e legais construídos precisamente para isso, e eles funcionam melhor do que a alternativa violenta.

“Mapeamos 125 bandas neonazistas brasileiras. Nenhum nome foi exposto para o público em geral, somente instituições de inteligência, segurança pública e aplicações da lei receberam o mapeamento completo com todos os elementos probatórios. É assim que se combate extremismos. Com a lei”.

Talvez seja essa a distinção que se perdeu na escada do IFCS. Uma democracia não precisa ser tolerante com o nazismo para ser intolerante com o linchamento. Pode investigar grupos extremistas, apreender provas, identificar redes, processar e condenar quem pratica crimes — e justamente por levar o nazismo a sério não entregar essa tarefa à multidão.

Há uma diferença entre combater uma ideologia autoritária e autorizar o arbítrio para combatê-la.

Na universidade, naquela noite, essa diferença durou poucos degraus.
 
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Sobre o autor

Edmundo Siqueira

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